Xiitismo Textual


O título desse artigo é um trocadilho com o termo Criticismo Textual. A razão pela qual eu faço esse trocadilho é que fiquei impressionado com a o modo como alguns cristãos tratam as escrituras. São tão fundamentalistas em postura com sua fé, que a defendem de modo xiita. Quando uso a expressão xiita tenho em mente a percepção popular sobre o xiita: Alguém agressivo e irracional, que está disposto a explodir outras pessoas para defender sua fé.

Essa é a postura encontrada em alguns dos defensores do Texto Recebido: Com esses, não há diálogo, apenas ataques irracionais. Para que isso fique evidente, procure na internet sobre a versão Almeida Revista e Corrigida, e você mesmo poderá ver como eles defendem as escrituras.

Como exemplo disso, gostaria de deixar algumas frases desses defensores:

  • “O texto grego usado no Novo Testamento da NVI é uma mistura estranha de 2 manuscritos provenientes de Alexandria, Egito. Note que essa cidade, que era o berço do Gnosticismo, foi o local das mais perversas heresias da igreja cristã, sendo de lá os hereges Orígenes e Árius. Os manuscritos usados para compor esse texto grego são parte de uma pequena minoria, compondo menos de 1 por cento dos manuscritos gregos existentes”Expondo os erros da Sociedade Bíblica Internacional.
  • As Sociedades Bíblicas Unidas são uma espécie de “associação” que em 1948 entraram no Brasil e fundaram a Sociedade Bíblica do Brasil. Essa organização ecumênica, entretanto, reúne o que há de pior em termos teológicos e ortodoxos. São eles os produtores das águas poluídas que muitos crentes estão a beber hoje!” – Dream Team.
  • Quem são os pais das versões bíblicas modernas? Esses dois homens mencionados no artigo abaixo, são os verdadeiros mentores intelectuais das seguintes Bíblias vendidas aos milhões nos dias atuais (ARA, BLH, NTLH, NVI). Seria possível que estejam todas essas Bíblias corrompidas? Prossiga e veja por si próprio quem as produziu ou se existe um grande Plano Satânico para produzir a Bíblia da nova era aceita por todas as denominações religiosas” – Expondo os erros da Dupla Dinâmica.
  • A Bíblia Almeida Revista e Corrigida (ARC) na grafia simplificada, é 99% bem traduzida do Textus Receptus,  porém  possui alguma mistura de ingredientes do Texto Crítico (O FERMENTO DOS FARISEUS MODERNOS), que infelizmente a contamina em passagens muito importantes tornando-a desqualificada e não confiável. Isso certamente afeta DOUTRINA, por isso não deve ser recomendada. A única Bíblia pura para os crentes de língua portuguesa é a ACF – Almeida Corrigida e Fiel da Sociedade Bíblica Trinitariana do Brasil” – Por que há diferença entre a ARC e ACF?

Aos olhos e conceitos desses autores, não existe senão um texto sagrado: O TEXTO RECEBIDO – tudo o que for diferente desse texto deverá ser desconsiderado. O que se descobriu após o texto recebido não tem valor e deve ser descartado.

Esse tipo de xiitismo textual somado ao apego ao velho e ao descrédito do moderno, tem produzido um tipo de cristianismo cegado pelas convicções. Um exemplo disso é o famoso texto Expondo os Erros do Professor Carlos Osvaldo, onde o professor é chacoteado como se fosse algum herege deturpador da fé. Em conversa particular com o mesmo, ouvi: “Não é possível conversar com eles. Nós temos mais coisas em comum do que eles pensam, mas não é possível conversar com eles”. Conhecendo algumas de suas convicções, posso confirmar sua declaração.

Pensando nisso, gostaria de fazer levantar algumas conceituações sobre o texto de Jo.1.18 e refletir sobre o artigo Quem está mentindo em Jo.1.18?.

1. Compreendendo o Dilema

Para os defensores do Texto Recebido (TR) o que está em jogo é sua compreensão da verdade, pois eles sabem que não é possível que todas as leituras variantes em um texto não podem ser verdadeiras ao mesmo tempo. Por isso, a pergunta que fazem é: Quem está mentindo?

Vou reforçar o que disse acima: o que está em jogo é a compreensão da verdade e não a verdade em si. O que quero dizer com isso é que, para eles o TR é a verdade. Considerando isso, já sabemos quem está mentindo na opinião deles: as demais variantes são falsas e corrompidas.

Entretanto, considere por um momento o contrário: Se o Texto Recebido está incorreto nessa leitura a verdade (nesse caso) acompanharia o difamado Texto Crítico (TC). Na verdade, os defensores do TR não estão buscando a verdade, mas a confirmação de sua própria crença.

