Observações à Doutrina da Trindade


“Quando falamos em Trindade de Deus, nos referimos a uma trindade em unidade e em uma unidade que é trina”

Louis Berkhof, Teologia Sistemática. Pp.80

“A doutrina da trindade não afirma o absurdo lógico de que três é um e um é três. Ela descreve, em termos dialéticos, o movimento interno da vida divina como uma eterna separação de si mesma e o retorno a si mesma”

Paul Tillich, Teologia Sistemática. Pp.54

“Podemos definir a doutrina da Trindade do seguinte modo: Deus existe eternamente como três pessoas – Pai, Filho e Espírito Santo – e cada pessoa é plenamente Deus e existe apenas um Deus”

Wayne Gruden, Teologia Sistemática. Pp.165

“O monoteísmo trinitário não é uma questão com o número três. É uma caracterização qualitativa e não quantitativa de Deus. É uma tentativa de falar do Deus vivo: o Deus em quem estão unidos o último e o concreto”

Paul Tillich, Teologia Sistemática. Pp.193.

Ao observar essas citações confrontativas, percebemos que o conceito da Trindade embora seja aceito por grande parte dos Teólogos Cristãos é expressa de modo diferente. Isso nos ajuda a compreender um pouco do dilema que ainda em nossos dias a doutrina da Trindade causa. Por isso, vamos observar abaixo um pouco da doutrina da Trindade na conceituação teológica e nas escrituras, com a intenção de lançar luz ao conhecimento de Deus. Também citaremos brevemente algumas teorias sobre a Trindade, a relação entre Unidade e Diversidade na Trindade para finalmente trataremos da relação da Trindade e da Salvação.

A.     Conceituações Teológicas

“Pretendo aqui expor o mistério da trindade, o melhor que posso fazê-lo, ao mesmo tempo que, de um lado, deixo clara a minha admiração pelo brilhantismo criativo e cognitivo do conceito e, de outro, afirmo minha perplexidade diante do atrevimento e do escândalo inerentes a esse mesmo dogma”

Harold BloomJesus e Javé. Pp. 119.

Harold Bloom é professor na Yale University e na New York University e famoso crítico de poesia. Crítico a fé cristã como judeu de nasceimento, mas sem considerar-se como da Aliança (religião), escreve um conturbado livro para expor sua visão sobre a relação entre Javé (o Deus judeus do VT) e Jesus (o Deus cristão do NT). Esse livro, além de reconhecimento mundial, também levou a fama de um brilhante e provocativo estudo[1].

Para ele, a doutrina da trindade é uma grande invenção da criatividade cristão antiga, uma tentativa de conciliar o monoteísmo judaico com o politeísmo pagão. Para Bloom, quando Constantino unificou o império ele “astutamente reconheceu em Jesus Cristo a continuidade da tradição pagã[2]“. De opinião forte e grande influência, Bloom é uma espécie de representante da crítica a fé cristã nos nossos dias feita por pessoas fora da oikia da teologia, mas não é o único nem o primeiro ou o último.

Na bem da verdade, a doutrina da Trindade, desde que foi sistematizada tem sido palco para discussões e controvérsias teológicas. Lous Berkhof acredita que por influência da mentalidade judaica na raiz do cristianismo, que enfatizava exclusivamente a unidade de Deus, a distinção entre as pessoas da Divindade foi ou eliminada por alguns ou apresentada sem devida justiça à segunda ou terceira pessoa da trindade[3]. Já Tillich lembra que em algumas obras teológicas do passado a Trindade chegou a ser tratada de modo quase binária, em função do rebaixamento da dignidade da pessoa do Espírito Santo. Em outros casos, chegou a ser tratada quase que como uma quatrindade pela forma que tratavam a substância comum entre as três pessoas da trindade[4].

De qualquer forma, desde que Tertuliano formulou a expressão “Trindade[5]  ela tem sido objeto de divergência de opiniões. A Nova Escola[6] eventualmente ataca a doutrina por afirmar que tal conceito é uma invenção da Igreja instituição no passado. Bart Ehrman é um bom exemplo dessa escola.

Em seu livro O que Jesus disse? O que Jesus não disse? ele apresenta grandes interrogações na manutenção histórica do texto das escrituras, mas sua intenção não e apenas levantar objeções à ação de Deus em manter o texto, mas de atacar a Cristologia do NT e da fé cristã. Uma das formas com que faz isso é colocando em dúvida a doutrina da Trindade.

