Uma breve exposição das visões históricas do ensino de Cristo


Recentemente fui perguntado sobre a credibilidade das escrituras. A pessoa que me fez a pergunta gostaria de saber como as palavras de Jesus foram recebidas e apresentadas em diferentes períodos da história.

Como não tenho condições de responder a essa pergunta satisfatoriamente, resolvi fazer uma breve apresentação em diferentes períodos históricos sobre a credibilidade das palavras de Cristo.

Bom, vamos por partes:

1. No período de Jesus, muitos, apesar de ver os milagres que Ele operava, não acreditavam Nele. Até entre os que criam, Jesus não se confiava a eles (Jo.2.23-25)

2. No período apostólico, a credibilidade de Cristo continou a ser atacada pelos que não criam e defendida pelos apóstolos e pelos seus representantes. A carta de 1 João, úma das últimas cartas católicas (gerais, universais) apresenta uma defesa a opiniões sobre Cristo que não estavam em conformidade com o que Ele mesmo havia dito. Vale a pena ler Paulo, João e Hebreus e notar como a pessoa de Cristo foi defendida de opiniões divergentes.

3. No período pós-apostólico (aquele período após a morte dos apóstolos e anterior à instituição da Igreja Romana como o parâmetro para a verdade – 375 d.C.) a credibilidade dos ensinos de Cristo foi bem debatida. Por não haver um cannon definido, as literaturas que falavam sobre Cristo eram diversas e ainda não havia consenso sobre que escritos deveriam ser considerados. Nesse período alguns problemas surgiram:

a. Escritos pseudoepigráficos: Textos atribuídos a autores que não o redigiram. A intenção era buscar credibilidade para suas idéias com o nome de algum apóstolo ou personagem do passado com reconhecimento apostólico. Esse é o caso de livros como: Evangelho de Judas, Evangelho de Pedro, Apocalipse de Pedro, Atos de Tecla (que conta histórias sobre Paulo).

b. Falsos profetas influentes: Esse é o caso de Marcião que tentou liderar de Roma um novo cristianismo desassociado do judaísmo. Sua postura era tão forte que rejeitou o VT e retirou do NT citacões. Sua afeição por Paulo, fez com que ele apenas considerasse alguns textos de Paulo e alguns trechos de Lucas como textos confiáveis para a teologia. Sua iniciativa não teve sucesso nem entre os cristãos que flertavam com essas possibilidades. Marcião é um caso de adulteração textual motivado por teologia e de criação de uma regra (cannon) de livros aceitos.

c. Novas opções religiosas “cristãs”: Esse é o caso do gnosticismo “cristão”. Sob influência de ideologias pagãs (gregas), cultivaram novas visões sobre quem era Jesus e seus ensinamentos foram reconstruídos e adaptados à essas visões.

4. No período católico: Com a ascensão do cristianismo como religião oficial do império romano, a palavra da Igreja tornou-se (aos poucos) regra (cannon) para a compreensão de Cristo. Nesse período aconteceu o que você mencionou: as pessoas criam pois a igreja dizia. Isso não significa (em si mesmo) um erro. O erro nasceu na perversão da palavra de Cristo para fins teológicos e práticos (que ainda acontece nas igrejas pós-reforma e evangélicas).

5. Na reforma: Quinze séculos de domínio da Igreja Católica (como império e régula fides) os reformadores defenderam cinco pontos vitais para a fé cristã: Só a Graça (para salvação), Só pela fé (sem indulgências), Só as Escrituras (como regra de fé), Só Cristo (como salvador) e Glórias somente a Deus (e não a instituição). Aqui, o retorno às palavras de Jesus e dos ensinamentos apostólicos foi o norte, da prática e da fé. Entretanto, ainda aqui, perversões renasceram e se proliferaram. Pelágio havia introduzido no passado a idéia de que o homem nasce neutro e que o pecado passa a influenciá-lo a medida que vive sua vida. Influenciado por esse raciocínio e por rejeitar os ensinamentos dos reformadores Calvino, Zwinglio e Lutero, Jacob Armínio, afirmou uma teologia baseada na completa liberdade do ser humano em relação a salvação. Essa teologia foi rejeitada em três concílios históricos da igreja, chegou a ser banida da Holanda, mas aos poucos voltou e fixou-se em algumas regiões da Europa como a teologia fundamental. Tal teologia ainda é vista no círculo cristão dos nossos dias.

6. No séc. XIX e XX: O desenvolvimento da teologia natural (sem revelação) proporcionou o nascimento do que chamamos teologia liberal, que por essência, estuda a Teologia (conhecimento de Deus) a partir das escrituras, mas não apenas nelas. O conhecimento de Deus também é expresso e estudado do ponto de vista filosófico. A reunião da filosofia e da teologia permitiu o desenvolvimento de diversas áreas do conhecimento teológico. Entretanto, o desapreço pela Revelação de Deus, produziu grandes teólogos que afirmavam a não credibilidade das escrituras como texto da parte de Deus. Associado a isso, o desenvolvimento da alta-crítica textual permitiu a imposição de diversas dúvidas sobre o texto que temos em mãos. Sua confiabilidade e consequentemente sua utilidade foram abaladas.

7. Atualmente: a teologia é dividida em opinião se o que temos em mãos são de fato palavras de Cristo ou a imposição de terceiros para validarem suas próprias opiniões. Uma vez que Cristo não escreveu nada, e não temos nenhum escrito original em mãos para pesquisa (apenas cópias das cópias, das cópias….) a dúvida tem prevalecido em muito meios acadêmicos. Recentemente um ex-cristão, ex-pastor batista, ex-liberal e atualmente agnóstico com tendências a defender o gnosticísmo histórico escreveu diversos livros para por em cheque a credibilidade das palavras de Cristo. Seu esforço tem tido muito sucesso entre os não cristãos que já desprezavam a fé. Entretanto, os cristãos ortodoxos continuam onde sempre estiveram: Com Cristo e em Sua Palavra. Diversos escritores defensores da fé já saíram em defesa da fé, e também tem tido sucesso em suas empreitadas. Darel Bock, Daniel Wallace, Timothy Paul Jones, Craig Evans, Norman Geisler escreveram grandes livros sobre o assunto e merecem ser lidos.

Em resumo, a igreja tem e teve seu papel na referência ao valor da palavra de Cristo, mas a credibilidade vem de Cristo mesmo. Se Ele é quem diz que é, devemos ouví-lo.

Sugiro a leitura do livro: “Fabriating Jesus“, Craig Evans, pois nesse livro ele apresenta uma base sólida para a compreensão da distoção da pessoa de Cristo pelos academicos dos nossos dias e os refuta de modo lógico e louvável. Caso não possa ler em inglês, recomendo o livro “Eu não tenho fé suficiente para ser ateu” Normam Geisler. Do ponto de vista filosófico, Geisler defende a pessoa de Cristo e sua credibilidade.

Espero ter ajudado.

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