Nossa Igreja Brasileira – Uma Análise (4/4)


Pontos de Atenção

Nem tudo são flores, nem mesmo com AR. O autor deste livro me impressiona com seu modo de escrever e pensar sobre o cristianismo. Já participei de palestras com o mesmo, já li artigos em seu blog, comentários de outros eventos que não pude participar e confesso, tenho afeição pelo modo que ensina e como é hábil ao movimentar jovens a ação.

Entretanto, não consigo alcançar os desdobramentos práticos de muitas das idéias de AR. Nesse livro eu passei a vê-lo como um bom psicólogo, que é capaz de apresentar uma clara definição do que está errado no paciente, mas com uma prescrição de reparos completamente insuficientes para reparar o problema.

Observe que, objetivamente, o autor identificou os problemas da igreja, teorizou sobre sua origem, mas suas proposições de melhoria de fato não auxiliam em nada os problemas identificados. Na verdade, acho que AR sugeriu uma mudança de ênfase como resposta para os problemas. Se é isso, a idéia é: Para evitar o neopentecostalismo e suas desventuras, devemos nos voltar à outra prática cristão, mais moderna, mais atualizada.

Devo admitir também não ter soluções práticas para reverter o cristianismo da situação de desgraça que se firmou. Poderia, como outros já o fizeram, delimitar como verdadeiramente cristão aqueles que vivem o cristianismo como ensinado por Cristo, e sentenciar o neopentecostalismo à heresia e não participante da Igreja de Cristo. Ainda que tal proposta me seja a mais favorável, sei que Deus por Sua graça tem alcançado pessoas no ambiente do neopentecostalismo. Eu acredito que existem verdadeiros cristãos nesses movimentos, por que já conheci alguns, e por isso suponho que existam outros.

Por outro lado, eu poderia, como outros também já fizeram, sugerir modelos e práticas firmadas nas escrituras para auxiliar as igrejas cristãs a não enveredarem ao caminho do neopentecostalismo. Mas, ainda que assim o fizesse, não teria resolvido o problema, mas evitado que ele se alastre.

Minha percepção é que não importa o que façamos, a heresia sempre estará à porta e devemos tratá-la onde pudermos e do melhor modo que pudermos. E nesse sentido, fico frustrado com as proposições de AR, pois em resposta à Teologia da Prosperidade ele não propôs um retorno às escrituras, mais um retorno à Teologia da Missão Integral. Assim, ressalto que nesse livro AR apresenta opiniões equivocadas sobre a (1) Igreja e o (2) Reino.

1. AR, a Igreja e a Sua Missão

Minha primeira observação é sobre a visão que AR tem sobre a Igreja, que em suas palavras é assim vista:

A igreja é os olhos da nação, deveria ser sua luz, entretanto “se a luz que há em si forem trevas, quão grandes são as suas trevas” – Jesus de Nazaré. (pp.20)

Em primeiro lugar, tal premissa não é compatível com as Escrituras, pois elas nunca defendem a Igreja como responsável, de algum modo por uma nação. É interessante que tal premissa não encontrada nas escrituras pode ser conjectura nelas. Observe que os cristãos devem ser luz no mundo (Mt.514) e que os olhos são a luz do corpo, mas se forem tomadas por trevas, grandes trevas serão (Mt.6.23). Essa associação, embora possa parecer bíblica, é uma sobreposição de idéias. O primeiro verso trata da influência do cristão no mundo em que vive e o segundo fala sobre sua santidade exigida como filho do Rei. Entretanto, a idéia de que a Igreja são os olhos da Sociedade não é encontrada nas escrituras.

Pense por um momento na Igreja Primitiva conforme vista no início de Atos. Era uma igreja crescente, ativa, influente e sendo santificada por Deus pela dizimação dos infiéis (Ananias e Safira). Entretanto, em nenhum momento tal igreja foi responsável pela vida daquela sociedade, quanto menos os seus olhos. O que vemos em Atos é a Igreja agindo em proteção dos seus (At.6; 11). Não há intervenção sócio-politica, há assistência.

