Descrição da Ação Evangelística


Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado

A conexão entre autoridade e mandamento autoritário é observada pela expressão “Portanto” (conjunção grega oun), como resultado da primeira declaração “Toda autoridade”. Ou seja, por que Cristo é o que é, Ele pode ordenar o que ordena; pelo fato de que tem todo “poder-autoridade“, seja pela concessão da parte do Pai (céu), seja pela sua execução ministerial (terra), Ele agora não apenas autoriza seus discípulos a fazer o mesmo, mas os comanda a exercer um ministério nos moldes daquele que Ele mesmo desempenhou.

A descrição da Ação Ministerial dos seguidores de Cristo é marcada pela presença de quatro termos que vamos analisar com atenção: Ir, Fazer, Batizar e Ensinar. Todos os termos ressaltados tem suas peculiaridades e vamos observá-las com cautela com o objetivo de ressaltar do texto aplicações para a prática ministerial relevante e em conformidade com a vontade do nosso Soberano Senhor que tem toda a autoridade.

1.       Conceituando o “Ide”

Apesar do conhecimento que os cristãos tem decorado desse texto, é importante ressaltar que sua complexidade de compreensão tem dividido comentaristas e ministros do evangelho. Tal complexidade deve-se quase que exclusivamente da conceituação do verbo “ir” utilizado nesse verso. Aquilo que em nossa tradução é visto como uma ordem (Ide) também tem sido interpretada de dois modos distintos pelos comentaristas:

  • 1. Modal: Muitos materiais de evangelização têm usado a expressão “indo” para traduzir o verbo grego “poreúomai“. Na bem da verdade, eles o fazem pois identificam corretamente o termo como um verbo particípio aoristo passivo (poruthéntes), que tomado à parte do contexto em que está inserido poderia ser traduzido exatamente assim.
  • 2. Temporal: Outros materiais, por observarem o termo no particípio e pelo fato de não estar acompanhado de qualquer artigo, substantivo anartro ou locução verbal, poderia fazer referência ao uso adverbial do termo grego. Assim, a tradução ficaria “Enquanto vão“.

A conclusão que retira-se de qualquer uma das duas possibilidades é esta: (1) Cristo pressupunha que seus discípulos fariam o que era esperado e por essa razão (2) não ordenou que eles o fizessem, apenas sugeriu. Alguns expositores ao observarem esse quadro e chegarem a conclusões parecidas com essas lembram seus ouvintes que, muito embora não tenhamos uma ordem aqui ela pode ser encontrada em outros lugares, como por exemplo em Mc.16.15. Ou seja, a ordem continua sobre os cristãos, só não retira-se essa idéia desse texto.

Entretanto, uma pergunta precisa ser feita aqui: Por que, então, todas as traduções que dispomos continuam a interpretar essa sugestão como uma ordem? Essa é uma pergunta muito pertinente.

Eu, particularmente, não considero que qualquer uma dessas duas opções seja verdadeira. Também sei que muitos outros não adotam essa opinião pelo medo de retirar do texto o caráter de Ordem do Rei do Reino. Essa não é a razão pelo qual adoto a opinião de que vemos aqui uma ordem explícita. Por essa razão, gostaria de apresentar duas razões pelas quais adoto tal posição.

a.         Conceituação sintática

Em primeiro lugar vamos observar como a frase grega nos é apresentada: “poreuthentes oun mathëteusate panta ta ethne”, que foi traduzida pela ARA como: “Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações“. O verbo principal dessa frase é o verbo fazer discípulos (matheteuo) que é identificado como um verbo aoristo imperativo ativo. Uma vez que esse verbo está bem identificado, entendemos que o verbo “ir” é um verbo secundário na oração.

Portanto, existem duas opções plausíveis de tradução dessa sentença: (1) Ou traduzimos individualmente cada termo (como já demonstrado) ou (2) traduzimos os verbos como parte de uma mesma expressão.