Sua dúvida sobre o ensino da Trindade não é uma mera rejeição à idéia do cristianismo como religião, é (segundo a nova escola) uma conclusão acadêmica, fruto de estudos coerentes com a pesquisa científica de documentos escritos no passado. Segundo Ehrman, um dos trunfos que esteve a disposição dos cristãos históricos foi a passagem de 1 João 5.7-8 (também conhecida como parêntesis joanino): “Pois há três que dão testemunho [no céu: o Pai, a Palavra e o Espírito Santo; e estes três são um]. E três são os que testificam na terra: o Espírito, a água e o sangue, e os três são unânimes num só propósito”. A parte entre chaves e em itálico no texto é fruto de um problema de crítica textual, que muitos acadêmicos dos nossos dias, inclusive os cristãos entendem que não faz parte do texto original[7]. Sobre isso ele diz que esse parêntesis “representa a ocorrência mais óbvia de corrupção motivada por teologia em toda tradição manuscrita do Novo Testamento[8]“.

Ehrman ainda nos lembra que Erasmo na primeira edição do seu texto grego (1516) não havia encontrado registros desse verso nos materiais que teve acesso e por isso havia retirado do texto. Além disso, ele acrescenta que é bem provável que essa leitura seja uma produção desse período histórico, onde alguém tomou essa sentença do texto latino[9]. Seja como for, temos a impressão que a falta explícita da palavra trindade, ou da sistematização em uma única sentença do seu conceito faz a nova escola crer e ensinar a existência de um mito trinitário.

Embora a academia teológica dos nossos dias tenha dificuldades com o conceito, isso não é mérito da nossa era. Sabélio[10], um “cristão” do terceiro século ensinava que o Pai havia se encarnado no Filho e que o próprio Pai havia padecido na cruz[11]. Essa ideologia foi também representada nos ensinos de Práxeas[12]. Seu principal oponente foi Tertuliano que denominou a teoria de Patripassionismo[13]. Em tempos posteriores essa ideologia tomou novas formas, muito embora sob a responsabilidade de Sabélio. O Sabelianismo também é uma forma de aludir a um conhecimento da Trindade sobre o qual as pessoas da trindade não são vistas como pessoas, mas como modos de atuação de Deus. Essa ideologia também foi chamada de Modalismo. Tal ideologia afirma que Deus teria uma substância indivisível, mas dividido em três atividades fundamentais, ou modos, manifestando-se sucessivamente como o Pai (criador e legislador), Filho (o redentor), e o Espírito Santo (o criador da vida, e a divina presença no homem)[14].

É importante frisar que religiões “cristãs” dos nossos dias também têm suas próprias opiniões sobre a Trindade. Existem aqueles que denominam cristãos antitrinitários, como o caso dos Cristadélfos. Essa doutrina é bem conhecida pela obra Um Manual de Estudo revelando a alegria e a paz do verdadeiro cristianismo escrita por Duncan Heaster. Para eles, nem a palavra trindade nem seu conceito aparecem nas escrituras e por isso não pode ser verdadeira. Deus Pai é o Deus supremo, mais poderoso e exaltado que o Filho. Como unitaristas[15] acreditam que o Filho não existia eternamente, mas passou a existir ao nascer de Maria. Embora, quando assim anunciada, a doutrina dos cristadélfos seja similar à doutrina dos Testemunhas de Jeová ela tem outras peculiaridades, como a não crença no tormento eterno e outras rejeições menos importantes para nosso estudo aqui.

Vale a pena dizer que os Testemunhas de Jeová também podem ser incluídos entre os grupos contemporâneos de rejeição do conceito da Trindade, pois o consideram antibíblico e pagão. Para eles apenas o Jeová é o Deus verdadeiro e único. Jesus Cristo é considerado uma espécie de Deus, ou como sua tradução das escrituras, ele é [um] Deus. Já o Espírito santo é chamado de força ativa de Deus. Não precisamos fazer uma distinção entre pessoa e força para notarmos como eles tratam com desprezo o Espírito Santo.

Essa complexidade de conceituação e percepção teológica não ficou retida nos ambientes da crítica da fé, pois há ainda quem diga que mesmo entre os pais da igreja, a conceituação da Trindade era palco de pequenas diferenças. Os pais gregos viam uma essência e três substâncias enquanto os latinos viam uma essência e três pessoas, opção que veio a ser mais aceita e reconhecida. O que podemos perceber hoje é que, mesmo dentro do cristianismo ortodoxo vão encontrar suas distinções de conceito, ênfase e fundamento bíblico.