Vamos avaliar o que vem junto com a defesa irrestrita do TR: Se o TR é a verdade absoluta de Deus temos que admitir que nele não há erro algum. Em outras palavras, todos os outros manuscritos disponíveis estão cheios de erros e corrupções humanas. Com isso, estamos falando de mais de 300.000 leituras variantes equivocadas, enquanto o TR manteve-se 100% fiel. Ou seja, o TR é tão infalível quanto os autógrafos (fato que não se pode comprovar, pois não temos os autógrafos). Não é à toa que o autor do artigo o chama de Supremo Livro, observe:

Alguns irresponsáveis defensores das perversões modernas da Bíblia (como a corrupta NVI, Atualizada, Bíblia na Linguagem de Hoje, Nova Tradução na Linguagem de Hoje e outra obras diabólicas do mesmo tipo) insistindo na sua tola, insana e perdida batalha contra o Supremo Livro, não desistem de suas declarações ridículas para tentar justificar sua teimosia fanática, mesmo que para isso seus argumentos sejam um sinal de nada mais do que seus fanatismos religiosos contra as Palavras Preservadas por Deus

Na verdade, não há nada de herético em pensar assim, é apenas uma clara desconsideração com o que se tem descoberto sobre a tradição manuscrita do Novo Testamento. Do ponto de vista deles, isso é defesa da fé genuína. Entretanto, se Deus está trazendo à tona novas evidências de como sua Palavra foi de fato escrita, não poderemos ao menos considerar essa possibilidade?

Outro fator que normalmente se exclui desse diálogo é que todas as antigas versões do Novo Testamento tem leituras divergentes entre si: mesmo as antigas itálicas (mais usadas no período medieval) tem suas discordâncias entre si. O mesmo acontece com as versões copta e síria. Por que razão o mesmo não aconteceria com os manuscritos gregos? De fato, aconteceu o mesmo e não é a toa que temos tantas leituras divergentes.

Então, por que razão eles alegam que o TR é a reprodução exata dos autógrafos? Honestamente, ainda não entendo a razão pelo qual eles fazem isso. Até poderia arriscar dizer que assim o fazem, pois tem menos trabalho, ou por que o trabalho já está pronto e não preciso pensar a respeito, mas não acho que seja essa a razão.

O que é certo é que em diferentes localidades e em diferentes épocas, os cristãos se ocuparam em transcrever as sagradas letras para manter o texto disponível para próximas gerações. E com tantas pessoas transcrevendo durante muito tempo um texto, não era de se estranhar que algumas leituras variantes viessem a existir. Isso não significa necessariamente em heresias, muito embora em alguns lugares isso possa ter acontecido. Significa apenas que era inevitável que as variantes viessem a existir com o método de transmissão do texto antes da imprensa.

Como não podemos saber como eram os autógrafos, temos diante de nós uma tarefa muito nobre: Exercer a Crítica Textual para compreender o que Deus quis comunicar a nós. Essa tarefa, longe de ser uma tarefa para liberais, é um dever para cristãos verdadeiros que tem apreço pelas Escrituras e que acreditam em sua Inspiração verbal e plenária; longe de ser uma tarefa enfadonha, é ao contrário um tarefa digna de valor espiritual.

Esse é o trabalho que vamos desempenhar nesse artigo com relação a Jo.1.18. Em todo nosso processo desse ponto em diante seguirá o texto “Quem está mentindo em Jo.1.18?”. Sugiro que você o tenha aberto em outra janela para percebemos como funciona a mente que defende de modo cego o TR.

2. Evidência dos Manuscritos

Para iniciar nossa interação com a interpretação das evidências disponíveis, gostaria de citar nosso artigo primeiro:

“Dos cerca de 5.300 (cinco mil e trezentos) manuscritos Gregos apenas os listados a seguir trazem a corrupção “Deus Unigênito”: P66, P75, Aleph*, Aleph-1, Vaticanus, C*, and L. Inacreditável! Apenas um total de 7 (sete), de um universo de 5.300, trazem essa estranha leitura. Isso é 0.1% da evidência. Que manobra mirabolante é essa, que joga fora 99.9% da evidência para justificar essa corrupção do “Deus Unigênito”?”

Vamos observar cautelosamente as afirmações encontradas nessa frase:

  • A leitura variante “Deus Unigênito” é chamada de corrupção, antes de qualquer verificação de sua autenticidade. A razão para tanto já foi demonstrada: O que não é TR é corrupção.
  • O autor lista sete manuscritos gregos que atestam a leitura variante “Deus Unigênito”. Uma vez que estamos falando em fatos, é necessário que se diga que dos listados, faltou ser mencionado o minúsculo 33 que também traz essa leitura. Entretanto, além dos manuscritos gregos temos outras fontes que atestam essa leitura:
  1. As versões georginas, sírias e a versão copta boaírica.
  2. Os pais da Igreja Irineu, Clemente, Orígenes, Basílio, Eusébio, Cirilo, Didimus, Heracleto, Ptolomeu, Epfânio, Theodotus, além do Diassetaron, a Constituição Apostólica.
  • O autor demonstra que numericamente as evidências favoráveis à leitura variante atestam menos de 0,1%. É válido lembrar que ainda com todas as informações citadas acima esse número não seria diferente, e não podemos descartar esse dado. A questão é a validade desse número, mas em breve voltaremos a falar sobre isso.
  1. O autor se pergunta: “Que manobra é essa?”. De fato, imagino que o autor realmente se pergunta por que não sabe como processar essa informação. É bom ser dito que, para os xiitas textuais, que são aqueles fundamentalistas desnecessários, não são favoráveis à maioria e se posicionam biblicamente. Mas, em questões de crítica parecem ter-se convencido muito facilmente.

De todas as declarações feitas, a mais importante é essa: Que manobra é essa? Eu imagino que à essa altura você também esteja se perguntando a mesma coisa.  Espero poder trazer luz à essa questão abaixo.

