Jason BeDuhn e a TNM


Dentre todos os acadêmicos citados como referência, esse provavelmente é um dos poucos que merece ser considerado com atenção em função de sua acessibilidade e simplicidade de leitura. Diferente do outros acadêmicos citados, esse é facilmente encontrado e em uma obra recente.

Jason Beduhn, embora não seja muito conhecido na área da teologia ou tradução, é professor associado de Estudos Religiosos na Northern Arizona University em Flagstaff. Ele é Ph.D em Estudos Comparativos das Religiões pela Indiana University.

Na introdução do seu livro, Beduhn atesta que “a maioria das pessoas interessadas em assumir o árduo trabalho de realizar uma tradução da Bíblia tem investido em um entendimento particular do Cristianismo, e esse investimento afeta sua objetividade[1]”. Em outras palavras, ele acredita que as credenciais religiosas dos tradutores afeta a compreensão do texto de tal modo que não podem ser objetivos. Aliás, essa visão que tem de si mesmo é expandida ainda de modo mais claro quando diz:

“Mas, tão importante [como as qualificações acadêmicas] eu tenho uma atitude que me faz ter distinta vantagem para escrever um livro como esse. Eu sou um historiador comprometido e dedicado a descobrir o que Cristãos disseram dois mil anos atrás. Eu não tenho interesse em provar que esses Cristãos são parecidos com determinada denominação do Cristianismo ou que eles aderiam a doutrinas específicas que se assemelham a cristãos modernos específicos[2]

Muito embora tal sentimento seja vivaz no autor, isso não o torna imediatamente um acadêmico das áreas da tradução. Em outras palavras, DeBuhh afirma que não tem preconceitos teológicos (o que sua obra contradiz), mas não defende se tem credenciais para o trabalho. Apenas por sua formação e área de atuação como professor e pesquisador, sabemos que a gramática grega e a crítica textual não fazem parte de suas especializações.

Segundo tal autor, para traduzir um texto como o NT tudo o que se precisa saber é “saber ler grego, e um tipo específico de grego na qual o Novo Testamento foi originalmente escrito[3]”. Considerando esse fato, Tomas Howe diz:

Mas, BeDuhn não diz nada sobre outras qualificações que são igualmente necessárias. O que dizer sobre lingüística e filosofia da linguagem para analisar uma tradução? O que dizer sobre o estudo do contexto na tradução? Nenhuma dessas áreas de pano de fundo acadêmico são mencionadas por BeDuhn. BeDuhn ainda não menciona nada sobre criticismo textual, hermenêutica e teologia. Infelizmente para a teses de BeDuhn qualquer pessoas pode realizar uma tradução sem competência nessas áreas. Além disso, BeDuhn não menciona nenhuma de suas qualificações nessas áreas[4].

O simplismo leviano de BeDuhn nos faz pensar em suas capacidades pessoais de investir em um trabalho de tradução com tão baixo conceito do trabalho e tão alta visão de sua capacidade pessoal. Essas duas considerações já tem potecial para o desastre completo. Por isso, vamos considerar em detalhes os argumentos de BeDuhn, e verificar quão STV são seus argumentos.

1. A ausência do artigo:

É impressionante que tal acadêmico defenda a tradução indefinida de Jo.1.1c com esse argumento. A análise que já realizamos é complemente suficiente para demonstrar que tal conclusão não é válida (cf. A ausência de artigo no Grego Koiné). Entratanto, por honestidade a BeDuhnm, vamos considerar suas declarações.

O que nos chama a atenção à primeira vista é que BeDuhn inicia seus capítulos, do mesmo modo que muitas TJ gostam de fazer: citando versões bíblicas[5]. É interessante notar que além desse princípio de igualdade, BeDuhn inicia sua argumentação de um modo muito interessante, observe:

O grego tem apenas o artigo definido, como nosso “o(a)”; ele não tem artigo indefinido, como nosso “um(a)”. Assim, de modo geral, um substantivo grego definido tem a forma com artigo definido (ho), o que se torna “o(a)” em Inglês. Um substantivo grego indefinido irá aparecer sem o artigo definido, e será propriamente traduzido em Inglês com “um” ou “uma”. Nós não estamos “adicionando uma palavra” quando traduzimos substantivos Gregos que não tem artigo definido como os substantivos com artigo indefinido em inglês. Nós simplesmente obedecemos as regras da gramática inglesa que nos que nos diz que não podemos dizer “Snoop é cão”, mas “Snoopy é um cão”. Por exemplo, em Jo.1.1c, a clausula que estamos investigando, ho logos é “a palavra”, como todas as traduções acertadamente fizeram. Se isso tivesse sido escrito simplesmente logos, sem o artigo ho, nós teríamos que traduzir como um verbo[6].

