Considerações sobre a Autoria do Quarto Evangelho (1/3)


Introdução

Não é possível falar em autoria sem referir-se à data do documento: Se esse evangelho de fato reflete a teologia tardia e a alta cristologia do segundo século, então o autor desse evangelho não pode ser João o apóstolo. Por outro lado, se o autor é João, temos que considerar que já no fim dos dias apostólicos a cristologia cristã já reconhecia a divindade de Cristo e que a teologia do segundo século na verdade seguia a tradição cristã e apostólica[1].

Apesar de esse documento ser conhecido como Evangelho segundo João, a verdade sobre ele é que ele não traz nenhuma informação explícita sobre seu autor, e por isso, muitas vezes é apresentado como o Quarto Evangelho. Esse fato, o anonimato do autor, tem conduzido teólogos a considerar a possibilidade de se saber com certeza quem é seu autor. As opiniões são diversas e os estudos vão para todos os lados. Existem teólogos veementes defensores da autoria joaniana, enquanto outros preferem adotar uma postura mais crítica a essa defesa.

O que se tem por certo é que a autoria joanina para o quarto evangelho é claramente demonstrada pelos Pais da Igreja. Teófilo de Alexandria, Tertuliano, Clemente de Alexandria, Ireneu, Hipólito, Orígenes, Dionísio de Alexandria, Eusébio defendem que João é o autor do evangelho. Também é importante lembrar o leitor que a autoria joanina não teria sido colocada sob suspeita senão no fim do século XVIII. Arno Clement Gaebelein (1861-1942), sobre o assunto diz:

“A autoria joanina desse evangelho foi colocada em dúvida pela primeira vez por um clérigo inglês chamado Evanson, que escreveu sobre o assunto em 1792. Em 1820, o professor Breschneider proseguiu com o ataque sobre a autoria joanina do Evangelho. Então veio a escola de Tübingen, reconhecidos por Strauss e Baur. Baur, o chefe da escola de Tübingen definiu a data da escrita do Evangelho de João em 170 d.C. Outros optaram por 140. Kleim, outro crítico, definiu em 130 d.C.. Renan entre 117 e 138d.C[2].

A datação mais tardia não é um exercício sem fundamento, mas, os críticos consideram o evangelho mais tardio por suspeitarem que o seu conteúdo fosse muito avançado para o período apostólico, como é normalmente reconhecido. Na verdade, suspeitam que um discípulo de Jesus fosse capaz de apresentar alguns distintivos teológicos com tamanha clareza, como por exemplo, a Divindade de Cristo. Craig Bloomberg, fala sobre essa suposição, observe:

Em geral, pressupunha-se que sua ênfase cristológica [do evangelho] houvesse sido produto de uma longa e lenta evolução, distante de uma mais primitiva compreensão judaica de Jesus, que ainda não o considerava como Deus[3].

Para muitos outros críticos, o pensamento exposto no quarto evangelho reflete as obras teológicas do segundo século, e, portanto, o autor não poderia ser de uma testemunha ocular do primeiro século. Sobre isso, Merril C. Tenney nos lembra que:

A data mais tardia foi defendida pela Escola de Tübingen no início do século XIX na suposição de que João representaria um tipo de pensamento teológico que surgiu no fim do primeiro século ou início do segundo século e não teria sido colocado em forma escrita até aproximadamente 150 d.C.[4]

Werner Georg Kümmel (1905-1995), diferente de Bloomberg e Merril, não fala de tais pressuposições como produto da teologia moderna, mas as defende. Em suas palavras:

O Evangelho de João não pode servir juntamente com os sinóticos como fonte para o conhecimento do Jesus histórico, por ter sido formado a partir de uma imagem de fé de Jesus, a qual somente pode ser compreendida com produto final da evolução da doutrina neotestamentária de Cristo[5].

Todas essas afirmações foram possíveis graças ao descobrimento de obras religiosas supostamente cristãs[6] que teriam sido produzidas no segundo e terceiro século. A partir da comparação do texto do quarto evangelho com tais textos produzidos no segundo e terceiro século, concluiu-se que o quarto evangelho não apenas se reportava a esses documentos no que se refere à linguagem, mas, em muitos casos era demasiadamente similar teologicamente.

Rudolf Bultmann (1884-1976) sustentava que João (ou quem quer que tenha escrito o quarto evangelho) teria sofrido tamanha influência do gnosticismo que veio a escrever um evangelho transmitisse a verdade a respeito de Cristo por intermédio das lentes do mito gnóstico. Observe como Bultmann se pronuncia sobre o assunto:

A terminologia gnóstica serviu sobretudo para expor com clareza o evento salvífico. Segundo ela, o redentor aparece como uma figura cósmica, como o ser divino preexistente, o filho do Pai, que desceu do céu e assumiu figura de ser humano, que de sua atividade terrena, foi elevado à glória celestial e conquistou o domínio sobre os poderes espirituais[7].

