Ocasião da Escrita do Quarto Evangelho


Do mesmo modo como a autoria, data e origem do evangelho, a questão da ocasião também está aberta a debates, especialmente por que não se pode discernir com especificidade detalhes sobre o Evangelho. Merril C. Tenney sobre o assunto afirma que no Quarto Evangelho

Falta o prefácio pessoal de Lucas. Também parece não ter sido escrito como uma simples uma obra com novidades informativas como Marcos. Não existe nenhuma dedicatória pessoal. Não é uma narrativa completa, nem um artigo. Não tem um forte apelo histórico no sentido de que reflete algum lugar particular no tempo ou espaço[1].

Entretanto, é importante notar que não são poucos os comentaristas que se arriscam a defender que o evangelho tem um caráter apologético, especialmente no que se refere ao gnosticismo incipiente. Se isso é um fato, pode ser levado em conta a que tipo de heresia João combatia com seu evangelho. Irineu é novamente considerado como uma boa fonte para essa questão. Observe o que diz Irineu:

João, o discípulo do Senhor, anunciava essa fé, e pretendia, com a proclamação do Evangelho, remover o erro que por Cerinto havia sido difundido entre os homens, e há muito tempo antes daqueles chamados nicolaítas[2]

É interessante notar que a introdução do evangelho responde a diversas das proposições de Cerinto de tal modo que Irineu não se cansa de usá-la contra seus ensinos. Segundo Irineu,

Cerinto, [era] um homem que havia sido educado na sabedoria dos Egípcios, ensinou que o mundo não havia sido primeiramente criado por Deus, mas por um certo poder separado Dele, a distante desse principado que é supremo sobre o universo, e em sua ignorância, acima de todos. Ele apresenta a Jesus como não nascendo de uma virgem, mas como filho de José e Maria de acordo como o modo natural de procriação humana, mas ao mesmo tempo ele era mais justo, prudente e sábio que qualquer outro homem. Mas, depois do seu batismo, Cristo desceu sobre ele em forma de uma pomba sendo enviado pelo Supremo Juiz, a que ele proclamou o desconhecido Pai, e realizou milagres. Mas, no fim Cristo deixou Jesus, e então Ele sofreu e ressuscitou, enquanto o Cristo permaneceu impassível, mas ainda assim, ele era um ser espiritual[3].

Ou seja, para Cerinto, Jesus era um ser humano normal, embora espiritual, que por condição do seu batismo foi habitado pelo Cristo, embora esse poder do alto o teria abandonado a sofrer. Essa visão do cristianismo tornou-se tão aceitável entre os cristãos do segundo século que essa heresia ficou conhecida em algumas obras gnósticas pseudo-epigráficas, como o livro conhecido como Atos de João. Esse livro foi provavelmente escrito em Edessa ou Éfeso na segunda metade do terceiro século[4] (embora outros assumam a segunda metade do segundo século[5]), supostamente por Leucius Charinus, que supostamente fora discípulo de João[6]. Nesse livro, o Cristo, o poder espiritual superior que havia deixado a Jesus para sofrer convida a João para explicar o que está acontecendo, enquanto Jesus sofre:

E assim eu o vi sofrer, e não esperei por seu sofrimento, mas parti para o Monte das Oliveiras e chorei sobre o que veio a se passar. E quando ele estava pendurado sobre a cruz na Sexta-feira, na sexta hora do dia, veio uma escuridão sobre toda a terra. E meu Senhor ficou no meio da caverna, iluminando-a disse: “João, para o povo lá em baixo em Jerusalém, Eu estou sendo crucificado e perpassado com lanças e espinhos, e estão me dando vinagre e bílis para beber. Mas para você Eu estou falando, escutai o que eu digo. Eu coloquei em tua mente para vires a esta montanha para que possais ouvir o que um discípulo deve aprender de seu mestre e homem de Deus[7].

Se a visão de Cerinto, perpetuada nos escritos de Leucius, refletia os ideais do gnosticismo incipiente do fim do primeiro século início do segundo é apropriado considerar que João intencionasse combater tais heresias. Quando Irineu fala das heresias de Cerinto, ele demonstra que Cerinto usava termos como “Monogenes”, “Logos”, termos caracterizados no Evangelho de João como referência a Jesus, que o mesmo capítulo chama de Cristo[8]. Considerando a opinião de Irineu sobre a visão de Cerinto, é possível perceber claramente o modo como João apresenta os termos cristológicos fundamentais (Λόγος, 1.1-3, Μονογενὴς 1,14, 18, Θεὸς, 1.1, 18) e os associa ao Cristo na pessoa de Jesus, o Cordeiro de Deus, como Λόγος, μονογενὴς Θεὸς σὰρξ ἐγένετο. (Verbo, o Deus Único – amado de modo especial – feito carne).

Essa visão é defendida por Merril C. Tenney, que diz:

Em função da posição defensiva das doutrinas que ele [o evangelho] apresenta, pode muito bem ter sido escrito para combater a crescente onda do Cerentianismo, que ameaçava os fundamentos teológicos da Igreja[9].

Portanto, parece seguro inferir que João escreve seu evangelho em função das crescentes investidas da heresia e da deturpação da verdade, como uma fonte fidedigna da verdade de uma testemunha ocular que havia sido instruída pessoalmente por Cristo, e que, portanto, pode descrever com assertividade sobre quem Ele era e o que fazia.


[1] Merril C. Tenney, The Gospel of John. Pp.11

[2] Irineu, Adv. Hear. III, 11.1.

[3] Idem, I, 26.1

[4] Schneemelcher, New Testament Apocrypha, vol. 2, p. 156.

[5] Glenn Davis, The Development of the Canon of the New Testament – Apocryphal New Testament. (http://www.ntcanon.org/Acts_of_John.shtml)

[6] Walter Andrade Campelo, Livros Apócrifos do Novo Testamento. (http://www.luz.eti.br/es_livrosapocrifos-parte3.html) – visto em 10 de Março de 2010.

[7] Atos de João, 97  IN: The Apocryphal New Testament, M.R. James Translation and Notes. (http://www.earlychristianwritings.com/text/actsjohn.html) ) – visto em 10 de Março de 2010.

[8] Irineu, Adv. Hear. III, 11.1.

[9] Merril C. Tenney, The Gospel of John. Pp.11