Parece-me impressionante que um acadêmico com Ph.D defenda essa opinião como definitiva (observe que mesmo em sua conclusão, esse é o argumento definitivo). Não é à toa que os TJ gostam dele: Além de opiniões similares a superficialidade é comum em ambos. O exemplo oferecido (Snoopy is dog) é sem sombra de dúvidas uma afronta ao texto, e uma forma equivocada de se compreender o que é definido e indefinido.

Ainda que a intenção do autor foi esclarecer um fato por meio de uma comparação, tal comparação não se enquadra no dilema de tradução de Jo.1.1.c, é simplesmente vergonhoso. Deve ser por isso que pouco a frente concluí: “Mas, o que dizer do Θεὸς indefinido de Jo.1.1c? Que isso não corresponde ao substantivo próprio definido ‘Deus’, mas ao substantivo indefinido ‘um deus’[7]”.

Sem querer realizar notas a todas as declarações de BeDuhn, temos que notificar que a daclaração sobre substantivos indefinido nos faz realmente questionar a capacidade gramatical desse autor. Sua conclusão, baseada nas evidências que apresenta já é um grande (bem) feito, mas sua explicação transparece incompetência. Para clarificar esse fato, observe seu adendo:

Se João quisese dizer e “e o Verbo era Deus”, como muitas versões em inglês traduzem, ele poderia ter feito isso facilmente adicionando o artigo definido “o” (ho) à palavra “deus” (Θεὸς), fazendo “o deus” e portanto “Deus”. Ele poderia simplesmente ter escrito ho logos em ho Θεὸς (palavra por palavra: “o verbo era o deus”). Mas ele não fez?[8]

Certamente BeDuhn faltou as aulas de grego instrumental na Idiana University. Tal conclusão não pode ter sido apresentada por alguém que conhece de fato grego. Já temos dito que tal situação (da inclusão do artigo definido com Θεὸς) faria a sentença grega expressar completa equiparação (cf. Mt.13.38; Jo.15.1). Tal conclusão de BeDuhn, certamente nos faz pensar que o nível de conhecimento grego do autor está no nível da leitura, como defendeu no prefácio do seu livro.

2. Influencia da Vulgata

Outro argumento interessante que BeDuhn usa para explicar por que as versões ainda mantinham suas equivocadas leituras sem artigo indefinido, é que a KJV a princípio teria sido traduzida com os olhos na Vulgata:

Assim que o Comite concordou com o texto grego base, a tradução pode iniciar. O bem conhecido valor da Vulgata (do quinto século) preenchia as lacunas quando alguma incerteza a respeito do sentido do grego original[9].

O texto superior base usado hoje nos permite identificar mais uma dúzia de versos incluídos na KJV que não são autênticos ao Novo Testamento. Dúzias de palavras ou frases são incluídas na KJV que tem pouco ou nenhum suporte em manuscritos gregos (…) Muitas dessas diferenças tem sua base na Vulgata Latina, para a qual os tradutores da KJV se voltaram com freqüência para usar como guia[10].

Considerando sua opinião sobre a KJV, BeDuhn infere que tal tal influência chegou a afetar a decisão da omissão voluntária do artigo indefinido na sentença de Jo.1.1c. Sobre isso diz:

Como já disse, os tradutores eram muito mais familiares e confortáveis com sua Vulgata Latina que com o Novo Testamento Grego. (…) Latim não tem artigo, definido nem indefinido. Assim o substantivo definido “Deus” e o indefinido “deus” aparecem precisamente do mesmo modo em Latim, e em Jo.1.1-2 alguém poderia ver três ocorrências do que parecia ser a mesma palavra, ao invés de duas formas distintas usadas em Grego (…) A interpretação de Jo.1.1-2 que agora é vista na maioria das versões em inglês foi bem inserida no pensamento dos tradutores da KJV que se basearam em uma leitura milenar apenas do Latim[11].

Em outras palavras o que esse autor está dizendo é que os tradutores da KJV usaram-na em todo o processo de tradução com referência, inclusive em questões gramaticais. O fato de BeDuhn defender o uso da Vulgata para a produção da KJV não é nenhuma novidade, mas a profundade do uso que BeDuhn defende parece, nesse caso, um exageiro infundado. Se isso é verdade, temos que admitir que as leituras mais confortáveis sem artigo deveriam ter sido mantidas no decorrer do texto de Jo.1, o que não acontece[12]. A argumentação de BeDuhn nesse caso é sem qualquer evidência e fundamento, é simplesmente um exemplo de falta de preparo para lidar com questões de tradução.