É importante que se diga que não são apenas duas as variantes para esse texto, mas cinco:

  1. monogenes théos: lit. Deus Unigênito
  2. ho monogenes théos: lit. o Deus Unigênito
  3. ho monogenes uiós: lit. o Filho Unigênito
  4. monogenes uiós theou: lit. Filho Unigênito de Deus
  5. ho monogenes: lit. o Unigênito

É claramente observado que as duas primeiras podem ser agrupadas como se apontassem para a mesma leitura, uma vez que apenas o artigo é acrescido à segunda. A quarta leitura é obviamente uma junção das primeiras leituras. É interessante que tal leitura só tenha sido encontrada em duas versões: copta saídica (III/IV) e a itálica (q) (VI/VII). Essa leitura também é encontrada uma vez (de três) em Irineu e outra vez em Ambrósio (de onze). O fato de que essa leitura traz as duas variantes principais em uma mesmo leitura nos faz pensar que alguém, tentando harmonizar diferentes manuscritos, acresceu uma das duas palavras (uiós, theós) ao que texto que dispunha. Isso certamente evidencia que tal leitura não pode ser a original. O mesmo pode ser dito da quinta leitura. O uso absoluto de monogenes não é incomum em João, alias, no verso 14 João já o teria utilizado. Entretanto, apenas uns pouquíssimos manuscritos da vulgata trazem essa leitura, e poucos pais latinos. Tendo dito isso, entendemos por que a questão volta-se apenas às três primeiras leituras.

Tendo considerado isso, vamos cautelosamente avançar. O próximo passo é identificar algumas características dos manuscritos que temos disponíveis. O que normalmente se faz é verificar a data da leitura.

No que se refere à data, a leitura “Deus Unigênito” pode-se dizer com certeza que é atestada desde o fim do segundo século. O fato de P66 e P75 atestarem essa leitura já seria suficiente para supor que tal leitura pudesse ser inclusive anterior a essa data. Entretanto, a leitura “Filho Unigênito” é apenas atestada em manuscritos posteriores ao quinto século[1]. Das muitas evidências que atestam essa leitura, a grande maioria está entre o VI e X século.  Ou seja, existe a possibilidade de que essa versão seja historicamente posterior a outra.

Essa conclusão só não pode ser levada à cabo pelo fato de que Tertuliano já havia citado a leitura “Filho Unigênito” antes de 220. Considerando esse quesito, é importante lembrar que Clemente (215), Herácleto e Ptolomeu também citam “Deus Unigênito” no segundo século. Assim, podemos dizer que, diante das evidências que temos, no que se refere à data, a leitura “Deus unigênito” é favorecida em sua antiguidade. O próximo passo seria avaliar a qualidade das variantes.

Essa questão é bem difícil de ser avaliada, pois o conceito de melhor e pior é sempre bem diferente de pessoa pra pessoa. Entretanto, vamos considerar alguns pontos simples: A leitura “Filho Unigênito” não tem suporte de nenhum papiro e os unciais que atestam essa leitura são em geral posteriores ao V século. O mais antigo representante é o Alexandrinus, um problema para aqueles que não gostam da influência Alexandrina no texto do NT.  Entretanto é válido dizer que essa leitura acompanha a grande maioria das evidências que dispomos.

A leitura “Deus Unigênito” é atestada por dois papiros e cinco unciais: Sinaítico, Vaticanos, L, C e 33. O grande problema dessas evidências é que elas são todas Alexandrinas. Normalmente, os defensores do TR são opostos aos manuscritos e leituras alexandrinas. Por isso, nesse caso, eles não aceitariam nenhum desses testemunhos como válidos. Contudo, isso não é necessariamente verdade.

Apesar do repúdio que alguns defensores do TR tem pelo Códice Sinaítico e o Vaticano, gostaria de demonstrar algumas razões pelas quais eles deveria representar algum valor. Com isso espero que o leitor me entenda: Há grande valor em ambos os códices, mas isso não os faz regula da crítica textual.

O Códice Sinaítico, além de ser um dos mais antigos testemunhos da tradição manuscrita do NT, é o único códice que o contém completamente. Ele também tem grande parte da Septuaginta (LXX), incluindo alguns dos livros apócrifos, como: 2 Esdras, Tobias, Judite, 1 e 4 Macabeus, Sabedoria, Siraque, Epístola de Barnabé e o Pastor de Hermas. O fato de ser completo e antigo deveria ter algum valor para o crítico textual. É bem verdade que tal manuscrito tem suas alterações, e é provável que tenha passado por três revisores e corretores, o que faz desse testemunho um motivo de cautela, não rejeição.

Já o Códice Vaticano é mais antigo que o Sinaítico e sua qualidade tem sido atestada desde sua descoberta. Esse códice contém quase todo no NT, à exceção de 1 e 2 Timóteo, Tito, Filemon e Apocalipse. Interessantemente, esses livros faltantes foram substituídos por outro manuscrito cursivo normalmente datado do XV século. Quanto fala-se sobre a origem desse texto, os defensores do TR já ficam abrasados, pois seu nome sugere sua origem. E isso é em parte verdade, pois esse documento consta em uma lista antiga (1475 e 1481) da biblioteca do Vaticano fundada em 1448. Mas, isso não necessariamente implica que tal documento tenha sido produzido lá, inclusive TC Skeat chegou a sugerir que, pela data, esse códice seria um dos 50 exemplares que Constantino teria solicitado que Eusébio produzisse. Muito embora, pouco apoio exista para essa possibilidade, o que configura tal texto como Alexandrino é sua similaridade com as versões coptas.

