O que dizer de Jo.1.1?


Se você chegou a esse texto imagino que tenha dúvidas sobre como deve entender o bem conhecido texto do Apóstolo João na abertura do seu evangelho: “No princípio era o Verbo, o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus” (ARA).

Os leitores do Teologando provavelmente já leram ou ouviram algo a respeito da Tradução do Novo Mundo (TNM) nesse verso, seja aqui ou em qualquer lugar. Segundo a atual tradução, o texto é lido na parte final: “e o Verbo era um deus“. Essa tradução, que certamente causa repulsa no cristão que o lê, enche os olhos de alegria dos TJs que defendem que Jesus Cristo não é Deus, mas um ser divino, um outro deus intermediário entre Deus e os homens.

A grande pergunta é: Quem traduz de modo correto esse texto: A TNM ou outras versões cristãs?

Há um bom tempo que venho estudando e escrevendo sobre o assunto e pareceu por bem organizar algumas dessas informações nesse artigo para o leitor possa encontrar em um mesmo artigo todas as informações que precisar. Nesse artigo apresento os argumentos TJ comumente ouvidos em fóruns pela internet e alguns provenientes das revistas publicadas pela Sociedade Torre da Vigia (STV). Abaixo, apresento esses argumentos e minha opinião sobre o assunto.

Será enriquecedor se o leitor puder conferir minha opinião com os olhos em outros materiais teológicos e na bíblia, pois muitos versos serão utilizados.

1. Deus no original não tem artigo

O principal argumento para a leitura indefinida da TNM é o fato que no grego original não tem artigo antecedendo o substantivo Deus. Como o grego não tem artigo indefinido, os TJs afirmam que tal ausência representa que o substantivo deve ser entendido indefinidamente. Mas, será isso verdade? Vamos observar alguns exemplos no NT.

Em primeiro lugar temos que ser coerentes e lembrar que o grego tem alguns indícios de preposição funcionando como artigo indefinido, ou seja, eventualmente o grego usa a preposição “εἷς” como artigo indefinido. No NT esse uso é raro, mas está presente em casos como Lucas 20.50 (um certo deles – TNM) e Mateus 8.19 (um escriba – ARA).

Em segundo lugar, a ausência do artigo não exige que um substantivo seja entendido indefinidamente. Esse fato é observado com facilidade no NT. Por exemplo, nomes próprios não exigem artigo (At.19.13; Mt.2.7; 1Co.9.6; Cl.4.10). Outro fato observável com facilidade no NT é que títulos de livros não exigem a presença do artigo e nem por isso são entendidos indefinidamente (Mc.1.1). Veja por exemplo o caso de 1 Pedro 1.1-2 na TNM:

“Pedro, apóstolo de Jesus Cristo, aos residentes temporários espalhados por Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia, aos escolhidos segundo a presciência de Deus, o Pai, com santificação pelo espírito, com o objetivo de que sejam obedientes e sejam aspergidos com o sangue de Jesus Cristo. Benignidade imerecida e paz vos sejam aumentadas”

Toda essa sentença é escrita sem nenhum artigo grego e isso não faz com que todos os substantivos sejam indefinidos. Esse tipo de situação não é incomum no grego do NT e caso semelhante acontece com palavras abstratas que também não exigem a presença de artigo para serem entendidas como definidas (Gl.5.20; Rm.1.29). Veja outro exemplo interessante na TNM em Apocalipse 5.20:

dizendo com voz alta: “O Cordeiro que foi morto é digno de receber o poder, e as riquezas, e a sabedoria, e a força, e a honra, e a glória, e a bênção.. (veja 7.12)

Nesse caso apenas o substantivo “Cordeiro” e “poder” estão acompanhados de artigo, mas a ausência em todos os outros não os tornam obrigatoriamente indefinido. Isso se deve a um aspecto interessante do grego koinê: A ausência de artigo não exige que um substantivo deva ser entendido indefinidamente. Ela pode ser tanto definida, indefinida como qualitativa, o que faria que o substantivo funcionasse como um adjetivo.

Ou seja, dizer que Jo.1.1c é indefinido só por que não tem artigo não é fundamento suficiente. (Aos que querem mais informações, recomendo a leitura do artigo: Ausência de Artigo no Grego Koinê, também publicado no Teologando.

Contudo, em nossa rápida demonstração nada falamos sobre o uso do substantivo “Deus” será que a ausência de artigo com esse substantivo implique na tradução indefinida?

