A História de Três Irmãos: Caim, Abel e Sete


O estudo sobre Caim e Abel é certamente um ponto controvertido no livro de Gênesis. Para falar com franqueza, os primeiros 11 capítulos de Gêneses têm caráter controvertido. É bem verdade que tais dificuldades hermenêuticas não são insolúveis ou sem propostas de tratamento, entretanto, ainda assim são cercadas de ceticismo.

Nossa proposta não é resolver problemas antigos a teologia, mas refletir sobre a real problemática dessas dificuldades, considerar algumas possibilidades para os mesmos casos e então propor uma conclusão plausível para cada uma das dificuldades observadas. Observe, nosso objetivo não é oferecer uma conclusão definitiva para tais assuntos, mas uma que seja plausível.

Feito isso, trataremos da narrativa com devida atenção ao relacionamento estabelecido entre Deus e suas criaturas conforme observado pelo capítulo 4 de Gênesis.

Introdução

Como já temos dito, estudar o livro de Gênesis associa duas atitudes do cristão que dele se aproxima: devoção e intelectualidade. Devoção, pois nele encontram-se as palavras de Deus, suas orientações, ensinos e exortações. Intelectualidade, pois nele também se encontram obstáculos para a compreensão da verdade exposta em suas páginas. Portanto, é com essa perspectiva que passamos a observar os seguintes aspectos do capítulo 4 e 5 de Gênesis: (1) O Papel das Genealogias; (2) A oferta, (3) A esposa de Caim.

1.         O Papel e Significado das Genealogias em Gênesis:

“As genealogias bíblicas são numerosas, mas ainda assim são, provavelmente, as porções mais freqüentemente ignoradas da Bíblia. A maioria das pessoas acha que as genealogias não são interessantes e difíceis de aplicar às circunstâncias atuais[1]

A princípio não podemos ignorar esse fato: As genealogias não são interessantes a muitos leitores das escrituras, e de fato, são difíceis de serem aplicadas a nossa vida com Deus. Por outro lado, o Deus que se revela nessas páginas das escrituras deve ter um propósito com tal inclusão, e por isso observamos tais porções com zelo e sabedoria.

O primeiro grande obstáculo à mente moderna sobre a validade das escrituras repousa sobre as genealogias de Gênesis, não por serem extensas ou aparentemente repetidas ou repetitivas, mas por conterem afirmações de longevidade invejáveis aos adeptos da cosmética antiidade.

5 Os dias todos da vida de Adão foram novecentos e trinta anos; e morreu (…) 8 Todos os dias de Sete foram novecentos e doze anos; e morreu (…) 11 Todos os dias de Enos foram novecentos e cinco anos; e morreu (…) 14 Todos os dias de Cainã foram novecentos e dez anos; e morreu (…) 17 Todos os dias de Maalalel foram oitocentos e noventa e cinco anos; e morreu (…) 20 Todos os dias de Jarede foram novecentos e sessenta e dois anos; e morreu (…) 23 Todos os dias de Enoque foram trezentos e sessenta e cinco anos (…) 27 Todos os dias de Metusalém foram novecentos e sessenta e nove anos; e morreu (…) 31 Todos os dias de Lameque foram setecentos e setenta e sete anos; e morreu.

A ordem seguida na genealogia é interessante: Gerar, viver e morrer. Essa relação da existência humana é certamente bem retratada por essas genealogias. O uso recorrente do verbo morrer (heb. muwth) relembra com clareza a recomendação de Yahweh sobre a certeza da morte, caso Adão desobedecesse. Todos os descendentes de Adão, com possível exceção de Enoque, morreram fruto da desobediência de Adão. Todos estão fadados a esse destino.

Contudo, as descrições de tempo observadas levantam sérias dúvidas quanto ao relato de Moisés. Note que o personagem com menor idade narrado viveu 365 anos! Aos olhos da nossa concepção de longevidade esses dados são plenamente incompatíveis com a realidade da humanidade. Por isso, algumas teorias foram anunciadas para compreender esses dados.

