A Criação do Universo


“Existe qualquer coisa particularmente notável na maneira como o Espirito Santo abre este livo sublime. Ele apresenta-nos, imediatamente, a Deus, na Sua plenitude essencial do Seu Ser e no isalamento de Sua atuação. Toda matéria preliminar é dispensada. É a Deus que somos trazidos. Ouvimo-lo, de fato, quebrando o silêncio e brilhando sobre as trevas da tera com o propósito de fomentar um globo no qual pudesse mostrar o Seu poder eterno e Sua Divindade[1]

A verdade apresentada acima é estampada aos nossos olhos nos primeiro versos das Escrituras, por isso nosso estudo terá grande atenção aos detalhes desse texto com o objetivo de ressalatar a Grandeza e Sabedoria do Nosso Criador. A intenção desse estudo é conhecer mais detalhadamente a ação de Deus enquanto visa compreender a linguagem usada pelo autor para descrever a Criação. O modo do nosso estudo segue o exemplo auferido no Salmo 19: Com os olhos na Revelação Geral (1-6) estudamos a Revelação Específica (7-10) com o objetivo de levarnos à uma vida mais coerente com o Deus que transmiste Sua Mensagem por meio de sua Criação e Revelação (11-14). Assim, desejo que nossa investigação do conteúdo das escrituras seja feita no verdadeiro espírito de adoração para que as palavras dos nosso lábios e o meditar do nosso coração possam ser agradáveis na presença de Deus, nosso Redentor[2].

A.     O Princípio

No princípio: A palavra hebraica reshı̂̂yt é a palavra que origina em português o termo princípio.  A raiz dessa palavra é usada em diversas ocasiões como referência do início de algo. Em Gênesis 10.10 o termo descreve o início de um reino. Essa mesma raiz tamém é usada para descrever a primazia ou a proeminência de algo. Em Êxodo 34.26 descreve a parte mais importante dos primeiros frutos, sendo traduzido em português pela palavra primícia (ARA). Essa raiz também descreve o conceito de princípio como valor. Esse é o caso do uso encontrado em Provérbios 1.7. A referência dessa palavra nesse contexto normalmente é observada sob dois aspectos: (1) O início da atividade criativa de Deus; (2) O princípio da eternidade.

A segunda opção não parece favorável pela intrigante contradição que oferece, pois sabe-se que por definição a eternidade não tem início. Portanto, o texto parece indicar o início da atividade criativade Deus. Entretanto, Derek Kidner entende que o termo fala um pouco mais do que somente sobre o tempo ou a ocasião e para isso cita Pv.8.22 para concluir que o texto “revela algo do aspecto concernente a Deus deste princípio da criação[3]”.

O texto de Provérbios citado por Kidner nos faz pensar sobre o conceito da eternidade de Deus apresentada em Gn.1.1 e reforça a idéia de que o texto fala sobre o início da criação de Deus. Mais interessante é notar que esse texto parece adentrar na Eternidade da qual temos poucas informações. O Novo Testamento nesse sentido, ousa a apresentarnos relatos desse período da Perfeita existência de Deus anterior à Criação (Jo.1.1; 17.5, 26)[4].

Deus criou: A expressão Deus criou (bärä elöhîm) merece nossa atenção. A palavra elöhîm é frequente no AT e é usada em contextos diversos. Pode ser aplica a divindades pagãs (Ex.20.3; Dt. 4.7), pessoas (Ex.22.9, 27), anjos  (Sl.97.7) e ao Próprio Deus (Dt.4.35). O fato de estar no plural faz com que algumas pessoas pensem que trata-se da influência politeísta do Egito sobre a cosmovisão hebraica da dividnade. Entretanto, é importante lembrar que nesse retrato da Auto-revelação de Deus, Moisés nos lembra quem é o elöhîm criador em Gn.2.4: “Esta é a gênese dos céus e da terra quando foram criados, quando o SENHOR Deus os criou. A palavra Senhor em caixa alta no texto é o tetragrama hebraico (YHWH) usado para descrever a Pessoa do Criador[5]. Ou seja, Gn.1.1 não trata de da multiplicidade de divindades na criação, mas o uso da expressão em plural é uma descrição característica da divindade.

A clarividência dessa informação é observada no fato de que o termo bärä está no singular. Isso é evidência de que por mais que a expressão seja plural o autor pensa em uma pessoa. É interessante notar que sentença similar a essa é encontrada  para descrever Iahweh como Deus Criador (cf. Jr.31.22).

Sobre a grandeza dessa expressão David Merck diz que bära’na Bíblia foi usada somente de Deus.  Fala de atos muito especiais—a criação de tudo do nada (ex nihilo 1.1, 2.3,4), da criação de animais cientes (em contraste com plantas) (1.21) e do homem e da mulher (1.27). Somente Deus pode fazer algo do nada. Deus conhece intimamente todo átomo do universo porque Ele o fez! Cada célula, cada fio de cabelo, cada estrela por nome, Deus criou tudo que existe! (Sl 139)[6]

Céus e terra: Ainda que a expressão ëres (terra) possa indicar também uma local específico (Ex.32.4), e várias vezes indicar a terra prometida (Dt.4.5), não entendemos aqui que o autor fala da prepração da terra, mas em função do paralelo céu e terra (shāmayı̂m e ‘eres) entendemos que o autor fala de todo o universo. Nesse verso, até mesmo Sailham  entende que esse é o objetivo do autor: “O propósito de Gn.1.1 não é identificar a Deus desse modo [Redentor de Israel – Gn.48.15], mas identificá-lo como o Criador do Universo[7]”. Clyde Francisco, quem embora demonstre algumas credenciais mais liberais[8] também defende essa opção: “Os céus e a terra é uma expressão que significa todo o universo, todo o mundo. Neste versículo, o escritor está dizendo: ‘Deus criou tudo o que há no mundo’, Começando com o verso 2, ele descreve o processo da criação de maneira mais específica[9]” .