2. Deus sem artigo não é o Deus Pai (Jeová)

Essa alegação parecida com a anterior, mas é um pouco mais restrita no seu escopo. A questão agora é se o substantivo “Deus” em grego quando não vem acompanhado de artigo deve ser entendido indefinidamente.

Essa declaração também não parece satisfatória, pois existem ao menos 29 ocasiões em que o substantivo “Deus” é usado sem artigo no NT no mesmo caso que em Jo.1.1 (nominativo) e nem por isso temos 29 declarações indefinidas (Mc. 12:26 (x2), 27; Jo.1:1, 18; 8:54 10:34; At.19:26; Rm.8:33 9:5; 1Co.3:7 8:4, 5 (x2), 6; 2Co.1:3, 21; 5:5, 19 6:16; Gl.6:7; Ef.4:6; Fl.2.13; 1Ts.2:5; 2Ts.2:4; 1Tm.2:5; Hb.3:4; 11:16; Tg.2:19; Ap.21:7). Isso sem contar as diversas outras vezes que o substantivo “Deus” é usado em outros casos sem artigo e continua sendo definido.

Por exemplo, quando o autor quer fazer uma declaração de contraste entre o que é de Deus e o que é humano, a situação é tão claramente favorável a se entender como uma referência a Deus (Pai, Jeová) que o artigo não é usado. Veja como a TNM entende Mateus 4.4:

Mas ele disse em resposta: Está escrito: O homem tem de viver, não somente de pão, mas de cada pronunciação procedente da boca de Jeová

Nesse caso a referência a Deus Pai (Jeová) é tão clara que a TNM já adotou o nome de Deus aqui. Entretanto, nesse caso o substantivo “Deus” não tem artigo e nem por isso traduzimos “da boca de um deus“. Alguém poderia dizer que isso acontece por que é uma citação do VT e por isso deve seguir a mensagem do texto original. Tudo bem, posso entender essa objeção, mas ela não explica por que Mateus não usou o artigo nesse texto. Mas, o que dizer quando Paulo usa o substantivo “Deus” ora com artigo ora sem? Observe o caso de Romanos 8.7-8 na TNM:

porque a mentalidade segundo a carne significa inimizade com Deus, visto que não está em sujeição à lei de Deus, de fato, nem pode estar. De modo que os que estão em harmonia com a carne não podem agradar a Deus

Nesse verso, apenas o segundo uso do substantivo “Deus” tem artigo, os outros não. Se assumirmos que “Deus” sem artigo não se refere a Deus, a quem estaria Paulo se referindo nesse texto? Esse tipo de contraste é tão claro que não temos dúvida que o autor fala do Deus Pai (Jeová), mesmo que o substantivo não tenha artigo. Veja outros casos similares a esses em Mt.6.24; 19.26; Lc.12.21; At,5.29; Rm 9.5; 1Co.10.20.

Outro caso que os autores do NT usa o substantivo Deus sem artigo é quando o usa como título. Observe o caso de Mateus 14.33:

Então os que estavam no barco prestaram-no homenagem, dizendo: Verdadeiramente tu és Filho de Deus

Nesse verso nem filho nem Deus tem artigo, mas ainda assim são entendidos definidamente. Esse tipo de uso é frequente no NT, e o leitor pode encontrar mais exemplos em: Lc 2:14, 40, 52; 3:2; 20:36, 38, Jo.1:6; 1:13; 3:21; 6:45; 9:33; 10:34; 17:3; At. 7:40; 15:8; Rm 1.4, 7, 23; 2:17; 8:16… etc.

Outro modo de usar o substantivo Deus sem artigo acontece quando os autores do NT fazem alguma declaração a respeito de quem Ele é. A TNM usa em Romanos 1.16, 17 e 18 as seguintes declarações sobre Deus: “o poder de Deus para salvação” (16); “se revela a justiça de Deus” (17) e “o furor de Deus” (18) como referências a Deus Pai, mas em todos os casos o substantivo Deus está sem artigo.

O que podemos dizer sobre a acusação de que Deus em artigo não se refere a Deus? Que o NT está repleto de ocasiões em que o substantivo ocorre sem artigo e não é apenas entendido de modo definido como a referência é clara a Deus. Para os leitores que querem observar esse fenômeno com mais detalhes, sugiro a leitura do artigo O uso anarto de Theós no Novo Testamento, também publicado no Teologando.

