A Mensagem dos Apóstolos


Mensagem dos Apostolos

O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplamos e as nossas mãos apalparam – isto proclamamos a respeito da Palavra da vida. A vida se manifestou; nós a vimos e dela testemunhamos, e proclamamos a vocês a vida eterna, que estava com o Pai e nos foi manifestada. Nós lhes proclamamos o que vimos e ouvimos para que vocês também tenham comunhão conosco. Nossa comunhão é com o Pai e com seu Filho Jesus Cristo. Escrevemos estas coisas para que a nossa alegria seja completa – 1João 1.1-4

Nos primeiros versos dessa epistola podemos encontrar o cerne da mensagem apostólica, e com ela nos ocupamos nesse estudo. Mesmo em uma leitura superficial podemos perceber um pouco as intenções de João ao escrever o que escreve. Em primeiro lugar podemos notar que o teor da escrita carrega uma alta dose de defesa da fé. A pessoa de Cristo tem lugar central nessa mensagem e sua adequada compreensão tem fundamental importância para João.

É possível que algumas das teorias sobre Cristo bem conhecidas no segundo século já fossem incipientes no fim do primeiro. A julgar pelo que João escreve aqui, acreditamos que ele expõe a compreensão correta de Cristo em oposição aos ensinos de Cerinto, um herege, que ensinou que Jesus era humano, mas ao ser batizado, o “Cristo” na forma de pomba, desceu sobre ele. Na cruz, o “Cristo” o deixou, e ele morreu sozinho, como homem. Entretanto, o que vemos nessa introdução está bem longe de conformar-se com essa idéia. Sobre Cerinto Stott disse:

“Demonstra-se ao seguidores de Cerinto que ‘a Palavra da Vida’ o evangelho de Cristo, tem que ver com a encarnação história do Filho Eterno. Aquele que é desde o princípio é Aquele a quem os apóstolos ouviram, viram e tocaram. É impossível distinguir entre Jesus e o Cristo, entre o histórico e o eterno” (Introdução e Comentário de 1João, pp.53).

É bem possível também que nessa introdução, João também combatesse aquilo que tem-se chamado proto-gnosticismo. Essa nomenclatura é devida ao fato de que o gnosticismo como religião/filosofia é bem conhecida a partir da segunda metade do segundo século. Entretanto, a forma como os autores neotestamentários atacaram idéias, que posteriormente foram identificadas com o gnosticismo, faz com que alguns acadêmicos acreditem que o gnosticismo já estava em formação no fim do primeiro século. De qualquer forma, o gnosticismo quando falou sobre Cristo o fez de vários modos: (1) seja na separação do Cristo (espiritual) e do Jesus (físico); (2) seja no não reconhecimento de sua humanidade, eles apresentavam um Cristo que não estava de acordo com a verdade. E parece que João dedica sua introdução epistolar para apresentar a perfeita harmonia que existe na pessoa de Cristo.

Outro grupo que poderia ser foco dessa introdução-apologética seriam os docéticos, movimento que margeou o cristianismo e defendia que Cristo não era humano, apenas parecia humano. O nome docético, provém do termo grego “dokéö” que significa parecer. Nessa breve introdução vemos que João claramente diz ter tocado em Cristo, o que confronta diretamente com a idéia docética de Cristo.

O ponto comum entre todas essas visões alternativas de Cristo era sua resistência ao conceito da encarnação do Verbo, tema importantíssimo na teologia de João. Influenciados pela mentalidade grega de que a matéria é má, eles não poderiam aceitar que o Logos, Cristo pudesse encarnar-se. Assim, rejeitavam o verdadeiro Cristo. Outro ponto de similaridade entre eles é que todos eles não eram testemunhas oculares da pessoa de Cristo, apenas haviam recebido a informação de terceiros. É bem possível que a partir desse ponto aproximaram suas crenças a novas informações e construíram sua própria versão de Cristo.

Deve ser por isso que João chama para os apóstolos a missão de proclamar a verdade sobre quem esse Cristo de fato é. Observe que em sua introdução João fala na primeira pessoa do plural o que nos faz pensar que ele não fala exclusivamente de si mesmo, mas do corpo de apóstolos autorizados da parte de Cristo para carregarem a verdade sobre quem Ele é. Observe que segundo essa introdução João diz que a vida manifestou-se, o que sugere que Ele fale do voluntariado de Cristo em tornar-se conhecido em forma humana. Mas, pouco a frente ele completa: “a vida eterna, que estava com o Pai e nos foi manifestada“.