E, tendo dito isso, é possível conceituar a Trindade a partir das escrituras, ou será que é verdade que a Trindade é fruto da produção criativa da mentalidade cristão do passado? É possível encontrar alguma referência à Trindade no Velho Testamento? E o Novo Testamento, o que fala sobre o assunto? Abaixo, passo a focalizar o que entendo que as escrituras apresentam sobre a Trindade.

B.     Quais são as bases bíblicas da doutrina?

“A doutrina da trindade é explicitamente ensinada no Novo Testamento?”

Bart EhrmanO que Jesus disse? O que Jesus não disse? Pp. 218.

Palco de discussão teologia quanto a definição e compreensão por parte dos cristãos e completa rejeição por parte dos que estudam a teologia sem fé, a Trindade é fundamental para a cosmovisão, teologia e prática cristã. Mais importante do que isso: A doutrina da Trindade é claramente ensinada nas escrituras.

1.      Definição Pessoal Da Trindade

O conceito da Trindade é fundamento na compreensão da existência de três pessoas divinas distintas (diferente do unitarismo), que tem sua própria funcionalidade (diferente do unicismo), que coexistem desde a eternidade (diferente do modalismo), são unas em essência e propósito (diferente do politeísmo), reais e ativas no mundo desde sua fundação (diferente do ateísmo) e defendida pelas escrituras (diferente da nova escola). Considerando isso, abaixo passo a demonstrar ocasiões no Novo Testamento que apontam para a comprovação da sentença.

2.      Evidências Neo-Testamentárias

Na cena do batismo de Cristo, vemos uma situação interessante: “Batizado Jesus, saiu logo da água, e eis que se lhe abriram os céus, e viu o Espírito de Deus descendo como pomba, vindo sobre ele. E eis uma voz dos céus, que dizia: Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo” (Mt.3.16-17). Aquele que saiu da água foi chamado de Filho amado por uma voz que veio do céus quando o Espírito de Deus descia sobre ele. Nessa ocasião não vemos apenas três pessoas envolvidas em uma mesma situação, como as vemos em operações distintas.

Situação semelhante é encontrada na promessa de nascimento de Cristo feita por Gabriel a Maria: “Descerá sobre ti o Espírito Santo, e o poder do Altíssimo te envolverá com a sua sombra; por isso, também o ente santo que há de nascer será chamado Filho de Deus” (Lc.1.35). A palavra gr. para altíssimo (hupsistós) quando não é usada para descrever um local alto, ou um elevado grau de honra, é usado apenas em referência a Deus (Hb.7.1; cf. At.16.17; 7.8; Lc.8.28).

Outra situação que apresenta essa mesma idéia é a ordem de Cristo: “Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo” (Mt.28.19). Por que razão Cristo teria exigido que os cristãos que perpetuassem o ministério de Cristo deveriam batizar em nome do Espírito Santo se este não tem qualquer relação com o Pai e o Filho? Por que não apenas em nome do Pai, ou do Filho? Tenho a impressão que se Cristo fosse unicista ele teria dito para batizarem em nome do Espírito Santo, pois esse seria seu novo modo de atuação. Se fosse unitarista, teria dito para batizarem em nome do Deus Pai (Jeová), pois ele é o único Deus. Se fosse advogado da nova escola não teria dito nada, pois não teria a menor importância mesmo. Essa expressão de Cristo nessa ocasião parece bem significativa para a compreensão da Trindade.

No NT a Trindade é bem representada por três termos gregos que podem nos ajudar a visualizar com mais clareza a idéia da Trindade enraizada no modo como os escritores do NT escreviam e ensinavam. A primeira é a palavra “theós” significa Deus e é usada em referência a Deus, o Pai. A palavra “kyriós” significa Senhor e é usada com alguma freqüência em referência a Cristo, o Filho.  A última palavra já uma palavra um pouco mais genérica, mas de grande importância é a palavra “pneuma“, usada em referência ao Espírito Santo. Eventualmente essas três expressões são utilizadas em um mesmo contexto como se falassem de cada uma das pessoas da Trindade. Outro detalhe interessante é que além de retratar de modos diferentes cada uma das pessoas da Trindade, eventualmente representam ações diferentes, o que reforça a idéia trinitária da fé cristã.

