Nossa Igreja Brasileira – Uma Análise (3/4)


Sugestões de Melhorias/Acertos propostos

AR quando inicia a falar sobre suas propostas de acerto, ou quem sabe de melhoria, ele inicia por demonstrar a situação da sociedade como evidência de uma falha moral e espiritual da Igreja. A visão de AR em geral é essencialmente fundamentada na Teologia da Missão integral. Segundo Ed René Kivitz:

A proposta da missão integral como agenda ministerial para a Igreja é mais do que evangelismo pessoal e assistência social; é convocação para rendição ao senhorio de Cristo, para perdão dos pecados e recebimento do dom do Espírito Santo (Missão Integral§)

Entretanto, a parte final da sentença muitas vezes é perdida entre aqueles professos de tal teologia. Tal ideologia foi claramente firmada após o Congresso Internacional de Evangelização, realizado em Lausanne em 1974, que incluiu em sua formação uma distinção entre evangelismo e ação social, mas as fundiu em uma ação de libertação da humanidade. Segundo o Pacto de Lausanne:

Embora a reconciliação com o homem não seja reconciliação com Deus, nem ação social evangelização, nem libertação política salvação, afirmamos que a evangelização e o envolvimento sócio0político são ambos parte do nosso dever cristão. Pois ambos são necessárias expressões de nossas doutrinas acerca de Deus e do homem, de nosso amor por nosso próximo e de nossa obediência a Jesus. A mensagem da salvação implica também uma mensagem de juízo sobre toda a forma de alienação, de opressão e de discriminação, e não devemos ter medo de denunciar o mal e a injustiça onde quer que elas existam.

Até mesmo John Stott ao comentar sobre tal Pacto anunciou:

É nosso dever envolvermo-nos na ação político-social, isto é, tanto na ação social (cuidando das vicissitudes de ordem social) como na ação política (preocupados com as estruturas da sociedade em si mesma). Pois tanto o envolvimento social como o evangelísticos são necessárias expressões não só de nossas doutrinas… (Pacto de Lausanne Comentado por John Stott, pp.30 – ABU – Série Pacto de Lausanne, 1983)

AR escreve plenamente influenciado por esses ideais, e portanto, suas sugestões andam mais no campo da ação social, como representação do evangelho, do que demonstrações da verdade das escrituras para uma demonstração de rumo a seguir. A lógica de AR nesse momento segue assim: como há clara decadência e depravação no mundo ao nosso redor, há falha na ação e missão da igreja. Se não há sociedade transformada não há indivíduos transformados.

Com esses princípios em mente, vamos observar as principais sugestões de AR para se reparar os danos observados anteriormente.

1. A visão e a missão da Igreja

Como AR entende a Igreja? Em suas palavras:

A igreja não é um partido político, logo não pode investir, quem quer que seja, de aval partidário para pleitear votos para qualquer cargo público. Há quem queira criar um partido evangélico. Isso seria trair nossos mais caros ideais. (pp.70)

É interessante colocar essa citação logo após termos identificado o apreço do autor pelo investimento em causas sociais. Sua intenção de envolvimento sócio-político não envolve a política como tal. Quando escreveu esse livro, os evangélicos ventilavam a possibilidade de um pequeno menino do Rio de Janeiro ser levado à presidência do Brasil. É interessante notar que AR entende que isso em nada faria diferença para a situação da Igreja ou da missão da Igreja na sociedade. Não é esse tipo de ação e envolvimento que AR entende que a Igreja deve engajar. Nesse momento não sei se a restrição de AR é em função a proposição de tal pequeno garoto, ou se é uma restrição ideal. O que sei é que pouco a frente completa:

Não tenho dúvida de que nós, evangélicos, podemos oferecer à nação substancial contribuição a sua administração, entretanto, tal engajamento só fará sentido se adição a um esforço humano conjunto que contemple todos os segmentos da sociedade (pp.71).

Esse engajamento dos evangélicos, é bem provável que pelo contexto que é inserida a frase, fale do envolvimento político da Igreja, mesmo que multidimensionado e multifuncional a ponto de atender a todos os segmentos da sociedade. Com essa informação é possível compreender a opinião do autor sobre a igreja: Não é um partido político, mas se atuar como tal, ou com envolvimento em tal área com devida atenção a todos os segmentos da sociedade, faz-se uma contribuição substancial à mesma.

Por isso, AR defende a queda da ideologia da desassociarão entre Estado e Igreja. Com isso, não defende o retorno ao Catolicismo da Idade Média, mas um novo posicionamento da Igreja diante do Estado, como um braço estendido à serviço do desenvolvimento da sociedade, da erradicação da pobreza, dos maus tratos à criança. Entretanto, AR vai ainda além:

Deveria a Igreja envolver-se nisso [política]? Se não, qual o caminho, a alienação? Orígenes, no tratado contra Celso, advoga que o cristo será tanto mais útil à sociedade, quanto mais for à Igreja, advogando assim, a separação total, o não envolvimento. Creio que o proposto pelo tão querido Pai da Igreja, do século 3, não encontra mais espaço nos dias de hoje, já fomos longe demais. (pp.73).

