Ataques a Teoria de Westcott e Hort


O texto que segue é resuldado da leitura do autor nos textos de Wilbur Pickering (Qual o texto original do Novo Testemano) publicado em pdf e disponível na internet. Também fez parte da pesquisa o texto do Paulo Anglada (A Teoria de Westcott e Hort e o texto do Novo Testamento) publicado pela revista teológica Fides Reformata. Esse artigo também pode ser encontrado na internet.

O objetetivo primeiro desse material ser disponibilizado no Teologando não é a defesa de uma ou outra opção de Crítica Textual, mas fomentar o conhecimento da teoria e estimular sua análise de modo respeitoso e proveitoso para o reino. Se sua opinião não é compatível com a dos dois autores supracitados, por favor, traga sua contribuição ao Teologando. Deixo evidente aqui que, a opinião do autor deste artigo não está em total acordo com Pickering ou Anglada.

Tendo dito isso, vamos analisar os pontos fundamentais da teoria.

Pressuposição fundamental

1. O texto do NT deve ser tratado com um texto normal:

Longe de se tratar de um texto ordinário, o texto bíblico é especial, no sentido em que tanto Deus como Satanás têm um especial interesse por ele – Deus em preservá-lo e Satanás em destruí-lo. Não são poucos os críticos textuais modernos que reconhecem a improcedência desta proposição fundamental da teoria de WH” (Anglada, pp.7)

O fato de existirem alterações deliberadas e aparentemente numerosas ocorridas durante os primeiros anos da história textual é uma considerável inconveniência para a teoria de Hort por duas razões: isto induz uma variável imprevisível que os cânones de evidência interna não podem manusear, e coloca o restabelecimento do original além da capacidade do método genealógico” (H.H. Oliver; IN: Anglada, pp.7).

2. Não houve alteração maliciosa no texto do NT

Irineu, Clemente de Alexandria, Tertuliano, Eusébio e muitos outros pais da Igreja acusaram os heréticos de corromper as Escrituras a fim de ter suporte para seus pontos de vista especiais. Na metade do século II Marcião expurgou de suas cópias do Evangelho de Lucas todas as referências ao background judaico de Jesus. A Harmonia dos Evangelhos preparada por Taciano contém várias alterações que forneceram apoio a pontos de vista ascéticos” (Metzger, The Text f the New Testament, pp.201)

As diferenças entre os manuscritos se tornaram gritantes, ou pela negligência de algum copista ou pela audácia perversa de outros; ou eles descuidam de verificar o que transcreveram ou, no processo de verificação, acrescentam ou apagam trechos, como mais lhes agrada” (Orígenes, IN: Bart Ehrman, OQJDOQJND, pp.62)

Mutilou as epístolas de Paulo, eliminando tudo o que o apóstolo dissera acerca de Deus que criou o mundo, no sentido de que ele é o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, e ainda as passagens dos escritos proféticos citadas pelo apóstolo com vistas a nos ensinar aquilo que eles anunciaram antes da vinda do Senhor” (Irineu, Contra Heresias, 1.27.2; IN: Bart Ehrman, OQJDOQJND, pp.63)

Um exemplo bastante expressivo da mudança intencional de um texto pode ser encontrado em um de nossos mais excelentes manuscritos antigos, o Códice Vaticano (assim intitulado porque foi encontrado na Biblioteca Vaticana), feito no século IV. Na abertura do livro de Hebreus, há uma passagem na qual, de acordo com a maioria dos manuscritos, é nos dito que ‘Cristo sustém [grego: pheron] todas as coisas pela palavra de seu poder'(Hebreus 1,3). Contudo, no Códice Vaticano, o copista original produziu um texto ligeriamente diferente, com um verbo que soa parecido em grego; ali, o texto diz, por sua vez: ‘Cristo manifesta [grego: phaneron] todas as coisas pela palavra de seu poder’. Alguns séculos mais tarde, um segundo copista leu essa passagem no manuscrito e decidiu mudar a palavra manifesta, um tanto incomum, por uma leitura mais comum, sustém – apagando uma palavra e escrevendo a outra. Posteriormente, alguns séculos mais tarde um terceiro copista leu o manuscrito e se deu conta da alteração que seu predecessor perpetrara. Ele, então, por sua vez apagou a palavra sustém e reescreveu a palavra manifesta. E depois acrescentou uma nota de copista à margem para indicar o que ele achava do primeiro e do segundo copista. Diz a nota: ‘Insensato e desonesto, deixe o texto antigo, não o altere!‘ (Bart Ehrman, OQJDOQJND, pp.66)

Quanto aos tipos de erros, as cópias do Novo Testamento diferem extremamente das cópias que temos dos clássicos literários. A percentagem de variantes devido aos erros involuntários nas cópias dos clássicos é grande. Mas a maioria das variantes nos manuscritos no Novo Testamento, creio eu, foram feitas deliberadamente” (Colwell, What is the Best New Testament?, pp.58; IN: Pickering, pp.21)

A maioria das variantes textuais do Novo Testamento foi criada por motivos teológicos ou doutrinários. A maioria dos manuais e livros textos atualmente circulando dirão que estas variantes foram fruto de descaso que foi possível porque os livros do Novo Testamento ainda não haviam alcançado um status forte de Bíblia. O caso é o inverso. Foi porque o tesouro religioso da igreja que eles foram adulterados” (Pickering, pp.20).

Genealogia

Que Westcott e Hort não aplicaram este método aos manuscritos do Novo Testamento é óbvio. Onde estão os diagramas que começam com a maioria dos manuscritos mais recentes e que ascendem às gerações de ancestrais de número cada vez menor até os textos Neutro e Ocidental? A resposta é que não estão em lugar nenhum. Olhe nova-mente para o primeiro diagrama, e verá que a, b, c, etc. não são manuscritos reais do Novo Testamento, mas são manuscritos hipotéticos. As demonstrações ou ilustrações do método genealógico, como aplicado aos manuscritos do Novo Testamento pelos seguidores de Hort (os “Horticuli”, como eram chamados por Lake) da mesma forma usam manuscritos hipotéticos, e não códices verdadeiros. Note, por exemplo, os diagramas e discussões na obra de crítica textual mais popular de Kenyon, incluindo a edição mais recente. Todos os manuscritos referidos são na realidade manuscritos imaginários, e o último destes diagramas foi impresso sessenta anos depois de Hort” (Colwell, Genealogical Method, pp.111-12; IN: Pickering).