Uma perspectiva Bíblica da Evangelização


Fábio Grigório

É fundamental que observemos o que as Escrituras dizem a respeito de tão importante tarefa: a evangelização. Muitos têm dúvidas a respeito do que deve ser proclamado para um não-cristão, e até mesmo como proclamar a mensagem; e o mais grave ainda, há aqueles que têm dúvidas quanto a quem foi dada a ordem de evangelizar.

Deus não queria que essas dúvidas atrapalhassem os Seus propósitos, e para que isso não acontecesse Ele deixou claro na Bíblia a quem foi dada a ordem, o que deve ser proclamado e vários exemplos de como proclamar a mensagem das Boas Novas.

Consciência da Missão[1]

Deus tem um propósito que foi expresso por todos os tempos. Em Salmo 57.5,11; 72.19; 102.15, notamos a presença de uma oração, onde a expectativa do salmista é: “que a glória do Senhor encha a terra”. Os salmos são expressões de louvor, de adoração e de exaltação. As orações dos salmistas eram baseadas em revelações. Tendo isso em mente, não podemos cometer o erro de interpretar os Salmos sem o contexto teológico do Antigo Testamento.

Os profetas tinham a certeza de que a Glória do Senhor encheria a terra (Hc2.14; 3.3; Is 2.12-21), e na condição de profetas eles estão falando de algo que com certeza acontecerá. Note que o homem do Pentateuco já ouvira que a glória do Senhor encheria toda a terra, pois em Números 14.20 encontra-se uma afirmação onde Deus diz que tão certo quanto Ele existe a Sua glória encherá a terra. Atentando para o Autor desta afirmação, não nos resta dúvidas de que é algo real, uma promessa que se cumprirá.

Voltando novamente para a oração do salmista, podemos afirmar que ele está clamando por algo que Deus havia prometido. O salmista tinha uma visão calcada na revelação de Deus: “a glória do Senhor encherá toda a terra”..

Neste trabalho que Deus está realizando para aquele dia, em que a Sua glória encherá a terra, todo cristão tem uma responsabilidade, que é fazer discípulos. Esta responsabilidade encontra-se registrada em Mateus 28. 16-20. Há alguns conceitos acerca desta nossa responsabilidade que precisamos considerar nesta passagem.

 

A prerrogativa de Jesus

No versículo 18 de Mateus 28 encontramos a prerrogativa de Jesus, que ao aproximar-se dos discípulos fez a seguinte declaração: “Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra“. Jesus é aquele que tem toda autoridade, e esta é uma autoridade sobre todo o universo, como Ele mesmo afirma.

Nos dias de hoje me parece que as pessoas querem ser discípulas de Cristo, mas não querem, ou pelo menos sentem alguma dificuldade em reconhecê-lO como Aquele a quem foi dado todo o poder e toda a autoridade. Estas palavras parecem ter perdido o seu sentido verdadeiro, as pessoas não compreendem o que é uma autoridade.

Quando se pensa em autoridade, vem à mente alguém que merece todo o respeito, alguém a quem se deve obediência, alguém que tem poder, que tem domínio. Aurélio definiu autoridade como “…um indivíduo de competência indiscutível em determinado assunto”[2]. Tendo isto em vista, não podemos ser indiferentes com uma autoridade, não podemos simplesmente ignorar o que ele nos diz. Feito um pedido é para ser atendido, dada uma ordem é para ser obedecida.

Dentro da responsabilidade que recebemos, temos que levar em consideração quem a designou, que no nosso caso foi Aquele que possui toda a autoridade. Como Aurélio mesmo definiu, Aquele que possui toda competência em todo e qualquer assunto, Jesus Cristo, de quem um pedido devemos considerar uma ordem, a quem devemos obediência incondicional.

 

A proposta de Jesus

Além da prerrogativa, Jesus faz uma proposta aos Seus discípulos, que na verdade é uma ordem. No versículo 19 de Mateus 28 Ele diz: “… ide e fazei discípulos de todas as nações…”. Jesus Cristo não deixou implícito e muito menos explícito que o testemunhar, o proclamar as Boas Novas poderia ser opcional. Ele não chegou para os discípulos e disse: no dia em que vocês estiverem animados, com vontade e tempo sobrando, por favor considerem a possibilidade de fazer alguns discípulos. O verbo usado neste versículo é um imperativo, maqhteuvsate (matheteusate) “… fazei discípulos…“, que expressa uma ordem, e como toda ordem dada é para ser obedecida sem restrições, esta com certeza também é, principalmente vindo de quem veio (Jesus Cristo).

Jesus Cristo com todo o Seu poder e autoridade, apresentou aos Seus discípulos, bem como a todo cristão, a Sua proposta: fazer testemunhas, ou testemunhar a todo indivíduo de todos os lugares. Desta forma inseriu a todo cristão em Seu programa de formar adoradores, fazendo com que deixem de ser meramente adoradores.