A visão mais literal: A visão mais literal, em geral preza pela validade numérica e conceitual das genealogias, entretanto, muitas propostas foram feitas para Gn.5, observe:

  1. Lutero sugeriu que a longevidade dos patriarcas anti-diluvianos se dava em função de uma melhor dieta combinada com um corpo mais saudável em função de pouco tempo da entrada do pecado[2]. Contudo, essa visão causa severos problemas para a compreensão da vida tal como está, sem contar no alto grau especulativo da proposta. Outro detalhe é que, se o tempo da raça humana deteriora com o tempo em função da presença do pecado, hoje deveríamos viver muito menos do que temos vivido, sem contar no caso de culturas que, por meio do desenvolvimento higiênico e sanitário, aumentaram sua expectativa de vida nos últimos anos, o que contraria a proposta de Lutero.
  2. Calvino entende o registro final de tempo depende do tempo total em que os patriarcas viveram juntos[3]. Segundo essa interpretação Adão teria vivido 130 anos (v.3) e sua família/tribo 930 anos (v.5) Entretanto, Derek Kidner opõe-se veementemente à essa conclusão, pois “Enoque e Noé são exceções fatais para a teoria, pois os dois são claramente retratados como indivíduos até o fim[4]”.
  3. Clyde Francisco cita a Lista de Reis Sumérios que chegou até nós através de Berossus, um historiador grego. Nessa lista encontram-se 10 dignitários do período anti-diluviano e um dentre eles, à semelhança de Enoque, não morre. De modo interessante, esse mesmo documento demonstra que a longevidade desses homens era ainda maior que as apresentada por Moisés. Para Clyde, existe alguma relação entre o relato de Moisés e tal documento, embora não possa determinar qual, ou quão grande teria sido tal influência. Segundo ele, “não há nenhuma forma de provar que os patriarcas não viveram tanto tempo quanto o Velho Testamento diz que viveram (…) Certamente os escritores bíblicos não adicionaram ou subtraíram anos das genealogias que receberam. As idades registradas refletem o contexto da tradição quando as fontes foram compostas”. A proposta de Clyde embora nobre, por preservar a literalidade do texto é fundamentada na edição do mesmo e na dependência de um texto que não temos como saber se Moisés teve acesso, ou até mesmo à tradição do mesmo.
  4. Derek Kidner reconhece a existência de proposições similares a de Moisés relativas a longevidade de seres humanos do passado, mas ao contrário de Francisco, ele não as toma como interdependentes, mas como demonstração de que, por meio de diferentes autores antigos, um fato pode ter sido registrado. Observe o que diz: “Só podemos dizer que os períodos de duração da vida devem ser entendidos literalmente. Talvez valha a pena pensar que o nosso índice comum de crescimento não é o único que se pode conceber; e também que várias raças tem tradições de longevidade primitiva que poderiam provir de reminiscências autênticas[5]”.
  5. James Ussher entendeu que os anos apresentados em Gênesis de 5 a 11 são literais e conseguintes, e concluiu que Adão teria vindo a existir em 4004 anos antes de Cristo. O pressuposto fundamental dele é que as genealogias são completas e não tem lacunas. Esse modo de interpretação é provavelmente o mais rejeitado dentre todas as propostas.
  6. Willian Henry Green demonstra que as genealogias bíblicas normalmente apresentam lacunas, como essa apresentada em Gn.5. Segundo ele, essa genealogia foi intencionalmente arranjada, em função da clara estrutura existente. Em relação às genealogias de Gn.5-11, ele atesta que “cada genealogia inclui dez nomes, sendo Noé o décimo depois de Adão, e Terá o décimo de Noé. Todo fim tem um pai tendo três filhos, como no caso da genealogia Canita (4.17-22). A genealogia de Sete (cap.5) culmina no sétimo membro Enoque, que andou com Deus, e ele não era, mas Deus o tomou para is. A genealogia Canita também culmina no sétimo membro, Lameque, que era polígamo, vingativo e cheio de arrogância[6]”. Esse tipo de arranjo certamente favorece a idéia de que a intenção não foi uma genealogia cronológica, mas referencial.
  7. John White Comb sugeriu que a longevidade dos seres humanos estava ligada com as diferentes condições climáticas do período anti-diluviano, baseado na idéia de um dossel de vapor de água que protegia a terra da física e geneticamente nociva radiação solar. Concordam com essa proposta Fazale Rana, Hugh Ross e Richard Deem.
  8. Outros já sugeriram que as medidas de tempo não são necessariamente as mesmas que temos hoje, e que é possível que o termo “anos” fosse compreendido como “meses”. Assim, os 969 anos seriam 969 meses, ou cerca de 81 anos, o que tornaria compreensão do texto muito mais aceitável. Contudo, se esse esquema fosse adotado para todos os casos, Enoque teria apenas 5 anos (ou 65 meses) de idade quando gerou Matusalém. Sobre esse tipo de tratamento, Kidner também diz: “É igualmente infrutífera a idéia de que as unidades de tempo podem ter mudado de sentido. Além de produzir novas dificuldades nos versos 12, 15, 21, falha completamente na cronologia pormenorizada que se acha entre 7.6 e 8.13[7]”. Essa proposta tornaria a proposta de Gn.6.3 em um absurdo.
  9. Fazale Rana acredita que os anos dos personagens apresentados em Gn.5 são literais em função da assertiva divina em 6.3, que afirma que em função da maldade recorrente na humanidade, Deus resolveu reduzir a vida do ser humano a 120 anos. Ele também defende que o avanço da bioquímica pode sugerir modos pelos quais Deus pode ter permitido seres humanos viverem tanto tempo. Segundo Rana, “cientistas descobriram diversos distintivos bioquímicos que ou causam, o são associados com, o envelhecimento. Mesmo uma pequena alteração na química celular pode ser responsável pelo envelhecimento, ou em alguns casos, aumentar a expectativa de vida cerca de 50%[8]. Essas descobertas apontam para diversas possibilidades pelas quais Deus permitiu a longevidade e então alterou a expectativa da vida humana – simplesmente alterando a bioquímica humana[9]”.
  10. Norman Geisler se opõe a proposta de Calvino em função de que linhas familiares não geram ou morrem, nem podem ser definidas por “tiveram filhos e filhas”. Rejeita a noção de que o termo anos aqui teria outra conotação, como sugerida por outros comentaristas. Entretanto, ele concorda com Rana e defende que Gn.6.3 define que o termo anos, não pode ser considerado de outro modo. Também defende que após o dilúvio o tempo de vida do homem decresceu, como Gn.6.3 afirmou. Também concorda com Clyde e Kidner ao defender que as escrituras não são as únicas a apresentarem seres humanos com tamanha longevidade. Entretanto, a proposta de Geisler é que os anos devem ser considerados como anos lunares de 360 dias[10].