Sem forma e vazia: A descrição da terra é agora apresentada como tôhú e bohû. Esses dois vocábulos são usados juntos em algumas ocasiões no AT parecem sempre estarem focadas nos eventos descritos em Gn.1.2 (Is.34.1; Jr.4.23). É em função dessas duas palavras que a muitos entendem que a ação do verso 1 foi destruída pela queda de Satanás e como consequência a terra tornou-se sem forma e vazia. Contudo, o verbo usado nessa sentença, häyah, parece não permitir esse tipo de interpretação: por estar no qal perfeito ele descreve uma condição (era) e não um estado subsequente a uma ação específica (tornou-se). Em Gênesis, todas as vezes que o termo é usado no qal perfeito é normalmente traduzida para o português desse modo (Gn.3.20; 18.12; 29.17). Assim, entendemos que a terra ainda não estava formada (tôhú) e que nela nada havia (bohû). Em outras palavras, a terra era deserta e não habitada antes de ser trabalhada por Deus para ser “boa”. David Merck sobre isso disse: “As palavras [tôhú e boh] se referem à criação original, como se fosse o barro do oleiro, uniforme, sem forma, sem contéudo definido.  Em termos modernos, poderíamos descrever essa obra original como sendo as “células tronco” do mundo.  Era uma neblina universal, que Deus em Sua infinita sabedoria e majestade há de transformar no universo que conhecemos.  Existe uma lição maravilhosa para nós sobre o poder de Deus e Sua palavra, e a natureza de Deus.  Alguns entendem uma lacuna entre 1.1 e 1.2, como se Satanás tivesse caído e destruído a criação original.  Mas Deus não teria chamado tudo “muito bom” (1.31) se isso já tivesse acontecido[10]

Espírito de Deus pairava: Já temos falado sobre a ação criativa do Espírito Santo em estudos anteriores: “O Espírito de Deus me fez, e o sopro do Todo-Poderoso me dá vida” (Jo.33.4); “Quem mediu com o seu punho as águas, e tomou a medida dos céus aos palmos, e recolheu numa medida o pó da terra e pesou os montes com pesos e os outeiros em balanças, Quem guiou o Espírito do Senhor, ou, como seu conselheiro o ensinou?” (Is.40.12). Mas, ainda não falamos sobre a palavra “râchaph” que também é usada para descrever a ação preservadora de Deus (Dt.32.11). Se esse sentido é entendido aqui, temos a evidência do Espirito Santo como preservador da criação em seu estágio inicial.

B.     A Descrição da Criação

A partir do verso 3 vemos a ação de Deus em transformar o a terra de sem forma e vazia para uma terra habitável, cheia das obras da sua criação e considerada boa. Essa criação acontece em seis “dias”. A palavra hebraica usada para descrever dias é a palavra Yom e ela merece nossa atenção aqui, pois há claros indícios de que ela não faça referência a um dia de 24h como nós o conhecemos hoje. O uso desse termo não tem referências temporais claramente definidas. É por isso que o DITAT diz sobre o termos: “Esta palavra é o ‘mais importante conceito de tempo no AT, pela qual pode-se expressar tanto um instante quanto um período de tempo[11]”. A palavra Yom é usada para descrever:’

  1. Dia, período inespecífico de tempo, ano:  Ela é usada em Gn.7.4 como dia oposto de noite, o qu esugere um período menor que 24h. Em Gn.18.1 descreve um período específico do dia. Entretanto Gn.15.18 parece fazer o uso do conceito de um dia completo (24h) como conhecemos. Eventualemente o termo é usado para descrever o tempo da vida de uma pessoa (Gn.9.29) ou um período de tempo  (Gn.10.25; 14.1; 26.15). Em algumas ocasiões a questão do tempo não parece ser definida (Gn.21.34; Gn.26.8). Em algumas ocasiões ainda faz referência ao período de 365 dias (1Sm.27.7; Ex.13.10).
  2. Referências Temporais: Em Ex.2.18 vemos o termo ser usado como referência ao dia de hoje, enquanto em Ex.5.14 ele denota o sentido de ontem, ao passo que em Ex.3.18 o sentido de agora.

Em outras palavras, o que estamos dizendo é que o termo tem largas conotações no contexto do Pentateuco e não seria sábio deduzir que o objetivo do autor fosse definir em 24h aquilo que não poderia ter sido avaliado desse modo. Por isso, entendo que o uso de Yom é uma impossibilidade para se definir o tempo em 24h.

Aliás, outros usos encontrados no próprio relato da criação sugerem que o autor não tem em mente um período específico. Em Gn.1.5a observamos que o termo é usado em contraste com a luz com as trevas ao passo que na segunda parte do mesmo verso ela descreve o período que o autor chama “tarde e manhã”, que envolveria todo as atividades descritas anteriormente. Entretanto, quando chegamos a Gn.2.4, lemos: “Estas são as origens dos céus e da terra, quando foram criados; no dia em que o SENHOR Deus fez a terra e os céus” (ARC). Nesse verso vemos que todo o processo da criação é descrito pela palavra Yom sem que isso signifique um dia de 24h. Caso essa fosse a intenção do autor haveria grande contradição em suas palavras.

Outro argumento que parece favorecer um período maior do que 24h é a descrição do que acontece no sexto período. Segundo o capítulo 2 de Gênesis, o homem é criado pessoalmente por Deus (v.7). Então Deus planta um jardim para que o homem pudesse lavrar o solo (v.8; cf. V.5). Esse jardim passa a brotar toda sorte de árvores, inclusive a árvore do bem e do mal. Posteriormente, esse homem é colocado no jardim para o guardar e cultivar (v.15). Muito embora a ordem divina de criar uma auxiliadora idônea (v.18), a criação da mulher aconteceu apenas após Adão perceber que todos os animais tinham uma companheira que lhes correspondessem (v.19-20). Esses versos é que deixam evidente que nosso querido Adão passou mais tempo do que apenas meio dia sozinho. Ele teve a incumbência de nomear TODOS os animais. Deus estava pessoalmente envolvido com o processo, mas como a expressão da Imagem de Deus no homem era o domínio sobre todas as criaturas, Deus media sua soberania ao homem dando-lhe o privilégio de nomear. O ato de dar nome, segundo a cultura hebraica, está ligado a conhecer características e então tribuir um nome que represente o objeto de observação. Se isso é verdade, e ele teve que realizar isso com TODOS os animais do campo, todas as aves dos céus, ele deve ter investido mais que 8h de uma jornada de trabalho.

Dois detalhes ainda precisam ser anunciados: (1) É válido lembrar que o sol, que é responsável por nosso dia de 24h não teria sido criado até o quarto período da criação. Ou seja, o que acontece antes dele certamente não pode ser medido do mesmo modo; (2) A expressão tarde e noite, comumente utilizada para se defender que o dia de Gênesis teria 24h está em ordem invertida, o que sugere que o autor está a usar um recurso literário para estruturar seu texto e não para descrever um período de tempo de 24h. É digno de nota que o sétimo dia também não tem qualquer descrição de tarde e noite. Isso seria uma sugestão de que tal dia não teria acabado. Essa parece ser a interpretação de o autor de Hebreus faz para o texto (Hb.4.4).