Vale lembrar que esse tipo de expressão grega (verbo participo + verbo no imperativo) é comum em narrativas de língua grega. Um exemplo interessante desse tipo é visto no mesmo capítulo do texto que estamos a estudar: “Ide, pois, depressa e dizei aos seus discípulos que ele ressuscitou dos mortos e vai adiante de vós para a Galiléia; ali o vereis” (Mt.28.7). Aqui notamos com clareza que a intenção de Jesus era dar duas ordens distintas: Ir e dizer. Outro exemplo pode ser visto no segundo capítulo do mesmo evangelho: “E, enviando-os a Belém, disse-lhes: Ide informar-vos cuidadosamente a respeito do menino; e, quando o tiverdes encontrado, avisai-me, para eu também ir adorá-lo” (Mt.2.8). Aqui a ordem é clara, vão e informem-se. À essa altura é válido dizer que esse tipo de uso grego é bem comum no evangelho de Mateus (Mt.2:8; 9:13; 11:4; 17:27; 21:6; 22:15; 25:16; 28:7; cf. Mc.16.15; Lc.7.22; 13.32; 17.14; 22.8).

Esse tipo de uso do particípio é conhecido como particípio circunstancial. O Particípio circunstancial pode ser: Antecedente, Simultâneo e Posterior. No caso de Mt.28.19, o seu uso é antecedente, ou seja, o particípio é traduzido como imperativo + uma conjunção aditiva + o verbo imperativo. Ou seja, IDE e FAZEI DISCÍPULOS. Como na frase em questão tem mais verbos, o uso de vírgulas em substituição da conjunção aditiva é uma condição da gramática portuguesa. Por isso lemos: “Portanto, Ide, fazei discípulos, batizando e ensinando“.

Sobre esse uso de particípio, Daniel Wallace diz: “O particípio circunstancial é utilizado para comunicar uma ação, que em determinado sentido, é coordenado pelo verbo no infinitivo. Nesse aspecto, não é dependente, por isso é traduzido como um verbo. Mas ele ainda se mantém dependente semanticamente, por que ele não pode existir sem o verbo principal. Ele é traduzido como um verbo no infinitivo conectado ao verbo principal pela expressão ‘e’. [1]” Stelio Rega completa: “O particípio não é o verbo principal de uma frase e poderá depender dele para expressar o seu significado, indicando, assim, se a sua forma é antecedente (precede), simultânea (coincide) ou subseqüente (sucede) à do verbo principal da frase[2]“.

Segue-se que, ainda que de modo separado o termo grego poderia ser traduzido como um gerúndio, ou com uma parcela de temporalidade, a expressão grega construída por um particípio + verbo no imperativo deve ser traduzida de acordo com as designações sintáticas exigidas pelo texto. Logo, o uso do particípio circunstancial é o melhor modo de traduzir a expressão em pauta.

b.         O contexto histórico

Outro detalhe que deve ser observado aqui é o contexto histórico dos discípulos a quem é dada essa ordem: Eles são judeus, que por sua própria natureza tem dificuldades com nações do mundo (At.10.28). Como judeus, são centrados nos seus e demonstram que tem certo preconceito com aqueles que são de outras etnias, como por exemplo os samaritanos (Jo.4.9, 27). É válido lembrar ainda que esses discípulos estavam incluídos no grupo que Cristo teria enviado para pregar que o reino dos céus está próximo com a seguinte ordem: “Não tomeis rumo aos gentios, nem entreis em cidade de samaritanos, mas, de preferência, procurai as ovelhas perdidas da casa de Israel” (Mt.10.5-6).

Entretanto, vemos que em Sua última ordem, o Senhor ordena explicitamente: “Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações” (Mt.28.19). Considerando aqueles que ouviram essa mensagem, temos mais um indicativo para pensar que a ORDEM de IR a TODAS AS NAÇÕES era necessária.

Aliás, é digno de nota que o conceito da abrangência da missão é visto em outros textos: “Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura” (Mc.16.15). Nesse texto a abrangência é vista tanto do ponto de vista geográfico (mundo) como do ponto de vista étnico (criatura). Não importa onde essas pessoas estão, de que etnia são, que religião tem, eles precisam ser alcançados pelo o evangelho. Em Atos, vemos as etnias destacadas ainda com maior ênfase: “mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria e até aos confins da terra” (At.1.8).

