A Vida do Evangelista


Fábio Grigório

É fato que ações falam mais que palavras. A fim de que a mensagem das Boas Novas seja proclamada e não negligenciada, é essencial que nós, como evangelistas, adotemos alguns padrões ou qualidades em nosso viver, pois estamos sendo observados a cada passo dado e a cada palavra falada. Mais do que ouvir o evangelho, os não-cristãos estão interessados em ver em nós o evangelho. Com certeza, o que mais proporcionou a eficiência dos grandes evangelistas foi o modo de vida.

1. O evangelista e a santidade 

O evangelista precisa ter cuidado redobrado com sua vida de santidade, visto que esta é a área em que mais somos atacados. Diariamente somos bombardeados por conceitos que deturpam os padrões divino para a vida dos Seus filhos. Artistas renomados, programas assistidos por muitos cristãos e não-cristãos, jornais e revistas têm transmitido a idéia de que santidade é sinônimo de ultrapassado, o que importa hoje é deixar a imaginação correr solta e buscar satisfazer todos os prazeres da carne. Esses conceitos têm se infiltrado no meio cristãos e influenciado a muitos. Os não-cristãos já não nos olham mais como referenciais, eles quase não conseguem fazer distinção dos padrões de vida e, por isso, acham que estão bem onde estão e se saírem, não vai mudar muita coisa.

Ao lermos a Palavra de Deus vemos bem claro as instruções dadas para um viver santo. Em 1 Pedro 1.14-16, a orientação do apóstolo é para não nos deixarmos amoldar pelos desejos que tínhamos antes de nos tornarmos filho de Deus, e esses desejos são considerados por ele como maus. Pedro ainda nos instrui a sermos santos em tudo o que fizermos e faz alusão a uma citação de Levítico 11.45 em que Deus diz: “Sejam santos, porque eu sou santo”. Este é que deve ser o nosso referencial de santidade.

A santidade envolve o nosso pensar. Paulo diz que todas a coisas que forem nobres, corretas, amáveis, puras, todas as coisas que forem de boa fama, nestas devemos pensar, ou seja, estas devem ocupar nossos pensamentos (Fp 4.8). Lembro-me de ter visto a propaganda de um tênis em um outdoor que trazia os seguintes dizeres: “Garotas gostam de rapazes com tênis limpinho e uma mente poluída”. Isso reflete a mentalidade desta geração, enquanto somos exortados a mantermos uma mente pura, o mundo tenta induzir-nos a  mantermos pensamentos impuros. O evangelista, pensando em todo cristão como um evangelista em potencial, deve zelar por manter uma mente pura, pensamentos que tragam edificação.

E o que falamos? Será que os não-cristãos observam isto também? Sem dúvida alguma, com já disse, estão observando tudo, e mesmo que não estivessem observando, as nossas palavras também devem edificar aos que as ouvem (Ef 4.29). Em nosso vocabulário não devem existir palavras torpes[1], pois para nada servirão, senão para escandalizar o nome de Cristo.

No texto de 1 Pd 2.12 somos chamados a viver de maneira exemplar, de modo que as pessoas nos observem e não encontrem falhas para nos acusar. Uma vez que fomos salvos, devemos nos considerar mortos para o pecado, e não permitirmos que domine sobre nossas vidas, pois fomos libertos da escravidão do pecado. Cada membro do nosso corpo deve ser oferecido a Deus como instrumentos de justiça (Rm 6.11-13).

Deus requer daqueles que estão anunciando a Sua mensagem de salvação uma vida de santidade, irrepreensibilidade, uma vida que reflita o Seu caráter santo.

2. O evangelista e a oração

A Igreja de Jerusalém crescia a cada dia, conforme o Senhor lhes acrescentava os que iam sendo salvos (At 2.47). Note que no verso 42 relata que os crentes daquela Igreja se dedicavam ao ensino e à comunhão, ao partir do pão e às orações. Entendemos que a oração é fundamental na vida de cada cristão e por isso ela  deve fazer parte da vida  de um evangelista.

Charles H. Spurgeon dizia aos seus colegas pregadores:

Devemos ter por norma jamais ver a face dos homens antes de vermos a face de Deus…Quem sai correndo da cama para as ocupações sem primeiro passar tempo com Deus, é tão insensato quanto seria se não se lavasse nem se vestisse; é tão imprudente quanto o soldado que se lança na batalha sem armas nem armadura[2].

Jesus Cristo ensinou para os Seus discípulos que deveriam manter sempre uma vida de oração, e jamais se desanimar (Lc 18.1). Quando Paulo escreveu para o jovem Timóteo, disse: “Quero, pois, que os homens orem em todo lugar…” (1 Tm 2.8a), e aos tessalonicenses, Paulo falou: “Orai sem cessar” (1 Ts 5.17). Podemos ver o quanto a oração é valiosa para a vida de qualquer um que queira viver uma vida de compromisso com Deus e queira empenhar-se na missão de anunciar a todo homem que Jesus Cristo é o único caminho para livrá-lo da perdição eterna.