Tendo feito essa análise do termo Yom passamos em nosso estudo a considerar os “dias” em Gênesis como períodos de tempo não necessariamente especificados pelo autor. Muito embora pudessem ser dias de 24h executados pelo poder do Criador, a terminologia empregada parece não exigir isso do texto. Assim, vamos conhecer os períodos da criação.

1.         Primeiro Período (v.3-5):

Disse Deus: Um distintivo interessante nesse texto, em relação ao mitos pagão da criação, é que Deus fala e tráz a existência o que quer criar. A fala de Deus como foco do Seu poder é descrito algumas vezes no AT: “Pois ele falou, e tudo se fez; ele ordenou, e tudo passou a existir” (Sl.33.9). Essa informação é constante no relato da Criação, pois essa expressão ocorre mais nove vezes. Ressaltar o poder criativo de Deus por meio de suas ordens nos faz pensar no peso que suas palavras tem: “A sua palavra é lei[12]” – O que diz acontece, o que ordena sucede.

Haja luz e houve luz: A primeira criação divina foi a Luz. Não sabemos ao certo a que se refere essa Luz, mas temos por certo que não trata-se do sol. O relato da criação nos diz que o grande luzeiro foi criado no quarto período da criação. O que é certo é que o termo empregado para luz aqui é também utilizada para descrever o efeito do sol após criado: “para alumiarem a terra” (Gn.1.17). O que é interessante é que “o caráter primário da luz, mesmo antes do sol, é um um dos postulados da ciência moderna[13]”. Derek Kidner sugere que a Luz vem à exsitência antes do sol e permanecerá após o sol: “E ali não haverá mais noite, e não necessitarão de lâmpada nem de luz do sol, porque o Senhor Deus os ilumina; e reinarão para todo o sempre” (Ap.22.5). Clyde prefere entender essa expressão figuradamente e  sugere que essa luz é a que reflete as palavras do Criador na criação e no cristão no decorrer da vida (cf. Clyde, pp.175). Ryrie, que preferem entendê-la literalmente, opta por entender que essa fonte de luz era o que demarcava o período de tempo antes da criação do sol, como uma fonte de luz alternativa que seria substituída pelo sol no quarto dia (cf. Charles Ryrie, Bilbia Anotada, pp.7-8) . Norman Geisler e Thomas Howe sugerem que “é possível que ele [o sol] já existisse desde o primeiro dia, tendo somente aparecido ou se feito visível (com a dissipação da neblina) no quarto dia. Vemos num dia nublado a luz, mesmo quando não nos é possível ver o sol[14]

Luz era boa: A palavra que descreve a característica da luz é tôb. É usada para descrever o que é agradável (Gn.6.2; 26.7) e certamente, nesse caso, é a demonstração do apreço que Deus tem pelo que havia acabado de criar. Essa expressão de apreço acontece mais cinco vezes no relato da criação (v.10, 12, 18, 21, 25).

2.         Segundo Período (v.6-8):

Firmamento no meio das águas: A palavra raqîa’ é a palavra que descreve a expressão portuguesa firmamento, e faz referência em algumas ocasiões ao metal martelado. Esse parece ser o sentido que Jó atribui ao termo em um contexto similar: “Ou estendeste com ele o firmamento, que é sólido como espelho [metal] fundido?” (Jó.37.18). Esse termo traz a conotação de uma substância sólida e por conta disso, “muito eruditos estão convencidos de que este versículo expressa o conceito de um Universo em três andares, comum no Oriente Próximo da antiguidade. Os antigos criam que havia três camadas de água no mundo: sob a terra, sobre a terra e acima da terra[15]”. Entretanto, o sentido figurado dessa palavra tem sido normalmente entendido aqui, e portanto, pode significar uma expansão, como é percebido em algumas traduções. No relato da criação nós encotramos esse termo como o lugar onde Deus fixa os luzeiros e as estrelas (v.14), mas onde também voam os pássaros (v.20).

Fez Deus: De modo diferente do que tinha acontecido até aqui, onde Deus fala e acontece, nesse verso Deus fala e Ele mesmo realiza. Aqui, claramente ele é o autor da ação que o verso anterior Ele havia decretado. Essa interação do Criador com a criação é interessante e esse processo de Ordenar e Realizar acontece nos versos 21 e 21. “É evidente que  através do capítulo 1 de Gênesis existe uma consistente alternação entre os relatos em que Deus fala e faz, eventualmente dando a impressão de repetição (v.11 com 12; v.14 com 16; v.24 com 25). Esse fato deve ser pesado na presença da recorrente expressão ‘e assim se fez’ (wayehî-hên), que sugere queo que Deus havia ordenado  foi realizado[16]”.

Separou as águas: Esse verso também nos diz que houve uma separação efetiva das águas: aquelas que ficaram abaixo do firmamento fazem referência aos mares e rios, enquanto aquelas que ficaram acima do firmamento se referem ás nuvens que passavam a povoar a atmosfera. É bem verdade que alguns entendem que as águas que estavam acima do firmamento como o indício de uma grande camada de vapor que poderia manter a terra em melhores condições para a manutenção da vida e por isso, as primeiras personasgens bíblicas vivessem por tanto tempo  e a quantidade de água envolvida no dilúvio (cf. Charle Ryire).

Águas sobre o firmamento: As águas que estão acima do firmamento devem ser entendidas como nuvens, pelo menos parece ter sido esse o entendimento do autor de Pv.8.28: “quando firmava as nuvens de cima; quando estabelecia as fontes do abismo”.

3.         Terceiro Período (v.9-13):

Águas debaixo do céu: Oceanos e rios são formados pela ordem de Deus.

No terceiro período duas ações são feitas: (1) A separação da água e da terra seca, como um ato de prepração da terra; e (2) a  produção de plantas nas partes secas, como início do enchimento. É interessante notar que nesses versos a interação em ordenar e a realização de suas ordens. No verso nove lemos: “Ajuntem-se as águas debaixo dos céus num só lugar” o autor nos conta que “assim foi”; o mesmo acontece no verso 11, quando ele diz: “Produza” e o verso 12 nos brinda com a expressão: “e a terra produziu”.