3. A ordem da frase é indiferente

Pouco após defender a influência da Vulgata na tradução de Jo.1.1c, DeBuhn passa a analisar algumas defesas da leitura da KJV. Um dos argumentos que BeDuhn tenta apresentar é o dilema gramatical já apresentado: os predicados via de regra não tem artigo. Para DeBuhn isso não é aceitável pelo fato de que pode encontrar quatro ocasiões no evangelho em que o artigo é usado com o predicado. Observe:

Nós precismos de apenas uma olhada no Evangelho de acordo com João para encontrar outras sentenças com verbos de ligação onde ambos os substantivos do sujeito e predicado tem artigo definido, e em nenhum desses casos há conflito entre o sujeito e o predicado[13].

Em uma nota explicativa ele acrescenta:

João 1.4: “A vida era luz dos homens”. Tanto sujeito como predicativo do sujeito tem artigo definido, e ainda assim “a vida” é o sujeito por que na clausula imediatamente anterior João estava falando sobre “a vida” e não “a luz[14]”.

A explicação de BeDuhn sobre o que é sujeito e o que é predicado, em outras palavras, é apenas uma questão de contexto. É por isso que defende que em Jo.1.1c o Verbo é o sujeito, pois nas duas sentenças anteriores ele era o foco do assunto. Certamente DeBuhn apresenta sua completa falta de compreensão da Gramática Grega e fortalece nossa opinião de que apenas poderia ler em grego. Sua conclusão e defesa certamente não tem respaldo na gramática grega.

A conclusão de BeDuhn sobre Jo.1.4 é claramente um equívoco: por não reconhecer a estrutra de equiparação, onde sujeito e predicado tem artigos e o sentido é entendido em ambos os sentidos (A é B do mesmo modo que B é A – cf. Jo.15.1), atribui ao contexto o poder de definição. Novamente, BeDuhn demonstra que seu conhecimento do idioma grego é elementar.

4. Falta de Critérios de Definição

BeDuhn também parece reconhecer que no NT Θεὸς não precisar vir acompanhado de artigo para ser definido, entretanto apresenta algumas declarações referentes a essa condição. Em primeiro lugar BeDuhn defende que o uso anartro de Θεὸς é definido quando está nos casos genitivo ou dativo. Segundo ele, essas são formas que dispensam o uso do artigo, entretanto, o mesmo não acontece com o nominativo, que é mais dependente de artigo para ser definido. Em segundo lugar, DeBuhn defende que existem características que definem o uso definido de Θεὸς no NT: (1) a presença de pronome possessivo (Jo.8.54; 2Co.6.16); (2) o uso do vocativo (Rm.9.5; 1Ts.2.5); (3) a associação com o numeral um (1Co.8.6; Ef.4.6; 1Tm.2.5). Como nenhum desses elementos são encontrados em Jo.1.1c, BeDuhn conclui que a leitura é certamente indefinida[15].

Essa é a primeira ocasião em que um argumento de BeDuhn parece ter fundamento gramatical, mas novamente ele apresenta sua opinião de modo equivocado. A declaração de que o nominativo é mais dependente do que outros casos no Grego Koiné não é nem se quer sugerido por qualquer gramático do grego do NT e nem mesmo verificável no NT[16]. A sua segunda conclusão, de que existem fatores que demonstram o uso definido de Θεὸς no nominativo, ainda que seja acertivo dentro dos exemplos que apresenta, exclui diversos outros. Em outros lugares, nenhum desses elementos é vistos e ainda assim o substantivo anartro no nominativo continua sendo definido. Apesar de já termos demonstrado isso com muitos detalhes no artigo Usos anartros de Θεὸς  no Novo Testamento, considere alguns exemplos:

Gálatas 6:7

(GNT) Μὴ πλανᾶσθε, Θεὸς οὐ μυκτηρίζεται· ὃ γὰρ ἐὰν σπείρῃ ἄνθρωπος, τοῦτο καὶ θερίσει·

(PJFA) Não vos enganeis; Deus não se deixa escarnecer; pois tudo o que o homem semear, isso também ceifará.

Filipeneses 2:13

(GNT) Θεὸς γάρ ἐστιν ὁ ἐνεργῶν ἐν ὑμῖν καὶ τὸ θέλειν καὶ τὸ ἐνεργεῖν ὑπὲρ τῆς εὐδοκίας.

(PJFA) porque Deus é o que opera em vós tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade.

Note nesses dois casos que nenhum dos critérios de definição de BeDuhn estão presentes e ainda assim entendemos o substantivo anartro Θεὸς é definido. Ou seja, BeDuhn ou não era bem informado, ou mal intencionado. O que se pode dizer com certeza é que sua pesquisa não foi adequada.