Sobre o assunto ele ainda completa:

Por natureza, um processo desses não acontece sem influência de conteúdo. E assim como o cristianismo helenista foi envolvido no processo sincretista por meio da formação do culto ao Κύριος [Senhor], tanto mais isso aconteceu pela formação da doutrina da redenção sob influência gnóstica[8].”

Se Bultmann está correto ao afirmar que o gnosticismo exerceu real influência sobre o autor do quarto evangelho deve-se esperar que o mesmo tenha tido contato pessoal com tal doutrina a tal ponto que pudesse absorver seus conceitos e apresentá-los de acordo com sua linguagem. Portanto, o evangelho deve ser obra do segundo século, e conseqüentemente, João não poderia ser o autor desse evangelho.

Outros teólogos, mais conservadores, defendem que tal evangelho tenha sido escrito como uma resposta ao gnosticismo. Para tais autores, a similaridade de linguagem era para favorecer a compreensão da verdade a respeito do Logos, mas na verdade o autor intencionava em corrigir as visões gnósticas, pois tais visões não são compatíveis com o verdadeiro cristianismo. Adam Clark (1760-1832) considera tal possibilidade, observe:

E suficiente saber que, concernente a pessoa do nosso Senhor, eles mantém opiniÕes similares àquelas ensinadas por Cerinto; e eles clamava a si mesmos o mais alto patamar de conhecimento e espiritualidade. Eles supunham que o Ser Supremo incluia todas as coisas e seres, de um modo seminal, Nele mesmo; e que a partir Dele eles foram criados. A partir de Deus (ou Bythós, o infinito Abyss), ele derivavam uma multidão de governadores subalternos, chamados Aeons, que eram divididos em classes, entre as quais podemos distinguir nove diferentes classes, como seguem: Πατηρ, Pai; Χαρις, Graça; Μονογενης, Unigênito; Αληθεια, Verdade; Λογος, Palavra; Φως, Luz; Ζωη, Vida; Ανθρωπος, Homem; and Εκκλησια, Assembléia; todos esses se fundiam no que eles consideravam o Πληρωμα, a Todalidade, ou a plenitude de seres e bênçãos: Todos esses termo são frequentemente usados no Evangelho de João, e o que leva alguns a pensarem que ele as introduziu para corrigir o sentido delas, e resgatá-las do abuso dos gnósticos[9].

Esse posicionamento certamente nos ajuda a entender a relação entre o evangelho de João e a suposta teologia gnóstica. Entretanto, tal opinião incorre em um problema similar ao anterior, pois, se tal evangelho tivesse sido escrito com o propósito de combater heresias em desenvolvimento no segundo século, é de se esperar que o autor do mesmo as conhecesse para que pudesse responder. O Gnosticismo normalmente é datado por volta da segunda metade do segundo século. Basilíades (morto por volta de 130 d.C) e Vitorino (160 d.C), considerado por alguns como proto-gnósticos, são provavelmente os primeiros representantes do gnosticismo helênico. Ou seja, mais uma vez, supõe-se que o autor do quarto evangelho fosse de um período muito tardio, o que impossibilitaria João de ser seu autor.

Entretanto é importante que se diga que o Evangelho parece ter tido um propósito realmente apologético[10], fato que vários teólogos têm reconhecido mais recentemente. Russel Norman Champlin parece esboçar essa opinião quando diz:

Apesar de ser historicamente demonstrável que certos grupos gnósticos de Alexandria e Éfeso apreciaram especialmente o evangelho de João, contudo, não existe qualquer conexão vital entre os dois; parece certo bastante que na realidade, o evangelho de João foi escrito como refutação das idéias gnósticas básicas, ao invés de ter sido um reflexo das mesmas[11].

É interessante notar o uso da expressão “idéias gnósticas básicas”, pois isso não implica em uma resposta ao gnosticismo como uma doutrina já complemente desenvolvida nos tempos apostólicos, mas como uma heresia já incipiente, de modo que os elementos básicos do gnosticismo desenvolvido do segundo século já fossem conhecidos no período apostólico. Não parece irreal supor que o gnosticismo tenha passado por um processo de desenvolvimento similar ao que a Teologia Cristã passou.