Em 1Coríntios 12.4-6 os três termos apresentados são utilizados de modo muito interessante: “Ora, os dons são diversos, mas o Espírito é o mesmo. E também há diversidade nos serviços, mas o Senhor é o mesmo. E há diversidade nas realizações, mas o mesmo Deus é quem opera tudo em todos”. Em 2Coríntios 13.13 vemos um caso similar: “A graça do Senhor Jesus Cristo, e o amor de Deus, e a comunhão do Espírito Santo sejam com todos vós”. Em Efésios o mesmo parece acontecer: “há somente um corpo e um Espírito, como também fostes chamados numa só esperança da vossa vocação, há um só Senhor, uma só fé, um só batismo, um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, age por meio de todos e está em todos”[16].

Tal conceituação apresentada pelo NT sugere a distinção entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo, sua funcionalidade distinta, ainda que com o mesmo propósito e ainda apresentada pelas escrituras. Entretanto, falou pouco a personalidade de cada um deles e nada falou sobre sua divindade. É possível que tanto Pai, quando o Filho e o Espírito Santo sejam pessoas distintas e divinas ao mesmo tempo?

A primeira implicação em dizer que Pai, Filho e Espírito Santo são pessoas distintas é dizer que o Pai não é o Filho nem o Espírito Santo, nem o Filho o Pai ou o Espírito e nem o Espírito o Pai ou o Filho e isso pode ser demonstrado com relativa facilidade.

No evangelho de João lemos: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus” (Jo.1.1). Cada uma dessas sentenças pode ser usada como uma demonstração da íntima ligação existente entre o Pai e o Filho, pois Ele é existente desde sempre e é Deus. Entretanto, quando lemos que o Verbo (logos, Cristo) estava com Deus, percebemos que há uma clara distinção entre o Pai e o Filho. Outro detalhe é que entre o Filho e o Pai existe um relacionamento de amor, o que demonstra a distinção pessoal entre eles: “Pai, a minha vontade é que onde eu estou, estejam também comigo os que me deste, para que vejam a minha glória que me conferiste, porque me amaste antes da fundação do mundo” (Jo.17.24). Caso similar é visto em Hebreus 7.25: “Por isso, também pode salvar totalmente os que por ele se chegam a Deus, vivendo sempre para interceder por eles“. Ou seja, “afim de interceder por nós perante o Deus Pai, é necessário que Cristo seja uma pessoa distinta do Pai[17]”

É bem importante dizer que essa distinção também é apresentada como unidade no mesmo evangelho: “Eu e o Pai somos um” (Jo.10.30). Aqui vemos que a existência distinta da pessoa do Filho com o Pai não é uma rejeição da sua unidade (que arriscaria de chamar essencial), mas uma declaração da sua igual divindade.

Até aqui fica evidente a pessoalidade do Pai e do Filho, mas, que dizer do Espírito Santo? Ele é de fato uma pessoa? As escrituras ensinam assim?

Um leitura não muito aprofundada no Novo Testamento pode nos mostrar a pessoalidade do Espírito Santo. Algumas atividades são atribuídas a Ele que testificam sua pessoalidade. Por exemplo, em João 16.13 lemos: “quando vier, porém, o Espírito da verdade, ele vos guiará a toda a verdade; porque não falará por si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido e vos anunciará as coisas que hão de vir”. Nesse texto algumas das características que o Espírito Santo tem são inerentes à Sua pessoalidade[18].

Mas, por que não entendemos que essas ações do ES são extensões da própria pessoa de Deus? Não seria o poder de Deus ativo na vida das pessoas que daria a impressão de pessoalidade do ES? Não. Em João 14.26, lemos: “mas o Consolador, o Espírito Santo, a quem o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas e vos fará lembrar de tudo o que vos tenho dito”. Nesse texto fica evidente que o Pai não é o enviado e nem mesmo o Filho, pois o Consolador seria enviando em Seu nome. Ou seja, o Consolador (i.e. aquele que consola) além de ser habilitado a ensinar e fazer lembrar tudo o que Cristo teria dito é uma pessoa distinta do Pai e do Filho.

Mas, ainda tem um ponto importante a ser lembrado aqui, pois é uma certa afronta ao ideal TJ da pessoa do ES. São casos onde o Espírito Santo é apresentado como alguém com Poder e não como poder. Em Lucas 4.14 lemos: “Então, Jesus, no poder do Espírito, regressou para a Galiléia, e a sua fama correu por toda a circunvizinhança”. Se o ES é apenas uma força, um poder, como traduziríamos isso? Jesus voltou no poder da força? Em Atos 10.38, vemos algo similar: “como Deus ungiu a Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e com poder, o qual andou por toda parte, fazendo o bem e curando a todos os oprimidos do diabo, porque Deus era com ele”. Se o ES é apenas o poder de Deus, esses versos não fazem o menor sentido.

