Redenção um Plano Histórico


Se ignorarmos o grande fim a que se dirige o plano da redenção, ou as relações das diferentes partes do plano, ou tivermos uma falsa concepção do fim e daquela relação, todas as nossas idéias serão confusas e errôneas. Seremos incapazes ou de exibi-lo a outros ou de aplicá-lo a nós mesmos[1].

Os cristãos normalmente se referem a um PLANO DA SALVAÇÃO, principalmente quando estão envolvidos na tarefa de anunciar o evangelho. Nestas ocasiões ouve-se com freqüência: “Eu apresentei o plano da salvação para um homem hoje”. Nesta frase reconhecemos a existência de um PLANO para a salvação, mas não compreendemos sua real profundidade. Por isso faz-se necessário conhecer o que as escrituras falam desse plano.

“As Escrituras falam de uma Economia de Redenção[2]”. A palavra Economia, utilizada em referência a Redenção, deriva da palavra grega “oivkonomi,a” que significa administração, mordomia. Ou seja, Deus administra historicamente a Redenção dos homens. Logo, Deus estabeleceu um Plano para a salvação dentro da história do homem e pretende levá-lo a cabo.

Dessa forma, podemos admitir que o Plano da Salvação, estipulado por Deus, compreende: (1) A Seleção de algum objetivo concreto a ser executado; (2) A escolha de meios apropriados; (3) E a aplicação eficaz desses meios para atingir o fim proposto.

Em todas as Obras de Deus nós podemos notar um plano pré-estabelecido, o que não poderia ser diferente na salvação. Ou seja, não se deve presumir que, no que diz respeito ao destino do homem tudo seja deixado ao acaso, permitindo-se que tome seu curso não dirigido para chegar a um fim indeterminado. E sobre isso a Escritura é clara, pois afirma que Deus não somente vê o fim desde o princípio, mas que ele opera todas as coisas segundo o conselho de sua vontade, ou com base nesse propósito (Ef.1.11).

Assim, se o que acima foi dito é verdade é possível encontrar na história marcas desse plano e evidências reais que apontam para a consumação de um plano iniciado e perfeito por Deus. Dessa forma, vamos buscar essas evidências na história.

A.           Na queda, o anúncio

Na cena da queda é a primeira vez que se ouve falar na derrota da serpente, responsável de conduzir os homens à queda, e da Promessa de Deus em prover um Redentor para a humanidade. Esta verdade é estampada pelo seguinte versículo:

 

Então, o SENHOR Deus disse à serpente: Visto que isso fizeste, maldita és entre todos os animais domésticos e o és entre todos os animais selváticos; rastejarás sobre o teu ventre e comerás pó todos os dias da tua vida. Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e o seu descendente. Este te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar. (Gn.3.14-15).

Desses versículos pode-se ressaltar: (1) A maldição de Deus inclui a serpente, o instrumento de Satanás (v.14; cf. Rm.16.20 2Co.11.3, 14; Ap.12.9); (2) A maldição de Deus inclui a inimizade entre os homens e Satanás (v.15a); (3) A maldição de Deus inclui inimizade entre a descendência de Satanás e dO Descendente da Mulher (15b); (4) A maldição de Deus inclui a derrota de Satanás por meio dO Descendente da mulher (15c).

O Descendente anunciado neste texto tem algumas características que merecem atenção, pois apontam para um Redentor esperado: (1) Esse Redentor seria descendente da mulher, ou seja, aponta para a encarnação do Verbo (Jo.1.1-15; Hb.2.14); (2) Esse, sofreria, padeceria, diante do inimigo; (3) Mas o venceria.

Embora a compreensão desses fatos pelos primeiros leitores da Sagrada Escritura não fosse completa, é certo que Deus, na administração de Seu Plano Histórico para a Salvação, está revelando paulatinamente seu interesse em Remir o Homem do pecado, por meio de um Plano pré-estabelecido.