E chamou Deus: Uma nova descrição da Divindade é oferecida: Ele é aquele que pode nomear. Essa autoridade de nomear a criação é de posse exclusiva de Deus: Como Criador ele tem o direito de nomear toda sua criação. Entretanto, esse poder/papel  é oferecido ao homem: Ele é quem nomeia todos os animais. A posição de domínio que Deus tem sobre sua criação é agora mediado ao homem que pode exercer essa autoridade mediada por Deus. Ele é quem desempenha o papel de dominador sobre a criação. Essa autoridade é concedida junamente com a ordem para que isso aconteça. É interessante também considerar que o homem também nomeia a mulher após ser criada (2.23).

Erva que dê semente: É interessante notar que Deus estabelece que a fertilidade das plantas fosse sua forma de manutenção da espécie: a erva verde dará semenetes que estará sobre a terra. Essa relação da Determinação Divina da fertilidade o distingue dos inúmeros deuses da fertilidade: enquanto deuses podem ter poderes ou representações de fertilidade Yahweh é o Deus que decreta a fertilidade (note que Ele a ordena aos animais –v22 – e aos homens – v28).

Segundo sua espécie: A credencial apresentada para a criação é interessantemente notável: “Nesta pequena frase a teoria de que uma espécie que está sendo desenvolvida a partir de outro é negada[17]”, pois a reprodução é claramente segundo sua espécie. O termo hebraico min só é usado no AT para descrever plantas, ou animais de acordo com sua espécie, tipo. Isso significa que “Deus enlaçou todas as criaturas numa dependência comum dos seus elementos naturais de origem, embora dando a cada uma delas o caráter distintivo de sua espécie[18]”.

4.         Quarto Período (v.14-19):

Luzeiros no firmamento dos céus: Nesse verso temos que considerar alguns detalhes importantes: (1) Se o sol e a lua não haviam sido criados, como era possível haver luz no princípio? Quando Deus criou os céus e a terra (v.1), Ele não criou o sol e a lua? Essas e outras questões são possíve aqui, e várias respostas já foram dadas para esse dilema. Algumas dessas respostas já foram apresentadas rapidamente aqui, mas vale a pena detalha-lhas um pouco mais: “Alguns intérpretes sugerem que o sol foi criado anteriormente, e subsequente a terra foi atraída à sua esfera de influência. Outros dizem que uma pesada capa de nuvens enscondia o sol de quem estivesse na terra [19]”. De modo interessante, O. Zöckler, parece ter uma opinião intermediária, observe: “O sol e a lua foram criados no princípio. A luz, obviamente, vinha do sol, mas o vapor difundia a luz. Posteriormente o sol apareceu em um céu sem nuvens[20]”. Outros entendem que Deus criou os céus e a terra no princípio, mas os céus como obra de Deus não estavam completos até o quarto período. Calvino é favorável a essa interpretação, e sobre ela dia: “O mundo não estava perfeito até esse pronunciamento, do modo que hoje o vemos, mas ele foi criado com um vácuo caótico de céu e terra”.

Entretanto, todas essas alternativas parecem falhar na leitura do verbo asah usado no verso 16: “Fez Deus os dois grandes luzeiros”. A tentativa de compreender esse texto à luz de seu contexto parece louvável, mas não podemos deixar de considerar aspectos simples do texto ao conversarmos sobre grandes teorias de criação. Uma vez que entendo que a criação do Universo foi iniciada em Gn.1.1 e que cada período parece acrescer à essa criação algo que lhe falta, não vejo dificuldades em compreender a criação dos luzeiro no quarto período da criação. A questão da luz no primeiro período deve, certamente, referir-se algo mais do que simplesmente luz no sentido de iluminação, pois os luzeiros criados no quarto período havim sido criados para esse propósito.

Dois grandes luzeiros: É interessante o fato de que Moisés aqui evita nomear os astros criados chamando-os apenas de Maior e menor. Pelas funções atribuídas a cada um deles temos por certo qual é o luzeiro a que se refere. Ao que parece, o autor está evitando nomeá-los para que não se incorra no risco de que seus leitores seguissem o que teriam aprendido no Egito sobre o sol e a lua como divindades e se curvassem ante eles em adoração. Também parece interessante que aqui vemos uma correção da cosmogonia que os israelitas pudessem ter recebido no seu período de escravidão no Egito: Ao invés de terem os luzeiros como divindades em um panteão de divindades, o sol e a luz são criação direta de Deus. A descrição de propósito da criação desses luzeiros é uma clara demonstração da correção oferecida por Deus à visão egípcia: Os luzeiros fora criados para:

  1. Fazerem entre separação entre dia e noite: aquela separação (badal) outrora realizada por Deus em Gn.1.4 entre luz e trevas é agora realizada pelo sol e a lua; talvez esse seja um indicio de que essas funções anteriormente realizadas por Deus são agora mediada à Criação de Deus.
  2. Serem sinais para as estações, para dias e anos: do mesmo modo como apenas Deus sabia e fazia as divisões entre os períodos criativos, no quarto dia vemos que a organização parece estar acrescendo à Criação funcionamento próprio. Desse ponto em diante a terra e seus habitantes poderiam perceber o tempo em função da criação dos luzeiros.
  3. Alumiarem a terra: aquela Luz criada no começo é agora atribuída ao sol, que no exercício de sua habilidade de brilhar trasmite sua luz por intermédio da luz no período da noite e cumprem o papel designado por Deus, atribuindo graça e organização à Luz e Trevas organizadas pelo Criador no primeiro período da Criação.
  4. Governarem o dia e a noite: O verbo hebraico mashal expressa o sentido de domínio, governo e é usado assim em diversas ocorrências no AT, mas é importante ressaltar que o objeto desse verbo é o dia e a noite, não os habitantes da terra. Como luzeiros, sol e lua não coordenam as estações, mas evidenciam, marcam, mostram sinais, e como tal, falam por Deus e não para o destino das pessoas.

5.         Quinto Período (v.20-23):

Povoem-se as águas (…) Voem as aves: A criação dos animais é divida em dois períodos: as aves e peixes no quinto período e os animais selváticos no sexto. Nesse momento, Deus parece estar preenchendo os céus que havia criado do mesmo modo que o faz com os mares. “As águas reunidos em um só lugar, as águas do oceano, e aqueles em rios, piscinas e lagos, e que, antes de sua coleção para esses lugares, foi sentado, movido, e impregnada pelo Espírito de Deus, de modo que eles poderiam, como fizeram, pela ordem divina acompanhado com seu poder, levar adiante a abundância de criaturas[21]”.