5. A regra de Colwell está errada

A partir desse momento BeDuhn parece estrapolar um pouco sua defesa. Após apresentar sua concepção da regra de Colwell BeDuhn faz o seguinte comentário:

O primeiro problema é que essa regra não estabelece a definição de um substantivo. O segundo é que a regra está errada[17].

Claramente BeDuhn compreendeu de modo equivocado da regra de Colwell (e provavelmente nunca leu seu artigo), e para mais informações sobre o assunto o leitor deve ler o artigo Jesus é um deus? Será mesmo!?. O que DeBuhn apresenta aqui demonstra que ele está na contramão da gramática grega tal como nós conhecemos. Um dos argumentos que BeDuhn usa para defender sua tese de que a Regra de Colwell não é uma regra são as famosas ocasiões de equivalência, onde sujeito e predicado tem artigo: Jo.6.51; 15.1 ou situações de exceção: Jo.20.15 e 21.12.

A má compreensão de BeDuhn da regra de Colwell faz com que defenda que, por que existem exceções não deve existir uma regra. Em suas palavras BeDuhn diz: “Nós normalmente ouvimos a expressão ‘a exceção prova uma regra’. Mas, de modo geral, exceções disprovam regras[18]”. Contudo tal afirmação é autocontraditória, pois só existem exceções se existem regras a serem excetuadas. Sem regras, não existem excesões. Além de pouco conhcedor de grego, Beduhn agora demonstra problema com a lógica. Sua tentativa de defesa de sua visão do uso indefinido de Θεὸς, passa a demonstrar falta de preparo para falar sobre gramática e tradução.

Thomas Howe afirma que BeDuhn não compreendeu a Regra de Cowell, observe:

BeDuhn não compreendeu a regra em primeiro lugar. Como Daniel Wallace demonstra: ‘Colwell afirmou que um PN definido que precede um verbo é normalmente definido’. O fato de BeDuhn ter cometido esse erro é evidente em seu comentário: ‘O primeiro problema é que a regra não estabelece a definição de um substantivo. O fato é, a regra nunca foi formulada desse modo. A observação de Colwell era concernente a substantivos que se acreditava ser definido para ver como eles era apresentados no texto[19].

Pelas críticas que BeDuhn tece certamente não está familiarizado com a Regra de Colwell. A sensação que temos ao ler suas afirmações é que Colwell criou uma regra para defender o uso definido de Θεὸς em Jo.1.1c., o que sabemos não é verdade[20]. Ou seja, começamos a notar que a suposta falta de identidade teológica que ele apresenta na introdução do seu livro não o permite ser objetivo de modo nenhum.

6. Philip Harner falhou, mas é o mais provável

Outro argumento de BeDuhn é baseado na exposição de Harner. Após apresentar a visão que tem do trabalho de Harner, DeBuhn diz:

Na minha opinião Harner demonstra com sucesso que o caso de substantivos predicados sem artigos colocados antes do verbo tendem a ter função qualitativa. Em outras palavras, esse substantivo descreve ou define o caráter do sujeito da sentença. Mas, Harner falha em demonstrar que essa é sempre a função dos predicados nominativos pré-verbais, ou que essa é a função não encontrada em predicados nominativos após o verbo. Em outras palavras, entendo que Harner detectou um importante uso do predicado nominativo anartro, mas não um que em todos os casos depende da posição do substantivo em relação ao verbo[21].

O que BeDuhn quer dizer com essa afirmação é que, se não for encontrada uma “regra” sem qualquer exceção, a tradução se mantém indefinida. Entretanto, se usarmos o mesmo critério para a “regra” da ausência de artigo, veremos que essa não é uma regra sem exceções. Aliás, já temos demonstrado largas exceções desse fato (cf. Ausência de artigo no Grego Koiné). A relutância de BeDuhn em reconhecer os princípio apresentados por Colwell e Harner certamente o fazem parecer desconhecedor das regras que critica.

Um equívoco que BeDuhn claramente comente é sua confusão entre o sentido indefinido expresso pela TNM e o qualitativo apresentado por Harner. Segundo ele, via de regra, “os substantivos predicados indefinidos, antes ou depois do verbo, servem para identificar classe ou categoria a que um substantivo pertence[22]”. Pouco à frente complementa: “Se o [artigo definido] ‘o’ fosse usado com substantivos predicados, o sentido qualitativo seria perdido. O uso de [artigo indefinido] ‘um’ adequa o sentido qualitativo[23]

Essa afirmação sobre indefinição e sentido qualitativo, claramente demonstra a confusão que DeBuhn tem do assunto. Para ele, esses dois modos de compreensão de um texto são sinônimos, mas claramente não o são, como já temos demonstrado. Outro detalhe que demonstra a má compreensão de BeDuhn é sua investigação para demosntrar as falhas de Harner. Ele cita diversos versículos com análises superficiais como demonstração de seu ponto de vista[24]. Como a grande maioria dos versos já foram observados no capítulo anterior não se faz necessário repetir aqui.