É interessante que nesse quesito AR defenda tais ideais, uma vez que são muitos os cristãos que defendem a neutralidade política. Entretanto, na opinião de AR tal neutralidade tem produzido apatia de modo que os cristão não exercem funções esperadas por Cristo no viver de sua fé. Sendo assim, como AR entende a missão da Igreja? Observe:

Entendo que nosso papel é cooperar com o aprimoramento da democracia e do Estado, através da pregação e da vivência de nossos postulados sobre a questão política e social (pp.73).

A vocação da Igreja é, com sua pregação, disseminar consciência ética, cooperando, assim, com a construção de um ambiente onde o exercício do poder seja mediado por valores inegociáveis (pp.71).

A igreja não deve ter interesse no poder, mas na paz social, racial, democrática e religiosas que é fruto da justiça. A igreja não busca representantes junto ao poder, pois, basta-lhe que a declaração universal dos direitos do homem seja cumprida. (pp.71)

Todas essas declarações do autor testificam qual sua visão da Igreja e sua missão para ela. A Igreja, segundo, AR é então, comprometida com Deus e por isso com o próximo. Por dedicar-se a Deus, a Igreja deve dedicar-se à sociedade como um instrumento de transformação social, onde a justiça do evangelho é percebida pela demonstração no envolvimento dos cristãos com os dilemas da nossa sociedade. Assim, sua principal sugestão de melhoria pode ser assim definida, em suas próprias palavras:

Ao invés de buscarmos soluções que acabarão por conspurcar nossa vocação, devemos praticar a mentoria da nação, isto é, vendo-nos como luz do mundo, levarmos ao conhecimento da sociedade as propostas do Reino de Deus, que apontará caminhos de aperfeiçoamento institucional e ideológico (pp.63).

2. A proposta de ação para a Igreja Brasileira

Na declaração de suas propostas mais específicas, AR fala daquilo que, imagino eu, seja prioritário em seu modo de ver a situação. Por ser uma séria de mensagens organizadas com um livro, também suponho que AR não tenha declarado tudo o que poderia ter mencionado, o que me leva mais uma vez a supor que defendeu aqui o que entende por essencial. Entre suas propostas, pretendo destacar três que me chamam a atenção: (1) a questão das crianças; (2) uma sociedade cristã e (3) a sinalização do reino.

i. A questão da criança

Hoje, mais uma vez chego em casa pesaroso com cenas de crianças sendo abusadas, transformadas em pedintes nas esquinas dessa grande cidade, por adultos, ora movidos pela simples maldade, nas suas mais diversas manifestações, ora, movidos por comovente desespero. Na prática dá no mesmo, no que tange as crianças. Fico a perguntar até quando?

Recentemente assisti um vídeo realizado pela instituição Casa do Zezinho© em que um garoto é colocado sozinho em uma área movimentada da cidade de São Paulo em duas ocasiões: na primeira ele está como menino de rua e as câmeras demonstram como o paulistano está acostumado a esse tipo de cena; nas cenas mostradas, o menino caminha sem ser visto ou percebido pelas pessoas apressadas que passam por ele. Na segunda ocasião, ele está arrumado, como um garoto que você encontraria no Shopping, mas sozinho. Em pouco tempo as pessoas começa a se preocupar com ele, pois naquele lugar com aqueles trajes ele só pode estar perdido. A pergunta do vídeo é simples: “Por que algumas crianças são problema nosso e outras não?”.

É interessante como crianças de rua se tornaram um cenário indolor e invisível a sociedade. A pergunta de AR é pertinente: Até quando isso será assim?

Por entender que a Igreja deve ter participação social ativa, AR entende que tal situação não pode coexistir com a ação da Igreja. Em outras palavras, a igreja deveria estar engajada em socorrer essas crianças. Na opinião de AR, em Mateus 18.1-14, Jesus apresentou os seguintes princípios sobre a criança:

Comunicou que a criança simboliza o que há de melhor na humanidade (…) Disse que Se identifica com as crianças (…) Afirmou que o castigo para quem desviasse do Pai uma criança seria indescritível, sendo-lhe melhor ser assassinado (…) Falou que as crianças tem um tratamento especial por parte do Pai (…) Ele adverte que o Pai não quer que nenhum só se perca (pp.64-5).

Diante de sua visão do ensino de Cristo, AR sugere que a Igreja deva intervir no cenário da criança abandonada, pois sua omissão a faz parte da injustiça praticada para contra elas, observe:

Certamente esta [a igreja] terá de compreender que diante da injustiça não há inocentes. Todos são culpados pelos pecados da sociedade: os que cometerem e os que se omitiram (…) O nosso problema não é com o diabo, mas com Deus justo, que Se levanta contra toda perversidade (Rm.1.18).

ii. A sociedade cristã

AR também defende uma igreja tão ativa na sociedade que pode perceber suas influências no desenvolvimento da mesma. Ao ler Mc.10.42-45, AR retira os seguintes princípios:

Jesus Cristo preconizou uma nova sociedade cujo poder governamental seria exercido por meio do serviço a todos. Uma sociedade de cidadãos, onde todos seriam cidadãos, pois, só uma sociedade em que o governo assume a sua vocação de servo, de todos, é que a cidadania floresce.(pp.73-4).