Embora possam existir outras proposições literais, podemos compreender como se comportam aqueles que optam por uma cronologia literal: Tentam tratar do texto como um todo e não deixar lacunas hermenêuticas para trás, mas fundamentalmente, tratam dos números como dados reais. Entretanto, isso não significa necessariamente que todos sejam favoráveis à versão numérica do texto massorético, mas que são favoráveis ao sentido literal do valor numérico. Sobre as diferentes leituras desse texto falaremos com mais detalhes mais à frente.

A visão mais simbólica: A proposta mais simbólica, em geral, toma os valores numéricos com significados diferenciados. Por exemplo, Waltke sugere que o arranjo literário dessa passagem não pode ser um acaso[11], ao passo que Plaut atesta que essa passagem demonstra uma predileção para o simbolismo numérico[12]. Andrew Kvasnica atesta que “essas opiniões estão relacionadas a prevalência dos números 7 e 10, conhecidos respectivamentes em diversos textos do Oriente Médio Antigo por sua perfeição e plenitude. A lista de 10 nomes em Gn.5 levou muitos a ver uma indubitável e deliberada construção de nomes para se enquadrar no esquema de um padrão de 10 gerações[13]”.

Existem diversas outras propostas simbólicas, mas o que se precisa observar é que, independente do proponente, o fundamento essencial é a consideração não literal dos números, seja pela conexão com a “numerologia” antiga, ou com suposições aleatórias, as idéias sempre giram em torno de valores não numéricos aos números ou à estrutura do texto.

Uma proposta literal/simbólica: Essa proposta é uma adaptação dos dois primeiros modos de interpretação. Kvasnica sugere que tal modo de interpretação toma a estrutura como literal, mas os números relativos à longevidade como organizada mediante um padrão numérico. Ou seja, não trata-se de número exato de anos, mas de um arranjo numérico. Por exemplo, a semelhança de Clyde Francisco, os proponentes dessa teoria entendem que existe uma relação entre a Lista dos Reis Sumérios, porém, estabelecem um arranjo literário para obra como um padrão para o entendimento de Gênesis. Como, aparentemente, a alguns textos sumérios tem predileção pelo número 60, muitos proponentes iniciaram com esse número, embora, muitas outras propostas tenham sido feitas[14].

É importante dizer que tal proposta é uma alternativa frágil, uma vez que não é possível determinar que tipo de influência, se é que existiu alguma, dos antigos textos sumérios nos textos de Moisés. Muito embora alguns comentaristas, como Wenham[15], achem a matemática interessante, são muitos os comentaristas que rejeitam suas conclusões[16].

Outro detalhe importante é que não parece prudente submeter o entendimento das escrituras a outras literaturas antigas muito provavelmente não relacionadas. Essa iniciativa, embora seja realizada por pessoas altamente capazes, sugere que o sentido do texto é devido a interpretações de textos que não se sabe se os leitores originais tiveram acesso. Sem contar que o modo interpretativo desses documentos não é unânime ou sem conflito. Portanto, é seguro afirmar que tal proposta não é aceitável, embora difundida e aceita em alguns círculos teológicos.