7. BeDuhn e a preferência pela TNM

Após todas essas considerações BeDuhn confirma seu favoritismo pela forma da tradução da TNM:

A tradução de João 1:1 na TNM é superior à outras oito tradução que estamos comparando. Eu não acho que ele é a melhor tradução possível para um leitor moderno Inglês, mas pelo menos ela rompe com a tradição KJV seguido por todos os outros, e o faz na direção certa, prestando atenção à gramática e sintaxe do grego como realmente funciona. Nenhuma tradução de João 1:1 que eu posso imaginar que vai ser perfeitamente clara e evidente em seu significado. João é sutil, e nós fazemos-lhe nenhum serviço, reduzindo a sua sutileza para simplicidade bruta. Tudo o que podemos pedir é que a tradução precisa ser um ponto de partida para a exposição e interpretação. Apenas a TNM consegue isso, como ele soa como provocação ao leitor moderno. As outras traduções cortam a exploração do significado do verso antes mesmo dele começar[25].

É impressionante o peso que BeDuhn oferece à TNM, não é à toa que os TJ o apreciam tanto. Nos chama a atenção a expressão “pelo menos ela rompe com a tradição KJV seguido por todos os outros, e o faz na direção certa, prestando atenção à gramática e sintaxe do grego como realmente funciona”. Depois de uma apresentação cheias de trapalhadas e equívocos sobre a gramática, BeDuhn ressalta que a TNM respeita tais regras de gramática que ele mesmo parece desconhecer. Provavelmente, BeDuhn tem em mente que a única “regra infalível” da gramática grega é que a ausência de artigo exige tradução indefinida. Contudo, sabemos que tal conclusão é equivocada e viola o princípio que defende para rejeitar as opiniões de Colwell e Harner.

Em outras palavras, entendo que o apoio de BeDuhn a TNM presta um desfavor aos TJ: sua análise não parece uma boa defesa nesse caso.

8. BeDuhn suporta a visão da TNM?

Um caso interessante sobre BeDuhn é que apesar de ter apreço pela leitura da TNM (nesse caso), sua teologia difere de modo tão claro da teologia da STV que é impossível que BeDuhn defenda a cristologia TJ. Àquele que leram seu livro até a página 125 estarão convencidos de que sua visão favorece a cristologia TJ. Contudo, pouco após ao seu elogio a TNM, BeDuhn se pergunta: “Como pode existir um deus na Bílbia?”.

BeDuhn inicia sua proposta de resposta por afirmar o seguinte:

“Novo Testamento refere-se absoutamente a Deus, e naturalmente falam sobre Ele mais do que qualquer outro deus (…) Isso é verdade mesmo que ‘Deus’ venha antes ou após o verbo, se é o primeiro ou o último na sentença. Variação na ordem das palavras não tem muito impacto no modo de se referir a Deus[26]

Como evidência disso BeDuhn apresenta alguns dados interessantes: (1) o substantivo Θεὸς é usado cerca de 289 vezes no nominativo e apenas (2) em 24 vezes ele vem sem artigo. Ele também diz que, das 265 em que o substantivo acontece com artigo, apenas em 3 ocasiões a referência não é a Deus (2Co.4.4; Fl.3.19; At.14.11). Tendo dito isso, BeDuhn passa a observar ocasiões em que Θεὸς vem sem artigo[27].

Contudo, antes de acompanhá-lo nesse estudo, por ocasião de nossa tranparência temos que dzer que os dados não são estão corretos se tomamos a versão de WHO. Nessa edição do texto grego, Θεὸς é usado cerca de 307 vezes no nominativo no NT[28], sendo que dessas em 29 vezes Θεὸς é usado sem artigo[29]. Embora na prática isso não faça qualquer diferença ao argumento de BeDuhn é importante demonstrar dados acertados em relação ao texto grego que temos usado como base para nossa análise.

Nos casos em que Θεὸς vem sem artigo, BeDuhn faz suas análises com extrema supercialidade defendendo o uso indefinido neles. O primeiro exemplo oferecido são os textos de Lc.20.38 e Mc.12.27. Em um caso de autocontradição, BeDuhn defende que nesses versos o texto fala sobre “a categoria que o substantivo pertence” e portanto a tradução é indefinida. Contudo, já tinha dito que a ênfase do NT é sobre Deus, e em ambos versos uma declaração sobre ele é oferecida: “[Ele] é Deus vivos não de mortos”. Note que BeDuhn defende a TNM em ambos os texto, pois traduzem como ele.

