Base Bíblica da Doutrina da Trindade


“A doutrina da trindade é explicitamente ensinada no Novo Testamento?”

Bart Ehrman – O que Jesus disse? O que Jesus não disse? Pp. 218.

Palco de discussão teologia quanto a definição e compreensão por parte dos cristãos e completa rejeição por parte dos que estudam a teologia sem fé, a Trindade é fundamental para a cosmovisão, teologia e prática cristã. Mais importante do que isso: A doutrina da Trindade é claramente ensinada nas escrituras.

1.      Definição Pessoal Da Trindade

O conceito da Trindade é fundamento na compreensão da existência de três pessoas divinas distintas (diferente do unitarismo), que tem sua própria funcionalidade (diferente do unicismo), que coexistem desde a eternidade (diferente do modalismo), são unas em essência e propósito (diferente do politeísmo), reais e ativas no mundo desde sua fundação (diferente do ateísmo) e defendida pelas escrituras (diferente da nova escola). Considerando isso, abaixo passo a demonstrar ocasiões no Novo Testamento que apontam para a comprovação da sentença.

2.      Evidências Neo-Testamentárias

Na cena do batismo de Cristo, vemos uma situação interessante: “Batizado Jesus, saiu logo da água, e eis que se lhe abriram os céus, e viu o Espírito de Deus descendo como pomba, vindo sobre ele. E eis uma voz dos céus, que dizia: Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo” (Mt.3.16-17). Aquele que saiu da água foi chamado de Filho amado por uma voz que veio do céus quando o Espírito de Deus descia sobre ele. Nessa ocasião não vemos apenas três pessoas envolvidas em uma mesma situação, como as vemos em operações distintas.

Situação semelhante é encontrada na promessa de nascimento de Cristo feita por Gabriel a Maria: “Descerá sobre ti o Espírito Santo, e o poder do Altíssimo te envolverá com a sua sombra; por isso, também o ente santo que há de nascer será chamado Filho de Deus” (Lc.1.35). A palavra gr. para altíssimo (hupsistós) quando não é usada para descrever um local alto, ou um elevado grau de honra, é usado apenas em referência a Deus (Hb.7.1; cf. At.16.17; 7.8; Lc.8.28).

Outra situação que apresenta essa mesma idéia é a ordem de Cristo: “Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo” (Mt.28.19). Por que razão Cristo teria exigido que os cristãos que perpetuassem o ministério de Cristo deveriam batizar em nome do Espírito Santo se este não tem qualquer relação com o Pai e o Filho? Por que não apenas em nome do Pai, ou do Filho? Tenho a impressão que se Cristo fosse unicista ele teria dito para batizarem em nome do Espírito Santo, pois esse seria seu novo modo de atuação. Se fosse unitarista, teria dito para batizarem em nome do Deus Pai (Jeová), pois ele é o único Deus. Se fosse advogado da nova escola não teria dito nada, pois não teria a menor importância mesmo. Essa expressão de Cristo nessa ocasião parece bem significativa para a compreensão da Trindade.

No NT a Trindade é bem representada por três termos gregos que podem nos ajudar a visualizar com mais clareza a idéia da Trindade enraizada no modo como os escritores do NT escreviam e ensinavam. A primeira é a palavra “theós” significa Deus e é usada em referência a Deus, o Pai. A palavra “kyriós” significa Senhor e é usada com alguma freqüência em referência a Cristo, o Filho.  A última palavra já uma palavra um pouco mais genérica, mas de grande importância é a palavra “pneuma“, usada em referência ao Espírito Santo. Eventualmente essas três expressões são utilizadas em um mesmo contexto como se falassem de cada uma das pessoas da Trindade. Outro detalhe interessante é que além de retratar de modos diferentes cada uma das pessoas da Trindade, eventualmente representam ações diferentes, o que reforça a idéia trinitária da fé cristã.

Em 1Coríntios 12.4-6 os três termos apresentados são utilizados de modo muito interessante: “Ora, os dons são diversos, mas o Espírito é o mesmo. E também há diversidade nos serviços, mas o Senhor é o mesmo. E há diversidade nas realizações, mas o mesmo Deus é quem opera tudo em todos”. Em 2Coríntios 13.13 vemos um caso similar: “A graça do Senhor Jesus Cristo, e o amor de Deus, e a comunhão do Espírito Santo sejam com todos vós”. Em Efésios o mesmo parece acontecer: “há somente um corpo e um Espírito, como também fostes chamados numa só esperança da vossa vocação, há um só Senhor, uma só fé, um só batismo, um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, age por meio de todos e está em todos”[16].

Tal conceituação apresentada pelo NT sugere a distinção entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo, sua funcionalidade distinta, ainda que com o mesmo propósito e ainda apresentada pelas escrituras. Entretanto, falou pouco a personalidade de cada um deles e nada falou sobre sua divindade. É possível que tanto Pai, quando o Filho e o Espírito Santo sejam pessoas distintas e divinas ao mesmo tempo?