Essa manifestação teve um alvo particular segundo João, e os apóstolos é que foram os receptores dessa manifestação em primeira mão. Eles são os que tinham convivido com Cristo; eles que haviam ouvido seus ensinamentos; e parece que João quer transparecer um pouco desse fato para combater visões erradas sobre quem Cristo é.

Contudo, mais interessante que isso é saber que agora esses apóstolos enviados da parte de Cristo são comissionados para transmitir essa verdade a nós: “nós a vimos e dela testemunhamos, e proclamamos a vocês“. É bem verdade que a expressão em negrito nesse verso trata-se dos leitores primários da carta, mas a manutenção histórica da mesma preserva seu testemunho e agora nós podemos desfrutar do relato de uma testemunha ocular de Cristo, que certamente pode dar um testemunho muito mais acurado sobre a verdade.

Corrobora com essa idéia os verbos empregados por João para descrever a ação apostólica: “nós a vimos e dela testemunhamos, e proclamamos a vocês“. O termo grego para testemunhar é “marturéö” que expressa a idéia de

(1) um testemunho que tem autoridade proveniente de experiência pessoal que é

(2) próprio daquele que presencia algo (por isso os termos ver, ouvir e apalpar) e

(3) por isso o que fala é de primeira mão. Ele não é um intermediador da verdade, ele mesmo foi um expectador dos fatos e testemunha do que experimentou (viu, ouviu).

Com idéia complementar a essa, o termo grego para “proclamar” é “apaggaléö”. Esse termo tem uma conotação um pouco mais formal que o anterior pois carrega a idéia de

(1) autoridade proveniente de uma comissão, que é próprio daquele que foi

(2) selecionado, autorizado e enviado para levar uma mensagem ou notícia e

(3) isso implica que o mensageiro não fala daquilo que lhe é próprio, mas daquilo que recebeu do Seu Senhor.

Quando João faz uso desse termo, ao mesmo tempo que confirma sua autoridade no assunto transfere o peso da veracidade do conteúdo ao Seu Senhor, pois sua mensagem não é propriamente sua, mas do próprio Cristo a quem ele anuncia.

Ou seja, na introdução dessa epistola, João demonstra que tem apresso pelo conceito correto de  pessoa Cristo, testemunha a seu respeito por tê-lo conhecido pessoalmente e proclama sua verdade por ter sido comissionado pelo próprio Senhor a fazer isso.

Feitas nossas considerações preliminares, podemos então observar o texto com um pouco mais de atenção e confiança, pois sabemos que o que chega em nossas mãos é impregnada pela autoridade do apóstolo, cujo foco é bem definido e seu objetivo é claro.

A. Autoridade: Baseado em Experiência Pessoal com Cristo

Uma das acusações que é sempre feita sobre o testemunhos dos apóstolos é sobre sua confiabilidade. Como podemos receber essas informações como verdadeiras se os apóstolos podem ter sido desonestos em sua transmissão? Será que ele mesmo esteve por perto de Cristo? Seriam eles testemunhas oculares de fato?

Esse é um tipo comum de ataque aos relatos dos apóstolos nos nossos dias, mas não é restrito a ele de modo nenhum. Já nos primeiros séculos da EC (era comum) os que se opunha a fé atacam esse ponto. Veja a acusação feita por Porfírio:

“Os evangelistas eram escritores de ficção – não observadores oculares da vida de Jesus. Cada um dos quatro contradiz o outro ao escrever o próprio relato dos acontecimentos de seu sofrimento e crucificação”

Isso não era incomum, mesmo na era apostólica. Vemos que Paulo teve que defender seu apostolado algumas vezes em seus escritos. Há ainda quem diga que o próprio livro de Atos tem um propósito de defesa do apostolado de Paulo ao investir tanto tempo em contar suas histórias e apresentar situações que são tão similares a que Pedro vivencia.

Mas, o que é certo é que o próprio Paulo fez isso na introdução a sua carta aos gálatas: “Paulo, apóstolo enviado, não da parte de homens nem por meio de pessoa alguma, mas por Jesus Cristo e por Deus Pai, que o ressuscitou dos mortos“. (Gl.1.1).