B.            Com Noé, uma Ilustração

A história de Noé serve como uma ilustração da Salvação proposta por Deus. No período de Noé, a humanidade já havia atingido um nível muito alto de iniqüidade, e Deus não podia aceitar que isso continuasse, e por isso faz a seguinte afirmação:

Farei desaparecer da face da terra o homem que criei, o homem o animal, os répteis e as aves do céu, por que me arrependo de os haver feito (Gn.6.7)

Em função da maldade do homem, este não merecia viver e estava passível da punição de Deus, ou seja, de ser sentenciado à morte, como bem demonstra o versículo citado. “Porém Noé achou graça diante do Senhor” (v.8). Aquele que lê desatento o texto pode ficar surpreso com essas colocações de Moisés, pois primeiro Deus se arrepende de criar o homem em função de sua maldade, depois é surpreendido pela existência de um homem, dentre toda a humanidade perversa, que é considerado “justo e íntegro entre seus contemporâneos” (v.9). Na verdade, o texto demonstra a progressão de um Plano estabelecido por Deus, pois no v.3 a sentença já estava lançada, mas para que fosse levado a cabo era necessário o dilúvio. A sobrevivência de alguma parte da humanidade já havia sido determinada pela promessa feita na queda, com respeito ao Descendente. Ou seja, nada o pegou de surpresa, nem mesmo a maldade dos homens, nem a integridade de Noé. Assim, a essa altura é necessário perguntar: “Como Noé podia manter-se íntegro em meio a uma sociedade completamente corrupta?” A resposta a essa pergunta é estampada pelo próprio texto: “Noé andava com Deus” (v.9b). Deve-se considerar que Noé era íntegro porque andava com Deus, e não o contrário. Ou seja, Deus revela-se de maneira especial a Noé, o que não acontece com nenhum outro homem de sua época. Outro detalhe que merece atenção, é que Deus já o havia separado para cumprir seu propósito e por isso a apenas ele revela Seu Plano:

Então, disse Deus a Noé: Resolvi dar cabo de toda carne, porque a terra está cheia da violência dos homens; eis que os farei perecer juntamente com a terra. Faze uma arca de tábuas de cipreste… Contigo, porém, estabelecerei a minha aliança; entrarás na arca, tu e teus filhos, e tua mulher, e as mulheres de teus filhos (Gn.6.13-14a, 18).

Deus poderia ter demonstrado Seu Plano para toda a humanidade? Certo que sim. Mas por que não o faz? Por que não constitui Seu Plano fazê-lo. Deus separa dentre toda a humanidade um homem, e por meio deste executa sua vontade soberana. Por isso nota-se que Deus, na Administração do Plano da Salvação, faz o que lhe apraz.

Contudo, merece atenção a postura de Noé, testemunhada por dois versículos interessantes:

 

Assim fez Noé, consoante a tudo o que Deus lhe ordenara. E tudo fez Noé, segundo o SENHOR lhe ordenara (Gn.6.22, 7.5)

Ambos versículos demonstram a atitude de Noé em relação à obra de Deus. Assim, um princípio para a salvação é aqui estabelecido: A resposta e escolha humana em relação a Obra da Salvação compõem o Plano de Deus, em função de Sua Escolha, Atuação especial, Auto-revelação e Revelação de Seu Plano Soberano aos objetos dessa Obra.

C.           Com Abrão, um Fato

Abrão era diretamente descendente de Noé, que tinha sido escolhido por Deus para perpetuar a humanidade, e por meio dele asseverar sua promessa de Redenção proposta na queda do homem. Contudo, dentre muitos descendentes de Noé, Deus resolveu separar para si a Abrão, homem idoso, casado com Sarai, que era estéril, para, por meio desse casal, constituir uma numerosa nação, que seria instrumento em Suas Mãos para abençoar o mundo. Isso pode ser visto:

 

Ora, disse o SENHOR a Abrão: Sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai e vai para a terra que te mostrarei;de ti farei uma grande nação, e te abençoarei, e te engrandecerei o nome. Sê tu uma bênção! Abençoarei os que te abençoarem e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; em ti serão benditas todas as famílias da terra (Gn.12.1-3).

Neste momento histórico é possível perceber a expansão do conceito exposto na queda, como relação à salvação, pois nesta altura nota-se que Deus está separando para si um povo, dentre os muitos outros povos existentes. Contudo, o início dessa grande nação se dá com um casal já fora de condições de poder perpetuar sua descendência, o que demonstra que não depende do homem, mas de Deus realizar sua Obra. A idéia de internacionalidade das bênçãos de Deus é colocada nessa Aliança feita com Abraão, pois as bênçãos deveriam ser atribuídas a todas as famílias da terra.