Considerando a repetição de Cristo em informar seus discípulos que deveriam dirigir-se a todas as etnias nos faz considerar na razão pelo qual Ele faz isso. Eu entendo que Cristo assim procede por que SABIA que Seus discípulos não iriam por vontade própria às outras nações. Essa conclusão é completamente antagônica àquela retirada da interpretação do verbo ir (indo). Eu não entendo que Cristo pressupunha que seus discípulos iriam à outras nações, por isso sugeriu que eles fizessem discípulos enquanto passassem por outras etnias. Pelo contrário, Ele ordenou que seus discípulos fizessem aquilo que Ele sabia que, por vontade própria, eles não fariam.

Essa indisposição de sair da sua nacionalidade foi marca da Igreja Primitiva durante um bom tempo. As mensagens pregadas pelos discípulos eram centradas nos judeus, com citações extensas do Velho Testamento e realizadas da região de Jerusalém. Veja alguns exemplos: “Varões judeus e todos os habitantes de Jerusalém, tomai conhecimento disto e atentai nas minhas palavras” (At.2.14; cf. v.22, 29); “Esteja absolutamente certa, pois, toda a casa de Israel de que a este Jesus, que vós crucificastes, Deus o fez Senhor e Cristo” (At.2.36; cf. At.2.46; 3.1, 6, 12-13, 24; 4.10).

Mas o fato mais interessante da História do Cristianismo em seus primeiros ano é que, por tanto fazerem discípulos em Jerusalém (At.2.41; 4.4; 5.14) isso começou a incomodar a liderança judaica (At.5.17) de tal modo que iniciaram a persegui-los. Já no quatro capítulo de Atos vemos a primeira prisão dos apóstolos por estarem no templo falando acerca de Cristo (At.4.1-3) ; no capítulo 5 são novamente presos (At.5.18; cf. v.26) sob a acusação de já terem sido notificados a não ensinar sobre Jesus Cristo (At.5.28). Observe que nessa ocasião a mensagem oferecida por Pedro e os demais apóstolos era tão centrada em sua própria etnia que o objetivo da morte e ressurreição de Jesus apresentado na ocasião parecia quase exclusivo para a nação de Israel: “Deus, porém, com a sua destra, o exaltou a Príncipe e Salvador, a fim de conceder a Israel o arrependimento e a remissão de pecados” (At.5.31). É válido lembrar que pela influência e crescimento do cristianismo em Jerusalém, “Afluía também muita gente das cidades vizinhas a Jerusalém” (At.5.16) para serem curadas pelo poder de Deus usado por intermédio dos apóstolos (At.2.43)

Ainda após tal situação, o comportamento dos apóstolos e dos cristãos continuou do mesmo modo que vinha operando: “E todos os dias, no templo e de casa em casa, não cessavam de ensinar e de pregar Jesus, o Cristo” (At.5.42) e o número de discípulos não cessava de crescer (At.6.1). É bem provável que a situação começou a tornar-se insuportável para a liderança judaica ver o crescimento desenfreado de uma “perversão” do judaísmo que partiram para uma atitude mais intensa: “Então, subornaram homens que dissessem: Temos ouvido este homem proferir blasfêmias contra Moisés e contra Deus. Sublevaram o povo, os anciãos e os escribas e, investindo, o arrebataram, levando-o ao Sinédrio. Apresentaram testemunhas falsas, que depuseram: Este homem não cessa de falar contra o lugar santo e contra a lei ” (At.6.11-12).

Essa inquisição contra Estevão (At.6.8-9) foi provavelmente a gota d’água para os judeus que não aceitavam o ensino a respeito de Cristo. O fim da história de Estevão acaba por ser seu assassinado (At.7.54-6) e o nascimento de uma postura de perseguição dos judeus contra os cristãos: “Naquele dia, levantou-se grande perseguição contra a igreja em Jerusalém” (At.8.1).

A partir da morte de Estevão, parece que ficou entendido que os cristãos que permanecessem em Jerusalém corriam o mesmo risco de vida, até por que todos os cristãos foram dispersos pelas regiões da Judéia e Samaria, EXCETO os apóstolos. Sob risco de vida, aqueles que tinham recebido a ORDEM de irem por todo mundo, permaneciam em sua teimosia e permaneciam em Jerusalém.

Entretanto, os que saíram de Jerusalém passaram a realizar aquela ordem que havia sido dada aos discípulos: “Entrementes, os que foram dispersos iam por toda parte pregando a palavra” (At.8.4).