Outro passo para compreender a validade das leituras variantes é reconhecer a distribuição geográfica de cada leitura. Isso nos auxilia a perceber como tal leitura era vista no mundo antigo. Sobre isso, a conclusão é simples: A leitura “Filho Unigênito” é largamente mais atestada nas diferentes regiões do mundo do que a outra leitura. Devido à grande quantidade de manuscritos com essa leitura não era de se esperar algo diferente.

Assim, podemos traçar a seguinte conclusão para essa análise: Enquanto a data favorece ambas as leituras, a qualidade da primeira leitura (theós) parece mais apurada enquanto a distribuição geográfica parece favorecer a segunda (uiós). Assim, do ponto de vista da análise da evidência externa tendo a crer que, tal análise não pode ser definitiva para aceitação de uma leitura e rejeição de outra.

Eu sei que essa conclusão não é unânime entre críticos, entretanto, é exatamente essa a sensação que tenho ao analisar as evidências disponíveis. Para os que estão preocupados apenas com a quantidade, a decisão está tomada. Entretanto, se quisermos compreender a situação deveríamos continuar com a análise interna das variantes. Esse processo será realizado em breve. Por ora, vamos prestar à atenção a uma afirmação ainda não comentada do nosso polêmico autor:

“Ah… vamos pedir uma “ajudinha” de duas pessoas que odiavam a Bíblia King James e que também eram espíritas, descrentes, heréticos, comunistas, idólatras, universalistas, Romanistas, sacerdotalistas, racistas e evolutionistas: Westcott and Hort”

Um dos comuns ataques ao texto crítico tem sido em função dos eruditos por traz da produção desse material. Nesse caso, o autor resolveu atacar a moral dos mesmos, fato que já explorado ao máximo no artigo Vasos de Desonra. A tentativa aqui é desmerecer o conhecimento técnico por enegrecer o caráter dos autores. Ainda que concorde com algumas das classificações da dupla, não posso assumir que eram incompetentes tecnicamente, até por que, o material produzido por ambos é de alta qualidade. Além de trabalharem com a edição crítica do NT, ambos escreveram comentários críticos e teológicos ao NT. A grande questão não é a opinião que tem sobre determinado assunto, mas onde essas opiniões os forçaram a alterar as escrituras. Diante de tantas acusações, não vemos nem se quer uma que tenha significativa diferença no texto do NT. Por isso perguntamos: Onde WH alteraram o texto para aprovar a doutrina espírita? Ou o comunismo? Ou a idolatria? Ou o Universalismo? Ou o Catolicismo? Ou o Racismo? Ou a Evolução?

Na verdade, os defensores do TR não podem atribuir nenhuma alteração em um dilema textual que tenha sido motivada por qualquer um desses defeitos de WH. Aliás, se lido com atenção, o artigo Vasos de Desonra demonstra claramente que o autor confunde as opiniões dos autores e suas interpretações com capacidade crítica que eles tinham. Desacreditar um trabalho por atacar a moral, não é apenas um golpe baixo, é uma forma desonesta crítica malfadada.

3. Evidência Histórica

Para iniciarmos essa seção, vamos a mais uma citação:

Esses manuscritos vieram da cidade de Alexandria, Egito, o berço dos heréticos Gnósticos. Quem eram eles? Eles eram “eruditos” (podemos confiar neles?) que estavam contaminados com as muitas heresias dessa cidade pagã. Alexandria, Egito, era uma das muitas cidades nomeadas em homenagem a Alexandre, O grande, no quarto século AC. Ela era pesadamente influenciada pelo pensamento Grego e como conseqüência, as falsas filosofias de Platão eram altamente estimadas. O Cristianismo chegou em Alexandria logo no primeiro século e cedo já foi sendo corrompido pelos heréticos Gnósticos, que queriam acomodar a Bíblia com essa pecaminosa filosofia Grega. A heresia de negar a divindade de Cristo propagada por Arius (256 – 336 AD) foi de lá. Orígenes (185-254 AD), o mais famoso herético do terceiro século era de lá. Essas pessoas falsificavam as Escrituras e corrompiam algumas cópias. Você confiaria num manuscrito copiado nesse lugar nessa época e por essa gente?

Em uma citação tão marcada pelo repúdio, é possível imaginar que o autor tem os que pensam diferente dele como inimigos da fé. Uma das afirmações que esse autor faz é que Alexandria é o berço dos heréticos gnósticos. Essa é uma informação é apresentada de modo preconceituoso. O leitor que não tem outra informação irá pensar que o gnosticimos era restrito à essa região, mas isso não é verdade. O NT está repleto de referências anti-gnósticas e nenhuma das cartas neotestamentárias teriam sido enviadas à região. Até Paulo quando escreve a Timóteo o adverte a não se envolver com debates sem sentido (1Tm.1.4) que provavelmente são influenciados por pensamentos gnósticos. Nessa ocasião, Timóteo está em Éfeso, bem longe do norte do Egito. O apóstolo João também escreve com advertências ao gnosticismo, seja em seu evangelho ou sua grande carta, e embora esse material tenha chegado à região do norte do Egito, não havia sido escrito para aquela região.