A questão que parece ficar aqui, é: Qual é a razão de Deus criar em primeiro lugar os peixes e as aves e então os animais? Eu tenho entendido essa ordem como uma demonstração da organização de Deus e de uma simetria para a Criação, conforme demonstra à frente. Keil e Delitzsch entedem que “A verdadeira razão é bastante presente, que a criação prossegue ao longo da parte inferior para o superior, e nesta escala ascendente dos peixes ocupam, em grande medida um lugar mais baixo na economia animal de aves e animais de água e de aves de um lugar mais baixo de animais terrestres, mais especialmente os mamíferos. Novamente, não se afirma que apenas um único par foi criado de cada tipo, pelo contrário, as palavras, “vamos Produzam as águas de seres vivos”, mais parecem indicar que os animais foram criados, não só em uma rica variedade de gêneros e espécies, mas em grande número de indivíduos[22]”.

Criou Deus: É interessante perceber que a cada novo estágio na descrição da criação é marcada pelo uso de bära’: o universo é bära’ (1:1), posteriormente os seres vivos são bära’ (1:21), e finamente o homem e a mulher são bära’ (1:26). Albert Barnes entende que “na escolha de palavras diferentes para expressar a operação divina, duas considerações parecem ter guiado pena do autor – variedade e adequação de dicção. A diversidade de palavras que parece indicar uma diversidade no modo de exercer o poder divino[23]”.

Grandes baleias: Embora esta expressão é geralmente entendida pelas diferentes versões como baleias, o significando original, no entanto, deve ser entendido de modo geral e não específico, ou seja, uam referência a todos os grandes animais aquáticos. A expressão também já foi entendida como grandes monstros pelo fato de a expressão ser usada em outros lugares como descrição de outros animais (Ex.7.9 – serpente; Jo.7.12 – monstro marinho; Jo.30.29 – chacais). É bem verdade que aqui o autor tem uma visão mais genérica, e  portanto, animais marinhos parece uma boa interpretação dessa expressão.

Deus os abençoou: Essa é uma nova descrição no relato da criação: Pela primeira vez Deus abençoa sua criação. Anteriormente, Sua palavra já tinha sido levado à cabo no desenvolvimento da terra e do reino vegetal, mas agora Deus dirige Sua atenção aos animais que criou: Ele deseja que sejam fecundos. Enquanto digindades pagãs representavam a fecundidade, Yahweh é o Deus que ordena e coordena a fecundadide. Matthew Henry, sobre isso diz: “O poder da providência de Deus preserva todas as coisas, do mesmo modo como primeiramente o seu poder de criar produziu. Fecundidade é o efeito da bênção de Deus e deve ser atribuída a ele, a multiplicação dos peixes e aves, de ano para ano, ainda é o fruto dessa bênção[24]”. É interessante notar que essa bênção parece nos colocar diante de um novo patamar da Criação. Do mesmo modo que a terminologia parece sugerir algo especial para a ocasião, a benção de Deus parece confimar esse fato. Barnes sobre isso diz: “Somos levados para uma nova esfera de criação, neste dia, e nos deparamos com uma nova lei do Todo Poderoso. Abençoar é desejar, e, no caso de Deus, é querer algo de bom para o objeto da bênção. A bênção aqui pronunciada sobre os peixes e as aves é o de aumentar a abundante[25]”.

6.         Sexto Período (v.24-31):

Produza a terra seres viventes: Adam Clark entende que a expressão nephesh chaiyah é “um termo geral para expressar todos os seres dotados de vida animal, em qualquer de suas gradações infinitamente variados[26]”. A multiplicidade de seres vivos aqui é apresentada na criação, como proveniente da terra, não que ela tivesse o poder em si mesma para realzar esse feito, mas que por intermédio da ordem de Deus, da terra os animais foram produzidos. É por isso que Gill diz: “sem dúvida que foi pelo poder do Deus que acompanha a sua palavra, que essas criaturas foram produzidos da terra, e formado em suas várias formas[27]”.

Segundo a sua espécie: Para Keil e Delitzsch “isso se refere a todas as três classes de seres vivos, cada qual com sua espécie peculiar, conseqüentemente, na Gen 1: 25, onde a palavra de Deus é cumprida, é repetido com cada classe. Este ato de criação, também, como todos os que o precedem, é apresentado pela palavra divina “bom” para estar em conformidade com a vontade de Deus[28]

Façamos o homem: A primeira observação que devemos fazer aqui é que no sexto dia Deus tanto ordena e as coisas acontecem quanto ele mesmo se ocupa em realizar. No caso dos animais, ele ordena e assim se faz, contudo, no que se refere ao homem Ele apresenta o plano e executa pessoalmente: “Façamos o homem” e “Criou, pois Deus”. Sobre isso, Keil e Delitzsch  afirmam que “a criação do homem não se realiza através de uma palavra dirigida por Deus para a terra, mas como o resultado do decreto divino, “Vamos fazer o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança”, que anuncia logo no início da distinção e preeminência do homem acima de todas as outras criaturas da terra[29]”.  O homem é criado no mesmo dia que os animais, divide com eles o cenário da criação, provém do pó da terra do mesmo modo, mas “o apogeu de sua glória é sua relação com Deus[30]”: Ele é criado à imagem de Deus.

Nossa Imagem e Semelhança: As palavras hebraicas de Gênesis 1.26,27 são tselem e demuth, o equivalente às palavras gregas eikon e homoiosis. Tselem significa imagem moldada, uma figura moldada, imagem no sentido concreto da palavra (2Rs.11.18; Ez.23.14; Am.5.26). Já demuth também se refere à idéia de similaridade, mas num aspecto mais abstrato ou idealístico. Embora durante muito tempo se tentou diferenciar as palavras, nos relatos bíblicos as palavras imagem e semelhança são empregadas como sinônimos. Em Gn.1.26 são empregada as duas palavras, mas no v.27 apenas a primeira delas. Em Gn.5.1 só ocorre a palavra semelhança e no v.3 ambas novamente. Porém em Gn.9.6 aparece apenas a palavra imagem. Ou seja, são utilizadas em Gênesis de maneira intercambiável. Outro detalhe importante é que, até mesmo as preposições utilizadas são igualmente intercambiáveis (cf. Gn.1.26,27 e 5.1-3).

