Milagre de Cristo nos Evangélhos Sinóticos


Nos sinóticos, ainda que ênfases parecidas com a do quarto evangelho possam ser levantadas, é bem possível que o foco recaia sobre outros aspectos. O modo como são narrados os milagres nos sinóticos também apontam para um foco distinto em cada ocasião: ora os milagres são apenas mencionados genericamente sem descrição de detalhes (Mt.4.24; 8.16; 12.15; 14.14; 15.30; 21.14; Mc.1.34; 6.5; Lc.7.21; 9.42; 14.4; 22.51) , ora são completos e cheios de informação (Mt.9.32-39; Mc.2.3-12; 5.18-26). O que se pode concluir disto é que os autores arranjam os milagres para apresentação de propósitos específicos sem fazer demérito de uma ação em relação a outras, mas para fortalecer o que se pretende enfatizar.

Diante da grande diversidade de milagres operados por Cristo e narrados nos evangelhos sinóticos, faço aqui uma observação da linguagem de como se apresentam (de modo geral) os milagres de Cristo. O primeiro termo que destaco é dunamis[6], que eventualmente é traduzido como poder miraculoso (Mt.13.54; cf. 14.2). A idéia do termo é de algo que tem poder ou que o apresenta poderosamente, e comumente é relacionada com as atividades de Cristo. Essa demonstração de poder causa nas pessoas (não em todos os casos nem em todas as pessoas) um maravilhamento, admiração (gr. Exístemi/Thaubémai/Thaumázo/Ekpléssomai) pelo que tinham visto (Mt.8.27; 9.33; Mc.1.27; 5.42; Lc.4.36; 5.9). O termo mais usado para demonstrar essa admiração é thaumázo, que pode ser entendido como ser extraordinariamente impressionado ou perturbado por algo. Em alguns casos esse maravilhamento é seguido por um ato de glorificar a Deus (Mt.9.8; 15.31; Mc.2.12; Lc.5.25-26; 7.16). O ato de glorificar a Deus podia ser feito pela multidão que assistia o milagre ou pelo que recebera o milagre, mas de qualquer forma, era um modo de reconhecer a origem do ato milagroso que acontecera.

Entretanto, outro elemento decorrente do maravilhamento das multidões, e fundamental para a compreensão de Cristo nos sinóticos, é o Poder-Autoridade que é confirmado por meio de atos milagrosos. O termo grego que traduz essa idéia é exousia. Esse termo pode ser usado para descrever cargos de autoridade, o poder da pessoa que exerce tal cargo e a autoridade decorrida desse poder. Essa é uma marca muito interessante nos evangelhos sinóticos, pois não é incomum encontrarmos esse conceito. Quando os evangelistas registram o apreço das multidões pelo ensino de Cristo esse reconhecimento está invariavelmente presente (Mt.7.29; Mc.1.22; Lc.4.32). O mesmo reconhecimento é visto em relação aos atos milagrosos de Cristo.

Mateus quando narra a história da cura de um paralítico (Mt.9.1-8) afirma que Jesus o tendo visto teria dito: “Tende bom ânimo filho; estão perdoados os seus pecados” (v.2). Mas isso teria incitado nos fariseus um sentimento de rejeição sobre o que Cristo teria dito; na mentalidade deles isso era apenas possível de ser realizado por Deus, por isso o acusavam de blasfêmia. Sabendo disso, Jesus resolve evidenciar seu Poder-Autoridade (gr. exousia) ao curá-lo: “Ora, para que saibais que o Filho do Homem tem sobre a terra autoridade para perdoar pecados — disse, então, ao paralítico: Levanta-te, toma o teu leito e vai para tua casa” (v.6). O resultado obtido nessa ocasião foi: “Vendo isto, as multidões, possuídas de temor, glorificaram a Deus, que dera tal autoridade aos homens” (v.8).

Nessa caso[7] vemos quase todos os elementos encontrados nas narrativas dos sinóticos: O evento milagroso, o maravilhamento, a Glória dada a Deus e o reconhecimento do Poder-Autoridade que Cristo tinha. É bem verdade que alguns dos aspectos desse quadro eventualmente é faltoso em outros registros, muito embora, o reconhecimento ou a pergunta pelo reconhecimento do Poder-Autoridade de Cristo estivessem aparentes em quase todo ministério de Cristo: Os fariseus demonstram sua preocupação com a fonte do Poder-Autoridade de Cristo (Mt.21.23; Mc.11.28; Lc.20.2); as multidões ficavam, ora maravilhadas (Mt.9.8) ora temerosos ou com dúvidas (Mc.1.27; Lc.4.36). Mas, Cristo, sempre estava consciente de Sua Missão, Identidade e Seu Poder-Autoridade (Mt.28.19), e essa mesma missão delega a Seus discípulos, enquanto estava com eles (Mt.10.1; Mc.6.7; Lc.9.1). Após sua ressurreição além de delegar a Seus representantes que fizessem o mesmo Ele assegura que estará com Eles até o fim dos tempos (Mt.28.20).