A visão mítica: Essa é a visão menos honesta com o texto, pois considera que os nomes tem alguma significância, mas os números são mitos. Considerando que outros textos antigos continham números ainda maiores que os encontrados em Gênesis (cf. 18.000; 36.000), Joseph Jacobs entende que ele são adaptações dos relatos míticos antigos[17]. Westtermann prefere optar por uma declaração de grande antiguidade, e portanto, descarta o valor numérico dos mesmos[18]. Seja como for, não importam os números usados, o que se quer dizer é que eles viviam mais que seus descendentes atuais e que o decréscimo do tempo demonstra a falência da raça humana.

Contudo, se esse fosse a intenção de Moisés ele poderia ter usado essas palavras, mas ele não o fez. Os números devem ter um significado mais específico do que o vago valor assumido por esses que entendem que trata-se de um relato real de detalhes míticos.

Conclusão: Antes de qualquer conclusão plausível, é importante considerar alguns detalhes sobre as genealogias apresentada nas escrituras:

  1. Propósito: É digno de nota que as genealogias bíblicas não foram escritas para uma análise cronológica como supôs James Ussher. Também é importante dizer que a genealogia de Gn.5 não é uma genealogia completa e que foi arranjada literariamente para conter uma sequência de 10 gerações (Gn.5.3-), com ênfase especial no sétimo descendente (Enoque, Lameque) sendo que o último sempre gerava três filhos. Esse arranjo por outro lado não atesta seu simbolismo ou sentido mitológico, mas que diante das informações que dispunha, o autor organizou-as cronologicamente sem ocupar-se em oferecer uma genealogia completa. Isso deve-se ao objetivo do autor, que não era remontar exaustivamente a linhagem da humanidade, mas demonstrar a formação de diferentes povos em função de diferentes personagens históricos. Observe a declaração de Millan sobre o assunto: “As genealogia bíblica se dividem em três categorias principais de acordo com sua finalidade: familiar, jurídico-político e religioso. Genealogia Familiar (ou doméstica) são especialmente preocupada com a herança e os privilégios dos filhos primogênitos. Genealogias Jurídico-político são essencialmente centradas em reivindicações para um cargo hereditário, mas outros exemplos incluem o estabelecimento de ascendência para a organização da terra, os agrupamentos territoriais e serviço militar. Genealogias Religiosas eram utilizadas principalmente para estabelecer a associação no sacerdócio levítico e Aarônico. A função de uma genealogia determina em grande parte de sua estrutura e organização. Em cada um desses casos, há pouca razão ou a necessidade de dar uma lista completa de nomes, pois é ascendência, e não o real número de gerações que é importante[19]
  2. Linguagem: Para compreender esse fato é importante recorrer à distância da linguagem moderna e àquela usada em Gênesis. Por exemplo, em nosso idioma nós temos termos como avô, pai, tio, primo entre diversos outros para descrever relações familiares. Contudo, o termo hebraico para “filho” (hb. Ben) poderia ser entendido como filho, neto, bisneto ou até mesmo descendente. Do mesmo modo, o termo hebraico para “pai” poderia significar pai, avô e até mesmo progenitor. Tome por exemplo Gn28.13: “Eu sou o SENHOR, Deus de Abraão, teu pai, e Deus de Isaque”. Note que Abraão não era pai Jacó, mas avô. Do mesmo modo, o termo “gerou” (hb. Yalad), não implica necessariamente na produção de um novo ser, mas na relação familiar existente entre eles. Assim, não se deve tomar como determinante a relação entre os substantivos ligados por tal verbo.
  3. Abrangência: Outra percepção importante é que os nomes apresentados são geralmente os mais importantes. A existência da declaração “teve filhos e filhas” demonstra que muitos personagens históricos não foram apresentados na genealogia. Portanto, deve se considerar que Moisés, diante das informações que possuía, não apresentou todas, mas optou por apresentar somente as que eram relevantes para sua obra.

Tendo dito isso, podemos afirmar que as propostas que tendem ao mito não devem ser consideradas como válidas, uma vez que reduzem as escrituras a literaturas sem valor. Já as mais simbólicas são tão diversas em proposição e análise que seria difícil manter por todo o Pentateuco o mesmo critério de interpretação. A opção mais mista, entre o simbólico e o literal parece uma alternativa covarde que não assume nem uma nem outra opção.