João de modo similar em sua introdução diz: “O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplamos e as nossas mãos apalparam – isto proclamamos a respeito da Palavra da vida” (1Jo.1.1). Mas, que será que João teria ouvido, visto, contemplado e apalpado que merecia tanta atenção no início de sua carta? Há certo debate teológico sobre o assunto, mas entendo que trata-se da Palavra da Vida, que é uma referência a Cristo. Considerando isso, vamos lançar mão dos testemunho sobre Cristo que João já havia escrito sobre Cristo e vamos observar o que ele poderia ter presenciando diretamente do Verbo da vida.

1. Ouvimos

Dentre tantas coisas que João poderia ter ouvido de Cristo, vamos ressaltar nesse tópico algumas dessas que tiveram direta ligação com sua carta:

  • 1. Amor: “Um novo mandamento lhes dou: Amem-se uns aos outros. Como eu os amei, vocês devem amar-se uns aos outros” (Jo.13.34). Mensagem que foi retransmitida a seus leitores e a nós: “Porque a mensagem que ouvistes desde o princípio é esta: que nos amemos uns aos outros” (1Jo.3.11).
  • 2. Exclusividade de Cristo: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai, a não ser por mim” (Jo.14.6). “Todo aquele que crê que Jesus é o Cristo é nascido de Deus; e todo aquele que ama ao que o gerou também ama ao que dele é nascido” (1Jo.5.1).
  • § Unidade entre o Pai e o Filho: “Eu e o Pai somos um” (Jo.10.30). “Todo aquele que nega o filho, esse não tem o Pai; aquele que confessa o Filho tem igualmente o Pai” (1Jo.2.23)

2. Vimos

João também presenciou fatos na vida de Jesus, não apenas o ouvir falar sobre a vida, mas viu a Vida manifesta. Abaixo ressaltamos apenas alguns para exemplificar:

  • § Milagres: João teria presenciado pessoalmente os milagres que Jesus efetuou: “Então Jesus lhe disse: “Levante-se! Pegue a sua maca e ande”. Imediatamente o homem ficou curado, pegou a maca e começou a andar” (Jo.5.8-9)
  • § Quebra de Paradigmas: “Como o senhor, sendo judeu, pede a mim, uma samaritana, água para beber?” (Jo.4.9). É bem verdade que João não estava no exato momento em que essa frase foi dita, mas ele presencia o que Cristo teria feito ao insistir na conversa com uma mulher samaritana de baixa reputação.
  • § Salvação de Samaritanos: “E por causa da sua palavra, muitos outros creram. E disseram à mulher: “Agora cremos não somente por causa do que você disse, pois nós mesmos o ouvimos e sabemos que este é realmente o Salvador do mundo” (Jo.4.41-42; cf. 1Jo.4.14).
  • § Morte: “Tendo-o provado, Jesus disse: “Está consumado!” Com isso, curvou a cabeça e entregou o espírito” (Jo.19.30; cf. 1Jo.4.10).

3. Contemplaram

  • § Manifestação da Vida: “Aquele que é a Palavra tornou-se carne e viveu entre nós. Vimos a sua glória, glória como do Unigênito vindo do Pai, cheio de graça e de verdade” (Jo.1.14)
  • § Amor: “Um pouco antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que havia chegado o tempo em que deixaria este mundo e iria para o Pai, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (Jo.13.1)
  • § Serviço do Líder: “assim, levantou-se da mesa, tirou sua capa e colocou uma toalha em volta da cintura. Depois disso, derramou água numa bacia e começou a lavar os pés dos seus discípulos, enxugando-os com a toalha que estava em sua cintura” (Jo.13.4-5).

4. Apalparam

A expressão de João ao falar que teria apalpado a Cristo é significativa nessa introdução pois é exatamente a mesma palavra que Lucas usa para descrever Cristo ressurreto: “Vejam as minhas mãos e os meus pés. Sou eu mesmo! Toquem-me e vejam; um espírito não tem carne nem ossos, como vocês estão vendo que eu tenho” (Lc. 24.39).