Para a situação mudar foi necessário que Pedro tivesse uma visão sobre o que era puro diante de Deus (At.10.9-16) associada a uma intervenção sobrenatural de Deus na vida de um centurião gentio da Cesaréia, Cornélio (At.10.1-2). Para demonstrar o tamanho desprezo que tinha por pessoas de outras etnias, cercados de fenômenos sobrenaturais, Pedro ainda tem a capacidade de dizer ao chegar na casa de Cornélio: “Vós bem sabeis que é proibido a um judeu ajuntar-se ou mesmo aproximar-se a alguém de outra raça; mas Deus me demonstrou que a nenhum homem considerasse comum ou imundo” (At.10.28). Para agravar a situação, após apresentar o evangelho à casa de Cornélio e eles aceitarem (At.10.44-48), Pedro ainda teve que se explicar perante os apóstolos em Jerusalém sobre sua ida aos gentios (At.11.1-3).

É importante lembrar que Pedro não hesitou em ir à casa de um gentio (At.10.29), mas tudo isso aconteceu para que os apóstolos iniciassem a realizar aquilo que já era esperado deles desde a ascensão de Cristo (At.1.8).

Quando olho para como a história aconteceu não posso supor que Cristo em suas últimas palavras pressupunha que Seus discípulos sairiam à outras etnias, mas o vejo como Senhor a ORDENAR algo que os discípulos se mostrariam falhos em realizar.

Bom, tendo considerado a sintaxe grega e a história dos discípulos, a conclusão que chego é que a tradução da ordem de Mt.28.19 como “Ide, fazei discípulos de todas as nações” é compatível com as exigências da gramática grega e adequada à realidade dos apóstolos e cristãos. Portanto, a ordem é de caráter centrífugo, onde os discípulos deveriam iniciar em pró-atividade a abordagem evangelística. Considerando esse fato com a realidade judaica que era etnocêntrica, uma missão ectocêntrica era um grande desafio.

2.       Conceituando o “Fazei discípulos”

O termo grego por trás da expressão portuguesa é “matheteo” e pode ser compreendida transitivamente e intrasitivamente, onde a primeira aponta para o fato de ser discipulado por alguém, e a segunda para o ato de discipular alguém. Neste caso, o imperativo bem traduzido deixa clara a idéia da realização da ação. Portanto, a questão é que isso significa? O que Jesus quis dizer quando nos ordenou FAZER DISCÍPULOS?

Acredito que podemos começar essa investigação compreendendo o que de fato significa ser discípulo. O termo grego pode significar ser pupilo, aprendiz, adepto, discípulo e normalmente é anexado ao responsável pela tutoria. Por exemplo: discípulos de João (“mathetai Ioannou” – Mt.9.14), ou seja, aprendiz adepto, tutoriado, maestrado e pertencente a João.

Um discípulo é que aquela pessoas que está debaixo da supervisão e comando do seu mestre e de forma nenhuma lhe é superior: “O discípulo não está acima do seu mestre, nem o servo, acima do seu senhor” (Mt.10.24). Outro exemplo pode ser visto mais à frente: “E ele lhes respondeu: Ide à cidade ter com certo homem e dizei-lhe: O Mestre manda dizer: O meu tempo está próximo; em tua casa celebrarei a Páscoa com os meus discípulos” (Mt.26.18).

Esse discípulo é alguém que busca seguir seu mestre, estar onde ele está e a fazer o que ele faz. Esse tipo de situação acontece várias vezes na vida de Cristo: “Então, entrando ele no barco, seus discípulos o seguiram” (Mt.8.23); “E Jesus, levantando-se, o seguia, e também os seus discípulos” (Mt.9.19). Os discípulos de Cristo o acompanhavam, iam onde ele ia, estavam com Ele onde quer que Ele estivesse, à exceção de quando Ele quisesse estar sozinho (Mc.1.35). Ademais, o discípulo é aquele que, acima de tudo, quer ser como seu Mestre: “Basta ao discípulo ser como o seu mestre, e ao servo, como o seu senhor” (Mt.10.25).