Considerando as limitações de uma Genealogia, podemos assumir com segurança que a leitura literal é preferida em relação às outras. Isso não significa que não se tenha dificuldades com a mesma, mas que, dentre as dificuldades hermenêuticas, é a que apresenta mais plausibilidade escriturística. Diante da diversidade de opiniões sobre o assunto do ponto de vista literal, deve-se dizer que as opções de Calvino, Lutero, Ussher, Clyde e a que defende uma nova leitura quantitativa para o termo ano, devem ser desconsideradas por não serem plausíveis. Já as opções que tendem a uma visão mais científica (Comb, Rana) devem ser analisadas com mais critério e objetividade, embora sejam particularmente interessantes e não sejam excluam outras opções hermenêuticas. No que se refere à comparação com textos sumérios antigos, a similaridade revela não a dependência de Moisés aos mesmos, mas a declaração de fatos verdadeiros (e exagerados) concebidos por outros autores antigos.

Portanto, entendo que a Genealogia de Gn.5 tem um papel mais descritivo que cronológico, cuja ênfase não é a definição de gerações, mas declaração de ascendência. O contraste entre a genealogia do cap.4 e 5 servem para demonstrar a distinção entre o povo eleito e as outras nações, que paulatinamente pervertiam os ideais divinos estabelecidos na criação.

2.         A rejeição da oferta de Caim

O texto de Gênesis parece não ser tão claro no que se refere a razão da rejeição da oferta de Caim. Normalmente se entende que a razão da rejeição é que tal oferta não teria sido uma oferta com sacrifício e por isso sua oferta não foi aceita, ao passo que a de Abel teria sido aceita em pelo mesmo motivo. John Walvoord defende essa opinião: “Embora a Bíblia não apresente a razão dessa rejeição, enfatiza que é necessário um sacrifício com derramamento de sangue, para o perdão dos pecados (Hb.9.22)[20]”.

Considerando as escrituras como um todo, é fato que “sem derramamento de sangue não há redenção dos pecados”. Por outro lado, que evidências temos de que Caim saberia disso? Para respondermos a essa pergunta, vamos realizar algumas considerações.

  1. Condenação Universal do Pecado: Gênesis 3 nos ensina com clareza que a sentença universal sobre o pecado já havia sido estabelecida. As atitudes do casal no jardim demonstram que o relacionamento com Deus havia sido rompido e que o pecado já se fizera presente em sua constituição. Outro fato interessante é que Adão, criado à imagem de Deus, gera filhos e filhas à sua própria imagem, o que suporta a idéia de que os efeitos danosos do pecado se transmitiam de modo genealógico. Essa situação da humanidade era irremediável por sua própria capacidade, por outro lado, a Promessa de Deus evidenciava um descendente da mulher como Salvador do poder da Serpente sobre os seres humanos.
  2. A expectativa do Salvador: Em Gênesis 3.15 vemos a clara promessa de Deus em resgatar o ser humano por meio de um varão, descendente da mulher. Tal promessa veio antes da sentença de Adão e Eva, como demonstração da Graça Misericordiosa de Deus. Ou seja, o modo pelo qual Deus deseja salvar a humanidade está sendo anunciado, e diante do todo, esse varão precisaria morrer, derramar seu sangue para que a Redenção fosse completa.
  3. A santidade de Deus: Outra informação que merece atenção é a clara demonstração da santidade de Deus no Éden. Deus não convive com o ser humano em pecado, e não aceita a humanidade no estado em que está. A santidade de Deus não o permite aceitar o que não é santo. Por isso, é necessário um modo pelo qual o homem possa se aproximar de Deus. Esse modo normalmente parte Dele mesmo.
  4. Informações conhecidas e não reveladas: Considerando os pontos anteriores, parece óbvio que não seria qualquer atitude, atividade que poderia colocar o homem e Deus em contato. Assim, que tipo de sacrifício seria aceito por Deus? Tenho a impressão que Gn.3.21 prefigura esse tipo de sacrifício. Entretanto, não há qualquer informação explícita no texto que apresente esse fato. Aliás, é digno de nota que nenhuma referência ou inferência a esse fato jamais acontece nas escrituras para apresentar esse fato. As razões para isso podem estar relacionadas ao fato de que tal informação parecia evidente e não precisava ser clarificada. Mas, ainda assim, a conexão parece entre o conceito de sacrifício em Gn.4 exige que alguma informação tenha sido oferecida por Deus a Caim e a Abel que não teria sido registrada por Moisés. Tome o caso de Jó, que escreve antes mesmo de Moisés nascer. Ele já conhecia o nome de Deus (Yahweh – Jo.12.9), já esperava um Redentor Parente (Jó.19.25) que vive e por fim se levantará sobre a terra, contudo sem qualquer descrição de onde teria conseguido tal informação. Isso evidência que, ainda que Gn.3.21 não possa ser fonte suficiente, o próprio Deus pode ter dado a conhecer que tipo de sacrifício Ele esperava. Doutra sorte, de onde Abel tirara tal informação? Seria apenas o caso de sorte? Entendo que não. Acredito que tal informação era clara para ambos os irmãos, e que Caim resolveu ignorar tal recomendação. Isso explica o modo como Deus fala sobre sua atitude após a rejeição de sua oferta. Essa é a opinião de Matthew Finlay, observe: “Ambos acreditavam em Deus. Ambos desejavam para adorá-Lo. Caim trouxe uma oferta para Deus, mas não foi um sacrifício de sangue, e Deus o rejeitou. Abel trouxe um cordeiro como sacrifício, e Deus o aceitou. Por quê? Deus foi injusto? Não! Deus tinha revelado que somente através de um sacrifício de sangue poderia pecadores abordagem de um Deus santo, e Caim se recusou a fazer isso[21]”.