Essa sociedade [ideal] seria possível apenas por meio da instauração dos valores cristãos, e sobre eles, AR atesta que a vocação de tal sociedade seria:

Uma sociedade onde o uso da terra fosse regulamentado, tendo em vista o bem de todos, pois, como disse Isaías (5.8): Deus não admite que alguém possa comprar casa sobre casa e terra sobre terra até ser o único morador do lugar;

Uma sociedade onde a riqueza fosse distribuída com equidade, pois, como disse o apóstolo Paulo (2Co.8.15): Deus quer quem colheu demais não tenha sobrando, e o que colheu de menos não tenha faltando.

Uma sociedade onde o trabalhador usufruísse a riqueza que produz, pois, como está escrito (1Tm.5.18): o trabalhador é digno de seu salário e mais, não se pode amordaçar o boi que debulha o milho, isto é, aquele que produz deve ser o primeiro a usufruir o que produziu.

Uma sociedade onde a criança fosse prioridade, pois, Deus não quer que nenhum dos pequeninos ser perca

Uma sociedade onde os órfãos e viúvas, isto é, o que tudo perderam, não ficassem desamparados, ao contrário, parte da produção seria destinada exclusivamente para estes, para que não houvesse miséria na sociedade.

Uma sociedade onde o idoso fosse o referencial de sabedoria, nunca um fardo, pois, na Bíblia, o idoso (Tt.2.4; 1Pe.5.5) é o conselheiro que ajuda o jovem na sua caminhada e, por este, é visto como mentor, como alguém que é guardião dos valores que devem nortear a sociedade. (pp.74-5)

AR defende em Estado fundamentado nas declarações das escrituras, de tal modo que funcione como uma Bibliocracia, ou seja, o exercício do poder determinado pelos princípios das escrituras. O modo como ele apresenta tal sociedade, não se pode ver uma Teocracia, em função de que não se trata de um Reino Instaurado, mais um alvo, sonho de consumo, para a Igreja hoje:

Portanto, enquanto o Senhor não volta e o governo dos sonhos e de paz não se estabelece, preparamo-nos para travar a batalha da democracia, por que o governo que queremos e precisamos, na História, não cairá do céu. Mas isso não nos impede de pautar nosso movimento na História por nossa perspectiva do céu. (pp.76).

iii. Sinalização do Reino

Apesar dessa visão ideal da sociedade coordenada pelo cristianismo, AR defende que a Igreja não deve implantar o Reino de Deus, mas demonstrá-lo, ou sinalizá-lo, como preferiu descrever a missão da igreja. Em outras palavras, a proposta de AR para a Igreja não é o estabelecimento do Reino, mas que tal influência testifique o Reino. Ele também defende os ideais de Mt.5.16, que declara a missão de visibilidade da igreja. Mas, como deve dar-se tal sinalização do Reino? AR responde:

Entendo, como já expus, que tal sinalização se dá pela prática de boas obras. Temo que toda vez que o tema boas obras vem à tona, fica restrito à mera assistência. Não se pode questionar que cada vez que um necessitado é socorrido, em nome de Jesus, a presença e natureza do Reino são reveladas, contudo, mais do que pleitear apenas o socorro, o Reino exige arrependimento (Mt.4.12), o que implica em mudança de cosmovisão.

O que AR entende por arrependimento [mudança de cosmovisão]? Para explicar o que entende por isso, ele conta que certa vez estava em um Taxi e o motorista o questiona a respeito da bondade de Deus e os acontecimentos na cidade de São Paulo, gente sofrendo, gente morrendo, em função das chuvas torrenciais que afligiam a cidade na ocasião. AR responde ao taxista, afirmando que nada disse tem qualquer relação com Deus, mas com os homens, que administravam mal a cidade, que obrigam seres humanos a viverem em locais desagradáveis e propensos a desastres naturais. Assim, a culpa é dos homens, e todos eles são coparticipantes dessa culpa, pois como cidadãos não temos feito nada. AR testemunha que tal taxista nunca pensara assim, e chocado com o que ouvira, teria se arrependido e sua cosmovisão teria sido mudada. Tendo dito isso, AR conclui:

Essa é a mais premente das tarefas da Igreja, levar os homens ao arrependimento, confrontando-os com uma outra forma de pensar e de viver a vida. Talvez você esteja pensando: “Isto não é boas obras, é pregação!”. Permita-me propor-lhe outra visão para o assunto. Pregação e boas obras fazem parte de um só conjunto, que abarca toda a influência que pudermos exercer sobre a sociedade em que vivemos. (pp.78).

Na conclusão desse pensamento, AR conclui:

A igreja será bem sucedida se, pelo exemplo, ensinar ao Brasil que a solidariedade, e não o neoliberalismo, é a saída (pp.81)


§IN: http://espiritualidadeemissao.blogspot.com/2008/08/misso-integral_28.html

© http://www.youtube.com/watch?v=rqTBQLv0uoc

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