Fé e Obediência


De início pode-se dizer simplesmente que a pistis é a condição para o recebimento da dikaiosyne, que vem a substituir os erga nos quais, segundo a compreensão judaica, consiste aquela condição. De início também deve ser dito simplesmente que essa pistis, de acordo com o uso lingüístico do cristianismo helenista formado na missão, é a aceitação da mensagem cristã. A compreensão dessa aceitação ou o conceito da pistis, desenvolvido múltiplas vezes também nas demais passagens além de por Paulo, foi cunhada por ele de modo decisivo” – Rudolf Bultman, Teologia do Novo Testamento, pp.383.

A compreensão de Paulo do conceito de fé passa pelo conceito de obediência. É provável que existe um ponto de partida para Paulo, no quesito de fé, que é apoiado primariamente pelo conceito de obediência. Deve ser daí que o paralelo entre Rm.1.8 e Rm.16.19 pode ser traçado. Isso seria suficiente para compreender a expressão “hypakoè pistéos” de Rm.1.5. Esse sentido é visto claramente em Rm.15.18: “Não me atrevo a falar de nada, exceto daquilo que Cristo realizou por meu intermédio em palavra e em ação, a fim de levar os gentios a obedecerem a Deus“. Aqui é evidente a consideração de Paulo sobre o início da fé como obediência a Deus.

Essa co-relação é também exposta em sentido negativo, pois Paulo quando refere-se a judeus não convertidos ele diz: “Porquanto, ignorando a justiça que vem de Deus e procurando estabelecer a sua própria, não se submeteram à justiça de Deus“. A não sujeição, ou desobediência à Justiça que vem de Deus (dikaousyne theou) os judeus estão fora da participação da fé salvadora. De modo semelhante, Paulo diz em Rm.10.16: “No entanto, Mas nem todos obedeceram ao evangelho“.

Esse conceito é bem visto na conhecida declaração de Paulo sobre os gentios e judeus, antes e depois da fé, em Rm.11.30-32: “Assim como vocês, que antes eram desobedientes a Deus mas agora receberam misericórdia, graças à desobediência deles, assim também agora eles se tornaram desobedientes, a fim de que também recebam agora misericórdia, graças à misericórdia de Deus para com vocês. Pois Deus colocou todos sob a desobediência, para exercer misericórdia para com todos”.

Em 2Co.9.13 a fé é vista como a submissão da confissão do evangelho de Cristo: “glorificam a Deus pela obediência da vossa confissão quanto ao evangelho de Cristo”. Nesse texto a NVI traduziu a obediência que acompanha a confissão, o que segmenta o conceito de “obediência como demonstração de fé” em “obediência que segue a confissão“. Caso seja isso verdadeiro, a fé acontece antes da obediência, o que nos soa muito mais sensato.

O que isso nos instrui é que, para Paulo, a aceitação da mensagem aparece com um ato de obediência, pois a mensagem do evangelho está centrada no reconhecimento de Cristo morto e ressurreto como Senhor além de exigir a renúncia da autocompreensão antes da fé, e a inversão da direção volitiva. (RB, TNT pp.384).

Essa obediência da fé é de fato a obediência verdadeira, aquela que a lei havia exigido, mas pelo mau uso da lei os judeus a reprimiram e instituíram a hidia dikaiosyne (justiça própria) como meio para se gloriarem nas érgon nomôu (obras da lei). Contudo, a atitude do homem debaixo da fé é radicalmente antagônica a do judeu, observe: “Pois quem é que te faz sobressair? E que tens tu que não tenhas recebido? E, se o recebeste, por que te vanglorias, como se o não tiveras recebido?” (1Co.4.7). Isso por que a Salvação oferecida por Deus tem por objetivo “que ninguém se glorie” (1Co.1.29; Ef.2.8-9), mas “aquele que se gloria, glorie-se no Senhor” (1Co.1.31; 2Co.10.10), como o fez Abraão (Rm.4.20).

“A pístis como a renúncia radical à obra, como a obediente sujeição ao caminho da salvação determinada por Deus, como a aceitação da cruz de Cristo, é o livre ato da obediência, no qual se constitui o novo eu no lugar do velho. Como tal decisão, ela é um ato no verdadeiro sentido, no qual o ser humano aparece como ele próprio, enquanto no ergon ele se contra ao lado aquilo que faz” (RB, TNT, pp.385).

Vale a pena ser dito que a OBEDIÊNCIA a que se refere aqui não é uma obediência às ordens de Deus em si, ou a prática de suas delimitações, mas a submissão a Deus como condição para recebimento da fé. Ou seja, não é uma conquista, como a hidia dikaousyne como motivo para kauxastai (gloriar-se), mas é a completa e plena submissão a Cristo como Senhor. Esse aspecto da fé, pode ser considerado o primeiro ponto da verdadeira fé.

A implicação dessa submissão a Cristo como Senhor para participação da fé, não significa que a salvação vem pelo reconhecimento do senhorio de Cristo, mas implica na inabilidade da ergon autou para a salvação. É o reconhecimento humilde da impossibilidade de auto-salvação, e a plena dependência aos méritos de Cristo como único mediador entre Deus e os homens. Em outras palavras, crer é obedecer, ou submeter-se-á. Com essa compreensão em mente, podemos compreender o que Paulo que dizer quando chamou os judeus de rebeldes em Rm.15.31.

Nesse sentido, a concepção de Paulo afirma que a fé não acontece primariamente com arrependimento e conversão (demonstrado pelo pouco uso que essas palavras tem na literatura paulina), mas com a obediência que renuncia a justiça própria.