Mas, até agora olhamos apenas para casos que demonstram que substantivos sem artigo podem ser definidos e que o substantivo Deus sem artigo também pode ser entendido definidamente e como referência a Deus Pai (Jeová), mas, nada foi dito sobre o que acontece em Jo.1.1c. Será que podemos entender esse substantivo definidamente nesse caso? Será que a ordem das palavras faz alguma diferença?

3. A ordem das palavras sugere que Deus deve ser entendido indefinidamente

Essa é uma declaração importante e que precisa ser observada com atenção. Normalmente o grego não exige que as palavras sejam colocadas em uma ordem específica, como ocorre no português. Por exemplo, uma sentença ordinária em português pode ser assim descrita: Sujeito – Verbo – Predicado: Jesus ama  Paulo. Nessa sentença, Jesus é o sujeito, amar o verbo, e Paulo o predicado.

No grego essa sentença poderia ser escrita de 16 modos diferentes sem qualquer diferença de significado:

1.᾿Ιησοῦς ἀγαπᾷ Παῦλον
2.᾿Ιησοῦς ἀγαπᾷ τὸν Παῦλον
3.ὁ ᾿Ιησοῦς ἀγαπᾷ Παῦλον
4.ὁ ᾿Ιησοῦς ἀγαπᾷ τὸν Παῦλον
5.Παῦλον ᾿Ιησοῦς ἀγαπᾷ
6.τὸν Παῦλον ᾿Ιησοῦς ἀγαπᾷ
7.Παῦλον ὁ ᾿Ιησοῦς ἀγαπᾷ
8.τὸν Παῦλον ὁ ᾿Ιησοῦς ἀγαπᾷ
9.  ἀγαπᾷ ᾿Ιησοῦς Παῦλον
10.  ἀγαπᾷ ᾿Ιησοῦς τὸν Παῦλον
11.  ἀγαπᾷ ὁ ᾿Ιησοῦς Παῦλον
12.  ἀγαπᾷ ὁ ᾿Ιησοῦς τὸν Παῦλον
13.  ἀγαπᾷ Παῦλον ᾿Ιησοῦς
14.  ἀγαπᾷ τὸν Παῦλον ᾿Ιησοῦς
15.  ἀγαπᾷ Παῦλον ὁ ᾿Ιησοῦς
16.  ἀγαπᾷ τὸν Παῦλον ὁ ᾿Ιησοῦς

Nesses exemplos, a ordem das palavras e o uso dos artigos não fazem diferença no modo como a frase é entendida. Isso acontece por três motivos: (1) Por que no grego koinê a ordem das palavras normalmente não é importante; (2) Por que o grego sua declinações para especificar a função de um substantivo em uma frase; (3) Por que o artigo não é fundamental para o discurso em grego.

Entretanto, quando o autor escreve com verbo de ligação, a situação muda de figura. Por exemplo, Paulo é apóstolo poderia ser escrito de dos mesmos 16 modos, mas a ordem das palavras e o uso dos artigos fariam diferença. Esse fenômeno acontece em função de uma característica do grego koinê que usa casos para o substantivo. O caso nominativo normalmente desempenha a função de sujeito em uma frase, mas com verbos de ligação também pode ser o predicativo do sujeito.

Em nosso exemplo (Paulo é apóstolo), tanto Paulo como apóstolo estariam no nominativo: Παῦλος ἐστιν ἀπόστολος. Nesse momento a pergunta pertinente é: Quem é o sujeito e quem é o predicado de uma sentença como essa?

Nesse momento a ordem das palavras e o uso do artigo faz muita diferença. Felizmente, existe um padrão básico que podemos entender essa situação. Por exemplo, quando o autor usa artigo para o sujeito e predicativo do sujeito, temos uma situação que é indiferente na classificação de o sujeito e predicado. Observe o caso de Jo.15.1 na TNM:

Eu sou a verdadeira videira e meu Pai é o lavrador

Nesse caso, tanto sujeito como predicativo do sujeito tem artigo e chamamos esse caso de completa equiparação, ou seja, A=B do mesmo modo que B=A. O Pai é o lavrador, o Lavrador é o Pai. Uma regra geral do grego é que usualmente o predicado não tem artigo, mas quando usa pode acontecer como descrevemos acima.

Outro modo que poderia ser usado para descrever seria usar o predicativo do sujeito depois do verbo acompanhado de artigo. Nesses casos, a presença do artigo após o verbo garante que o entendimento do substantivo é definido. Observe o exemplo de Marcos 1.11 na TNM

e uma voz saiu dos céus: “Tu és meu Filho, o amado; eu te tenho aprovado.”