Bom, com a exposição já feita até aqui fica clarividente a existência de um Triunidade apresentada no Novo Testamento. Mas será que essa apresentação é uma criação dos autores neo-testamentários? Será que essa doutrina é uma rejeição ao monoteísmo judaico e uma aproximação (ainda que distante) do politeísmo grego? Será que o Velho Testamento pode nos ajudar a compreender a Trindade?

3.      Evidências Vétero-Testamentárias

A visão da teologia história sobre a Trindade no Velho Testamento é bem diversa. Berkhof nos lembra que para alguns Pais da igreja a Trindade teria sido completamente apresentada no Velho Testamento ao passo que os arminianos afirmam que não há dessa doutrina no VT. Ele também considera as duas opções erradas e complementa: “O Antigo Testamento não contém plena revelação da existência trinitária de Deus, mas contém várias indicações dela[19]”. É bem provável que Berkhof esteja certo, mas vamos observar o que o VT tem a nos informar sobre o assunto.

Normalmente a Trindade é defendida pela forma como Deus é apresentado no primeiro capítulo de Gênesis. Alguns teólogos apontam para o fato de que a pessoa de Deus está descrita no plural (Elohim). Uma vez que os judeus têm lido esse texto durante séculos e não apontaram a existência de vários deuses, podemos considerar isso uma situação interessante. McClaren sobre o assunto chegou a dizer: “O plural Elohim não é sobrevivência de um estágio politeísta, mas expressa a natureza divina em sua totalidade completa, incluindo uma pluralidade de pessoalidades[20]”. Entretanto, nos lembra Berkhof que embora o plural contenha a idéia de pluralidade de pessoas, não aponta para sua triunidade[21].

Ainda no primeiro capítulo de Gênesis uma expressão nos chama a atenção: “Façamos o homem” (v.26). Uma vez que vemos que existe uma pluralidade, não é de se espantar que use a primeira pessoa do plural para realizar algo tão majestoso como o homem. É bem verdade que é possível que esse plural seja um plural majestático. Entretanto, é interessante perceber que os autores neo-testamentários entendiam que Cristo tenha sido ativo na criação: “Havendo Deus, outrora, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias, nos falou pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, pelo qual também fez o universo” (Hb.1.1-2). Em João 1.3 ainda lemos: “Todas as coisas foram feitas por intermédio dele, e, sem ele, nada do que foi feito se fez“. Em nenhum momento vemos os autores neo-testamentários atribuírem tal idéia à Gênesis capítulo 1, isso é bem verdade, mas isso parece subentendido no seu parecer.

Assim, não considero um exagero encontrar um alusão à trindade aqui, até por que o Espírito de Deus também é mencionado nesse capítulo: “A terra, porém, estava sem forma e vazia; havia trevas sobre a face do abismo, e o Espírito de Deus pairava por sobre as águas” (Gn1.2). A ação atribuída aqui ao Espírito de Deus é muito interessante, pois, ainda que denote a idéia de sobrevoar ela também descreve uma forma de proteção. Em Deuteronômio 32.11-12, onde essa palavra é novamente usada, lemos: “Como a águia desperta a sua ninhada e voeja sobre os seus filhotes, estende as asas e, tomando-os, os leva sobre elas, assim, só o SENHOR o guiou, e não havia com ele deus estranho”. Considerando isso, é bem possível que essa seja uma alusão à participação criativa do ES no início, pelo menos essa é a opinião de Ryrie[22].

Outra situação, ainda em Gênesis que merece nossa atenção é vista na cena da queda: “Então, disse o SENHOR Deus: Eis que o homem se tornou como um de nós, conhecedor do bem e do mal; assim, que não estenda a mão, e tome também da árvore da vida, e coma, e viva eternamente” (Gn.3.22). Uma vez que o autor dessa expressão é o mesmo que escreveu o shema de Deuteronômio 6.4, não podemos supor que ele entenda a existência de muitos deuses. Mais uma vez, a pluralidade de Deus ficou evidente, muito embora não delineada em quantidade ou diferença de pessoa. Mas será que no VT temos algum indicativo disso?