É verdade que o gnosticismo tem forte influência Alexandrina, mas será que isso faz com que todos os moradores dessa cidade gnósticos, ou tendenciosos ao gnosticismo? Essa é uma afirmação que sofre da comprovação da amostragem. Em outras palavras, é como se dissesse: As universidades são laicas e tendenciosas ao ateísmo, e por isso toda produção religiosa de alguém de dentro da universidade é marcada pelo ateísmo, pois na universidade são todos ateus. Isso é a construção de uma mentira a partir de algumas informações verdadeiras. É verdade que as universidades são laicas e tendenciosas ao ateísmo, mas isso não significa que cristãos genuínos pudessem estar na universidade e produzir materiais genuinamente cristãos de qualidade e com isso demonstrariam que não são ateus.

Acusar Alexandria de berço do gnosticimo como evidência de que um cristão genuíno não pudesse estar naquela cidade é o mesmo que dizer que não existem cristãos verdadeiros e comprometidos com as escrituras na cidade de Aparecida do Norte, pois lá existe o maior templo de idolatria do país. Isso é irracional.

Tendo dito isso, vamos considerar outra acusação: “O Cristianismo chegou em Alexandria logo no primeiro século e cedo já foi sendo corrompido pelos heréticos Gnósticos, que queriam acomodar a Bíblia com essa pecaminosa filosofia Grega”. Se chegou cedo, não sei; se foi logo corrompida, também não sei, mas sei que essa iniciativa de aproximar as escrituras da filosofia grega realmente aconteceu. Orígenes nos deixa claras evidências desse fato. Mas, aqui cabe mais uma pergunta: Até que se prove que tal pensamento chegou ao Sinaítico e Vaticanos, essa é uma informação sem valor algum. Mais uma vez o autor quer desacreditar o valor histórico da tradição manuscrita alexandrina por atacar o contexto intelectual da cidade.

Agora vamos acrescer à esse debate algumas informações textuais. Até aqui se disse que os gnósticos teriam influenciado o processo de cópia das escrituras em Alexandria, e com um pouco de informação sabemos que a leitura “Deus Unigênito” era usada por eles (Valentinianos e Ário). Mas, é importante lembrar que Vitorino e Serapião, que atestam influência gnóstica e heréticas eram defensores da leitura “Filho Unigênito”. Isso nos faz pensar que o problema aqui não é como o gnosticismo alterou o texto, mas de como os gnósticos, ou pessoas influenciadas pela mentalidade gnóstica, teriam compreendido o texto das escrituras. A questão, nesse verso, não é sobre a transmissão do texto, mas da interpretação do texto: Não é uma questão de CRÍTICA TEXTUAL, mas de HERMENEUTICA.

Mas, há ainda outras pérolas nesse texto, veja:

Os “antigos unciais” (palavras Gregas em caixa alta) e os papiros corruptos (P66, P75) referidos no item 1 acima, eram um mero produto desses heréticos. Eles são imprestáveis! Os “eruditos” modernos apenas “se esquecem” de nos dizer que o Textus Receptus estava também em circulação (é óbvio, pois eram cópias exatas dos originais) quando os corrompidos “velhos manuscritos” foram produzidos

Se os antigos unciais são produtos desses hereges, e com isso ele faz referência a Ário, temos um problema cronológico, pois ele é posterior aos códices Sinaíticos e Vaticanos. Se esses heréticos inclui Orígenes, esse autor sobre de um problema geográfico, pois uma boa parte da vida de Orígenes foi em Cesaréia. Mas, se a expressão “desses hereges” fala sobre as pessoas que viviam em Alexandria, vemos a recorrência de um problema marcante nesse autor: a generalização.

Muito embora entraremos no campo da teologia por um momento, é necessário demonstrar que o autor está equivocado em uma de suas conclusões:

Por não crerem na pre-existência do Filho, eles não criam na divindade do Filho, e nem mesmo na encarnação do Filho, eles sutilmente mudaram o texto de modo a acomodar suas heresias. Eles criam na doutrina dos deuses intermediários. Jesus Cristo para eles não era Deus, mas um “deus” intermediário com “d” minúsculo. Note que esses desonestos se aproveitavam do fato de que, nos manuscritos antigos, todas as letras eram do mesmo tamanho. Esse é o motivo pelo qual eles substituíram a palavra “Filho” (huios) pela palavra “deus” (theos)

Com as convicções gnósticas apresentadas nesse texto, não me ocuparei. Gostaria apenas de demonstrar como o autor em sua cega defesa do TR não foi capaz de executar uma simples leitura na leitura variante que acusa de heresia. Para o autor, a “substituição” de Filho para Deus era uma expressão da não pré-existência do Filho, da não divindade do Filho ou da encarnação.

Se eu fosse um gnóstico escriba responsável pela reprodução do texto das escrituras (se é que existiu um de fato) e quisesse retirar a pré-existência de Cristo das escrituras, eu teria alterado o tempo verbo nos verbos do primeiro verso de João: “No princípio está o Verbo, e o Verbo está com Deus e é Deus”. Acho que faria mais sentido fazer isso aqui, mas isso jamais aconteceu. Será que essa acusação passa perto da verdade?

 

Se eu fosse um gnóstico escriba e quisesse negar a encarnação do Verbo, eu teria alterado o verso 14: “E o Verbo [não] se fez carne, [mas] habitou entre nós”. Mas, isso nunca aconteceu. Será que essa acusação, nesse verso é realmente válida?