É muito comum ouvir alguém dizer que já está cansado de falar de Jesus para determinada pessoa e parece que não está adiantando nada, mas é raro ouvir alguém dizer que já está cansado de orar por aquela pessoa para que ela compreenda o evangelho porque também não está adiantando nada. Muitas vezes queremos ganhar as pessoas para Cristo somente pelo falar, e a oração é deixada de lado ou para quando não nos resta mais nada a fazer. Precisamos aprender a começar a evangelização pela oração. Tiago disse que a oração de um justo é poderosa e eficaz (Tg 5.16b). Precisamos pedir que Deus intervenha na vida daquele para quem falaremos do evangelho e também na nossa vida, como instrumentos nas mão de Deus. Não podemos esperar influenciar os corações endurecidos e almas errantes da humanidade sem convidar Deus para que Ele nos dê poder e abençoe nossos esforços, por si mesmos estéreis, em favor de sua causa eterna.

3. O evangelista e as Escrituras

Muitos fracassam na evangelização por não conhecerem as Escrituras e indiscutivelmente só a conheceremos se nos dedicarmos a estudá-la. Não basta apenas transmitirmos a Palavra, é preciso também nos alimentarmos dela. Nós podemos querer ter sempre uma mensagem simples ao apresentarmos o evangelho, mas para sabermos comunicá-la bem, mesmo no plano mais simples, temos de conhecer mais do que meramente as verdades básicas. Pedro nos exorta a estarmos sempre preparados para respondermos a qualquer um que pedir a razão da esperança que há em nós se não a conhecermos, infelizmente teremos que nos calar (1 Pe 3.15),.

É evidente para todos que o conhecimento acerca da Palavra é fundamental para quem deseja viver uma vida cristã dinâmica, de acordo com os planos divinos para os homens. O salmista diz que bem-aventurado é o homem que medita na Palavra dia e noite; o homem que se dedica em estudar e compreender a lei do Senhor. Este homem é comparado a uma árvore que é plantada junto a ribeiros de águas, uma árvore cuja folhagem não murcha e cujo fruto dá no tempo certo (Sl 1.1-3). Tais árvores possuem suas raízes profundas, mesmo que venha uma tempestade e vento forte ela permanece firme. O servo do Senhor que medita na Palavra dia e noite não será facilmente abalado.

Estudar as Escrituras é importante. Tiago falando sobre o valor deste livro enfatiza que não é suficiente conhecê-lo nos mínimos detalhes se não permitirmos que ele nos mude. Diz ele que aquele que é apenas ouvinte da Palavra e não praticante, engana-se a si mesmo e é semelhante ao homem que contempla o próprio rosto no espelho e saindo logo se esquece como era sua aparência (Tg 1.22-24).  Aquele, porém, que ouve e pratica será bem sucedido em tudo o que realizar (Tg1.25, Sl 1.3). Logo, se meditarmos e nos esmerarmos em praticar as Escrituras obteremos sucesso na proclamação do evangelho.

Como evangelistas precisamos ter em mente que Deus está mais interessado em nossa intimidade com Ele do que em nossa atividade para Ele. É lendo e meditando na Palavra que ouviremos a voz de Deus, que aprenderemos a como ter intimidade com Ele, pois Sua vontade, seus preceitos e instruções estão expressos nas Escrituras.

4. O evangelista e a paixão pelos perdidos

Um evangelista que tenha paixão pelos perdidos quando olha para o mundo e vê a situação em que se encontram, sem Deus, perdidos caminhando rumo ao inferno, ele sente compaixão e um profundo desejo em anunciar-lhes o caminho que os livra da perdição.

Ao observarmos a vida de Estevão, notamos um homem que amava os pecadores, tanto aos seus amigos quanto aos seus inimigos. Ao final de sua vida, enquanto alguns homens ímpios o apedrejavam por causa da mensagem que pregava a respeito de Jesus Cristo, ele orou a Deus dizendo: “Senhor Jesus, recebe o meu espírito! Então, ajoelhando-se, clamou em alta voz: Senhor, não lhes imputes este pecado. Com estas palavras adormeceu”( At 7.59-60). Uma demonstração de amor incondicional, mesmo morrendo, sua preocupação estava voltada para aqueles que poderiam morrer sem compreender o evangelho, os seus próprios assassinos.