À acrescentar essa lista, é importantíssimo ressaltar que o discípulo é aquele que está debaixo do ensino de seu mestre. Aliás, pelo próprio conceito semântico do termo, o ensino é parte essencial do discipulado. Ou seja, se houver proximidade e não houver ensino não há discipulado. Observe que o ministério de Cristo é marcado pela presença do ensino aos seus discípulos: “Ora, tendo acabado Jesus de dar estas instruções a seus doze discípulos, partiu dali a ensinar e a pregar nas cidades deles” (Mt.11.1); “Vendo Jesus as multidões, subiu ao monte, e, como se assentasse, aproximaram-se os seus discípulos, e ele passou a ensiná-los, dizendo” (Mt.5.1-2; cf. Mt.12.1-2; 13.36; 15.1-2; 16.20-21; 24.3ss; 26.1; entre muitos outros).

Considerando essas colocações, o discípulo é muito mais do que um mero prosélito autônomo, é alguém cujo crescimento espiritual é dependente de alguém que o coordene, direcione, nutra e guie. Por outro lado, o discipulando é aquele que está disposto a ser tutoriado, submisso a autoridade e comando do mestre e é ensinável a ponto de aprender o que lhe é transmitido para oferecer para outros.

Entretanto, a pergunta que torna-se necessária aqui é: Onde esse discipulado inicia? Iniciaria ele na pregação do evangelho ou o texto nos ensina a discipular cristãos? A princípio não entendo o uso do termo como algo compartimentado, onde o discipulado é exclusivo ao salvo, mas que trata-se de um processo que inicia-se com a evangelização e estende-se ao crescimento espiritual deste salvo.

Um texto que nos auxiliar a compreender desse modo encontra-se em At.14.21: “E, tendo anunciado o evangelho naquela cidade e feito muitos discípulos, voltaram para Listra, e Icônio, e Antioquia“. Nesse texto nós vemos duas idéias associadas: Evangelizar e Fazer Discípulos. A princípio considera-se a primeira anterior à segunda, seja pela natureza das atividades ou pela ordem da frase. Entretanto, as duas idéias aqui são colocadas como paralelas, como uma duplicação de idéias para reforçar o que se havia realizado. Caso o texto tivesse dito que Paulo teria apenas feito discípulos em Derbe ele seria compreendido integralmente, tal como observado em outros textos em Atos (cf. At.5.42; 8.4, 35, 40). Talvez o autor tenha tido interesse em apontar para o sucesso da pregação de Paulo ao falar que ele teria feito muitos discípulos. Mas, uma importante distinção aqui é válida: o discípulo de Cristo é aquele que já segue a Cristo, já está salvo, mas aquele que precisa ser feito discípulo ainda não segue a Cristo nem é salvo. Logo, na ordem “fazei discípulos” encontramos a idéia de evangelizar e nutrir.

Ou seja, não basta apenas anunciar o evangelho, pois é parte do trabalho do seguidor de Cristo fazer como ele fez. Nosso trabalho, norteado pelo ministério de Cristo deve ser desempenhado em excelência da proclamação do evangelho ao treinamento do novo na fé até que ele possa fazer o mesmo com outras pessoas. Portanto, é necessário viver e conviver com pessoas que precisam ser feitas discípulas de Cristo, e está debaixo da nossa responsabilidade treiná-lo para que venha a ser um discípulo maduro e pronto a realizar o mesmo.

Mas, nossa responsabilidade não acaba nesse ponto, pois existem mais duas responsabilidades do discipulador apresentadas nesse texto:

a.         Batizar

Aqui está um acréscimo da ação ministerial dada por Cristo. E novamente nos deparamos com um verbo substantivado sem compreender o que exatamente o que ele quer dizer, visto não ser específico o gerúndio em português. Tanto em inglês como em português trazem a idéia de ação contínua (baptizing – batizando), como também parece demonstrar a versão latina (baptzantes). O termo grego, que é muito semelhante ao termo latino, baptizontes é mais um particípio.

Considerando a relação particípio aoristo e infinitivo aoristo, qual é a razão pelo qual não traduz-se esse termo como um imperativo? A explicação para essa pergunta é simples, pois não existe na sintaxe grega nenhuma construção para esse tipo de relação, onde um segundo particípio sofre influência de um particípio circunstancial que já fora influenciado pelo verbo principal. Portanto o que acontece aqui é um acréscimo da descrição da ação ministerial ordenada por Cristo.

