Princípios de Crítica Textual de Johannes Bergmann


Johannes Bergmann é atualmente professor no Seminário Bíblico Palavra da Vida em Atibaia-SP. É coordenador do departamento  de Novo Testamento do programa de pós-graduação. Também leciona Grego, Exegese do NT e Teologia Bíblica do NT. É Th.M em Teologia e doutorando em Teologia e co-autor do livro Noções do Grego Bíblico dom Lourenço Stelio Rega.

Entretanto, embora os credenciais acadêmicos desse professor sejam suficientes para falar sobre sua capacidade crítica, ele é melhor reconhecido por sua vida pessoal com Deus. Com espiritualidade contagiante esse professor tem conduzido seus alunos em matérias técnicas a devoção a nosso Deus e Pai.

Tive o privilégio de ter aulas com esse professor durante uma semana intensa de estudos de crítica textual e pude notar de perto sua inteligência e sabedoria para lidar com a questão, mas o que mais me deixou perplexo foi sua capacidade de levar-nos à devoção em uma matéria tão técnica (e eventualmente árida).

Bom, abaixo transcrevo parte de suas orientações aos alunos de Crítica Textual do programa de mestrado do SBPV. Os princípios apresentados abaixo, são proveinentes do material: Guia para determinar o Texto Original (Crítica Textual) de autoria de Johannes Bergmann.

Bom Proveito!

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O texto grego do NT aparece em milhares de manuscritos antigos, seja em forma íntegra ou em partes. Com esse respaldo a Bíblia é, na literatura universal, o livro da antiguidade mais confiável que existe.

Quando algum texto bíblico chega a apresentar leituras diferentes em manuscritos que o contém, faz-se necessário um estudo das testemunhas do texto para descobrir qual é, provavelmente, o texto original. Para isso, uma ciência-arte chamada “crítica textual” elaborou uma metodologia de trabalho que avalia criteriosamente evidências “externas”, “internas” e “intrínsecas”. Essa metodologia é apresentada a seguir.

A.     Evidências externas

  1. Reconhecer as leituras: com a ajuda do aparato crítico do NT grego, as diferentes leituras (tanto a do texto quanto as variantes) são identificadas e traduzidas. Diferenças entre elas devem ser analisadas e entendidas, assim como as suas implicações no significado do texto.
  2. Reconhecer as testemunhas: Para cada leitura são identificadas as testemunhas que a respaldam:
  3. Classificar as testemunhas: Numa tabela, cada leitura (com a sua respectiva tradução) é apresentada com as testemunhas que a respaldam, agrupadas por “tipo” ou “família” de texto. As testemunhas a serem consideradas são:
    • papiros (identificados por P1, P2, P3, etc.)
    • unciais (manuscritos maiúsculos, identificados por ³, A, B, C,… , D, Q, C, Y,…, 048, 0234, etc.),
    • minúsculos (identificados por ²1, ²13, 1, 6, etc.),
    • lecionários (usados nas liturgias dos cultos, identificados por l 59, l 60, l 68, etc.),
    • versões antigas (especialmente it, vg, syr, cop, arm, geo, eth), e
    • os pais da igreja (identificados pelo nome).
  4. Avaliar as testemunhas: Os critérios para avaliar as testemunhas são:
    • Data: Neste sentido, o que interessa não é tanto a antigüidade de determinados manuscritos, mas a antigüidade do texto que essas testemunhas representam. O texto mais antigo estará mais próximo do original. [Analisa-se célula por célula]
    • Qualidade: as testemunhas que respaldam cada variante não devem apenas ser contadas; mais importante do que a quantidade é a qualidade dos manuscritos que apóiam certa leitura.
    • Distribuição geográfica: quanto maior a distribuição geográfica das testemunhas em favor de determinada leitura, maior a probabilidade de que essa leitura seja a original. [Análise por filas]
    • Solidariedade genealógica dentro de cada tipo (família) de texto: quanto mais “sólido” (unânime) o testemunho da família de texto, melhor a leitura. [Análise por colunas]
  5. Escrever uma conclusão provisória, baseada nas evidências externas: Para cada leitura, citar em forma resumida as evidências externas que a respaldam, avaliando sempre o peso de cada argumento. Qual será a melhor opção? Por que? Quais seriam as vantagens dessa opção? Apoiar a resposta com argumentos conclusivos.

B.     Evidências internas

  1. Para descobrir possíveis alterações na transmissão do texto, escreve-se as diferentes leituras, junto com as palavras mais próximas, em caracteres unciais (maiúsculas), uma variante debaixo da outra, em scriptio continua, i.e. sem separar entre as palavras. [Cuidado com abreviações, S=C, etc.]
    • Procurar evidência de alterações não-intencionais [cf. Paroschi, 33-5, 93-6]:
      • na separação das palavras, devido à scriptio continua,
      • confusão ótica de letras semelhantes (incl. abreviações, cf. 1Ts 2.7),
        • homoiarkton (começo de linha semelhante) ou homoioteleuton (final de linha semelhante),
        • haplografia (escreveu-se uma única vez o que deveria ter sido escrito duas vezes, cf. 1Ts 2.7),
        • ditografia (escreveu-se duas vezes o que deveria ter sido escrito uma vez só),
        • confusão acústica de letras (iotacismo, cf. Rm 5.1),
        • erros de memória, inversão na ordem de letras ou palavras, colocando sinônimos, inserindo palavras de passagens paralelas (cf. Ef 5.9),
        • erros de juízo, inserindo no texto acréscimos que outro escriba tinha colocado na margem, etc.
    • Procurar evidência de alterações intencionais (tentativas de “melhorar” o texto) [Paroschi, 78, 96-102]:
      • correções de gramática,
      • ortografia (cf. Rm 4.8 NA),
      • crase,
      • glosas (acréscimo de explicações),
      • harmonia com passagens paralelas,
      • harmonia com a LXX (em citações do AT),
      • doutrina (cf. Mt 24.36),
      • história e geografia,
      • estilo, etc.
    • Aplicar os “cânones” da crítica textual para avaliar as evidências:
      • Dar preferência à leitura que melhor explica a origem das demais;
      • Dar preferência à leitura mais difícil, pois escribas tinham a tendência de “melhorar”/ explicar o texto [lectio difficilior potior];
      • [Cuidado: o seguinte “cânon”; é duvidoso!] Dar preferência à leitura mais breve, pois escribas [supostamente!] tiveram a tendência de acrescentar, mais do que abreviar o texto [brevior lectio potior].
    • Examinar a evidência intrínseca:
      • Qual leitura é mais coerente com o contexto imediato?
      • Qual leitura é mais coerente com o estilo, o vocabulário e o propósito do escritor?
      • Qual leitura é mais coerente com a teologia do escritor?
  2. Escrever uma conclusão provisória, baseada nas evidências internas: Citar em forma resumida, para cada leitura, as evidências internas que a respaldam. Qual será a melhor opção? Por que? Quais são as vantagens dessa opção? Apoiar a resposta com argumentos conclusivos.

C.     Conclusão

Escrever uma conclusão final: Considerando ambas as conclusões provisórias (passos 5 e 11), decidir qual leitura provavelmente é a “original”. Fundamentar a conclusão, repetindo os argumentos externos e internos em favor da mesma.