A proximidade em que João estava de Cristo o permitiu aprender direto da fonte da Vida, princípios fundamentais para a fé Cristã, que ele fez questão de retransmitir. Entretanto, isso só nos mostra que João estava por perto, mas não nos dá indicativos de quão perto ele teria estado de Cristo. Por isso é importante ressaltar duas informações que resgatamos do evangelho de João:

  • 1. O modo como João era reconhecido por Cristo: João era conhecido como “o discípulo a quem Cristo amava“. Isso supõe que sua proximidade com Cristo era tamanha que, entre os escolhidos para estar com Cristo, João parecia ter uma proximidade ainda maior.
  • 2. Responsabilidade familiar assumida por João: “Quando Jesus viu sua mãe ali, e, perto dela, o discípulo a quem ele amava, disse à sua mãe: “Aí está o seu filho”, e ao discípulo: “Aí está a sua mãe”. Daquela hora em diante, o discípulo a recebeu em sua família” (Jo.19.26-27). João estava próximo de Cristo até mesmo na hora de sua morte, e sua proximidade era tal que Jesus confia sua família a ele.

O que percebemos aqui é que João não era alguém que andava ao redor de Cristo, era alguém de Seu relacionamento íntimo e pessoal. Ou seja, o testemunho dele é regado por autoridade. E mais importante, o que ouviu transmitiu.

Outro ponto interessantíssimo é que João também apresenta o modo como essas informações sofram transmitidas: “Nós lhes proclamamos o que vimos e ouvimos para que vocês também tenham comunhão conosco. Nossa comunhão é com o Pai e com seu Filho Jesus Cristo” (1Jo.1.3) Além de ter visto e ouvido o que transmite, essa transmissão também atinge um novo estágio, pois foi também redigida: “Escrevemos estas coisas para que a vossa alegria seja completa”. Essa é uma consideração importante, pois a autoridade que João tem para falar sobre Cristo, por ter estado tão próximo Dele, atinge agora um novo modo de transmissão: a escrita. Da mesma forma como esse autor é autorizado por Cristo para transmitir, anunciar e proclamar a Sua mensagem, ele também é autorizado a deixar seu relato escrito sobre a verdade, debaixo da mesma autorização. Portanto, a autoridade de João como Testemunha e Anunciador é vista na sua participação pessoal com Cristo e na comissão de Cristo para sua tarefa.

B. Foco: Centrado na Pessoa de Cristo

Dentre tantas coisas que o apóstolo poderia incumbir-se por anunciar, ele tem a intenção de transmitir o que é mais importante: Cristo. Uma importante observação deve ser feita aqui: Considerando que o autor escreve já na sua velhice (2Jo.1; 3Jo.1), que ele é o último apóstolo vivo e que as visões divergentes sobre Cristo já haviam surgido com alguma intensidade era necessário que alguém deixasse instruções autorizadas sobre a verdadeira concepção da pessoa de Cristo. É opinião de alguns teólogos que Deus teria permitido a João ter chegado tão perto do início do segundo século para ser um mensageiro confiável da verdade sobre Cristo a fim de purificar a igreja da ação dos hereges.

Tal foco na mensagem apostólica é visto já no início na carta de João: “O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplamos e as nossas mãos apalparam – isto proclamamos a respeito do Verbo da vida” (1Jo.1.1).

Tal foco pode ser bem observado por toda sua carta: As implicações sobre a vida cristã estão fundamentadas em Cristo (2.4-6), a exortação contra os falsos mestres é centrada na concepção correta da pessoa de Cristo (2.18-23; 5.6, 9), a prática do amor entre os cristão está fundamentado na Obra de Cristo a nosso favor (3.16), a centralidade da fé cristã está em Cristo (3.23; 4.2-3; 4.14-15; 5.1, 5; 5.11-12; 5.20), a manifestação do amor de Deus é reconhecida na auto-doação de Cristo em nosso benefício (4.9-10) entre outras considerações sobre Cristo.

O que podemos perceber com clarividência nas colocações de João nos primeiros versos de sua carta é que ele está interessado em apresentar a manifestação histórica de Cristo, bem como sua Pessoa tal como expressa pela verdade.