Após essa breve introdução ao estudo dos milagres de Cristo nos sinóticos, passo abaixo a destacar duas categorias e duas características dos milagres narrados nos evangelhos sinóticos.

Poder-Autoridade sobre o Natural

Quando falo sobre o poder que Cristo tem sobre o que é natural tenho duas perspectivas distintas em mente: o poder que Ele tem sobre o homem (saúde, vida) e sobre a natureza (funcionamento).

  • § Sobre o Homem[8]: Uma das grandes marcas do ministério milagroso de Cristo está focado nos sinóticos em sua capacidade de ter domínio, controle, autoridade, poder sobre a saúde do homem. A grande maioria dos milagres nos sinóticos refere-se a esse tema. No caso da cura de um leproso (Mt.8.1-4; Mc.1.40-45; Lc. 5.12-16) podemos notar na narração dos três evangelistas que mesmo o leproso tinha convicção do Poder-Autoridade que Cristo tem sobre a doença, pois na aproximação que faz Cristo ele transparece confiança no poder, mas sua questão põe-se sobre a vontade do Senhor, ante quem está prostrado. Sobre esse tema é interessante notar que Cristo também é apresentado como Aquele que pode tornar à vida aquele que já estava morto. Dois casos são registrados nos sinóticos: A ressurreição da filha de Jairo (Mc.5.22-24; 35-43; Lc.8.41-42; 49-56) e a ressurreição do filho de uma viúva (Lc.7.11-15). No caso da filha de Jairo, é bem interessante que Jairo aproxima-se de Cristo como se aproximaria de alguém que tem autoridade: “vendo-o, prostrou-se a seus pés” (Mc.5.22; Lc.8.41). No ato de prostrar-se perante alguém é um modo de reconhecimento de Autoridade ou Divindade. Seria um pouco precipitado dizer que Jairo tinha a perspectiva da divindade de Cristo, mas sua ação nos deixa pensar nessa possibilidade. Seja como for, o desenrolar da história é bem provável que a fé de Jairo estivesse abalada, pois Jesus mesmo sugere: “Não temas, crê somente” (Mc.5.36; Lc.8.50). Não é muito claro que tipo de fé Jesus exige de Jairo nessa ocasião, mas é certo que toda a confiança dele repousava sobre o Poder-Autoridade que Cristo tinha para realizar algo que está contrário ao curso da natureza: dar vida ao morto. Tal pedido parece uma antítese para as pessoas que estavam na casa de Jairo, pois já não podiam acreditar no que Cristo dizia (Mc.5.40; Lc.8.53), quanto mais no que poderia fazer. Com a cura da menina, o maravilhamento toma conta dos pais que são convidados por Cristo para manter o relato entre eles. Se tomarmos a história como um todo, podemos dizer que a fé de Jairo repousou em Cristo e com a confirmação do milagre tal fé fora confirmada. Considerados esses pontos, podemos dizer com certeza que a relação de Cristo com a operação de milagres sobre as doenças tem por propósito evidenciar Seu Poder-Autoridade da parte de Deus como ratificação de Sua pessoa (Messias, Deus).
  • § Sobre a Natureza: Nos casos em que Cristo manifesta Seu Poder-Autoridade sobre a natureza certamente nos falam sobre Sua Pessoa. No caso da tempestade acalmada (Mt.8.23-27; Mc.4.35-41; Lc.8.22-25) vemos que a pergunta dos discípulos era exatamente sobre Sua Pessoa: “Quem é este que até os ventos e o mar lhe obedecem?” (Mt.8.27; Mc.4.41; Lc.8.25). Embora nenhuma conclusão dos seus discípulos seja dada, a pergunta pode ser entendida como retórica, pois ficou evidente que entre os homens, ninguém teria tal poder. Entretanto, quando Cristo anda sobre as águas, segundo o relato de Mateus, fica evidente que os Seus discípulos o reconheceram como Deus: “Verdadeiramente és Filho de Deus!” (Mt.14.33).

