Sobre o Dom de Línguas


Há um bom tempo atrás (09/07/09), Thomas Tronco, um desses amigos on-line que fazemos depois de entrar ao submundo dos blogs, escreveu no Theologizando (isso mesmo, Theologizando) um artigo sobre sua opinião a respeito do Dom de Línguas. O nome do artigo é O DOM DE LÍNGUAS HOJE, e tal artigo gerou alguma polêmica no blog, como pode-se notar nos comentários.

Rapidamente outros escritores do mesmo blog saíram a apresentar suas opiniões sobre o assunto e um debate amistos (como raros na internet) foi travado ali e a opinião de todos ficou clara, bem como as divergências sobre o assunto. Recentemente, voltei ao artigo para lê-lo novamente e me deparei com meus comentários. Decidi então, colocá-los no Teologando para deixar minha opinião sobre o assunto. Aos que tem interesse em conhecer as opiniões expressas do Theologizando, visitem o artigo.

Peço desculpas aos leitores por não colocar um artigo pessoal, mas a transcrição de um comentário feito na Internet. Por outro lado, o faço para deixar minha opinião sujeita a observações dos demais que passarem por aqui.

Bom Proveito!

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Esse assunto é delicado.

Na minha opinião (não que isso tenha qualquer relevância, é só minha opinião), as escrituras não definem com tamanha clareza o término do dom de linguas em 70d.C. Algumas considerações me fazem pensar nisso:

  • Paulo ensina que os dons são dados pelo Espírito, e que ele o faria como quisesse (1Co.12.8-11), sem qualquer referência a tempo (exceto que o presente do verbo dídomi parece ser contínuo). Porém, a ordem da lista sugere que variedade de línguas é de prioridade mais baixa que outros dons.
  • Essa declaração me sugere que, se o Espírito intencionar oferecer essa habilidade a alguém, como lhe aprouver, Ele o fará.
  • A falta de referências temporais a essa ação do Espírito, me faz pensar que Paulo, na ocasião não tinha em mente a limitação dessa ação do Espírito.
  • A falta (quase completa) de referências históricas sobre o uso de outros idiomas na História da Igreja, pode indicar apenas falta de relato, não necessariamente ausência de uma manifestação espiritual.

Paulo afirma que Deus colocou na Igreja a variedade de línguas (1Co.12.28). O verbo títhemi no aoristo, dá a idéia de que o próprio Deus teria implementado a variedade (genós) de línguas (glossa). Génos, como declaração de espécie, alterando o sentido de glossa sugere que trata-se de idiomas. Contudo,nesse mesmo verso Paulo define que a variedade de línguas é menos prioritária.
A ação de Deus em implementar os dons na Igreja tem propósito definido (Ef.4.11-12), e acredito que Ele tenha suas preferências, pois Paulo nos deixa claro que o dom de línguas, em questão de prioridade é baixa. A ação de Deus descrita no aoristo sugere que esse estabelecimento é algo sem limitações temporais.

  • A variedade de dons que são implementados por Deus, sugerem que essa determinação de Deus é válida em nossos dias. Não vejo razão para que o dom de línguas pudesse ter sido retirado dessa ação de implementação de Deus.
  • Paulo expressa o desejo de que os Coríntos (todos) falassem em outros idiomas (1Co.14.5), muito embora seu desejo maior é que todos profetizassem.
  • A expressão do desejo de Paulo não é uma norma, mas representa uma possibilidade interessante. 14 anos antes da destruição de Jerusalém, Paulo não tinha a expectativa de ver o término.
  • Paulo falava em outras línguas (1Co.14.18), mas tinha pleno controle do seu dom (1Co.14.19; cf. v.32-33). Seu exemplo não é normativo, mas é válido. Ele não entendia isso como espiritualidade.
  • Paulo ensina que as línguas eram sinais para incrédulos (1Co.14.20-22), talvez como sinal de juízo, mas sem definição de término. Paulo também dá instruções sobre como proceder em cultos públicos (1Co.14.26-27), e não sugere em nenhum lugar que isso é temporário. Além de sugerir que o culto precisa de ordem e decência, ele afirma: “Não proibais o falar em outras línguas” (1Co.14.39). Se Paulo pressupõe que o falar em outras lígunas é algo que não pode ser proibido, e que esse dom terminaria, não seria necessário que ele alertasse seus leitores de que esse dom teria seus dias contados?
  • Paulo não queria que os Coríntos fosse ignorantes no que se refer aos dons (1Co.12.1). Por que ele não os ensinou sobre a temporalidade do dom de línguas? Para responder a essa pergunta, temos algumas opções: Paulo não pensava assim; Deus não tinha revelado isso a ele; Paulo sabia que, com o Cannon completo, esse problema seria resolvido; Paulo pressupos que seus leitores já tivessem entendido esse fato; Paulo teria ensinado pessoalmente (ou sem registro documental) esse fato. Ou até, NDA.