Na situação de Abrão, pode-se, da mesma forma que feita com o exemplo de Noé, ressaltar que a resposta e escolha humana em relação a Obra da Salvação compõem o Plano de Deus, em função de Sua Escolha (Gn.12.1-3; 15.7), Atuação especial (Gn.12.1-3, 7; 13.14; 15.7), Auto-revelação (Gn.14.18-20; 15.1, 4-5; 17.1-16, 19-21) e Revelação de Seu Plano Soberano (Gn.12.7; 13.14-17; 15.12-16, 18-21; 22.22.15-18) a Abrão.

D.           Na Páscoa, a sombra

É válido expor o significado da palavra “Páscoa”, antes de entramos na questão do valor histórico que ela pode ter no que tange a progressão do significado da Salvação. Segundo o Dicionário VINE, a palavra em questão significa literalmente “passar sobre” ou  “poupar”. A palavra grega para Páscoa é “pasca”, uma derivação da palavra hebraica “xs;P,” (pBsah).

O termo é pela primeira vez empregado em Ex.12.11 que diz: “Desta maneira o comereis: lombos cingidos, sandálias nos pés e cajado na mão; comê-lo-eis à pressa; é a Páscoa do SENHOR”.  O mesmo termo é utilizado duas vezes em Ex.12.27, e denota exatamente a idéia de passar sobre, ou poupar: “É o sacrifício da Páscoa ao SENHOR, que passou por cima das casas dos filhos de Israel no Egito, quando feriu os egípcios e livrou as nossas casas”.

O contexto em que estão inseridos esses versículos se refere ao Êxodo do povo de Israel que estava cativo no Egito durante 400 anos. E a Páscoa é instituída por Deus como memorial de tudo o aquilo que iria acontecer naquela mesma noite. A celebração desse memorial precedeu a saída do povo do Egito, ou seja, à liberdade da escravidão do povo. Sendo assim, a Páscoa assumiu o sentido de livramento, e “o êxodo foi a concretização disso[3]”.

A Páscoa foi instituída para a nação de Israel como um todo, embora fosse realizada em um ambiente familiar. “As famílias israelitas tinham ordens de sacrificar um cordeiro sem defeito[4]” , que deveria estar “na plenitude de sua vida[5]”, e este sacrifício era em substituição ao filho primogênito da casa. Conseqüentemente, à luz desse sacrifício, “o evento veio a ser integralmente associado à idéia de expiação[6]”, como um memorial da libertação da servidão do Egito.

Outro aspecto que influencia a perspectiva de expiação e libertação como fatos unificadores deste evento é o fato de que o sangue deste cordeiro deveria ser colocado nos umbrais das portas das casas dos israelitas. Além de um sinal de identificação de quem era de fato um israelita é um símbolo que expressa a idéia de libertação por meio do sangue de um cordeiro sem mácula.

O objetivo dessa instituição da parte de Deus é que “seu povo se lembrasse da noite do seu livramento[7]” como uma comemoração que se estenderia aos limites do tempo, como podemos perceber em suas instruções no versículo 14. (cf.26-27). Em suma, a Páscoa pode ser definida como a festividade essencialmente israelita em memória da libertação e expiação proporcionada por Deus em tempo da escravidão no Egito.

Contudo, existe grande valor histórico a ser ressaltado aqui, pois existe um acréscimo no conteúdo do significado da salvação, pois diante de tudo o que havia sido revelado, sobre esse assunto, a idéia de sangue estava presente, a idéia de substituição havia sido apresentada, mas na Páscoa a idéia de expiação é clara, bem como da substituição. Outro detalhe, é que a conseqüência dessa Páscoa é a liberdade, o que sugere que, na progressão do significado da salvação, a expiação por meio do sangue do Cordeiro sem Mácula e a substituição pelo Cordeiro precedem a liberdade, e não o inverso.

Como a Páscoa é um evento e não uma pessoa, a identificação das quatro linhas de atuação na salvação (Escolha, Atuação especial, Auto-revelação e Revelação de Seu Plano Soberano) não é tão clara, embora possa ser percebida, mas no parâmetro geral podemos destacar que Deus faz:

(1) A Seleção de algum objetivo concreto a ser executado, que neste caso pode ser identificado a Liberdade, como objetivo imediato; e a expansão do significado da salvação como objetivo maior.

(2) A escolha de meios apropriados, que neste caso inclui a morte do Cordeiro sem Mácula, sua substituição e expiação.