A expressão Verbo da Vida usada no fim do primeiro verso tem sido entendida de várias formas: (1) Um grupo significativo de comentaristas tem visto aqui uma indicação das escrituras (Palavra viva); (2) outros tem visto como uma descrição de Cristo (Verbo vivo). Particularmente, tendo a crer que João aqui faz menção a Cristo, e portanto, o uso de “logou tes zoes” acresce uma descrição a Cristo já conhecida no evangelho de João. Essa opção é corroborada pelo uso dos verbos ver, ouvir, contemplar e apalpar encontrados no mesmo verso.

É bem verdade que João quando fala sobre o “Logos” ele não usa em relação com a palavra “zoe“, muito embora esse conceito seja conhecido no evangelho: “A vida estava nele e a vida era a luz dos homens” (Jo.1.4). Em sua introdução ao evangelho o autor reconhece que o “Logos“, Cristo é o portador da vida. Mas, é fundamental reconhecer aqui que essa idéia é expressa pelo próprio Cristo: “Disse-lhes Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida. Aquele que crê em mim, ainda que morra viverá” (Jo.11.25). Em outro lugar também lemos: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai senão por mim” (Jo.14.6). Desse modo, não seria um desvio interpretativo considerar que João em sua epístola sintetize duas informações teológicas comuns em seu evangelho na introdução de sua primeira epístola.

Entretanto, a ênfases de João aqui é sobre a manifestação da vida: “e a vida se manifestou, e nós a temos visto, e dela damos testemunho, e vo-la anunciamos, a vida eterna, a qual estava com o Pai e nos foi manifestada” (1Jo.1.2). Considerando que o foco aqui repousa sobre Cristo, entendemos que João fala da manifestação histórica da Logos Eterno, aspecto fundamental para a Teologia Joanina.

O verbo que descreve essa “manifestação” é o verbo “faneroö” que pode significar tornar público, revelar, vir a ser conhecido. Ou seja, é preocupação primária de João demonstrar que o Eterno foi presente, o divino encontrado em forma humana, que Jesus é o Cristo, forte ênfase da carta como um todo: “Nisto reconheceis o Espírito de Deus: todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus” (1Jo.4.2; cf. 2Jo.1.7).

Tal idéia na mentalidade gentílica do primeiro século era um abuso: O logos, santo e eterno encarnado: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo.1.14). Rudolf Bultmann chega a chamar esse aspecto da teologia de João de “o escândalo da encarnação“. Entretanto, esse conceito a princípio controvertido é o cerne da mensagem joanina: “e a vida se manifestou, e nós a temos visto, e dela damos testemunho, e vo-la anunciamos, a vida eterna, a qual estava com o Pai e nos foi manifestada” (1Jo.1.2). Muito embora fosse Deus, estivesse com Deus (Jo.1.1) Ele estivera pessoalmente com os apóstolos que viram, ouviram, contemplaram e apalparam o Verbo da Vida manifesto ante eles.

C. Objetivo: Promover Comunhão e Alegria

Uma vez que o conteúdo da mensagem torna-se evidente, João o velho (presbíteros) passa a demonstrar seu Objetivo com essa introdução: “o que temos visto e ouvido anunciamos também a vós outros, para que vós, igualmente, mantenhais comunhão conosco” (1Jo.1.3). A idéia da verdade sobre Cristo é capaz de promover comunhão entre aqueles que sua fé professam. Mas, essa comunhão depende em grande parte da mensagem já apresentada, pois tal comunhão “é com o Pai e com seu Filho, Jesus Cristo” (1Jo.1.3). É bem sabido que para João, não existe relacionamento com o Pai sem o Filho: “Todo aquele que nega o Filho, esse não tem o Pai; aquele que confessa o Filho tem igualmente o Pai” (1Jo.2.23), pois não existe proximidade com o Pai senão pelo Filho: “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim” (Jo.14.6).

Ou seja, João intenciona demonstrar o fundamento correto para a comunhão com o Pai através da verdade sobre o Logos para que, seus filhos na fé possam desfrutar da comunhão com os apóstolos, entre si e com Deus.

Deve ser por isso que ele também quer que seus filhinhos tenham alegria: “Estas coisas, pois, vos escrevemos para que a nossa alegria seja completa” (1Jo.1.4), sentimento que provavelmente adotou do próprio mestre: “Tenho lhes dito estas palavras para que a minha alegria esteja em vocês e a alegria de vocês seja completa” (Jo.15.11).