Eu posso entender a necessidade de realizarmos nossa missão de modo mais adequado e contextualizado, mas não posso entender como o envolvimento político-social é a resposta. Também entendo que os cristãos primitivos estavam excluídos das sociedades que viviam, diferente dos cristãos da atualidade. Mas, não entendo como a missão da Igreja tem que se afastar do essencial para ser contextual.

Mas, AR entende que a participação da Igreja é muito mais do que a representação de uma sociedade, a Igreja é a Salvação para o mundo. Observe:

Precisamos mesmo salvar essa nação, mas, ao invés do messianismo, se fará com o compromisso de todos os cidadãos, com um governo amplamente representativo, que seja sustentado por um arco de alianças progressistas: comprometido com a erradicação da miséria e da pobreza, com o aperfeiçoamento institucional da democracia, com o desenvolvimento de um mercado interno sólido, com uma política de pleno emprego, com a sustentação da soberania nacional, condito sine qua non, para que a nação ocupe o espaço relevante no concerto das nações (pp.70)

Note as fortes palavras de AR: “Precisamos salvar essa nação”. Desde quando a missão cristã tem a ver com a salvação da nação? Até onde sei fomos comissionados para levar o evangelho como representantes de Cristo, não reformadores sociais. As propostas de um governo amplamente representativo e ideal proposto por AR não passam de uma utopia. Deve ser por que ele acredita que sem utopia o jovem se corrompe.

O mix ação política e missão cristã faz de AR mais um candidato à presidência da república que um representante da verdadeira missão da Igreja. Impressiona-me que ele é defensor da Missão Integral, que defende o Evangelho todo, para o homem todo, para todos os homens. Entretanto, em sua proposta nesse livro só encontramos a parte “para o homem todo, para todos os homens”. O discurso de esquerda de AR nesse livro parece sobrepor o discurso direto de Jesus ao nos convocar a sermos pescadores de homens, discipuladores de pessoas de todas as nações. AR parece ter confundido a ordem de Cristo de fazer discípulo de todas as nações com influenciar, coordenar todas as nações. O Cristianismo não é descrito pela implementação de melhoria na sociedade, nem definido por sua participação na mesma, mas na sua identidade com Cristo.

Nós vemos nos evangelho Cristo preocupado e ativo com as vicissitudes do homem, o vemos curando doentes dos mais diversos tipos, oferecendo completa transformação de vidas. Mas, em nenhum lugar vemos que essa era a missão de Cristo:

Mt 1:21 Ela dará à luz um filho e lhe porás o nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo dos pecados deles.

Mt 20:28 tal como o Filho do Homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos.

Mc 1:14-15 Depois de João ter sido preso, foi Jesus para a Galiléia, pregando o evangelho de Deus, dizendo: O tempo está cumprido, e o reino de Deus está próximo; arrependei-vos e crede no evangelho.

Mc 1:38-39 Jesus, porém, lhes disse: Vamos a outros lugares, às povoações vizinhas, a fim de que eu pregue também ali, pois para isso é que eu vim. Então, foi por toda a Galiléia, pregando nas sinagogas deles e expelindo os demônios.

Lc 4.43 Ele, porém, lhes disse: É necessário que eu anuncie o evangelho do reino de Deus também às outras cidades, pois para isso é que fui enviado

Lc 5:31-32 Respondeu-lhes Jesus: Os sãos não precisam de médico, e sim os doentes. Não vim chamar justos, e sim pecadores, ao arrependimento.

Lc 19:10 Porque o Filho do Homem veio buscar e salvar o perdido.

Jo 3:17 Porquanto Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que julgasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele.

Jo 4:34 Disse-lhes Jesus: A minha comida consiste em fazer a vontade daquele que me enviou e realizar a sua obra.