Sobre o assunto, Walvoord acrescenta:

“A Caim é dito claramente que o caminho do perdão é através da oferta de um sacrifício de sangue. A oferta de Abel dos primogênitos do seu rebanho e da gordura deste (Gn 4:4) foi aceito. Sem dúvida, a oferta refletiu a condição espiritual do proponente, mas o ponto é que os recursos de iluminação de Deus a Caim, com base em revelação dada anteriormente. Abel e Caim sabiam que tanto o sacrifício pelo pecado deveria ser um animal especial, um cordeiro, um cordeiro particular, o primogênito, e uma parte específica do cordeiro, a gordura. Esse conhecimento pode vir apenas da revelação[22]”.

É bem verdade que Walvoord acresce uma dose maior de especulação ao não oferecer qualquer evidência sobre o assunto, mas aquelas que já temos demonstrado parecem suportar tal conclusão. Contudo, é importante notar que o diálogo de Caim e Deus após a rejeição trata mais de sua atitude que sua oferta. Observe:

“O Senhor disse que ele não olha com favor para Caim e sua oferta. O texto não diz que Deus não olha com favor para a sua oferta; o caso era tanto com Caim como com sua oferta. Assim, podemos supor que algo estava errado com sua atitude. Este aspecto é reforçado pelo fato de que o sistema levítico (que esta passagem antecipa no Pentateuco), onde vemos uma ligação entre a atitude correta da fé do fiel, podemos assumir que é importante aqui. Resumindo eu acho que a oferta de Caim não foi oferecida em fé e melhor que ele poderia oferecer. Sua reação a Deus e seu irmão indica raiva contra Deus, provavelmente porque ele foi exposto como pecador elas ações justas do seu irmão e um questionamento sério da obediência sincera sobre este assunto[23]

Sobre o assunto, recomendamos o leitor observar essas considerações nas observações à Genesis 4, pouco à frente.

3.         A esposa de Caim

Apesar de a pergunta ser freqüente e tida por alguns como sem solução, a resposta parece relativamente simples. O parecer comum entre os comentaristas é que Caim casou-se com uma de suas irmãs. Gary Fisher, sobre isso diz:

Esta é uma das perguntas que sempre teimam em reaparecer, algumas vezes usadas para tentar ridicularizar a Bíblia, na sua descrição da criação. Mas, para aqueles que perguntam honestamente, Gênesis 5:4 diz que Adão e Eva tiveram outros filhos e filhas, além de Caim e Abel. É evidente que Caim escolheu uma esposa entre suas irmãs, ou talvez sobrinhas. Enquanto depois, o casamento com a própria irmã foi condenado como fornicação (Levítico 18), isso foi permitido naqueles primeiros tempos da terra, por causa da necessidade prática. Atualmente, o casamento com qualquer parente próximo é desaprovado, porque os filhos daqueles que se casam com parentes próximos correm muito risco de serem retardados mentais ou terem defeitos físicos. Isto é devido ao acúmulo dos defeitos genéticos dos parentes próximos. Mas isto não teria causado nenhum problema a Caim. Deus criou Adão e Eva perfeitos. Naquelas primeiras gerações deve ter havido pouca herança acumulada de defeitos a serem passados aos filho[24].

Alguns entendem que seria um absurdo esperar que Caim se casasse com uma de suas irmãs, em função do tempo e da proximidade. Contudo, Hugh Ross para ilustrar o desenvolvimento da humanidade naquele período propõe a seguinte projeção:

Crescimento esperado da humanidade durante o tempo de vida de Adão
De acordo com Gênesis 5, o tempo médio de vida entre o período de Adão e Noé é de 912 anos. Cada um dos patriarcas mecionados tiveram “filhos e filhas”, em adição aos filhos apresentado com nomes. A tabela de calculo é baseado em:
Tempo de Vida médio = 900 anos,O primeiro filho chega aos 50 anos,

Tempo útil de gestação =500 anos, e

Uma criança a cada 5 anos durante o tempo útil de gestação.