Para responder a essa indagação podemos citar um texto que parece elucidar essa questão: “Chegai-vos a mim e ouvi isto: não falei em segredo desde o princípio; desde o tempo em que isso vem acontecendo, tenho estado lá. Agora, o SENHOR Deus me enviou a mim e o seu Espírito” (Is.48.16). Essa parece uma indicação muito interessante da Trindade no Velho Testamento, uma vez que o texto fala do Messias como enviado da parte de Deus com o Espírito. Em outro caso, o Messias fala sobre sua unção do Espírito e de Deus: “O Espírito do SENHOR Deus está sobre mim, porque o SENHOR me ungiu para pregar boas-novas aos quebrantados, enviou-me a curar os quebrantados de coração, a proclamar libertação aos cativos e a pôr em liberdade os algemados” (Is.61.1; cf. Lc.4.18). Isso parece deixar evidências nas páginas da teología histórica que apontam para uma compreensã primitiva do conceito da Trindade. Essa conclusão está em acordo com a revelação progressiva das escrituras.

 *   *   *

Até aqui, vemos que as escrituras defendem a doutrina da Trindade de modo muito peculiar. Por isso é importante se considerar a interação entre os dois testamentos e progressão da revelação. Para ilustrar esse princípio, cito mais uma vez Berkhof: “Se no Antigo Testamento Jeová é apresentado como o Redentor e Salvador de Seu povo (…) no Novo Testamento o Filho de Deus distingue-se nessa capacidade (…) E se no Antigo Testamento é Jeová que habita em Israel e nos corações dos que temem (…) no Novo Testamento é o Espírito Santo que habita na Igreja”. Assim, podemos ver que aquelas atividades que são apresentadas a Deus no Velho Testamentos são especificadas a pessoas diferentes no Novo Testamento e isso atesta tanto a divindade do Filho e do Espírito como sua própria unidade com Deus.

Mas, uma vez que fica evidente a doutrina ensinada pelas escrituras, precisamos fazer de sua aplicação. Pois, é possível que alguém possa ser salvo sem entender a Trindade? É possível que alguém possa ser salvo sem crer na Trindade? O que as escrituras nos ensinam?

C.     A Doutrina da Trindade e a Salvação

Essa pergunta é extremamente pertinente, e para vou respondê-la em quatro etapas.