Com isso em mente, como poderíamos compreender, então, a função desse verbo na frase? Muitas alternativas já foram oferecidas, e poucas conclusões foram levantadas. Em particular, acredito que trata-se de um particípio de uso adverbial temporal, que seria traduzido como “enquanto batizam“. A idéia do particípio de uso adverbial temporal é oferecer ao verbo principal da frase a resposta para a pergunta “quando?” de três formas: Antes, com ou após a ação do verbo principal. Nesse caso, poderíamos pensar em uma ação posterior ou simultânea, mas desacreditamos a primeira, visto não ser lógico interromper a ação ministerial em função do batismo dos novos adeptos. Ou seja, à medida que novos abraçam a fé, eles são batizados, em uma ação simultânea.

O termo é utilizado em três formas, basicamente. O primeiro modo diz respeito a uma lavar cerimonial com propósito de purificação. Esse é o caso da exortação dos fariseus contra os discípulos de Cristo: “E, vendo que alguns dos discípulos dele comiam pão com as mãos impuras, isto é, por lavar (pois os fariseus e todos os judeus, observando a tradição dos anciãos, não comem sem lavar cuidadosamente as mãos quando voltam da praça, não comem sem se aspergirem; e há muitas outras coisas que receberam para observar, como a lavagem de copos, jarros e vasos de metal e camas)” (Mc.7.2-4). No contexto de purificação Marcos utilizou o termo “batizar” para descrever o lavar de copos. Uso similar acontece na ocasião em Cristo é convidado por um fariseu a comer e não lava as mãos antes de fazê-lo: “O fariseu, porém, admirou-se ao ver que Jesus não se lavara primeiro, antes de comer” (Lc.11.38).

Um segundo modo de se utilizar o termo seria uma comparação entre situações extraordinárias e o ato de batizar. Esse é o caso que encontramos na declaração de Paulo sobre o que aconteceu com Israel no deserto: “Ora, irmãos, não quero que ignoreis que nossos pais estiveram todos sob a nuvem, e todos passaram pelo mar, tendo sido todos batizados, assim na nuvem como no mar, com respeito a Moisés” (1Co.10.1-2). Esse tipo de uso também aconteceu em referência ao Espírito Santo: “Eu vos tenho batizado com água; ele, porém, vos batizará com o Espírito Santo” (Mc.1.8; cf. Jo.1.33; At.1.5; 11.6; 1Co.12.13). O termo também foi utilizado em relação ao martírio dos apóstolos (Mc.10.38; Mt.20.22; Lc.12.50).

O termo também pode ser encontrado em um terceiro modo, que seria o ato de usar água em um ritual para renovar ou estabelecer um relacionamento com Deus. Esse é o uso que descreve a função de João Batista: “apareceu João Batista no deserto, pregando batismo de arrependimento para remissão de pecados” (Mc.1.4). Esse tipo de ação ministerial fez parte do ministério público de Jesus: “Depois disto, foi Jesus com seus discípulos para a terra da Judéia; ali permaneceu com eles e batizava” (Jo.3.22; cf. Jo.4.1-2). E, é com esse uso que vemos a descrição do ritual cristão: “Seguindo eles caminho fora, chegando a certo lugar onde havia água, disse o eunuco: Eis aqui água; que impede que seja eu batizado?” (At.8.36; cf. 8.12; 2.38; 41).

Consideradas essas questões, ainda perguntamos: Mas, o que é de fato o batismo? O batismo cristão é um sinal de Deus para significar purificação interior e remissão de pecado (At 22.16; 1Co 6.11; Ef 5.25-27), regeneração operada pelo Espírito e uma nova vida (Tt 3.5) e a permanente presença do Espírito Santo, como selo de Deus testificando e garantindo que aquele que o recebe está seguro em Cristo para sempre (1Co 12.13; Ef 1.13-14). Fundamentalmente, o batismo significa união com Cristo na sua morte, sepultamento e ressurreição (Rm 6.3-7; Cl 2.11-12), e essa união com Cristo é a base da vida do discípulo deste ponto em diante. Isso significa que aquele que foi batizado em nome de Jesus deve conformar sua vida à Dele e viver de acordo com o que Cristo espera de sua vida. Deve ser por essa razão que Ele nos adverte: “Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me” (Mt.16.24).

