As regras de Crítica Textual de Johann Albrecht Bengel


No seu ensaio Prodromus Novi Testamenti recte cauteque ordinandi [Forerunner of a New Testament to be settled rightly and carefully], (Denkendorf, 1725), Johann Albrecht Bengel, um acadêmico luterano, publicou uma nova perspectiva para edição do Novo Testamento Grego, que já havia iniciado a preparar (publicado em 1734). Nesse material ele detalhou seus princípios de crítica textual que incluía uma nova classificação dos manuscrito em dois grupos primitivos: Asiático e Africano (em referência a Alexandria). O primeiro grupo ele supôs ser de origem Bizantina, e a esse grupo pertencia a maioria de manuscritos modernos e a Siríaca; o segundo grupo, de origem Egípcia, era representado pelo Códice Alexandrino e os manuscritos das mais antigas versões em Latim e Copta. No seu trabalho, Bengel, também apresentou uma das mais influentes regras de criticismo: a preferência por leituras mais difíceis. A regra foi expressa em quatro palavras: “proclivi scriptioni praestat árdua” [antes da leitura simples está a leitura difícil]

Entretanto, foi no prefácio de sua obra intitulada Gnomon Novi Testamenti (Tubingen, 1742) que Bengel alistou suas 27 “sugestões” (Monita) que devem ser tomadas como um sumário de seus princípios de crítica. Abaixo seguem as 17 primeiras sugestões de Bengel[1]:

“1. É digno de nota que a maioria das Sagradas Escrituras (graças a Deus) é laborada em nenhuma leitura variante;

2. Nessas porções é encontrado todo o esquema de salvação e estabelecido todos os particulares por todos os testes da verdade;

3. Todas as leituras variantes devem e podem se referir a essas porções, e decididas por elas como procedimento padrão.

4. O texto e as leituras variantes do Novo Testamento são encontrados em manuscritos e em livros impressos desses manuscritos, seja em Grego, Latim, Graeco-Latim, Siríaco, Grego Latinizado, ou em outra língua, as claras citações de Irineu, etc., de acordo com o dispensar generoso da Provisão Divina a cada geração. Nós incluímos todas essas ocorrências sob o nome de Códices, que às vezes tem compreensiva significação.

5. Esses códices, entretanto, foram difundidos através das igrejas de todas as eras e países, e approach so near to the original autographs, que, quando tomados juntos, em toda multidão de variantes, eles exibem o texto genuíno.

6. Nenhuma conjectura é sempre uma consideração a ser ouvida. É mais seguro colocar colchetes em uma porção de texto, que pode por sorte parecer trabalhada sob dificuldades inescapáveis (inextricable).

7. Os códices tomados com um todo, devem formar o modelo padrão, pelo qual se decide cada caso separadamente (All the codices taken together, should form the normal standard, by which to decide in the case of each taken separately);

8. Os códices gregos, que possuem maior antiguidade, que ultrapasse toda a variedade de leituras, são poucas em número: o resto é muito numeroso.

9. Embora as versões e as citações dos Pais da Igreja são menores em autoridade quando diferem dos manuscritos gregos do Novo Testamento, ainda assim, quando os manuscritos gregos do Novo Testamento diferem um dos outros, tem a maior autoridade aquele com o qual as versões e citações dos Pais da Igreja concordam;

10. O texto da Vulgata Latina, onde ela é suportada pelo consenso dos Pais Latinos, ou por outra testemunha competente, merece a última consideração, no que se refere a sua singular antiguidade.

11. O número de testemunhas que suportam cada leitura em cada passagem deve ser cuidadosamente examinada: e para esse fim, ao fazê-lo, nós devemos separar os códices entre os que contem apenas os Evangelho, daqueles que contem Atos e as Epístolas, com ou sem Apocalipse, ou aqueles que contém aquele livro apenas; aqueles que inteiros, daqueles que foram mutilados; aqueles que foram colados na edição de Stephanus, daqueles que foram colados na Complutense, ou na versão de Elzevirian, ou qualquer outra edição obscura; aqueles que são conhecidos por terem sido bem colados, como por exemplo o texto Alexandrino, daqueles que não são reconhecidos por terem sido cuidadosamente colados, ou que é conhecido por ter sido colado descuidadamente, como por exemplo o Vaticanus, “wich otherwise would be almost no equal”

12. E também, detalhadamente, mais testemunhas são preferidas que poucas, e, o que é mais importante, as testemunhas que diferem em pais, ano e linguagem são preferidas daquelas que são proximamente conectadas entre si; e o mais importante de tudo, testemunhas antigas são preferidas a testemunhas modernas. Pois, uma vez que apenas o autógrafo original (e eles foram escritos em grego) pode clamar ser o well-spring, o valor da autoridade de um códice deve ser traçado a partir de fontes primitivas, Latinas, Gregas, etc., dependendo de sua proximidade dessa fonte.

13. A leitura, que não engoda por sua grande facilidade, mas brilha com sua própria dignidade da verdade, é sempre preferida a aquelas que podem, de modo justo, ter sua origem atribuída ao descuido de um copista

14. Portanto, um texto corrompido é freqüentemente traído pela aliteração, paralelismo, ou conveniência de um Ensino Eclesiástico, especialmente no início ou conclusão disso; pela ocorrência de mesmas palavras, nós somos levados a suspeitar de uma omissão; da grande facilidade, uma adaptação. Onde as passagens laboram sob diversa variedade de leituras, a leitura intermediária (middle reading) é a melhor.

15. Por isso existem cinco critérios principais que devem ser utilizados para determinar um texto disputado: A antiguidade da testemunha, a diversidade de sua origem e sua torrente; a aparente origem de uma leitura corrompida e a cor original da leitura genuína.

16. Quando todas esses critérios concordarem, nenhuma dúvida deve existir, exceto na mente do cético

17. Quanto, entretanto, acontecer que alguns dos critérios apontarem a favor de uma leitura, e outros em favor de outra, o crítico eventualmente preferirá uma, ou outra direção, se ele decidir, outros podem não serem habilitados a aceitar sua decisão. Quando um homem excede outro em poder de visão, seja mental ou fisicamente, a discussão é vã. Nesse caso, um homem não pode impor sua convicção em outro, ou destruir a convicção de outro, a não ser que, certamente, o autógrafo das Escrituras deva sempre vir a luz

Após essas sugestões existem mais 10 parágrafos que não pertencem à avaliação de leituras variantes, mas ao contrário, contém diversos lembretes relativos ao objetivo e uso de sua edição crítica do Novo Testamento. As 17 “monita” citadas acima podem ser referidas formalmente como o Cannon de criticismo de Bengel.


 

[1] BENGEL, Johann Albrecht, Gnomon Novi Testanti, pp.13-20