Ou seja, não parece sensato ficar buscando definições exaustivas para os termos, mas podemos certamente concordar com Addison Leitch quando diz: “o autor bíblico parece estar tentando expressar uma idéia muito difícil, na qual deseja deixar claro que o homem, de alguma maneira, é o reflexo concreto de Deus[31]”..

O que é certo sobre essa Criação é que esse reflexo concreto  inclui:

  1. Sua Justiça original: A imagem de Deus, na qual foi criado o homem, certamente inclui o que normalmente se denomina “justiça original”. Esse termo diz respeito a condição do homem, que foi criado sem pecado. Esse fato tem grande respaldo escriturístico. Em Eclesiastes lemos “que Deus fez o homem reto” (Ec.7.29) e por isso entendemos que “a criação do homem segundo esta imagem moral implica que a condição original do homem era de santidade positiva, e não um estado de inocência ou de neutralidade moral[32]”.
  2. Sua Constituição Natural: Não há dúvidas que o fato do homem ser criado segundo a Imagem de Deus implica que até mesmo os aspectos mais naturais do homem derivem de Dele. Ou seja, as faculdades intelectuais, sentimentos naturais, liberdade moral e a volição, no homem são reflexos do que Deus é em primeiro lugar. Por ser criado a Imagem de Deus o homem dispõe de uma capacidade moral e racional. Essas capacidades asseguram a condição de homem ao ser humano, e é impossível que participe dessa condição sem a presença dessas dádivas.
  3. Sua Constituição Espiritual: É natural esperar que o homem sendo criado a imagem de Deus desfrute de uma condição espiritual, pois “Deus é espírito” (Jo.4.24). E não é difícil observar esse fato, pois mesmo na narrativa da criação podemos encontrar dados referentes a esse fato: “…lhes soprou nas narinas o fôlego de vida, e o homem passou a ser alma vivente” (Gn.2.7) Dois fatos podem ser ressaltados e considerados importantes nesta questão, (1) a vida do homem só foi possível após o sopro de vida da parte de Deus, sendo considerado como o princípio da vida do homem e (2) a expressão “alma vivente” é considerada condição de sua vida.

Em outras palavras, estamos dizendo que:

Tudo o que torna possível um ser autoconsciente, incluindo os aspectos materiais e imateriais do homem indica que o arquétipo do homem é o Deus trino e que nossos atributos refletem, ainda que imperfeitamente, o caráter de Deus. Também indica que o homem não é um ser autônomo, mas tem sua própria existência em dependência dAquele que o criou. Já o  aspecto físico do homem reflete o plano original de Deus de encarnar-se para a redenção da humanidade.

Aqui ainda cabe uma pergunta: Se a palavra Deus (elohîm) é um título e por isso pode governar verbo no singular, por que nesse verso vemos os verbos no Plural? Muitas propostas tem sido feitas para compreender esse dilema: (1) Alguns tem entendido que o plural  aqui é uma referência aos anjos, uma vez que também são chamados nas escrituras de elohîm (Philo de Alexandria). Entretanto esse posição é completamente conflitante com passagens como Gn.2.7; 2.22 e Is.40.13, entre várias outras. Sem contar que isso implicaria em dizer que o homem teria sido criado à imagem dos anjos também, o que cria irreparáveis dificuldades com Sl.8; Gn.1.27 e 5.1. (2) outros entendem como um plural majestático, similar ao que vemos no relato . (3) Outros entendem como uma referência direta à Trindade, uma vez que o NT é claro em mostar que Cristo é efetivo na Criação (Jo.1.1-3) e que o Espírito de Deus está ativo no mesmo cenário (Gn.1.2). Kevan é partidária dessa visão, e por isso mesmo diz: “É a Trindade quem delibera, sem qualqer intervenção ou consulta feita aos anjos[33]”.

Entranto, é válido demonstrar que a ortodoxia cristã navega entre a segunda e a terceira opção. Geisler deixa isso claro quando diz que “o plural da palavra hebraica propicia um sentido mais abrangente, mais majestático ao nome de Deus. Convém observar, entretanto, que o NT ensina com clareza que Deus é uma Trindade (Mt.3.16-17; 2Co.13.13; 1Pe.1.2)e, embora a doutrina da Trindade não seja claramente desenvolvida no AT, ela é vislumbrda em muitas passagens (Sl.110.1; Is.63.7, 9-10; Pv.30.4)[34]”. Kidner parece esboçar a mesma opinião, pois para ele é “esta plenitude, vislumbrada no VT, [que] haveria de ser revelada como tri-unidade, nos posteriores ‘nós’ e ‘nossa’ de Jo.14.23 (com 14.17)[35]”. É bem verdade que, diante do desenvolvimento do monoteísmo judaico, o plural aqui é uma referêcia à majestade de Deus. Mas, como o NT lança maiores luzes ao que se passa aqui, podemos assumir com tranquilidade que uma referência à Trindade é realizada aqui. Essa fato poderia ser observado pelo fato que a partir do verso 27 o termo elohîm coordena verbos no singular novamente (v.27 criou; 28 abençoou; 29 disse). Essa singularidade plural é uma pequena evidência da Triunidade tão claramente exposta no NT.

Deus os abençoou: A ordem de fertilidade dada por Deus aqui é em muito similar àquela já dada aos peixes e aves anteriormente. Entretanto, um aspecto dessa bênção só é aplicável ao homem: “sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todos os animais que se arrastam sobre a terra” (Gn.1.28). Essa bênção está em conformidade com o Ele mesmo havia prometido fazer no verso 26. Esse domínio é uma pressuposição de poder outorgado por Deus para o homem de modo que ele é seu representante sobre toda a criação. Essa é a opinião de Barnes: “A bênção divina é agora pronunciado sobre o homem. Ela difere da dos animais inferiores, principalmente no elemento de supremacia. Presume-se que o poder pertence a natureza do homem, segundo o conselho da vontade do Criador (Gn.1.26[36])”.