b.         Ensinar a obediência

O termo para “ensinando” é “didascontes”, um particípio que sofre de falta de definição tal como o “enquanto batizam“. Não podemos seguir a lógica anteriormente lançada para a tradução deste termo, em função da redundância que traria. Contudo, é bem possível que duas ações possam acontecer em paralelo à uma anterior sem qualquer problema. Gramaticalmente, podemos identificar o segundo verbo particípio como uma extensão do anterior. Assim a sentença inteira ficaria assim: “Ide, portanto, fazei discípulos de todas as etnias, enquanto [os] batizam em nome do Pai, do Filho, e do Espírito Santo e [os] ensinam a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado“.

Com esse acréscimo Jesus estabelece uma nova ação à ação do discipulado: o ensino. Como já vimos, a ação ministerial dos cristãos percebida nesse texto é descrita pela expressão: Ir e Fazer Discípulos. Como também já vimos, o ato de fazer discípulo inicia-se na evangelização e desenvolve-se no nutrir do novo convertido. Nesse contexto, ensinar parece ser algo bem apropriado.

Como é bem visto por nossas traduções, o objetivo do discipulado não trazer o neófito à profundidade do conhecimento teológico, mas ensiná-lo a obedecer. O tipo do ensino esperado por Cristo de seus discípulos é o que desenvolve a prática não o conhecimento. De modo nenhum subjugamos o conhecimento por isso auferirmos, mas demonstramos a prioridade que Cristo dava à prática. É bem visto na vida e no ministério público de Cristo que Ele teria dedicado grande parte do seu tempo ensinando pessoas. Seus discípulos na seqüência fizeram o mesmo. Mas, o caráter do ensino de Cristo era a vida prática.

Se considerarmos a ordem de Cristo nesse texto vemos que deveríamos ensinar todas as coisas que Ele mesmo nos teria ensinado: “ensinam a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado“.  Isso nos faz lembrar do exemplo de Paulo: “Vós bem sabeis como foi que me conduzi entre vós em todo o tempo, desde o primeiro dia em que entrei na Ásia, servindo ao Senhor com toda a humildade, lágrimas e provações que, pelas ciladas dos judeus, me sobrevieram, jamais deixando de vos anunciar coisa alguma proveitosa e de vo-la ensinar publicamente e também de casa em casa” (At.20.18-20). Paulo era alguém comprometido com esse ensino segundo Cristo, que além de oferecer conteúdo adequado é focado no desenvolvimento cristão.

Pouco à frente, vemos algo mais: “Portanto, eu vos protesto, no dia de hoje, que estou limpo do sangue de todos, porque jamais deixei de vos anunciar todo o desígnio de Deus” (v.26-27). A quantidade de informações necessárias para que os efésios tivessem boa vida perante Deus havia sido fornecida por Paulo. Ou seja, a informação e a formação estavam lado-a-lado no ministério paulino.

Assim, percebemos que o nutrir e o instruir fazem parte da ministração cristã àqueles que chegam a Cristo. Mas, uma pergunta ainda nos falta: “Até quando devemos fazer isso”? Acredito que Jesus Cristo nos dá uma dica: “ensinam a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado“. Como vemos no exemplo de Paulo, ele apenas considerou-se livre das pessoas de Éfeso quando compreendeu que havia ensinado todo o desígnio de Deus. Essa deveria ser nossa compreensão da missão cristã: Ensinar a obediência em todas as áreas da vida cristã que estão debaixo de direta coordenação de Cristo.

Por outro lado, existe uma continuidade na ação, pois uma vez que os neófito é discipulado, nutrido nas escrituras e treinado para uma vida cristã adequada ele fará o mesmo com outras pessoas, pois ele também deve aprender a levar o evangelho. Assim vemos que a ordem que Cristo deixa aqui é fundamento da continuidade e expansão da fé, que deveria ser disponível a todos através do ministério cristão.


[1] WALLACE, Daniel, Greek Grammar Beyond the Basics, pp.640.

[2] REGA, Lourenço Stelio, Noções do Grego Bíblico pp.102.