A primeira implicação em dizer que Pai, Filho e Espírito Santo são pessoas distintas é dizer que o Pai não é o Filho nem o Espírito Santo, nem o Filho o Pai ou o Espírito e nem o Espírito o Pai ou o Filho e isso pode ser demonstrado com relativa facilidade.

No evangelho de João lemos: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus” (Jo.1.1). Cada uma dessas sentenças pode ser usada como uma demonstração da íntima ligação existente entre o Pai e o Filho, pois Ele é existente desde sempre e é Deus. Entretanto, quando lemos que o Verbo (logos, Cristo) estava com Deus, percebemos que há uma clara distinção entre o Pai e o Filho. Outro detalhe é que entre o Filho e o Pai existe um relacionamento de amor, o que demonstra a distinção pessoal entre eles: “Pai, a minha vontade é que onde eu estou, estejam também comigo os que me deste, para que vejam a minha glória que me conferiste, porque me amaste antes da fundação do mundo” (Jo.17.24). Caso similar é visto em Hebreus 7.25: “Por isso, também pode salvar totalmente os que por ele se chegam a Deus, vivendo sempre para interceder por eles“. Ou seja, “afim de interceder por nós perante o Deus Pai, é necessário que Cristo seja uma pessoa distinta do Pai[17]

É bem importante dizer que essa distinção também é apresentada como unidade no mesmo evangelho: “Eu e o Pai somos um” (Jo.10.30). Aqui vemos que a existência distinta da pessoa do Filho com o Pai não é uma rejeição da sua unidade (que arriscaria de chamar essencial), mas uma declaração da sua igual divindade.

Até aqui fica evidente a pessoalidade do Pai e do Filho, mas, que dizer do Espírito Santo? Ele é de fato uma pessoa? As escrituras ensinam assim?

Um leitura não muito aprofundada no Novo Testamento pode nos mostrar a pessoalidade do Espírito Santo. Algumas atividades são atribuídas a Ele que testificam sua pessoalidade. Por exemplo, em João 16.13 lemos: “quando vier, porém, o Espírito da verdade, ele vos guiará a toda a verdade; porque não falará por si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido e vos anunciará as coisas que hão de vir”. Nesse texto algumas das características que o Espírito Santo tem são inerentes à Sua pessoalidade[18].

Mas, por que não entendemos que essas ações do ES são extensões da própria pessoa de Deus? Não seria o poder de Deus ativo na vida das pessoas que daria a impressão de pessoalidade do ES? Não. Em João 14.26, lemos: “mas o Consolador, o Espírito Santo, a quem o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas e vos fará lembrar de tudo o que vos tenho dito”. Nesse texto fica evidente que o Pai não é o enviado e nem mesmo o Filho, pois o Consolador seria enviando em Seu nome. Ou seja, o Consolador (i.e. aquele que consola) além de ser habilitado a ensinar e fazer lembrar tudo o que Cristo teria dito é uma pessoa distinta do Pai e do Filho.

Mas, ainda tem um ponto importante a ser lembrado aqui, pois é uma certa afronta ao ideal TJ da pessoa do ES. São casos onde o Espírito Santo é apresentado como alguém com Poder e não como poder. Em Lucas 4.14 lemos: “Então, Jesus, no poder do Espírito, regressou para a Galiléia, e a sua fama correu por toda a circunvizinhança”. Se o ES é apenas uma força, um poder, como traduziríamos isso? Jesus voltou no poder da força? Em Atos 10.38, vemos algo similar: “como Deus ungiu a Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e com poder, o qual andou por toda parte, fazendo o bem e curando a todos os oprimidos do diabo, porque Deus era com ele”. Se o ES é apenas o poder de Deus, esses versos não fazem o menor sentido.

Bom, com a exposição já feita até aqui fica clarividente a existência de um Triunidade apresentada no Novo Testamento. Mas será que essa apresentação é uma criação dos autores neo-testamentários? Será que essa doutrina é uma rejeição ao monoteísmo judaico e uma aproximação (ainda que distante) do politeísmo grego? Será que o Velho Testamento pode nos ajudar a compreender a Trindade?

3.      Evidências Vétero-Testamentárias

A visão da teologia história sobre a Trindade no Velho Testamento é bem diversa. Berkhof nos lembra que para alguns Pais da igreja a Trindade teria sido completamente apresentada no Velho Testamento ao passo que os arminianos afirmam que não há dessa doutrina no VT. Ele também considera as duas opções erradas e complementa: “O Antigo Testamento não contém plena revelação da existência trinitária de Deus, mas contém várias indicações dela[19]“. É bem provável que Berkhof esteja certo, mas vamos observar o que o VT tem a nos informar sobre o assunto.