Agora, vamos atentar a última acusação: O motivo da “alteração” era desacreditar a divindade do Filho. Isso não faz o menor sentido uma vez que na leitura variante Jesus teria sido chamado de Deus Unigênito. Vamos apenas ler o texto com a variante: “Ninguém jamais viu a Deus; o Deus unigênito, que está no seio do Pai, é quem o revelou”. Segundo esse texto quem é o Deus Unigênito? Aquele que está no seio do Pai. O uso de Unigênito em João é normalmente atribuído a quem? A Jesus Cristo (Jo.1.14; 3.16, 18; 1Jo.4.9). Será que esse essa leitura realmente desacredita a divindade de Cristo? A mais lógica conclusão a se retirar desse texto, se apenas lido, é que João está a realçar a Divindade de Cristo. Com isso me pergunto se o autor chegou a ler essa variante.

Diante dessas considerações passo a acreditar que o (cego) zelo desse autor o fez temporariamente analfabeto.

4. Evidências Internas

O autor passa agora a demonstra sua concepção de evidências internas. Vamos observá-las uma a uma:

1. “O apóstolo João, quem escreveu seu evangelho, bem como quatro outros livros (1 João, 2 João, 3 João e Apocalipse) jamais usou a expressão “Deus unigênito”, mas apenas “Filho unigênito” (Jo. 3:16, 3:18; 1Jo. 4:9)”

Aqui nós temos uma descrição interessante, pois se desconsiderada a leitura variante de Jo.1.18, é verdade que João jamais a teria usado a expressão “Deus Unigênito”. Mas, isso nos levanta uma questão interessante: Sabendo disso, não seria exatamente essa a razão pela qual alguém teria se interessado por alterar um manuscrito com Theós para Uiós para acomodar o texto ao autor? Uma das convicções que as evidencias textuais tem nos dado é que os escribas eram mais eram mais tendenciosos a facilitar uma leitura que dificultá-la. Se isso é verdade, não seria possível que nesse caso alguém tenha feito exatamente isso?

Outro detalhe é que o argumento de que João jamais teria usado a expressão em outros lugares não é evidência que testemunha de que ele nunca o faria. Isso é interpretação de um silencio obscuro.

Por outro lado, se João tivesse escrito “Deus Unigênito” nesse verso, que problema teológico se encontraria aqui? Tenho a impressão que nenhum.

2. “Algumas pessoas nem ao menos prestam a atenção ao versículo propriamente dito! A prova mais óbvia está no próprio verso! Quem é que está no seio do Pai (patros)? É claro que é o Filho (huios)! Esta é a única e simples explicação. Apenas esta evidência seria suficiente para encerrar o assunto! O relacionamento Pai-Filho é mostrado no verso e ponto final”

Essa afirmação é interessante e não discordo dela, apenas acredito que o Cristo como Deus que é, também está no seio do Pai, e portanto, nenhuma heresia é referida nesse texto.

Sobre o fato de que isso é evidência suficiente para encerrar o assunto, o autor está supervalorizando sua opinião em detrimento de outras possibilidades. Erro que parece repetir nesse pequeno texto.

3. Apenas 4 versos antes, João já tinha explicado que Jesus foi gerado do Pai (1:14)

Essa afirmação é provavelmente proveniente da conceituação errônea que o autor tem da palavra Unigênito. Como é comum, os cristãos confundem o conceito de monogenes (a palavra grega comumente traduzida por unigênito), com a do termo que a traduz. Unigênito significa único gerado, mas monogenes não necessariamente. Veja como o autor de Hebreus usa o termo: “Pela fé, ofereceu Abraão a Isaque, quando foi provado, sim, aquele que recebera as promessas ofereceu o seu unigênito” (Hb.11.17). É interessante que Isaque não era o único Filho Gerado de Abraão, mas aquele que era amado de modo especial, como a LXX apresenta em Gênesis: “Acrescentou Deus: Toma teu filho, teu único filho, Isaque, a quem amas [agapetós], e vai-te à terra de Moriá; oferece-o ali em holocausto, sobre um dos montes, que eu te mostrarei” (Gn.22.2; cf. v.12 e 16).

A tradução de monogenes como unigênito surgiu quando Jerônimo, durante a produção da Vulgata Latina, substituiu os termos “unicius” da Antiga Latina para “unigenitus” no Evangelho de João. Sua intenção era combater os ensinos de Ário. Hoje, a tradição cristã adotou unigênito como a tradução comum do termo grego monogenes, e isso passou a dificultar a compreensão do texto. Entretanto, a Antiga Latina, bem como outras versões antigas já traziam o conceito mais próximo da palavra grega monogenes. Unicius significa exatamente único em tipo, classe, amado de modo especial. Considerando isso o texto ficaria assim: “Ninguém jamais viu a Deus, o Deus único [em sua classe e amado de modo especial] que está no seio do Pai, é quem o revelou”. Se lido assim, acho que a acusação de que esse texto desacredita a divindade de Cristo cai por terra.

4. O escritor de Hebreus (fortíssimas e irrefutáveis evidências para o apóstolo Paulo) usou a palavra unigênito apenas 3 vezes (Heb. 1:5; 5:5 11:7). As primeiras duas referem-se claramente a o Filho. A terceira, refere-se a Isaque o qual também é um filho!