Essa autoconsciência de missão que Jesus tinha deveria ser marca dos cristãos, pois Ele mesmo atesta: “Assim como o Pai me enviou, eu também os envio” (Jo.20.21). A deturpação da missão da igreja produz alteração de foco. Tal alteração de foco tem desenvolvido novas práticas, que não são necessariamente reprováveis, mas que não refletem a natureza da Igreja e sua Missão fundamental. Jesus Cristo evidenciou com clareza o propósito para sua Igreja:

Mt 28.18-20 Jesus, aproximando-se, falou-lhes, dizendo: Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra.  Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado. E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século

Como Mestre, Jesus Cristo ordena que seus servos façam discípulos. Como Modelo, Jesus diz: “Façam o que Eu fiz”. É por isso que Ele diz que recebeu toda a autoridade no Céu e na Terra. Ele é o Logos que existe desde o princípio (Jo.1.1; Cl.1.17), que estava com Deus e que é Deus (Jo.1.1), Supremo Sumo-Sacerdote (Hb.3.1), perfeito para sempre (Hb.7.28), superior a todos e a tudo (Hb.1.2), a imagem do Deus invisível (Cl.1.15), a expressão exata do Ser de Deus (Hb.1.3), criador de todas as coisas (Jo.1.2; Cl.1.16). Por isso tem toda Autoridade no Céu.

Por outro lado, Ele é o referencial e modelo para nossa prática ministerial. Ele ensinava com autoridade (Mt.7.29; 13.54; Mc 1.39; Mc 6.2; Lc 4.15) e não com hipocrisia (Mt 23.27-28), curava pessoas (Mt.4.23; 8.16-17; 9.35; Mt.11.34; 15.31), se importava com o sofrimento alheio (Mc.1.40; 6.34; Mt.9.36; Lc.7.12-13), fazia o bem (At.10.38; 2.22; Lc.4.18) entre muitas outras ações. Entretanto, nenhuma delas pode ser exercida pelos cristãos sem os olhos fitos na missão fundamental de Cristo, que não é remover o sofrimento, nem melhorar a condição de vida, mas libertar pessoas do poder dominador do pecado, por meio de seu sacrifício, como expiação, redenção, substituição ao pecador e apaziguamento da ira de Deus sobre eles. Se melhorarmos o mundo e não apontarmos para cruz, não estamos vivendo o cristianismo e continuamos a condenar pessoas ao inferno com nossa omissão de testemunhar a Cristo, morto e ressurreto, que voltará para julgar vivos e mortos.

Para realizarmos uma transformação social (como AR sugere), não precisamos ser seguidores de Cristo, pois basta ao homem ser honesto e pensar coletivamente que ele pode fazer diferença. Sei que muitos não cristãos preencheriam esses requerimentos. A influência que Cristo espera de Seus seguidores é que seja como a que Ele mesmo demonstrou. Ele é o modelo de ação social e ação missionária que temos. Servimos a sociedade, mas levamos o evangelho, essa é nossa missão. Os petistas querem reforma agrária, os tucanos a privatização, nós pregamos a Cristo crucificado. Esse é o nosso papel, essa é a nossa função.

2. AR e o Reino e a Sociedade

Confesso que fico confuso com o que AR entende sobre Reino. Ele mesmo atesta que não estamos aqui para implementar o Reino, mas para demonstrá-lo. Por outro lado defende uma participação social e política que possa exercer tamanha influência que a sociedade respire ideais cristãos.

Impressiona-me ainda mais, as descrições que AR dá para esse Reino, observe:

[Jesus Cristo] veio para resgatar-nos, mas, também para anunciar aos homens estavam sob ultimato, tinham de arrepender-se do estado de rebelião, por que estava próximo o Reino de Deus, isto é, o Criador vem para inaugurar um estado de coisas onde só sua Vontade será feita, de fato este reino já está presente em Cristo e naqueles que o seguiram, breve tomará toda a Terra; dele só participarão os que se arrependerem de seu estado de rebelião, revelados por seus pecados (pp.46)

Em um das poucas ocasiões que AR fala sobre o resgate de Cristo, ele defende que o arrependimento do estado de rebelião, habilita o arrependido a participar do Reino de Deus, que o Criador vem para inaugurar. Ora, se o Criador irá inaugurá-lo, por que devemos lutar por essa sociedade preconizada por Cristo? Se o Reino será plenamente efetivado no futuro, e o modo de entrar nele é através da mensagem de arrependimento, qual é o papel da transformação social na missão do crente e de sua participação no Reino?