Ano Casais Reproduzindo Crianças Nascidas População total
0 1 0 2
50 1 0 2
100 1 10 12
150 6 30 42
200 21 100 142
250 71 352 494
300 247 1210 1704
350 852 4180 5884
400 2941 14,450 20,334
450 10,167 49,892 70,226
500 35,113 172,358 242,584
550 121,292 595,378 837,962
600 418,980 2,056,530 2,894,492
650 1,447,245 7,103,862 9,998,364
700 4,999,176 24,538,536 34,536,930
750 17,268,444 84,762,338 119,299,368
800 59,649,613 292,790,780 412,090,500
850 206,045,003 1,011,374,120 1,423,465,830
900 711,732,063 3,493,544,650 4,917,014,660

Após a apresentação desses dados, Ross conclui:

“De acordo com um simples calculo matemático, se Caim esperou para se casar quando ele tinha 200 anos, ele provavelmente tinha diversas mulheres para escolher, fornecendo a migração para o leste em Nod com outros membros de sua família[25]

Tendo considerado que a longevidade em Gênesis é literal, a existência de uma população que pudesse encontrar a Caim é possível, sem contar que diante da quantidade de pessoas existentes não era improvável que Caim encontrasse entre seus familiares uma esposa. Infelizmente os dados de Ross são meramente especulativos e sua proposição sobre o casamento de Caim fere um dado apresentado na própria tabela. Segundo a tabela o primeiro filho chega aos 50 anos do pai, mas a conclusão sugere que ele teria casado com 200. Ainda que tais definições não tem o objetivo de serem definitivas, mas meramente ilustrativas, ficamos com o conceito aqui: Se a longevidade é literal, o casamento de Caim com uma sobrinha, irmã, não seria impossível, do mesmo modo que uma cidade não seria irreal.


A.     Caim e os frutos da Queda

A história de Caim não está demonstrada por acaso nas escrituras. Sua atitude para com seu irmão serve como um claro ilustrativo dos efeitos da queda sobre os seres humanos. Aquele ser criado para estar com Deus, criado para amar, prefere sua distância de seu Criador e dá ao ódio liberdade e os efeitos são completamente danosos. O que pretendemos observar nesse estudo são as atitudes de Caim e Abel, sua relação para com Deus e como Deus intervém de modo Misericordioso e Benevolente com suas criaturas, mesmo após o pecado.

Coabitou: Não é novidade que as escrituras usam em muitos lugares a expressão “Conhecer” para descrever o que a ARA definiu como coabitou. As versões mais antigas em português (ARC, ARF, BRP) todas optam pelo termo “conhecer” para descrever esse ato. As novas versões e paráfrases já tornaram o sentido ainda mais claro que a ARA, como a NTLH optou por descrever o ato como: “teve relações sexuais”. É bem verdade que a ARA e a NTLH são assertivas no que se refere ao sentido do termo, contudo, o termo hebraico tem um sentido mais aprofundado desse relacionamento, e esse sentido merece ser relembrado em nossos dias em que a sexualidade tem sido banalizada.

O termo empregado em hebraico é “yada’”, traduzido para grego na LXX pelo termo “gnoskö”. Ambos expressam o sentido de conhecer pessoalmente e profundamente e por isso é usado com freqüência como um eufemismo para o relacionamento sexual. Entretanto, note que o termo já havia sido usado 4x no capítulo anterior (Gn.3.5x2, 7, 22) e, por conseguinte, não podemos descartar sua conotação mais primária aqui. Todos os usos denotam informação, conhecimento, ciência, e em particular nos versos 5 e 22 demonstram o conhecimento que Deus tem. Por isso, e possível inferir que o nível de intimidade do primeiro casal ao ser descrito por esse eufemismo é muito mais do que a atividade sexual em si, é uma descrição de um relacionamento. É bem verdade que no mesmo livro vamos encontrar o uso do mesmo eufemismo para descrever atos perversos, como em Sodoma (Gn.19.5, 8) ou com as filhas de Ló (19.33, 35), tendo a visualizar uma perversão no sentido do termo, de relacionamento à atividade sexual, à medida que o pecado se alastrava na humanidade. Seja como for, a ênfase do texto descreve a intimidade do casal de modo eufemístico para demonstrar a procriação da humanidade conforme esperada por Deus na Criação.

Concebeu e deu a luz: Essa expressão é importante pelo fato que inaugura a expectativa do cumprimento da promessa: Um varão que termine com o estrago feito pela serpente no Éden e que acabe com a própria serpente. Seria muito inferir que essa era a expectativa do primeiro casal? Provavelmente sim, observe a alegria de Eva em receber um filho homem.