Infelizmente, em uma análise superficial BeDuhn comente o equívoco mais comum e perigoso: nada falou sobre o contexto do texto, como se o texto não falasse sobre mais nada. Howe explica com clareza:

BeDuhn ignora completamente o contexto literário do verso e discute como se fosse falado em um vazio completo. Na verdade, a noção de que a questão implícita é “Que tipo de Deus é o Deus cristão?” ultrapassa o absurdo, visto que a declaração feita nesta passagem foi feita antes do cristianismo ser estabelecido. No contexto, Jesus está sendo questionado pelos saduceus, e além do fato de que não havia nenhuma igreja cristã, neste momento, os saduceus não teriam qualquer interesse no Deus cristão. Pelo contrário, isso demonstra o fato de que os saduceus negavam vida após a morte e a ressurreição. Jesus está respondendo a sua inquisição. O fato de que este intercâmbio tem a ver com o Deus de Israel, que teria sido o Deus dos saduceus, e este era o Deus sobre quem a questão é colocada, prova que este não pode ser um uso indefinido[30].

As tentativas atrapalhadas de defender os usos indefinidos de Θεὸς no NT continuam com os seguintes textos: (1) 2Co.1.3[31], defendo que o sentido indefinido é o acertivo embora ninguém em sua análise tenha usado; (2) Ap.21.7[32] e 2Ts.2.4[33], onde contraditoriamente defende o princípio de Colwell que predicados nominativos anartros após o verbo devem ser indefinidos; (3) Fl.2.13[34] em função do claro sentido qualitativo do verso, deve ser traduzido de modo indefinido e que Paulo fala de uma força divina e não sobre Deus. A intenção de DeBuhn com sua análise é defender que existe no NT espaço para um deus[35] em contraste com o Deus a que se refere com freqüência no Novo Testamento.

Entretanto, diferente do que se poderia esperar, BeDuhn defende uma espécie de politeísmo no NT um pouco diferente daquela que vemos na tradução de Jo1.1c da TNM, pois em sua análise sobre quem é o Verbo, BeDuhn conclui:

João cuidadosamente afirma que o que encarna é o logos, algo que estavava, próximo ao seio do de Deus (o Pai). Então, o que é o logos? João fala que ele era o agente por meio do qual Deus (o Pai) fez o mundo (…) Ou seja, o Verbo é o poder criativo de Deus em projeto e execução[36].

Após essa definição, BeDuhn afirma que o logos se fez carne na forma de Jesus Cristo, que João o apresenta como o simples Messias, alguém escolhido especialmente para desempenhar uma função atribuída por Deus, que os evangelhos sinóticos apresentam a Cristo como filho adotado em seu batismo, que Paulo também entende assim (Rm.1.4; Fl.2.9) entre outras declarações interessantes.

Aqui sua área de especialidade, o estudo das religiões parece o estar levando a uma análise além daquela proposta por João. Não é à toa que diz:

No mundo de João, a categoria de Deus não era tão acentuadamente distinta [falando sobre a trindade] como para os cristãos modernos, e nela existem todos os tipos de seres ocupando a área cinza entre Deus e mortais. Existem vários anjos e semi-deuses a considerar.

A partir desse ponto, suas influências não reveladas começam a levar o leitor a conclusões claramente equivocadas. Essa visão de uma área cinza na mentalidade de João que incluía anjos e semi-deuses é claramente uma demonstração da disposição mental desse autor, que evidencia por fato que nada conhece sobre João, ou do NT. Observe sua conclusão sobre o assunto:

O verbo não é Cristo no evangelho de João. O Verbo é um ser divino intimamente associado com Deus que em um determinado ponto se faz carne, e apenas então, quando o Verbo é carne, é que podemos dizer que estamos lidando com Cristo[37].

Portanto, esse é mais um caso em que a mesma grafia não representa a mesma ideologia. BeDuhn é, em última análise, não é qualificado para falar sobre tradução, como ele mesmo demonstra em sua obra. Após essa análise de seu argumento, entendemos que sua capacidade como tradutor está de acordo com o que acredita ser necessário para a tarefa: ser leitor do grego koiné. Não é à toa que tantas trabalhadas foram feitas na defesa de suas opiniões


[1] BEDUHN, Jason David, Truth in Translation. Pp.xv.

[2] Idem, pp.xix

[3] Idem, pp.xvii.