  • Ninguém pode ser salvo sem a Trindade. Efésios capítulo 1 nos ajuda a compreender essa verdade de forma muito clara, pois as três pessoas da Trindade estão ativas na salvação dos homens. Deus Pai é responsável por todas as bênçãos celestiais e pela eleição e predestinação: “Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos tem abençoado com toda sorte de bênção espiritual nas regiões celestiais em Cristo, assim como nos escolheu, nele, antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele, e em amor nos predestinou para ele, para a adoção de filhos” (Ef.1.3-5). Já o Filho é o meio (critério, instrumento) pelo qual essa eleição e predestinação é realizada: “nos predestinou para ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade” (Ef.1.5). Entretanto é em Cristo que temos a Redenção e Graça: “para louvor da glória de sua graça, que ele nos concedeu gratuitamente no Amado, no qual temos a redenção, pelo seu sangue, a remissão dos pecados” (Ef.1.6-7). E o Espírito Santo é a garantia de que essa salvação será terminada no futuro, pois é Ele quem sela o salvo: “em quem também vós, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação, tendo nele também crido, fostes selados com o Santo Espírito da promessa; o qual é o penhor da nossa herança, até ao resgate da sua propriedade, em louvor da sua glória” (Ef.1.13-14). Essa breve exposição de Efésios capítulo um nos auxilia a compreender o papel de cada pessoa da Trindade na salvação do homem de modo que a afirmação inicial mostra-se verdadeira: Ninguém pode ser salvo sem a Trindade.
  • Eu acredito que uma pessoa pode ser salva sem entender a Trindade. Não acredito que a salvação esteja restrita àqueles que compreendem corretamente a Trindade, ou a divindade como um todo. Esse é o caso das crianças que por depositarem sua fé em Jesus Cristo como seu Salvador estão salvas sem que mesmo tenham conseguido definir a Trindade. Ou seja, sofreram a ação da Trindade, muito embora não a possam explicar. Esse é o caso da pessoa simples que atende ao chamado eficaz da Graça de Deus, deposita sua fé em Cristo como exclusivo Redentor e está salvo, muito embora, a complexidade da Trindade não lhe seja de completamente compreensível. Contam-se inumeráveis os cristãos que demonstram dificuldade em expressar sua visão da Trindade, embora creiam nela.
  • Em terceiro lugar, eu acredito que uma pessoa possa ser salva sem crer na Trindade. Ao observar as mensagens evangelísticas dos apóstolos em Atos não consigo ver uma ênfase se quer na doutrina da Trindade. Na primeira mensagem evangelística registrada em Atos e pessoa vemos algo quase incomum: Tanto o Espírito Santo tem parte significativa na pregação. Ele é apresentado como profecia de Deus no Velho Testamento (v.16-21) e é apresentado como aquele que batiza (v.38). Muito embora eles sejam citados, isso não se constitui uma definição de Trindade. O apelo não foi, creiam em Deus Pai, no Filho e no Espírito Santo e sejam salvos? Muito pelo contrário, o apelo foi pelo arrependimento e aceitação de Jesus como Cristo (v.36). A evidência da salvação seria o batismo. Mas, no decorrer do livro de Atos, vemos que isso passa a não acontecer mais, especialmente quando o evangelho chegou à regiões gentílicas. A própria pregação de Pedro a Cornélio (um prosélito) menciona rapidamente o Espírito Santo, mas nenhuma doutrina parece ser claramente ensinada. Mas nesse caso, temos certeza que seus ouvintes foram salvos. Isso também vale para as pregações de Paulo, que muito embora não fizesse uma apologia da Trindade, apresentava a Jesus Cristo como Salvador e muito criam e eram salvos. Vale ainda dizer que é bem provável que os cristãos dos dois primeiros séculos não tivessem uma formulação da Trindade, e ainda assim eram salvos. Ainda é válido acrescentar que são inúmeras as passagens que anunciam a centralidade de Cristo para salvação e não da doutrina da Trindade. Em Romanos 10.9, lemos: “Se, com a tua boca, confessares Jesus como Senhor e, em teu coração, creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo“. Muito embora a divindade de Cristo e a ação de Deus seja demonstrada aqui, a centralidade da fé soteriológica repousa sobre Cristo. Nada é mencionado sobre a Pessoa do Espírito Santo aqui, e isso não impede que as pessoas que tomarem de serem salvas. Paulo quando lembra os Coríntios do evangelho que promove a salvação (1Co.15.1-2) ele faz claras declarações da Pessoa de Cristo (1Co.15.3-4) e algumas inferências ao Deus Pai e nenhuma citação do Espírito Santo. A própria apresentação de Paulo da Salvação em Efésios 2 apresenta a Deus como rico em misericórdia, amoroso (v.4), doador da vida por meio da graça juntamente com Cristo (v.5), e com Cristo ele ressuscita e faz assentar nas regiões celestiais em Cristo (v.6) como demonstração para o futuro da sua rica graça (v.7). Ou seja, muito embora a ação do Pai e do Filho esteja claramente anunciada, o Espírito Santo novamente não é mencionado. Por isso acredito que aqueles que tiveram acesso à essas informações apostólicas podem ter acesso a salvação sem conseguir sistematizar a doutrina da Trindade. Por isso, quando digo que alguém possa ser salvo sem crer na Trindade penso na doutrina, no conteúdo da fé sistematizada, e não acredito haver fundamento para a salvação apenas pela fé trinitária.
  • Isso me leva a considerar a uma última consideração: não é possível alguém ser salvo e rejeitar a Trindade. Isso é diferente do que não crer. Essa distinção é importante, pois não crer pode significar não ter tido acesso à doutrina formalizada, como deve ser o caso de diversas etnias indígenas, que embora tenham Cristo como Salvado não tiveram um conhecimento sistematizado da Trindade. Por outro lado, rejeitar implica em ter conhecimento, mesmo que inadequado, e ainda assim ter completa antipatia a ele. Esse é o caso do Harold Bloom, que por mais impressionado que possa ficar com o conceito da Trindade afirma que ele é um absurdo. Mas, então, por que a salvação não pode ser desfrutada por pessoas que rejeitam a Trindade? Por que é impossível rejeitar a Trindade sem diminuição das pessoas da Trindade e quando isso ocorre com a pessoa de Cristo, a salvação está invariavelmente perdida. Esse é o caso do Testemunha de Jeová, que por atribuir a Cristo uma posição não divina, não pré-existente acaba por ser enquadrado entre aqueles que “negam que Jesus é o Cristo” (1Jo.2.22) e que por isso não tem nem o Pai nem o Filho. Esse é o caso dos gnósticos do passado que negavam a encarnação do Logos (1Jo.4.2) e também são chamados de impostores (gr. antíchristos) e falsos profetas (gr. pseudoprofétes).