Nesse pequeno parágrafo, quase todas as evidências estão equivocadas:

  1. Em primeiro lugar, Hebreus usa apenas uma vez o termo monogenes (unigênito) e a ARC usa apenas uma vez o termo unigênito.
  2. Em Hb.1.5 e 5.5 temos uma citação de Sl.2.7 e o termo usado é “gerar” do verbo grego “gennao”. Essa é mais uma evidência de que o autor confunde o conceito de monogenes, uma vez que entende que monogenes é formado da junção de monos com gennao. Mas, se esse fosse o caso, o termo deveria ter sido escrito monogennes com o acréscimo de um um “n”, o que não acontece.
  3. Em Hb.11.7 nada se fala de Isaque, mas em Hb.11.17, tanto o termo grego monogenes como o termo em português são usados.

Em outras palavras, esse parágrafo não auxilia em nada o autor.

As duas outras argumentações do autor devem ser descartadas, pois são repetições conceituais da primeira. Ou seja, no que se refere a análise de evidências, à exceção do primeiro ponto, o autor não conseguiu defender sua tese.

5. Evidências Teológicas

Muito embora as acusações desse parágrafo já tenham sido tratadas, vamos ao menos lê-la:

A expressão “unigênito” (monogenes) quando aplicada a Jesus Cristo, se refere a Sua encarnação! O ensino Bíblico é um só: O Filho é o “unigênito”. Veja em 1Jo. 5:1 como a expressão “é nascido de Deus”, referindo-se a crentes está ligada com a expressão “o que dele é nascido”! O Filho foi gerado. Esse é o tema unificado sobre esse assunto. Esse precioso verso o qual fala da encarnação, está ligado com o relacionamento Pai-Filho “E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade.” (Jo. 1:14). Deus não foi gerado, o Filho é quem foi gerado. Sim, Jesus Cristo é Deus (Jo. 1:1; 1Tm 3:16), mas remover o Filho de Jo. 1:18 é errado teologicamente e não há qualquer suporte Bíblico. Se alguém nega que o Filho foi gerado, removendo-o do verso 18, estaria enfraquecendo a doutrina da divindade de Cristo: É exatamente isso que os Gnósticos queriam, redefinindo “theos” (Deus) como “um deus” ( deuses intermediários)”

Tenho por certo que o autor realmente não compreende como o termo gr. monogenes é utilizado. Vamos olhar os textos em que ele ocorre:

  • E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade” (Jo.1.14 – além da encarnação do Verbo, a ênfase do uso de monogenes repousa no fato de que Cristo é o Único, Especial que pertence a Deus, e que como Ele, é cheio de graça, verdade.
  • Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo.3.16 – o foco está na doação do Filho Amado de modo Especial e na Salvação)
  • “Quem crê nele não é condenado; mas quem não crê já está condenado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus” (Jo.3.18 – o foco está sobre a Salvação e Condenação. O conteúdo da fé também é apresentado: Jesus Cristo, o Filho Amado de modo Especial)
  • “Nisto se manifestou a caridade de Deus para conosco: que Deus enviou seu Filho unigênito ao mundo, para que por ele vivamos” (1Jo.4.9 – o foco está na ação salvadora de Deus em enviar seu filho ao Mundo. A encarnação está presente, mas é sobre o preço da salvação que João fala aqui: a minha salvação custou a vida do Filho mais Amado de Deus.

O termo na literatura joanina pode ter três conotações interessantes:

1. Monogenes auxilia a compreensão da grandiosidade do amor de Deus:

O primeiro ponto a ser percebido é que o termo “monogenes” como sinônimo de “agapetós” pode ser compreendido como a expressão do amor de Deus quando observado dentro do escopo soteriológico de João. Observe o que diz 1Jo.4.9: “Nisto se manifestou o amor de Deus em nós: em haver Deus enviado o seu Filho unigênito ao mundo, para vivermos por meio dele“. O envio de Deus de seu Filho que é “monogenes” ao mundo é manifestação do amor de Deus. Ou seja, esse Filho que é de modo especial amado, que é único em sua classe, que é Filho como ninguém mais é habilitado a ser, que tem relacionamento especial com Deus Pai, é ofertado como pagamento propiciatório para o mundo. Da mesma forma que Abraão oferece seu único filho (amado de modo especial) Cristo é ofertado. Esse Filho (huiós) é agora o modelo de vida para todos os filhos (tékna) de Deus recebidos adotados pela fé no sacrifício vicário de Cristo. Deve ser por isso que Lutero chega a dizer: “Deus tem muitos filhos, mas apenas um ‘monogenes’, por meio de quem são feitas todas as coisas e todos os outros filhos[2]“. O Filho unigênito é a maior prova do amor de Deus, e o termo “monogenes” o ressalta de modo especial, como fica evidente nesse verso: “Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo.3.16). Esse é o único verso em toda literatura joanina que apresenta objetivamente, com termos declarados, que Deus amou ao mundo. Vemos afirmações nas escrituras sobre o amor de Deus ao mundo, mas esse é a única vez que encontramos o verbo amar ligado ao substantivo mundo. O elo nessa ligação é certamente o Filho Único, amado de modo especial. F.F. Bruce fala sobre esse verso: “O amor de Deus não tem limites; ele engloba toda a humanidade. Nenhum sacrifício foi grande demais para trazer sua intensidade sem medidas a homens e a mulheres: o melhor que Deus tinha para dar, ele deu – seu único Filho, tão amado[3]” A compreensão da pessoa de Cristo, qualificada nesse verso como “monogenes”, nos habilita a entender a grandiosidade do amor de Deus em sua disposição de ofertar seu Filho Amado de modo especial. É por essa razão que fica evidente que o termo “monogenes” nos auxilia a compreender a grandiosidade do amor de Deus em João.