Entretanto, esse ato de abençoar não foi apenas um ato de “conferir uma dádiva, mas também uma função (cf. 1.21; 2.3), e fazê-lo com ardoso interesse[37]”. Esse conceito exposto por Kdner nos faz pensar que Deus ao criar o homem lhe atribui, não apenas a distinção das outras criaturas, por exercer uma função de domínio sobre elas, mas por exercer uma função em similaridade com Deus: Ele é o Soberano, mas divide Seu domínio com o ser humano. Note que em todos os estágios da criação o Criador nomeou o que fizera, entretanto, notamos que no sexto dia até mesmo essa atividade foi outorgada ao homem (Gn.2.19-20). Essa mediação de autoridade de domínio é uma expressão da Imagem de Deus, a qual o homem foi criado. Sobre isso, Sailhamer diz: “o propósito do autor não parece meramente marcar o homem como diferente do resto da criação’a narrativa parce intencionar demonstrar que o homem é semelhante a Deus: (…) O homem é uma criatura, mas uma criatura especial: Ele é feito à imagem e semelhança de Deus[38]”.

Viu Deus tudo quanto fizer e eis que era muito bom: Tudo operava conforme o plano divino! Tudo glorificava a Deus conforme sua própria esfera de criação. As máquinas de cada átomo funcionavam direitinho.  O mar, a terra, as plantas, as aves, os animais, tudo em sua esfera trazia glória a Deus. O homem ocupava seu devido lugar como vice-regente e imagem de Deus.  Harmonia.  Paz.  Beleza.  Perfeição.  Glória[39]”. “Se cada pormenor da Sua obra foi declarado ‘bom’ (4, 10, 12, 18, 21, 25) o conjunto todo é muito bom[40]”.

7.         Sétimo Período e Aplicação:

Foram acabados o céu e a terra: Trouxe para a conclusão. Nenhuma mudança permanente desde então tem sido feita no curso do mundo, não houve novas espécies de animais foram formadas, nenhuma lei da natureza revogada ou adicionada. Elas poderiam ter sido concluídas em um momento bem como em seis dias, mas o trabalho de criação foi gradual para a instrução do homem[41]”. “Aperfeiçoada e completada no espaço de seis dias, aos poucos, sucessivamente, na forma antes relacionados; pela palavra e poder de Deus que foram no primeiro dia criado do nada, mas eles não foram aperfeiçoados, embelezada, e adornada, e preenchida, até que todas as criaturas foram feitas[42]

Descançou nesse dia: Descanço aqui não é uma referência a um estado de repouso inerte, mas de deleite com as obras de Suas mãos. A impressão que temos nesse texto é que Deus agora inicia a obra da preservação (At.17). O uso que Jesus faz do sábado dá a entender que Ele entendia que Deus ainda trabalha (Jo.5.17). O autor de Hebreus (H.b.4.1-7)entende que esse descanço fala mais do que um estágio de deleite e desfrute divino de Suas Obras, mas fala da esfera de vida que Deus vive. Por isso, Von Rad diz que Deus “não o considera como algo para Deus somente, mas como algo que interessa ao mundo. Portanto, está sendo preparado o caminho para o bem final, o bem salvífico[43]”.

8.         Simetria da Criação:

Um dos detalhes dessa criação que ainda merece nossa atenção é o fato de que Deus exerceu Sua obra da Criação com perfeita simetria, observe o quadro abaixo:

Sem Forma Transformado em Forma Vazio Transformado em Habitação
v. 3-5 1º Período Luz v. 14-19 4º Período Luminares (sol, luz, estrelas)
v. 6-8 2º Período Céu (espaço superior)Mar (espaço inferior) v. 20-23 5º Período Peixes e Pássaros
v. 9-13 3º Período Terra FértilPlantas terrestres v. 24-31 6º Período Animais e Homem
7 º Período – DESCANÇO: E era muito bom

Ao observar essa simetria Bob Deffinbaug diz: “Duas outras observações devem ser feitas. Primeiro, há uma seqüência nos seis dias. Fica claro que este relato está disposto cronologicamente, cada dia edificado sobre a atividade criativa dos dias anteriores. Segundo, há um processo envolvido na criação, um processo envolvendo a transformação do caos no cosmos, a desordem na ordem[44]”. Muito embora o autor prefira entender o texto como um relato de seis dias e não períodos, vemos que há solidez em sua observação.

C.     Aplicação

Diante dessa breve exposição da Criação, nós cristãos devemos chegar a dois reconhecimentos: (1) Nesse relato reconhecemos que Deus é; (2) e também reconhecemos quem nós somos. Esses dois reconhecimentos básicos devem nos levar ao espírito verdadeiro de adoração a esse Deus por quem Ele é, o que Faz e como nos privilegia com a possibilidade de um relacionamento com Ele.

1.         Reconhecimentos a respeito de Deus:

  1. O Poder da Palavra de Deus: O poder de Deus é claramente observado nesse trecho, “Pois ele falou, e tudo se fez; ele ordenou, e tudo passou a existir” (Sl.33.9). Deus é o Deus cuja palavra é capaz de criar, cujas ordens são recebidas e concretizadas por toda criação.
  2. O Caráter de Deus: Em poucas ocasiões o caráter desse Deus é exposto, mas as expressões “bom” e “muito bom” descrevem o caráter de Deus que transformou aquilo que era sem forma e vazio em formatado e completo: Deus é um Deus que realiza suas obras por completo. É essa certeza que nos garante a salvação eterna: “estou plenamente certo de que aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até ao Dia de Cristo Jesus” (Fl.1.16).
  3. A Legislação de Deus: A quantidade de ordens realizadas por Deus nesse texto nos remete ao fato de que esse Deus é um Deus que estabelece Leis que se seguem por toda a existência da Criação: “Sejam férteis, multipliquem-se” são pequenos exemplos das Leis Universais que nosso Criador estabeleceu para o mundo. Isso é um indício de que esse Deus, além de demonstrar-se Criativo e Inteligente no exercício do Seu poder, também irá demonstrar Seu caráter no estabelecimento de suas Leis.

2.         Reconhecimentos a nosso próprio respeito:

Considerar quem Deus é nos faz pensar melhor sobre quem nós somos:

  1. Nós lhe devemos obediência: Na criação, Deus ordena e tudo lhe obedece. Nada lhe foge o poder da palavra. A história do homem é clara em demonstrar que a obediência a Deus é muito mais benéfica ao homem do que seguir suas próprias intenções.
  2. Nós lhe devemos adoração: “A grandeza de Deus é evidente nas obras de suas mãos – a criação que está ao nosso redor. Os homens deveriam temê-Lo e reverenciá-Lo por Quem Ele é[45]”. O salmista capta esse fato quando diz: “Quando contemplo os teus céus, obra dos teus dedos, e a lua e as estrelas que estabeleceste,  que é o homem, que dele te lembres E o filho do homem, que o visites?” (Sl.8.3-4).