Portanto, ainda que a doutrina da Trindade tenha grande valor soteriológico, não creio que a doutrina sistematizada seja o cerne conteúdo da fé soteriológica. A centralidade do conteúdo da fé que leva à salvação está sobre a Pessoa de Cristo e Sua Obra.


[1]É bem apropriado lembrar que o livro não se enquadra na categoria de estudo. Ele é melhor categorizado como um ataque.

[2] BLOOM, Harold, Jesus e Javé. Pp.121

[3] BERKHOF, Louis, Teologia Sistemática. Pp.79

[4] TILLICH, Paul, Teologia Sistemática. Pp.193-4.

[5] A definição de Tertuliano ainda parece bem equilibrada. No segundo capítulo da obra Contra Práxeas ele afirmou: “while the mystery of the dispensation is still guarded, which distributes the Unity into a Trinity, placing in their order the three Persons – the Father, the Son, and the Holy Ghost: three, however, not in condition, but in degree; not in substance, but in form; not in power, but in aspect; yet of one substance, and of one condition, and of one power, inasmuch as He is one God, from whom these degrees and forms and aspects are reckoned, under the name of the Father, and of the Son, and of the Holy Ghost“.

[6] Nova escola é uma expressão utilizada em referência a um modo de fazer teologia que ultrapassa os limites da fé (religiosa) e produz um novo modo de reflexão da divindade. Trata-se quase de uma visão humanista da religião e sua literatura sem qualquer compromisso com o aprendizado prático. Eventualmente é levada adiante por pessoas que rejeitam a idéia da divindade, ou que não afirmam haver relação entre o divino e o humano.

[7] GRUDEM, Wayne, Teologia Sistemática. Pp.169.

[8] EHRMAN, Bart, The Orthodox Corruption of the Scriptures. Pp.45

[9] EHRMAN, Bart, O que Jesus disse? O que Jesus não disse?. Pp. 91-2

[10] Sabélio foi um teólogo cristão, provavelmente nascido na Líbia ou Egito. Começou a tornar-se famoso quando foi para Roma e tornou-se líder daqueles que aceitaram a doutrina do monarquianismo modalista. Ele foi excomungado pelo Papa Calixto I no ano de 220.

[11] Vale a pena dizer que todas as concepções cristológicas não concordantes com o ensino apostólico também acabam por colocar em cheque a  doutrina da Trindade. Seja pela exclusiva humanidade, ou divindade, ou pela má compreensão do relacionamento do Pai com o Filho, a doutrina da trindade também é ferida.

[12] Sobre Práxeas, Tertulianos disse: “Com isto Praxeas fez um duplo serviço para o diabo em Roma: ele desviou a profecia para longe e a trouxe em heresia; pôs em vôo o Paracleto [Espírito Santo] e crucificou o Pai“.

[13] Patripassionismo significa o sofrimento do Pai (patris – pai; passus – sofrer)

[14] Esse tipo de visão é apresentada no livro Jesus e Javé de Harold Bloom. Nesse livro Bloom afirma divindade parece ser vista como o Deus legislador do passado, na existência de Jesus na história e na presença do Espírito Santo no presente.

[15] Conceito diferente de unicistas, que apresentam uma doutrina mais parecida com o Modalismo de Sabélio do que o Unitarismo judaico.

[16] Fora da literatura paulina, vemos exemplos similares em 1Pe.1.2; Judas 20-21.

[17] GRUDEN, Wayne, Teologia Sistemática. Pp.170

[18] Veja também: Jo.14.16; 15.26; At.8.29; 13.2; 15.28; 16.7-8; Rm.8.16; 26-27; 1Co.2.10, 11; 12.11; Ef.4.30

[19] BERKHOF, Louis, Teologia Sistemática. Pp.82.

[20] IN: BRANCOFT, Emery H., Teologia Elementar. Pp.43

[21] Idem.

[22] RYRIE, Charles, Bíblia Anotada.

Um comentário sobre “Observações à Doutrina da Trindade

  1. Abdias Caldas Junior

    Deus sendo perfeito em todos os seus atributos, a solidão seria uma imperfeição da divindade. Sendo três há a possibilidade de haver um eterno conselho entre as pessoas divinas (Is 14.26; Is 40.14; At 2.23; Ef 1.11).
    O Logos, palavra de Deus, estando em Deus como segunda pessoa e o Paráclito, Espírito de Deus, que por estar em Deus é santo, formam perfeitamente a tríade/una da divindade.

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