Desse modo, é perfeitamente possível que João estivesse escrevendo para auxiliar seus leitores a evitarem o erro da heresia que parecia assediar os cristãos do fim do primeiro século. Bloomberg sobre isso diz:

Pode ser que João tenha a princípio escrito assim tentando contextualizar as Boas Novas de Jesus para uma comunidade que começava a se interessar, ou a ser influenciada, por um gnosticismo incipiente. O apóstolo desejava apenas mostrar que os falsos mestres estavam adotando os temas contrapostos[12].

Contudo a mais proeminente evidência de que o evangelho tenha um fator apologético é o próprio verso normalmente usado para declaração de propósito do livro: “ἵνα πιστεύσητε ὅτι ᾿Ιησοῦς ἐστιν ὁ Χριστὸς ὁ υἱὸς τοῦ Θεοῦ” (para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus – Jo.20.31). O termo grego πιστεύω, nessa sentença é um verbo no primeiro aoristo do subjuntivo ativo, e portanto, traduzido como “para que creiais”, como se o objetivo fosse evangelístico. Entretanto, uma importante variante textual é vista nesse verso, sendo que o verbo πιστεύω, é apresentado como no presente do subjuntivo ativo (πιστεύητε), sendo traduzido como “para que continuais a crer”. Bruce Metzger, sobre isso diz:

O tempo aoristo, estritamente interpretado, sugere que o Quarto Evangelho tenha sido endereçado a não cristãos para que venham a crer que Jesus é o Messias; o presente, sugere que o objetivo do escritor é fortalecer a fé daqueles que já criam (“que vocês continuem a crer”)[13].

A.T. Robertson parece confirmar não apenas tal tradução, mas, também sua preferência a essa leitura, observe:

Propósito com ἵνα e o presente do subjuntivo ativo, deve ser traduzido “que vocês continuem crendo”. O livro teve exatamente esse efeito contínuo e sucessivo de confirmação da fé em Jesus Cristo através dos séculos[14].

Outro detalhe que deve-se ter em mente é que nenhum dos livros do Novo Testamento tenha sido dedicado a comunidades não cristãs. Isso certamente fortalece a idéia de que tal escrito tenha sido escrito primariamente para cristãos, muito embora pudesse ser utilizado por eles para apresentar a Cristo, como muito se faz nos dias de hoje.

De fato, não é sem evidências que se aceita a idéia de um evangelho que defenda a fé de um gnosticismo incipiente. Sem contar que embora o conteúdo do evangelho defenda a fé cristã das investidas gnósticas do segundo e terceiro século não exige que seu autor seja familiarizado com tais doutrinas. Considere que esse evangelho também serviu como base para a defesa da fé diante da controvérsia ariana no quarto século, sem que o autor desse evangelho precisasse conhecer as doutrinas de Ário. Nesse sentido, a verdade não depende da distorção para ser verdadeira, mas ela é suficiente para combatê-la quando surgir.

Sendo assim, não se pode assumir que um documento é tardio apenas pelo fato de que combata doutrinas conhecidas mais tarde do que ele, simplesmente significa que a fé sempre esteve sob ataque, e que os escritos inspirados sempre foram armas nas mãos dos cristãos genuinamente preocupados com a doutrina defendida pelos apóstolos.

É também digno de nota que o anonimato do autor favorece a autoria de alguém revestido de autoridade e reconhecimento. Imagine por um momento um documento sem nome e de origem desconhecida iniciando a circular entre os cristãos primitivos. É muito provável que tal escrito caísse em descrédito. Ou seja, se um falsário intencionasse que suas idéias fossem aceitas pela comunidade primitiva, ele escreveria um evangelho em nome de um dos apóstolos de Cristo, e assim teria a autoridade emprestada dos apóstolos para suportar seus escritos. Por outro lado, se o autor fosse conhecido de seus leitores e tivesse autoridade reconhecida entre eles, seu nome era desnecessário.

F.F. Bruce (1910-1990), no início do seu comentário sobre o evangelho nos lembra que essa parece a diferença entre os evangelhos canônicos e os apócrifos, observe:

É digno de nota que, enquanto os evangelho canônicos podiam se dar ao luxo de serem publicados anonimamente, os evangelhos apócrifos, que começaram a aparecer a partir de meados do segundo século declaram (falsamente) terem sido escritos por apóstolos ou outras pessoas ligadas ao Senhor[15]

Assim, tendo considerado o anonimato do autor, algumas das características desse escrito, e algumas das dificuldades relacionadas a autoria desse evangelho, é possível definir com algum grau de certeza quem é o autor desse evangelho?