[4] HOWE, Thomas, The Truth About Truth in Translation. Pp.2

[5] Idem, pp.113-4

[6] Idem, pp.114.

[7] Idem, pp115.

[8] Idem, pp.115-6.

[9] Idem, pp.7

[10] Idem, pp.28.

[11] Idem, pp.116

[12] Um paralelo entre a KJV e a Vulgata demonstra claramente o equívoco de BeDuhn: Em Jo1.4, a Vulgata usa duas vezes o substantivo “vita” (in ipso vita erat et vita erat lux hominum). Entretanto, no texto o primeiro uso é anartro e o segundo é artro (ἐν αὐτῷ ζωὴ ἦν, καὶ ἡ ζωὴ ἦν τὸ φῶς τῶν ἀνθρώπων·). Nesse caso a KJV segue literalmente o texto grego (ainda que equivocada no primeiro uso): “In him was life; and the life was the light of men” (lit. Nele estava vida; e a vida era a luz dos homens).

Se BeDuhn estivesse correto sobre a influência da Vulgata em decisões gramaticais simples como o uso de artigo definido em Jo.1.1, o mesmo fenômeno deveria ser encontrado no mesmo texto mais algumas vezes. Mas isso não acontece (cf. 1.6 – homo, ἄνθρωπος, a men, um homem; 1.7 – testimonium; μαρτυρίαν, a witness, uma testemunha; 1.12 – filios Dei, τέκνα Θεοῦ, the sons of God, os filhos de Deus, etc).

[13] Idem. Pp.117

[14] Idem, pp.134 – Ele também cita Jo.6.63; 6.51 e 15.1, que também são casos de equiparação.

[15] Idem, Ibid.

[16] Para uma demonstração clara desse princípio veja o capítulo 2. Para alguns exemplos onde a conclusão de BeDuhn não pode ser verdadeira, veja lista oferecida por Thomas Howe: Mc.12.27; Lc.20.38; Jo.1.18; 8.54; Rm.8.33; 1Co.3.7; 8.4, 6; 2Co.1.3, 21; 5.5, 19; Gl.6.7; Fl.2.13; 1Ts.2.5; 2Ts.2.4; Hb.3.4; Ap.21.7 (pp.63-5).

[17] Idem, pp.118

[18] Idem, pp.119

[19] HOWE, Thomas, The Truth About Truth in Translation. Pp. 78

[20] Oberve que antes de começar sua análise BeDuhn já tinha dito que os argumentos que ele irá analisar no livro foram levantados “para suportar a tradução da KJV de Jo.1.c ‘e o Verbo era Deus’ e justificar sua repetição nas mais recentes e presumivelmente mais acertadas versões. Nenhum desses argumentos resistem a um exame minuncioso” (pp.116). Esse pressuposto é equivocado: (1) no que se refere na relação da KJV e as demais versões, que em geral são antagônicas em princípios de tradução, texto crítico e público alvo; (2) que tais argumentos foram feitos para defender a leitura da KJV. Na verdade, o estudo da gramática grega foi realizado para se compreender seu funcionamente e normalmente é aplicável a casos como Jo.1.1. Na verdade, BeDuhn está comentendo o erro que acusa: Está distorcendo evidências gramaticais para defender sua leitura de Jo.1.1.

[21] BEDUHN, Jason David, Truth in Translation. Pp.121

[22] É interessante que nesse caso BeDuhn fale de modo geral, até por que sua conclusão está errada. Mas, se fosse uma ocasião via de regra, ela não era absoluta, como ele esperava da regra de Colwell e das considerações de Harner.

[23] Idem. Pp.121.

[24] As referências usadas por BeDuhn são vistas nas páginas 121-125. Thomas Howe oferece uma excelente apresentação de todos os versos de modo claro e suscinto nas páginas 81-88 de seu artigo.

[25] Idem, pp.133.

[26] Idem, pp.125.

[27] Idem, pp.125-6.