[1] MACKINTOSH, Charles Henry., Estudos sobre o livro de Gênesis.pp.5.

[2] Cf. Salmo 19.14

[3] KIDNER, Derek, Gênesis, Introdução e Comentário. pp.41.

[4] A Septuaginta nos brinda aqui com uma tradução que merece ser lembrada pela conexão que faz com Jo.1.1:  “Ἐν ἀρχῇ  ἐποίησεν θες”. A similaridade entre a versão da Septuaginta (LXX) de Gn.1.1 e o texto de Jo.1.1 (᾿Εν ἀρχῇ ἦν ὁ Λόγος) nos remete com mais segurança ao fato de que o texto está a falar no princípio da criação, onde somente a Trindade existia.

[5] A clara dicotomia entre a pessoa de Deus e sua função como Deus é vista em Ex.20.7: “Não tomarás o nome do SENHOR, teu Deus, em vão, porque o SENHOR não terá por inocente o que tomar o seu nome em vão”.  Novamente, o termo Senhor em caixa alta é o Tetragrama (YHWH – Iahweh) enquanto a palavra Deus é a palavra elöhîm. O que se tem por certo, é que a Pessoa de Deus, reconhecida como Iahweh, é o único Deus verdadeiro, mas a expressão elöhîm pode tanto falar dele como Pessoa ou como Função ou Título. É o que observamos em Dt.4.35: “A ti te foi mostrado para que soubesses que o SENHOR é Deus; nenhum outro há senão ele”. Nesse caso a Pessoa de Iahweh é descrita como sendo Deus (sua função). A distinção entre Pessoa e Cargo é bem observado pelas palavras hebraicas e nos oferece uma clara leitura sobre quem estamos estudando.

[6] MERCK, David, Deus e Sua Palavra Poderosa (Gn.1.2-2.3).

(http://www.palavraefamilia.org.br/index.php?option=com_content&task=view&id=192&Itemid=108)

[7] SAILHAMER, John H. Genesis – The Expositor`s Bible Commentary. Vol.1, pp.20.

[8] ex. Atribui a narrativa de Gênesis ao editor Sacerdotal.

[9] FRANCISCO, Clyde, Comentário Bíblico Broadman – Gênesis Introdução e Comentário. Vol.1, pp.173.

[10] MERCK, David, Deus e Sua Palavra Poderosa (Gn.1.2-2.3).

(http://www.palavraefamilia.org.br/index.php?option=com_content&task=view&id=192&Itemid=108)

[11] Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, pp.604

[12] FRANCISCO, Clyde, Comentário Bíblico Broadman – Gênesis Introdução e Comentário. Vol.1, pp.175.

[13] KEVAN, E.F., Gênesis – Novo Comentário da Bíblia. Vol.1, pp.83.

[14] GEISLER, Norman, HOWE, Thomas, Manual Popular de Dúvidas, enigmas e “contradições” da Bíblia. Pp.34.

[15] FRANCISCO, Clyde, Comentário Bíblico Broadman – Gênesis Introdução e Comentário. Vol.1, pp.176.

[16] SAILHAMER, John H. Genesis – The Expositor`s Bible Commentary. Vol.1, pp.29.

[17] BARNES, Albert, Notes on de Bible.

[18] KIDNER, Derek, Gênesis – Introdução e comentário. pp.45.

[19] FRANCISCO, Clyde, Comentário Bíblico Broadman – Gênesis Introdução e Comentário. Vol.1, pp.176-7.

[20] ZÖCKLER, O., Schoöpfung – Real Encyklopädie für prtestantische Theologie und Kirche, pp.735-36. IN: SAILHAMER, John H. Genesis – The Expositor`s Bible Commentary. Vol.1, pp.33.

[21] GILL, John, Exposition on the entire Bible.

[22] KEIL, Johann, DELITZSCH, Franz, Commentary on the Old Testament.

[23] BARNES, Albert, Notes on de Bible.

[24] HENRY, Matthew, Commentary on the Whole Bible.

[25] BARNES, Albert, Notes on de Bible.

[26] CLARK, Adam, Commentary on the Bible.

[27] GILL, John, Exposition on the entire Bible.

[28] KEIL, Johann, DELITZSCH, Franz, Commentary on the Old Testament.

[29] Idem.

[30] KIDNER, Derek, Gênesis – Introdução e comentário. pp.45.

[31] [31] LEITCH, Addison. Image of God. In: RYRIE, Charles. Teologia Básica. Mundo Cristão:São Paulo, 2004. pp. 218

[32] BERKHOF, Louis, pp. 189

[33] KEVAN, E.F., Gênesis – Novo Comentário da Bíblia. Vol.1, pp.84.

[34] GEISLER, Norman, HOWE, Thomas, Manual Popular de Dúvidas, enigmas e “contradições” da Bíblia. Pp.35.

[35] KIDNER, Derek, Gênesis – Introdução e comentário. pp.49.

[36] BARNES, Albert, Notes on de Bible.

[37] KIDNER, Derek, Gênesis – Introdução e comentário. pp.49.

[38] SAILHAMER, John H. Genesis – The Expositor`s Bible Commentary. Vol.1, pp.37.

[39] MERCK, David, Deus e Sua Palavra Poderosa (Gn.1.2-2.3).

(http://www.palavraefamilia.org.br/index.php?option=com_content&task=view&id=192&Itemid=108)

[40] KIDNER, Derek, Gênesis – Introdução e comentário. pp.50.

[41] JAMIESON, Robert, FAUSSET, A. R., BROWN, David , A Commentary on the Old and New Testaments.

[42] GILL, John, Exposition on the entire Bible.

[43] RAD, Von, Genesis. Pp.60 IN: KIDNER, Derek, Gênesis – Introdução e comentário. pp.50-1.

[44] DEFFINBAUG, Bob, The creation of Heavens and the Earth (Gênesis 1.1-2.3). ( http://bible.org/seriespage/creation-heavens-and-earth-genesis-11-23)

[45] DEFFINBAUG, Bob, The creation of Heavens and the Earth (Gênesis 1.1-2.3). ( http://bible.org/seriespage/creation-heavens-and-earth-genesis-11-23)