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[1] É válido ressaltar que tal opinião não é de fato estranha ao NT, uma vez que a epístola de Filipenses, escrita próximo ao ano 60 d.C. e já apresentava traços dessa cristologia chamada alta. Note que nesse texto diz que Cristo subsistia na forma de Deus (μορφῇ Θεοῦ ὑπάρχων) e era igual a Deus (τὸ εἶναι ἴσα Θεῷ). Essas descrições da divindade de Cristo não foram minizadas pelo reconhecimento de sua humanidade, pois o mesmo texto fala que Cristo em sua auto-humilhação (ἐκένωσεν) assumiu a forma de servo (μορφὴν δούλου λαβών) sendo feito semelhante aos homens (ἐν ὁμοιώματι ἀνθρώπων γενόμενος). Se forma de servo implica em completa humanidade, como o texto parece sugerir, não há razões para descrer que forma de Deus implica em completa divindade, como a expressão “ser igual a Deus” declara. Assim, é clarividente que a cristologia chamada alta, na verdade era natural ao cristianismo apostólico.

[2] Arno Clement Gaebelein, The annotated Bible.

[3] Craig Bloomberg, Jesus e os evangelhos. Pp.222

[4] Merril C. Tenney, The Gospel of John, pp.9

[5] Werner Georg Kümmel, Síntese Teológica do Novo Testamento. Pp.317 – Kümmel nessa citação fala isso em relação ao trabalho de Straus.

[6] Tratam-se de evangelhos apócrifos, documentos gnósticos e outros documentos considerados cristãos. Alguns tem visto grande similaridade entre o quarto evangelho e os chamados escritos herméticos, “que são uma coletânea de tratados que consiste em especulações religiosas e filosóficas e em instruções que supostamente foram transmitidas por um sábio endeusado, chamados Hermes Tismegistus” – Russel Norman Champlin, Novo Testamento interpretado versículo por versículo. Vol.2, pp256.

[7] Rudolf Bultmann, Teologia do Novo Testamento. pp.230

[8] Idem, pp.218.

[9] Adam Clark, Adam Clarke`s Commentary on the Bible. Nesse mesmo comentário, Clarke cita o Professor Michaelis, que apresenta seis correções que o Evangelho de João oferece à compreensão gnóstica.

[10] Veja Marcelo Berti, A relevância dos milagres de Cristo para a Cristologia do Novo Testamento. Nesse artigo, o autor afirma: “No que se refere a teologia, João assegura que os milagres registrados atestam que Jesus é o Filho de Deus (Jo.20.31). A designação Filho de Deus, ao contrário do que os arianos modernos (TJ) afirmam atestam a divindade de Cristo: “Quem nele crê não é julgado; o que não crê já está julgado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus” (Jo.3.18). O uso da expressão unigênito Filho de Deus (gr. tou monogenous uiou tou theou) é uma das formas pelas quais João apresenta Cristo como divino , e essa definição é uma exigência para salvação. Ou seja, ainda que as opiniões sobre Cristo fossem divergentes já nessa ocasião, é certo para João que Jesus é Deus. Aliás, a linguagem de João aqui parece trazer a tona uma referência ao gnosticismo incipiente e sua desconexão da pessoa de Cristo Deus Pai (1Tm.1.4).

[11] Russel Norman Champlin, Novo Testamento interpretado versículo por versículo. Vol.2, pp256

[12] Craig Blommberg, opt. Cit. pp.224.

[13] Bruce Metzger, A textual Commentary on the Greek New Testament, pp 256.

[14] A.T. Robertson, Word Pictures in the New Testament.

[15] F.F. Bruce, The Gospel of John,p.1. IN: Carson, Moo, Morris, Introdução ao Novo Testamento, pp.155.

Um comentário sobre “Considerações sobre a Autoria do Quarto Evangelho (1/3)

  1. Sydemy Junior

    as vezes fico com a impressão que Paulo e João, tinham influência gnóstica. E Jesus poderia ser um “doceta” em relação a deidade. Isso explicaria o grande esforço dos autores sinóticos, em relatar com certa “fantasia” de detalhes, a fisicalidade e a humanidade principalmente barrando cristologias docéticas, dos gnósticos- “Bart Erhman” Mas para isso eu teria que concluir que o livro de João foi escrito antes dos sinópticos, o que fica difícil de averiguar e comprovar. Ao menos uma coisa é certa, se ele não tivesse escrito, NINGUÈM SABERIA quem era o agressor PEDRO O DONO DA ESPADA. Precisariam também “recosntruir a identidade desgastada de Pedro neste livro,por isso omitiram nos sinópticos? Vale estudar á fundo.
    Parabéns, poucos sites admitem fornecerem questões dos dois lados!

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