Vale a pena lembrarmos novamente os exemplos de Paulo, Filipe e do Senhor Jesus, que amaram os pecadores e gastaram suas vidas proclamando-lhes a mensagem de salvação. Através destes exemplos, precisamos aprender ou desenvolver a paixão pelos perdidos. Normalmente as pessoas desempenham melhor e com mais motivação, um trabalho pelo qual sentem amor. Se não amarmos o pecador não nos sentiremos motivados a falar-lhe a respeito do plano de Deus para sua vida. Nos exemplos que vimos, o amor pelo pecador é notório.

Deus não está em busca de profissionais de sucesso para desempenharem a tarefa de evangelização, Ele quer pessoas que tenham disposição, disponibilidade, vida, paixão. Pessoas que se coloquem em Suas mãos para serem usadas conforme o que Ele planejar e quiser, e não conforme o que elas planejarem e quiserem.  Jesus chamou homens simples, provavelmente sem muita instrução; homens comuns (At 4.13). Não eram do tipo que alguém esperaria que conquistasse o mundo para Cristo.       No entanto, naqueles homens simples, Jesus viu líderes em potencial do Seu reino. Eram homens capazes de ser ensinados, homens honestos, prontos a confessar a sua própria necessidade.

É imprescindível que o evangelista que deseja ver vidas sendo transformadas, tenha também sua própria vida transformada. Como poderemos impressionar a outros com a beleza da santidade, com a felicidade da harmonia e comunhão com Deus, com o valor infinito da crucificação e com a ternura de Jesus, sem que nós mesmos estejamos desfrutando de tais experiências?

O apóstolo Paulo viveu de tal forma que teve autoridade de vida para dizer: “Sede meus imitadores, como também eu sou de Cristo” (1 Co 11.1). Paulo era um cristão que levava a mensagem da cruz, mas levava também as marcas da cruz consigo: uma vida de santidade, oração, dedicação ao estudo da Palavra e paixão pelos homens perdidos. Sendo seus imitadores, com certeza seremos evangelistas eficientes na tarefa de ganhar almas para Cristo.


[1] Segundo Aurélio, torpe pode ser: desonesto, impudico, infame, ignóbil, repugnante, nojento, obsceno, indecente e também maculado – Novo dicionário da língua portuguesa – p. 1692.

[2] SUMNER, Roberto L. Evangelização em chamas. São Paulo: Imprensa Batista Regular, 1965. p. 27.

3 comentários sobre “A Vida do Evangelista

  1. Maxwellem

    Compaixão … devemos buscar sentir esse amor … o amor que moveu Jesus à cruz … se somos um em Cristo … sentiremos a dor e o peso que há no seu coração por este mundo perdido …
    Que nossos abertos estejam abertos e sensiveis ao desespero deste mundo.

    1. Júlio Lima,

      No Teologando você pode encontrar uma série de artigos que falam sobre a evangelização em: https://marceloberti.wordpress.com/estudos/evangelismo/. Em alguns desses artigos, especialmente a segunda seção, falam sobre posturas esperadas do evangelista:

      1. Defina sua identidade e propósito: https://marceloberti.wordpress.com/2010/04/28/defina-sua-identidade-e-proposito/
      2. Reconheça quem é seu Senhor: https://marceloberti.wordpress.com/2010/04/28/reconheca-quem-e-o-seu-senhor/
      3. Entenda sua missão: https://marceloberti.wordpress.com/2010/04/28/entenda-sua-missao/
      4. Entenda sua mensagem: https://marceloberti.wordpress.com/2010/04/28/entenda-sua-mensagem/
      5. Comece a evangelizar: https://marceloberti.wordpress.com/2010/04/28/comece-a-evangelizar/

      Nessa quarta seção, mais dois artigos falam sobre o evangelista:

      1. Sugestões práticas para o Evangelista: https://marceloberti.wordpress.com/2010/04/28/sugestoes-praticas-sobre-o-evangelista/
      2. Sobre a Atitude do Evangelista: https://marceloberti.wordpress.com/2010/04/28/sobre-a-atitude-do-evangelista/

      Minha sugestão é que você passe por todos os artigos das quatro seções, pois acredito que serão estimulantes para sua vida de evangelização.

      Se quiser mais sugestões sobre como evangelizar, recomendo os vídeos desse post:

      * Evangelismo segundo as Escrituras: http://scripturaelectionarium.wordpress.com/2010/02/24/evangelismo-segundo-as-escrituras-way-of-the-master/

      Você também encontrará algumas mensagens de incentivo à evangelização em:

      * Igreja Evangelizadora: http://scripturaelectionarium.wordpress.com/2010/02/10/igreja-evangelizadora-marcelo-berti/
      * Pregar o Evangelho – Plano A de Deus: http://scripturaelectionarium.wordpress.com/2010/02/19/pregar-o-evangelho/
      * Conhecer bem e fazer o bem: http://scripturaelectionarium.wordpress.com/2010/01/27/conhecer-ber-e-fazer-o-bem/

      Espero tê-lo ajudado,
      Marcelo Berti

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