(3) E a aplicação eficaz desses meios para atingir o fim proposto, que neste caso é o Êxodo e a progressão da História da Salvação.

Assim, diante das estipulações dadas por Deus e pela obediência de seus servos podemos contemplar o resultado imediato dessa demonstração de apreço e cuidado da parte de Deus: Israel, como povo.

E.            Israel, o Resultado Imediato

Tão-somente o SENHOR se afeiçoou a teus pais para os amar; a vós outros, descendentes deles, escolheu de todos os povos, como hoje se vê. (Dt.10.15)

Israel, como nação, é separada por Deus desde Abrão, como quem constituiu uma aliança. A este, Deus revelou que este povo a quem escolhera passaria por escravidão  mas seria liberto por Ele (Gn.15.12-16). Durante o decorrer da história pode-se notar com clareza que Deus Revela-se aos homens a quem escolhera, para por meio dele realizar seu Plano. Isso pode ser visto com Isaque (Gn.24.27; 25.21), Jacó (Gn.25.23; 27.28-29; 28.2-4, 13-15) , José (Gn.37.5-10, 21-28; 39.1-6, 20-23; 41.39-44; 45.1-8, 17-20; 50.20), Moisés (Ex.2.1-4.31), e de alguma forma com a Nação de Israel, mas por meio de seus líderes (Dt.10.15; cf. Ex.19.4-6).

O que se pode notar na História é que Deus resolve atuar por meio de uma Nação, entre outras nações, a fim de tornar Seu Nome conhecido diante do mundo. E sobre isso podemos levantar dois exemplos:

a.      Raabe: Raabe era uma prostituta em Jericó, nação Inimiga a qual o Senhor entregara nas mãos de Josué. Este, enviara a esta Cidade dois espias para que andassem na cidade e observassem a cidade, e Raabe pela fé (Hb.11.31) acolheu-os em sua casa escondendo-os dos Oficiais da cidade, pois sabia ela que o Senhor, que é poderoso, lhes tinha entregado aquela terra, como se percebe em Js.2.9-11:

 

Bem sei que o SENHOR vos deu esta terra, e que o pavor que infundis caiu sobre nós, e que todos os moradores da terra estão desmaiados. Porque temos ouvido que o SENHOR secou as águas do mar Vermelho diante de vós, quando saíeis do Egito; e também o que fizestes aos dois reis dos amorreus, Seom e Ogue, que estavam além do Jordão, os quais destruístes. Ouvindo isto, desmaiou-nos o coração, e em ninguém mais há ânimo algum, por causa da vossa presença; porque o SENHOR, vosso Deus, é Deus em cima nos céus e embaixo na terra

 

b.      Rute: Rute é uma moabita e  toma uma decisão de fé, em considerar o povo de Noemi como seu povo e o mesmo com o Deus de Noemi. Com está escrito: “Não me instes a que te abandone e deixe de seguir-te. Por que aonde quer que tu fores, irei eu; e onde quer que pousares, ali pousarei; o teu povo será o meu povo, e o teu Deus será o meu Deus” (Rt 1.16). A declaração de Rute não é apenas de fidelidade da Noemi, mas é um reconhecimento do verdadeiro Deus.

Em ambos casos, houve um reconhecimento do verdadeiro Deus. Raabe afirma que Deus é Deus em cima dos céus em embaixo da terra. Rute afirma que o Deus de Noemi é o seu Deus, pois reconhece que Ele é o verdadeiro Deus. E assim podemos notar que Deus na administração do Seu Plano em relação a Salvação conduz os homens para uma Nação, que havia sido separada por Ele ser um canal de bênçãos.

Assim, a Nação de Israel é considerada no Velho Testamento como o centro das atividades salvíficas de Deus, não que isso não inclua outros povos (Nínive, com Jonas por exemplo), mas que por meio de Israel a multiforme sabedoria de Deus era apresentada ao mundo.


[1] HODGE, Charles, Teologia Sistemática, pp.718

[2] Idem, pp. 717

[3] CHAMPLIN, Russel Norman, Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia.

[4] XXXX, Xxxx, Dicionário Bíblico Vida Nova.

[5] HOFF, Paulo, O Pentateuco.

[6] CAHMPLIN, Russel Norman, Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia.

[7] HOFF, Paulo, O Pentateuco.

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