 

Poder-Autoridade sobre Sobrenatural

A relação de Cristo com o sobrenatural tem algumas características interessantes, especialmente no evangelho de Marcos. Segundo a narrativa das memórias petrinas, vemos que os reconhecimentos mais claros sobre a Pessoa de Cristo são oferecidos por demônios. No primeiro caso registrado no evangelho, lemos: “Não tardou que aparecesse na sinagoga um homem possesso de espírito imundo, o qual bradou: Que temos nós contigo, Jesus Nazareno? Vieste para perder-nos? Bem sei quem és: o Santo de Deus!” (Mc.1.23-24). Situação similar é encontrada no caso dos demônios gadarenos: “Que tenho eu contigo, Jesus, Filho do Deus Altíssimo? Conjuro-te por Deus que não me atormentes!” (Mc.5.7). É bem interessante que esse reconhecimento demorou a acontecer com os discípulos, a despeito de tudo o que testemunhavam.

É bem verdade que o Poder-Autoridade de Cristo não pode necessariamente apontar para sua Divindade, muito embora os demônios em Marcos assim o tenham feito, por que tal Poder-Autoridade da parte Cristo cedido aos discípulos resultou no mesmo efeito, exceto por uma vez (Mt.17.21; Mc.9.29). Entretanto, não podemos deixar de perguntar por essa possibilidade reconhecida pelos demônios. É bem verdade que a característica fundamental do Diabo e seus seguidores é a mentira e que no caso, nortear uma convicção sobre uma mensagem demoníaca seria um pouco frágil. Contudo, o contexto onde estão inseridas essas passagens demonstram um terrível pavor dos demônios na presença de Jesus e sua súplica para não serem atormentados por Sua Pessoa, nos leva a considerar que o Poder-Autoridade de Cristo no mundo sobrenatural é tão grande que nem mesmo as legiões podem com Ele. A própria submissão dos demônios à ordem de Cristo testificam Seu Poder-Autoridade.

Um dos aspectos que também é interessante é o tempo que Cristo investe nesses encontros. Salvo o caso dos demônios gadarenos, Cristo com apenas uma ordem simples resolve problemas que os tele-evangelistas gastariam dias: “Cala-te e sai desse homem” (Mc.1.25; Lc.4.35). E o resultado na vida do endemoninhado é impressionante: “O demônio, depois de o ter lançado por terra no meio de todos, saiu dele sem lhe fazer mal” (Lc.4.35). Contudo, o foco parece ser centrado na mensagem que isso transmite às pessoas que o assistem. Ao testemunharem a ação de Cristo, eles ficam grandemente admirados, e se pergunta,: “Que palavra é esta, pois, com autoridade e poder, ordena aos espíritos imundos, e eles saem?” (Lc.4.36). Assim, o que se pode dizer é que, quando Cristo manifesta seu Poder-Autoridade sobre o sobrenatural Ele testifica sua pessoa como Deus e Senhor sobre tudo.

Milagres e Incredulidade

Outro aspecto que é digno de rápida apresentação é que à semelhança do quarto evangelho, os milagres também exerceram grande papel na rejeição da Pessoa de Cristo. Muito embora existia o forte elemento evangelístico nos atos milagrosos operados por Cristo, nos sinóticos eles também foram mal interpretados: “Passou, então, Jesus a increpar as cidades nas quais ele operara numerosos milagres, pelo fato de não se terem arrependido: Ai de ti, Corazim! Ai de ti, Betsaida! Porque, se em Tiro e em Sidom se tivessem operado os milagres que em vós se fizeram, há muito que elas se teriam arrependido com pano de saco e cinza. E, contudo, vos digo: no Dia do Juízo, haverá menos rigor para Tiro e Sidom do que para vós outras. Tu, Cafarnaum, elevar-te-ás, porventura, até ao céu? Descerás até ao inferno; porque, se em Sodoma se tivessem operado os milagres que em ti se fizeram, teria ela permanecido até ao dia de hoje. Digo-vos, porém, que menos rigor haverá, no Dia do Juízo, para com a terra de Sodoma do que para contigo” (Mt.11.20-24; cf. Lc.10.13-16).

Milagres e confirmação Messiânica

É ainda válido demonstrar que os milagres de Cristo tem grande valor apologético, pois quando perguntado sobre quem Ele era, pelos discípulos de João, Jesus aludiu à profecias messiânicas: “És tu aquele que estava para vir ou havemos de esperar outro? E Jesus, respondendo, disse-lhes: Ide e anunciai a João o que estais ouvindo e vendo: os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados, e aos pobres está sendo pregado o evangelho” (Mt.11.4-5; cf. Is.35.5; 61.1-2).