Nesse texto, certamente o sentido é definido. Marcos não fala que a voz disse que Jesus era um Filho, mas O Filho. A sentença grega deixa isso claro usando predicativo do sujeito depois do verbo com artigo.

Mas, o que aconteceria se o autor usasse o predicativo após o verbo, mas sem artigo? Essa construção seria entendia indefinidamente. Usualmente no grego koinê quando predicativo é sem artigo após o verbo de ligação, o sentido é claramente definido (salvo alguma indicação do contexto). Observe o caso de João 11.38 na TNM:

Por isso, Jesus, depois de gemer novamente no seu íntimo, foi ao túmulo memorial. Era, de fato, uma caverna e havia uma pedra encostada nela

Note que João aqui usa uma construção que evidencia que fala de uma caverna, não A caverna como se fosse uma em especial, ou a única existente. Nada de especial havia, era uma caverna. Essa construção é comum no NT e frequente em João. Mas, o que aconteceria se o autor usasse o predicativo do sujeito antes do verbo sem artigo?.

Bom, esse é o caso de Jo.1.1: καὶ Θεὸς ἦν ὁ Λόγος. Nessa frase como sabemos quem é o sujeito e quem é predicativo do sujeito? O substantivo que usa o artigo é o sujeito, portanto, O Verbo é o sujeito da frase. Mas, por que João usa esse modo de escrever?

Sabemos que se João quisesse dizer que o Verbo era o Deus Pai, ele teria usado os dois substantivos com artigo, como demonstramos com Jo.15.1. Mas, João não fez isso.

Se quisesse dizer que o Verbo era O Deus, ele poderia ter usado um pronome para substituir o Verbo e acrescer um artigo no substantivo Deus. Essa sentença ficaria assim: “No princípio era o Verbo, o Verbo estava com Deus, e ele era o Deus“. Mas, João não fez isso.

Se quisesse dizer que o Verbo era um deus, ele poderia ter colocado o predicativo do sujeito depois do verbo e sem artigo como em Jo.11.38. Mas, João nã fez isso. Então, o que quis dizer João?

Usualmente, quando o predicativo do sujeito está sem artigo e antes do verbo de ligação o sentido é qualitativo, como acontece umas 40 vezes só no evangelho de João (Jo.1.12, 14; 2.9; 3.4, 6 (x2), 29; 4.9; 6.63, 70; 7.12; 8.31, 33, 34, 37, 39, 42, 44 (x2), 48; 9.17, 24, 25, 27, 27, 31; 10.1, 2, 8, 13, 33, 34, 36; 12.6, 26, 50; 13.35; 15.14; 17.17; 18.35).

Ou seja, é mais provável que que João estivesse a dizer: “E o Verbo era divino“. Mas, observe que a palavra divino em português é uma palavra muito desgastada. Alguém poderia dizer “essa cadeira é divina” sem querer dizer que ela provém dos deuses, mas que sua forma, conforto são muito bons. Por isso, em português evita-se o uso desse termo.

É interessante que se João tivesse interesse em dizer que que Jesus é divino, no sentido que é superior a humanidade mas inferior a Deus, ele poderia usar o adjetivo grego Θειὸς. Mas, João não fez isso. Então, que quis dizer João com sua escolha de palavras em uma ordem específica?

Um último modo de se traduzir sentenças como essa é chamado modo correlato, em que o tradutor respeita a ausência de artigo do grego e traduz o predicativo do sujeito sem artigo. Esse caso também é comum em João e acontece algumas vezes (Jo.3.4, 6; 6.63; 8.44; 13.35; 18.37 etc.). Observe o caso de João 5.10 na TNM:

Os judeus começaram, por isso, a dizer ao homem curado: “É sábado, e não te é lícito carregar a maca.”

Nesse caso não é nem o sábado, nem um sábado, mas sábado. Possivelmente o sentido poderia ser qualitativo (sabático), mas parece mais apropriado ao contexto do verso que o modo adequado para se entender esse verso é o modo correlato. São idendenticos a esse os versos Jo.9.28; 20.14 e 21.4.

Portanto, a tradução correlata da ARA (e o Verbo era Deus) parece mais apropriado ao modo como João escolheu a ordem das palavras e os verbetes empregado na frase. Os leitores que gostariam de ver com mais detalhes esse fenômeno, recomendo a leitura do artigo “Jesus é um deus? Será mesmo!?“, também publicado no Teologando.