[28] Mt. 1:23 3:9 6:8, 30 15:4 19:6 22:32; Mc. 2:7 10:9, 18 12:26s, 29 13:19 15:34; Lc.1:32, 68 3:8 5:21 7:16 8:39 12:20, 24, 28 16:15 18:7, 11, 13, 19 20:38; Jo.1:1, 18 3:2, 16s, 33s 4:24 6:27 8:42, 54 9:29, 31 11:22 13:31f 20:28; At 2:17, 22, 24, 30, 32, 36, 39 3:13, 15, 18, 21f, 25f 4:10 5:30ss 7:2, 6f, 9, 17, 25, 32, 35, 37, 42, 45 10:15, 28, 34, 38, 40 11:9, 17f 13:17, 21, 23, 30, 32, 37 14:27 15:4, 7f, 12, 14 16:10 17:24, 30 19:11 21:19 22:14 23:3 26:8 27:24; Rm.1:9, 19, 24, 26, 28 2:16 3:4ss, 25, 29s 4:6 5:8 8:3, 28, 31, 33 9:5, 22 10:9 11:1s, 8, 21, 23, 32 12:3 14:3 15:5, 13, 33 16:20; 1Co.1:9, 20s, 27s 2:7, 9s 3:6s, 17 4:9 5:13 6:13f 7:15, 17 8:4, 6 10:5, 13 11:3 12:6, 18, 24, 28 14:25, 33 15:28, 38; 2Co.1:3, 18, 21 4:4, 6 5:5, 19 6:16 7:6 9:7s 10:13 11:11, 31 12:2s, 21 13:11; Gl.1:15 2:6 3:8, 18, 20 4:4, 6 6:7; Ef.1:3, 17 2:4, 10 4:6, 32; Fl.1:8 2:9, 13, 27 3:15, 19 4:9, 19; Cl.1:27 4:3; 1Ts.2:5, 10 3:11 4:7, 14 5:9, 23; 2Ts.1:11 2:4, 11, 13, 16; 1Tm.2:5 4:3; 2Tm.1:7 2:25; Tt.1:2; Hb.1:1, 8s 2:13 3:4 4:4, 10 6:3, 10, 13, 17 9:20 10:7 11:5, 10, 16, 19 12:7, 29 13:4, 16, 20; Tg. 1:13 2:5, 19 4:6; 1Pe. 1:3 4:11 5:5, 10; 2Pe. 2:4; 1Jo. 1:5 3:20 4:8s, 11s, 15s 5:10s, 20; Ap. 1:1, 8 4:8, 11 7:17 11:17 15:3 16:7 17:17 18:5, 8, 20 19:6 21:3, 7, 22 22:5f, 18s

[29] Mc. 12:26 (x2), 27; Jo.1:1, 18; 8:54 10:34; At.19:26; Rm.8:33 9:5; 1Co.3:7 8:4, 5 (x2), 6; 2Co.1:3, 21; 5:5, 19 6:16; Gl.6:7; Ef.4:6; Fl.2.13; 1Ts.2:5; 2Ts.2:4; 1Tm.2:5; Hb.3:4; 11:16; Tg.2:19; Ap.21:7.

[30] HOWE, Thomas, The Truth About Truth in Translation. Pp. 66-7.

[31] A análise de BeDuhn deixou de considerar que toda a sentença de 2Co.1.3 não tem verbo, note: “Εὐλογητὸς ὁ Θεὸς καὶ πατὴρ τοῦ Κυρίου ἡμῶν ᾿Ιησοῦ Χριστοῦ, ὁ πατὴρ τῶν οἰκτιρμῶν καὶ Θεὸς πάσης παρακλήσεως”. Também esqueceu de notificar seus leitores que o substantivo já tinha sido usado com artigo na sentença e que a referência a Deus, o Pai do Nosso Senhor Jesus Cristo e das Misericórdias. Também esqueceu que Paulo usa a expressão “Deus de consolação” em referência a Deus com artigo em outros lugares (Rm.15.5).

[32] Aqui DeBuhn esqueceu que está traduzindo uma frase dAquele que estava assentado no Trono (21.5), que é o Alfa e o Ômega o princípio e o fim (21.6). Será que a frase “eu serei um deus para ele” cabe na boca do Todo Poderoso? BeDuhn defende isso e condena todas as traduções comparadas.

[33] Mais uma vez sem olhar o contexto, BeDuhn supõe que o Anticristo se considerará (falsamente) da categoria de Deus. Em outras palavras, ele defende que a acusação do Anticristo será idêntica a diversos outros impostores (anti: no lugar de; christós: Cristo) como vemos em 1Jo.2.18. Mais uma vez ele ignora o contexto que sobre o Anticristo fala: Se opõe contra tudo que se chama Deus (anartro); se assentará no Templo de Deus (artro) querendo parecer Deus (anartro). “O fato de se assentar no “Templo” de “Deus” seria não ser apenas a alegação de que ele é “um deus”, mas que ele é o “Deus”” (Howe, pp.73)

[34] Fora o recorrente equívico de associar o sentido indefinido com o qualitativo e da conclusão de que Paulo fala de uma força divina e não humana parecem demonstrar as credenciais teológicas de BeDuhn. Esse é um interessante caso, pois mais uma vez ele se vê sozinho ante às traduções analisadas.

[35] BEDUHN, Jason David, Truth in Translation. Pp.127

[36] Idem, pp129.

[37] Idem, pp.130.