O que posso dizer com certeza é: ainda não presenciei uma manifestão de dom de línguas que tenha sido dada por Deus. Em todas as ocasiões que presenciei, pude perceber o dolo. Por outro lado, não tenho segurança a partir das escrituras, para determinar uma data para o encerramento de uma ação divina. Talvez meu zelo medroso não é capaz de definir algo que as escrituras (segundo Thomas) estão a afirmar. Que Deus me perdoe a fraqueza.

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Sobre 1Co.13.8 e o término dos dons:

Não há clara definição de quanto essas coisas aconteceriam.

  • “mas, as profecias cessarão”: Uma descrição de futuro indefinido. Como o termo está no futuro do indicativo ativo um fato é anunciado: Um dia as profecias cessarão. O verbo “καταργέω”, que além de enfatizar o cessar, também é usado com o sentido de aniquilar (2Ts.2.8), invalidar (Rm.3.3) ou abolir (Hb.2.14). A teologia cristã não nos permitiria nenhuma dessas nuances nesse texto, mas se qualquer uma delas fosse tomada como verdadeira, poderíamo pensar que Paulo fala com exagero (hipérbole). Deve-se levar em conta que, as profecias como descritas no cap.11 não cessaram ainda. Talvez a questão do tempo dependa da expressão “quando vier o perfeito”.
  • “conhecimento cessará“: Além de uma descrição de futuro incerta, o termo usado aqui é o mesmo que em referência às profecias. Entretanto, nesse caso o futuro do indicativo é passivo, ou seja, a “γνῶσις” seria cessada. A que se refere esse termo nesse contexto? Se Paulo fala do conhecimento de modo geral, temos que entender que ele está exagerando, pois o conhecimento só tem crescido com o passar do tempo. Mais uma vez, talvez a indicação de tempo dependa da expressão “quando vier o perfeito”.
  • “as línguas cessarão”: Uma descrição de futuro indefinida, mas o termo usado aqui é diferente: “παύω” e a idéia é clara: terminar, encerrar, cessar ou acabar. O tempo verbal nesse caso é futuro do indicativo médio, e A.T. Robertson afirma que isso significa “elas farão elas mesmas cessar ou cessarão automaticamente” (Word Pictures in the New Testament). Entretanto, a pergunta que fica é quando? A julgar pela profecia que não cessou ou ao conhecimento que ao invés de cessar tem-se expandido as línguas poderiam estar em funcionamento. Então, todas essas expressões devem ter suas ligações com a expressão “quando vier o perfeito”.

Paulo demonstra que as profecias, o dom de línguas e o conhecimento cessarão quando vier o que é perfeito. Mas, o que é e quando vem (veio)? Três teorias são mais aceitas:

  1. Alguns afirmam que o que é perfeito é o Cannon e por isso acreditam que os dons não seriam necessários após a consolidação da verdade de Deus. Entretanto, a dificuldade é que deveríamos incluir nessa lista de coisas que cessariam o conhecimento e a profecia, que claramente não cessaram.
  2. Alguns afirmam que o perfeito é a maturidade da igreja, ou seja, quando a igreja atingiu sua maturidade os dons apresentados não seriam necessários. Quando a igreja ficou madura? Aqui novamente vemos o mesmo problema já citado: o conhecimento não cessou, não foi aniquilado. Outro detalhe que seria importante ressaltar é que não temos visto a maturidade da igreja ainda.
  3. Outros preferem pensar no retorno de Cristo. Nesse caso o quando é incerto e iminente, mas parece fazer mais justificativa à interrupção das profecias e do dom de línguas. E o que dizer do conhecimento? Paulo comumente apresenta seu desejo que seus leitores cresçam no conhecimento (Ef.1.17; Fp.1.9; Cl.1.9-10; 2.2; 1Tm.2.4; ) e ele mesmo esperava isso para sua vida (Ef.4.13). Seria incoerente para Paulo sugerir que seus leitores buscassem algo tão vital para o cristianismo que poderia cessar a qualquer momento. Por outro lado, incentivá-los a crescer na fé, como exercício da mesma, faz todo sentido se o alvo é o estado futuro onde não haverá mais a conhecer, pois o veremos face-a-face. As implicações disso me levam a pensar no estado eterno como o perfeito, traz menos dificuldades de de compreensão ou prática. Bom, essa é a minha opinião.

Diante do pontos acima, tenho ainda mais dificuldade de estabelecer uma data como certa para o término do dom de linguas.

3 comentários sobre “Sobre o Dom de Línguas

  1. T. Zambelli

    Tchelo,
    mais uma vez obrigado por compartilhar seu ponto de vista e conhecimento. Gostaria muito de ler algo que você tenha estudado sobre o dom de curas. Que tal?

  2. Cleilson

    Puxa, até q enfim, um teólogo que não engole a ideologia do cessacionismo baseado numa interpretação forçada do texto de 1Co 13. Até agora só tinha conhecido cessacionistas com as mesmas ladainhas, forçando o significado do “que é perfeito”, dizendo que é o fechamento do cânon… Parabéns, Berti.

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