O Reino para AR é algo que exige tal transformação, que sem ela, os homens jamais o poderiam entender ou ver, observe:

Esse reino exige uma metamorfose radical no ser humano, caso contrário ele não poderá nem vê-lo, nem nele entrar; o que deixa claro que quando alguém vê esse reino, já está dentro. Por que só quem entrou consegue vê-lo, ele só pode ser visto pelo lado de dentro. É como se alguém passasse sempre por uma nave invisível, até um dia é sugado para dentro dela, e então, inevitavelmente a vê. O Reino é invisível, mas já está presente (pp.47).

Por outro lado, o Reino é figurado por AR como uma sociedade mais adequada, observe:

Jesus Cristo preconizou uma nova sociedade cujo poder governamental seria exercido por meio do serviço a todos. Uma sociedade de cidadãos, onde todos seriam cidadãos, pois, só uma sociedade em que o governo assume a sua vocação de servo, de todos, é que a cidadania floresce.(pp.73-4).

Uma sociedade onde o uso da terra fosse regulamentado, tendo em vista o bem de todos, pois, como disse Isaías (5.8): Deus não admite que alguém possa comprar casa sobre casa e terra sobre terra até ser o único morador do lugar;

Uma sociedade onde a riqueza fosse distribuída com equidade, pois, como disse o apóstolo Paulo (2Co.8.15): Deus quer quem colheu demais não tenha sobrando, e o que colheu de menos não tenha faltando.

Uma sociedade onde o trabalhador usufruísse a riqueza que produz, pois, como está escrito (1Tm.5.18): o trabalhador é digno de seu salário e mais, não se pode amordaçar o boi que debulha o milho, isto é, aquele que produz deve ser o primeiro a usufruir o que produziu.

Uma sociedade onde a criança fosse prioridade, pois, Deus não quer que nenhum dos pequeninos ser perca

Uma sociedade onde os órfãos e viúvas, isto é, o que tudo perderam, não ficassem desamparados, ao contrário, parte da produção seria destinada exclusivamente para estes, para que não houvesse miséria na sociedade.

Uma sociedade onde o idoso fosse o referencial de sabedoria, nunca um fardo, pois, na Bíblia, o idoso (Tt.2.4; 1Pe.5.5) é o conselheiro que ajuda o jovem na sua caminhada e, por este, é visto como mentor, como alguém que é guardião dos valores que devem nortear a sociedade. (pp.74-5)

Somadas todas essas afirmações, não sei bem o que AR entende por Reino. O que sei é que tal opinião não parece refletir o reino apresentado nas escrituras, pois para participar desse Reino o arrependimento é fundamental, mas não á a única recomendação: É necessário crer no Evangelho (Mc.1.15)

Conclusão

O que podemos dizer da abordagem de AR em geral com o livro? Em primeiro lugar, deve-se dizer que AR é assertivo em identificar os problemas com a Igreja Brasileira, mas que ele mesmo não tem uma visão correta sobre a prática esperada da igreja. O evangelho social que AR vende nesse livro não faz parte das escrituras e não pode exercer papel fundamental na função da Igreja.

Em segundo lugar, deve ser tomado como fato que muitas das recomendações práticas de AR, especialmente as que falam sobre a ação cristã na sociedade, podem e devem ser tomadas com instruções acertadas. É dever da igreja sim, socorrer os pobres, cuidar dos enfermos, pois temos esse modelo recebido de Jesus Cristo, o Dono-Fundador da Igreja. Por outro lado, não podemos usurpar de Deus a mensagem do Evangelho. Deus não enviou seu Filho para viver como homem, sofrer e morrer em nosso lugar para salvarmos a sociedade, mas para levarmos sua mensagem a todas as pessoas, sem restrições de qualquer natureza.

Portanto, a leitura do livro é certamente recomendada, mas na medida em que avaliada diante das escrituras, como deve também acontecer com esse artigo. É Lutero quem defende: “Diante das Escrituras, todos devem ceder”. Assim, diante do meu entender das escrituras, esse é meu parecer sobre o livro: Nossa Igreja Brasileira, de Ariovaldo Ramos.

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