Conceituações Teológicas da Trindade


“Pretendo aqui expor o mistério da trindade, o melhor que posso fazê-lo, ao mesmo tempo que, de um lado, deixo clara a minha admiração pelo brilhantismo criativo e cognitivo do conceito e, de outro, afirmo minha perplexidade diante do atrevimento e do escândalo inerentes a esse mesmo dogma”

Harold Bloom – Jesus e Javé. Pp. 119.

Harold Bloom é professor na Yale University e na New York University e famoso crítico de poesia. Crítico a fé cristã como judeu de nasceimento, mas sem considerar-se como da Aliança (religião), escreve um conturbado livro para expor sua visão sobre a relação entre Javé (o Deus judeus do VT) e Jesus (o Deus cristão do NT). Esse livro, além de reconhecimento mundial, também levou a fama de um brilhante e provocativo estudo[1].

Para ele, a doutrina da trindade é uma grande invenção da criatividade cristão antiga, uma tentativa de conciliar o monoteísmo judaico com o politeísmo pagão. Para Bloom, quando Constantino unificou o império ele “astutamente reconheceu em Jesus Cristo a continuidade da tradição pagã[2]“. De opinião forte e grande influência, Bloom é uma espécie de representante da crítica a fé cristã nos nossos dias feita por pessoas fora da oikia da teologia, mas não é o único nem o primeiro ou o último.

Na bem da verdade, a doutrina da Trindade, desde que foi sistematizada tem sido palco para discussões e controvérsias teológicas. Lous Berkhof acredita que por influência da mentalidade judaica na raiz do cristianismo, que enfatizava exclusivamente a unidade de Deus, a distinção entre as pessoas da Divindade foi ou eliminada por alguns ou apresentada sem devida justiça à segunda ou terceira pessoa da trindade[3]. Já Tillich lembra que em algumas obras teológicas do passado a Trindade chegou a ser tratada de modo quase binária, em função do rebaixamento da dignidade da pessoa do Espírito Santo. Em outros casos, chegou a ser tratada quase que como uma quatrindade pela forma que tratavam a substância comum entre as três pessoas da trindade[4].

De qualquer forma, desde que Tertuliano formulou a expressão “Trindade[5]  ela tem sido objeto de divergência de opiniões. A Nova Escola[6] eventualmente ataca a doutrina por afirmar que tal conceito é uma invenção da Igreja instituição no passado. Bart Ehrman é um bom exemplo dessa escola.

Em seu livro O que Jesus disse? O que Jesus não disse? ele apresenta grandes interrogações na manutenção histórica do texto das escrituras, mas sua intenção não e apenas levantar objeções à ação de Deus em manter o texto, mas de atacar a Cristologia do NT e da fé cristã. Uma das formas com que faz isso é colocando em dúvida a doutrina da Trindade.

Sua dúvida sobre o ensino da Trindade não é uma mera rejeição à idéia do cristianismo como religião, é (segundo a nova escola) uma conclusão acadêmica, fruto de estudos coerentes com a pesquisa científica de documentos escritos no passado. Segundo Ehrman, um dos trunfos que esteve a disposição dos cristãos históricos foi a passagem de 1 João 5.7-8 (também conhecida como parêntesis joanino): “Pois há três que dão testemunho [no céu: o Pai, a Palavra e o Espírito Santo; e estes três são um]. E três são os que testificam na terra: o Espírito, a água e o sangue, e os três são unânimes num só propósito”. A parte entre chaves e em itálico no texto é fruto de um problema de crítica textual, que muitos acadêmicos dos nossos dias, inclusive os cristãos entendem que não faz parte do texto original[7]. Sobre isso ele diz que esse parêntesis “representa a ocorrência mais óbvia de corrupção motivada por teologia em toda tradição manuscrita do Novo Testamento[8]“.