Normalmente a Trindade é defendida pela forma como Deus é apresentado no primeiro capítulo de Gênesis. Alguns teólogos apontam para o fato de que a pessoa de Deus está descrita no plural (Elohim). Uma vez que os judeus têm lido esse texto durante séculos e não apontaram a existência de vários deuses, podemos considerar isso uma situação interessante. McClaren sobre o assunto chegou a dizer: “O plural Elohim não é sobrevivência de um estágio politeísta, mas expressa a natureza divina em sua totalidade completa, incluindo uma pluralidade de pessoalidades[20]“. Entretanto, nos lembra Berkhof que embora o plural contenha a idéia de pluralidade de pessoas, não aponta para sua triunidade[21].

Ainda no primeiro capítulo de Gênesis uma expressão nos chama a atenção: “Façamos o homem” (v.26). Uma vez que vemos que existe uma pluralidade, não é de se espantar que use a primeira pessoa do plural para realizar algo tão majestoso como o homem. É bem verdade que é possível que esse plural seja um plural majestático. Entretanto, é interessante perceber que os autores neo-testamentários entendiam que Cristo tenha sido ativo na criação: “Havendo Deus, outrora, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias, nos falou pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, pelo qual também fez o universo” (Hb.1.1-2). Em João 1.3 ainda lemos: “Todas as coisas foram feitas por intermédio dele, e, sem ele, nada do que foi feito se fez“. Em nenhum momento vemos os autores neo-testamentários atribuírem tal idéia à Gênesis capítulo 1, isso é bem verdade, mas isso parece subentendido no seu parecer.

Assim, não considero um exagero encontrar um alusão à trindade aqui, até por que o Espírito de Deus também é mencionado nesse capítulo: “A terra, porém, estava sem forma e vazia; havia trevas sobre a face do abismo, e o Espírito de Deus pairava por sobre as águas” (Gn1.2). A ação atribuída aqui ao Espírito de Deus é muito interessante, pois, ainda que denote a idéia de sobrevoar ela também descreve uma forma de proteção. Em Deuteronômio 32.11-12, onde essa palavra é novamente usada, lemos: “Como a águia desperta a sua ninhada e voeja sobre os seus filhotes, estende as asas e, tomando-os, os leva sobre elas, assim, só o SENHOR o guiou, e não havia com ele deus estranho”. Considerando isso, é bem possível que essa seja uma alusão à participação criativa do ES no início, pelo menos essa é a opinião de Ryrie[22].

Outra situação, ainda em Gênesis que merece nossa atenção é vista na cena da queda: “Então, disse o SENHOR Deus: Eis que o homem se tornou como um de nós, conhecedor do bem e do mal; assim, que não estenda a mão, e tome também da árvore da vida, e coma, e viva eternamente” (Gn.3.22). Uma vez que o autor dessa expressão é o mesmo que escreveu o shema de Deuteronômio 6.4, não podemos supor que ele entenda a existência de muitos deuses. Mais uma vez, a pluralidade de Deus ficou evidente, muito embora não delineada em quantidade ou diferença de pessoa. Mas será que no VT temos algum indicativo disso?

Para responder a essa indagação podemos citar um texto que parece elucidar essa questão: “Chegai-vos a mim e ouvi isto: não falei em segredo desde o princípio; desde o tempo em que isso vem acontecendo, tenho estado lá. Agora, o SENHOR Deus me enviou a mim e o seu Espírito” (Is.48.16). Essa parece uma indicação muito interessante da Trindade no Velho Testamento, uma vez que o texto fala do Messias como enviado da parte de Deus com o Espírito. Em outro caso, o Messias fala sobre sua unção do Espírito e de Deus: “O Espírito do SENHOR Deus está sobre mim, porque o SENHOR me ungiu para pregar boas-novas aos quebrantados, enviou-me a curar os quebrantados de coração, a proclamar libertação aos cativos e a pôr em liberdade os algemados” (Is.61.1; cf. Lc.4.18). Isso parece deixar evidências nas páginas da teología histórica que apontam para uma compreensã primitiva do conceito da Trindade. Essa conclusão está em acordo com a revelação progressiva das escrituras.

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Até aqui, vemos que as escrituras defendem a doutrina da Trindade de modo muito peculiar. Por isso é importante se considerar a interação entre os dois testamentos e progressão da revelação. Para ilustrar esse princípio, cito mais uma vez Berkhof: “Se no Antigo Testamento Jeová é apresentado como o Redentor e Salvador de Seu povo (…) no Novo Testamento o Filho de Deus distingue-se nessa capacidade (…) E se no Antigo Testamento é Jeová que habita em Israel e nos corações dos que temem (…) no Novo Testamento é o Espírito Santo que habita na Igreja”. Assim, podemos ver que aquelas atividades que são apresentadas a Deus no Velho Testamentos são especificadas a pessoas diferentes no Novo Testamento e isso atesta tanto a divindade do Filho e do Espírito como sua própria unidade com Deus.

Mas, uma vez que fica evidente a doutrina ensinada pelas escrituras, precisamos fazer de sua aplicação. Pois, é possível que alguém possa ser salvo sem entender a Trindade? É possível que alguém possa ser salvo sem crer na Trindade? O que as escrituras nos ensinam?

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2 comentários sobre “Base Bíblica da Doutrina da Trindade

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