 

O programa apresentado por Jesus

A ordem foi dada, mas como cumpri-la? Como fazer discípulos? Jesus não deu a ordem e simplesmente deixou a todos sem orientação de como executá-la, Ele deixou em Mateus 28.19-20 um programa a ser seguido, que mostra como cada cristão pode fazer discípulos.

O primeiro passo apresentado é “ir”, ou seja, tomar atitude, movimentar-se, sair do local onde você se encontra e ir em busca de almas perdidas. Como pode um cristão testemunhar para alguém se não se mobilizar a aproximar-se dos perdidos para falar-lhes a respeito do caminho que os livra da perdição?

Nenhum cristão pode viver fechado em uma grande redoma onde há somente cristãos, em que para entrar nela o pré-requisito é ser cristão. Para se cumprir o mandamento de fazer discípulos o cristão não pode perder o contato com o mundo. Normalmente, depois de um ano de conversão, as pessoas perdem quase todo o contato com o mundo, e quando falo mundo me refiro não aos prazeres e valores do mundo, mas às pessoas que estão no mundo, vivendo deste mundo. O relacionamento com os amigos é abruptamente cortado e começa-se então a viver na grande redoma de cristãos. Fica aí uma grande questão: Como alcançar os não-cristãos se não sair desta grande redoma e ir ao encontro deles?

Jesus intercedendo junto ao Pai em favor dos Seus discípulos disse: “Não peço que os tires do mundo; e, sim, que os guardes do mal” (Jo 17.15). Jesus deixou claro aqui que não faz parte dos Seus planos tirar ou isolar os cristãos deste mundo. Com certeza é um desafio viver neste mundo, e Jesus também está ciente disto, tanto que Ele ainda pede pela santificação dos Seus (Jo 17.17). O desafio é viver neste mundo sem perder o contato com os não-cristãos, mas não abrir mão do padrão de vida que Deus requer dos Seus discípulos.

O segundo passo do processo apresentado por Jesus é “batizar”. O batismo não é simplesmente o ato de mergulhar nas águas. O batismo é a demonstração pública do reconhecimento de Jesus Cristo como sendo o único e suficiente salvador da alma perdida. O programa de fazer discípulos envolve o batismo.

E por fim, Jesus apresenta o terceiro passo que é “ensinar”. Jesus mostra aqui que o programa de fazer discípulos não se encerra no batismo, mas envolve também ensinar ao novo convertido todas as coisas que Ele nos ensinou, ensinar ao novo convertido o que as Escrituras dizem a respeito do andar de um cristão. Faz parte do programa orientar e instruir a pessoa como viver a vida cristã.

 

A promessa de Jesus

É  muito comum as pessoas se sentirem sozinhas em seu empenho de proclamar as Boas Novas. Sentem-se incapazes diante do desafio, porém Jesus fez uma promessa aos Seus discípulos, que é a de nunca deixá-los na mão. Jesus prometeu estar com os Seus discípulos todos os dias, em qualquer lugar que estivessem, até a consumação dos séculos (Mt 28.20).

Problemas e dificuldades sempre surgirão, pessoas interessadas e pessoas desinteressadas em ouvir as Boas Novas, pessoas sensíveis e pessoas de coração endurecido. O problema é que o homem tem a habilidade de focalizar as dificuldades encontradas de tal forma que se esquece que não está sozinho nessa missão. Diante de tais situações Jesus manda ficar tranqüilo porque Ele está sempre ao lado e fará a Sua parte, jamais abandonará o barco em que se encontram os Seus pescadores.

Deus conferiu aos cristãos o ministério da reconciliação (2 Co 5.18-21). Ele é por natureza O Salvador, isto faz parte do Seu caráter, salvar. Foi Deus quem desenvolveu o plano de Salvação para a humanidade e comissionou a Igreja para espalhar essas boas notícias. O motivo maior de ainda haver cristãos neste mundo é para cumprir o propósito evangelístico de Deus. Nós cristãos, somos instrumentos de Deus para arrebanhar os Seus. Como o salmista afirmou, com toda certeza a glória do Senhor encherá a terra. É um grande privilégio fazermos parte deste projeto de Deus. Diante desta responsabilidade há a necessidade de nos empenharmos em proclamar Jesus Cristo a todas pessoas de todos os lugares e em todo e qualquer momento.

Cientes de que evangelizar é uma ordem e foi dada por Deus, cientes também do programa apresentado por Ele e que Ele está sempre presente capacitando e orientando a cada cristão, o mínimo que podemos fazer é gastar nossa vida para cumprir com excelência essa tarefa que é tão preciosa para Deus.


[1] Este tópico foi baseado em uma aula ministrada pelo Pr. Fernando G. Leite, em um curso sobre evangelismo, na Igreja Batista Cidade Universitária, em fevereiro de 1999.

[2] FERREIRA, Aurélio Buarque de Olanda. Novo dicionário da língua portuguesa. 2. Ed. Rio de Janeiro: Fronteira, 1986. p. 204.