2. Monogenes expressa parte do carater soteriológico de Cristo:

Monogenes como caracterização de Cristo é visto em João de modo claramente soteriológico: “Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo.3.16). Nesse texto fica evidente a conexão entre “pistis”  (fé) e  a “zoen aionion” (vida eterna) como antítese de “apóllumi” (perecer). Pouco a frente na literatura joanina lemos: “Quem nele crê não é julgado; o que não crê já está julgado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus” (Jo.3.18). Mais uma vez o termo aparece em um contexto de definições soteriológicas para João, e estabelece-se outro termo importante no contexto da fé salvífica, pois quem cre não é “krino” (julgado), outro termo bem soteriológico em João. Ou seja, alvo da fé salvífica deve ser centrada no Filho que é “monogenes”. Deve, portanto, existir uma singularidade especial nesse Filho por sua Obra e caracterização. Como já foi mencionado por Marshall, que Jesus é o “único Revelador e Salvador“. Ou seja, no que se refere a Soteriologia joanina, o termo monogenes enfatiza a singularidade de Cristo, talvez da mesma forma que Paulo o faz em 1Tm.2.5

3. Monogenes expressa a divindade de Cristo:

Aqui talvez esteja o ponto mais interessante do uso de “monogenes” em João. Dois textos poderiam ser utilizados como paralelo para essa informação: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai” (Jo.1.14) e “Ninguém jamais viu a Deus; o Filho unigênito, que está no seio do Pai, é quem o revelou” (Jo.1.18). Rudolf Bultmann diz o seguinte sobre o primeiro verso: “O monogenes absoluto de Jo.1.14 deve provir da mitologia gnóstica[4]“. É provável que essa opinião aconteça pois Bultmann não vê o uso do termo de modo absoluto em nenhum outro lugar na literatura religiosa judaica ou cristã. Entretanto, esse uso absoluto faz uma referência interessante se considerar como a influência de João na compreensão de Cristo, e não na influência gnóstica na visão de João, pois, embora único uso pareça bem respaldado pelo contexto a referência que faz nesse verso: O verbo é chamado de unigênito. Essa relação reforça o conceito da divindade de Cristo já esboçada nos primeiros versos do capítulo. Essa relação de proximidade entre “logos” e “monogenes” parecem reforçar a divindade do Filho, conclusão antagônica a retirada desse texto pelos arianos modernos (TJ). Em reforço à essa idéia, vemos o debate textual sobre o verso 18. Onde se leu “Filho unigênito”, é possível que seja lido “Deus unigênito”, o que levaria às últimas conseqüências o conceito da proximidade entre “monogenes” e “logos” no verso 14. Em seu comentário aos dilemas textuais, Bruce Metzger afirma: “Com a aquisição de P66 e P75, onde ambos lêem theos, o suporte externo a essa leitura foi notavelmente fortalecido[5]“. Robertson afirma que a leitura de “monogenes theos é indubitavelmente a leitura verdadeira do texto[6]“. Vincent, mesmo que aponte para a dificuldade de definição do texto, afirma: “Muitos dos principais manuscritos e um grande grupo de evidencias antigas suportam a leitura monogenes theos[7]” F.F. Bruce textifica: “O peso da evidência textual favorece aqui a versão ‘monogenes theos’, Deus unigênito[8]“. Essa leitura foi considerada como “quase certa” pelos editores da quarta edição do texto grego da UBS. Aliás, essa é a opção do Nestle-Aland. Por ser tão bem aceita, é vista na ARA, NVI, NIV, que traduziu a expressão mo o único Deus. Considerando o verso 14 com sua conexão com o logos, o termo monogenes no verso 18 reafirma categoriamente a divindade de Cristo.


[1]A completa falta de evidências textuais anteriores ao V século pode ser explicada de ao menos duas formas: (1) ou ela é uma leitura criada posteriormente; (2) ou é uma leitura que pelo por seu uso substituiu suas anteriores de tal forma que, pelo uso, acabaram destruídas. Nesse caso a segunda é mais provável, visto que a leitura de Tertuliano atesta essa forma de texto como anterior a 220.

[2] LUTERO, Martinho IN: CHAMPLIN, Russel Norman, O Novo Testamento Interpretado Versículo por Versículo. Voz Bíblica, Vol. 2, pp.274

[3] BRUCE, F.F, João – Introdução e Comentário. Mundo Cristão:1998, pp.87.

[4] BULTMANN, Rudolf, Teologia do Novo Testamento. Teológica:2004, pp.465.

[5] METZGER, Bruce, Textual Commentary on the Greek New Testament. UBS:1971, pp.198.

[6] ROBERTSON, Archibald Thomas, Word Pictures in the New Testament. Parsons Tecnology, Iowa. Vol.5

[7] VINCENT, Marvin R., Vincent`s Word Studies. Parsons Tecnology, Iowa. Vol.2

[8] BRUCE, F.F, João – Introdução e Comentário. Mundo Cristão:1998, pp.50

Um comentário sobre “Xiitismo Textual

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