Ehrman ainda nos lembra que Erasmo na primeira edição do seu texto grego (1516) não havia encontrado registros desse verso nos materiais que teve acesso e por isso havia retirado do texto. Além disso, ele acrescenta que é bem provável que essa leitura seja uma produção desse período histórico, onde alguém tomou essa sentença do texto latino[9]. Seja como for, temos a impressão que a falta explícita da palavra trindade, ou da sistematização em uma única sentença do seu conceito faz a nova escola crer e ensinar a existência de um mito trinitário.

Embora a academia teológica dos nossos dias tenha dificuldades com o conceito, isso não é mérito da nossa era. Sabélio[10], um “cristão” do terceiro século ensinava que o Pai havia se encarnado no Filho e que o próprio Pai havia padecido na cruz[11]. Essa ideologia foi também representada nos ensinos de Práxeas[12]. Seu principal oponente foi Tertuliano que denominou a teoria de Patripassionismo[13]. Em tempos posteriores essa ideologia tomou novas formas, muito embora sob a responsabilidade de Sabélio. O Sabelianismo também é uma forma de aludir a um conhecimento da Trindade sobre o qual as pessoas da trindade não são vistas como pessoas, mas como modos de atuação de Deus. Essa ideologia também foi chamada de Modalismo. Tal ideologia afirma que Deus teria uma substância indivisível, mas dividido em três atividades fundamentais, ou modos, manifestando-se sucessivamente como o Pai (criador e legislador), Filho (o redentor), e o Espírito Santo (o criador da vida, e a divina presença no homem)[14].

É importante frisar que religiões “cristãs” dos nossos dias também têm suas próprias opiniões sobre a Trindade. Existem aqueles que denominam cristãos antitrinitários, como o caso dos Cristadélfos. Essa doutrina é bem conhecida pela obra Um Manual de Estudo revelando a alegria e a paz do verdadeiro cristianismo escrita por Duncan Heaster. Para eles, nem a palavra trindade nem seu conceito aparecem nas escrituras e por isso não pode ser verdadeira. Deus Pai é o Deus supremo, mais poderoso e exaltado que o Filho. Como unitaristas[15] acreditam que o Filho não existia eternamente, mas passou a existir ao nascer de Maria. Embora, quando assim anunciada, a doutrina dos cristadélfos seja similar à doutrina dos Testemunhas de Jeová ela tem outras peculiaridades, como a não crença no tormento eterno e outras rejeições menos importantes para nosso estudo aqui.

Vale a pena dizer que os Testemunhas de Jeová também podem ser incluídos entre os grupos contemporâneos de rejeição do conceito da Trindade, pois o consideram antibíblico e pagão. Para eles apenas o Jeová é o Deus verdadeiro e único. Jesus Cristo é considerado uma espécie de Deus, ou como sua tradução das escrituras, ele é [um] Deus. Já o Espírito santo é chamado de força ativa de Deus. Não precisamos fazer uma distinção entre pessoa e força para notarmos como eles tratam com desprezo o Espírito Santo.

Essa complexidade de conceituação e percepção teológica não ficou retida nos ambientes da crítica da fé, pois há ainda quem diga que mesmo entre os pais da igreja, a conceituação da Trindade era palco de pequenas diferenças. Os pais gregos viam uma essência e três substâncias enquanto os latinos viam uma essência e três pessoas, opção que veio a ser mais aceita e reconhecida. O que podemos perceber hoje é que, mesmo dentro do cristianismo ortodoxo vão encontrar suas distinções de conceito, ênfase e fundamento bíblico.

E, tendo dito isso, é possível conceituar a Trindade a partir das escrituras, ou será que é verdade que a Trindade é fruto da produção criativa da mentalidade cristão do passado? É possível encontrar alguma referência à Trindade no Velho Testamento? E o Novo Testamento, o que fala sobre o assunto? Abaixo, passo a focalizar o que entendo que as escrituras apresentam sobre a Trindade.

Clique aqui para continuar a ler o Artigo