Com auxílio do Senhor: É bem verdade que a expressão hebraica literalmente deveria ser traduzida como “Alcancei do Senhor um homem”, embora Kidner entenda que a expressão possa ser entendida de outros modos, como a ARA verteu[26]. Essa exaltação de Eva nos faz pensar que era parte da expectativa de que a promessa divina estaria a ponto de iniciar. Em suas notas nas Escrituras, Jonatas Edwards diz:

“Na expressão de Eva, é possível que ela tenha lançados os olhas nas palavras de Deus, que sua semente iria pisar na cabeça da serpente e agora vendo que ela tinha um filho, sua fé e esperança foram fortalecidas de que a promessa deveria ser cumprida[27]”.

Calvino, do mesmo modo entende que o sentido genuíno do texto é a expressão da fé de Eva que via em seu filho o cumprimento da promessa de Deus feita no capítulo anterior, embora afirme que Eva estava enganada quanto à pessoa que esperava, que não seria através de Caim, mas de Cristo, que tal promessa seria levada à efeito[28] (Concordam com esse parece, Barnes, Gill, Keil & Delitzsch).

Essa não é a opinião exclusiva para o assunto. Clarke chega a considerar tal possibilidade, mas entende que o sentido é mais restrito, pois entende que tal conclusão seria deveras avançada para aquele período. Segundo ele, Eva apenas agradece as bênçãos de Deus[29]. John Sailhamer entende que a exclamação de Eva não é tão positiva quando Edwards nos faz pensar. Segundo ele, “as palavras de Eva foram proferidas com orgulho de modo que como o Senhor criou o homem, agora a mulher tinha criado um homem[30]”.

Entretanto, é importante notar que a expressão usada por Eva inclui o nome de Deus, Yahweh. Observe que no discurso com a serpente ela o teria chamado Deus de modo genérico (elohim), mas nesse verso faz questão de chamá-lo pelo nome que tem. Nesse contexto, usar a expressão “Deus de salvação” como reconhecimento de auxílio, certamente nos leva a concluir que Eva demonstrava sua expectativa e fé, de receber por meio das mãos de Yahweh a semente que pisaria a cabeça da serpente.

É interessante, que nesse sentido as expectativas do primeiro casal seriam firmemente frustradas. David Merck, que defende tal opinião, afirma:

“O descendente-Libertador da mulher tão esperado nasceu não como semente de vida, mas de morte.  Em vez de libertar da pena da morte, ele se tornou um assassino!  E o filho justo, em vez de esmagar a cabeça da Serpente, foi esmagado pelo próprio irmão, que mostrou-se semente (filho) da Serpente[31]

Caim: Um interessante trocadilho acontece nessa sentença entre o nome de Caim e a declaração de Eva sobre seu filho. Em hebraico, o substantivo Caim (qayim) pode significar “consegui, alcancei, adquiri”, e Eva usa a forma verbal desse substantivo ao dizer “Adquiri um varão” (qanah). Considerando esse paralelo, Krell chega a dizer que Caim é o nome hebraico do primeiro filho de Adão e Eva, mas que em português seu nome seria “consegui[32].

1.         A Religiosidade de Caim

Em poucas palavras, o livro de Gênesis nos apresenta Caim, com sua profissão e religião. Talvez o interesse do autor não fosse uma descrição detalhada sobre a vida dos irmãos, fato que podemos perceber na exclamação de Eva que chamou um infante de homem, varão.

Lavrador da Terra: A descrição profissional de Caim é essa. Gill entende que isso se deve à primogenitura de Caim, que por ser o primeiro filho assume do pai a profissão de lavrar a terra[33]. Note que expressão similar é usada em Gn.2.5 para descrever o trabalho de Adão como lavrador da terra, ou aquele que trabalha com a terra. Embora nenhuma explicação tenha sido dada para esse fato, a opção de Gill não é em si mesma errônea, apenas especulativa.

Fim de uns tempos: A expressão usada pela ARA é uma tentativa de se definir aquilo que o hebraico parece ter deixado sem definições. O uso do substantivo “yom” para descrever tempo, como já demonstramos no início do nosso comentário, não tem definição específica de tempo, e por isso as traduções aqui não são unânimes. A ACF e ARC optaram por verter esse texto por “ao cabo de dias”. A SBP optou por verter: “ao fim dum certo tempo”. Seja qual for a tradução, o sentido aqui não é a quantidade exata de tempo que se passara, mas que, em certa ocasião, depois de algum tempo passado, Caim trouxe uma oferta ao Senhor. Alguns, mais especifistas, entendem que a expressão deveria ser entendida como “ao fim de dias”, como uma alusão ao Sábado[34], entretanto, tendo a ver essa opção como um pouco especulativa demais.

Fruto da terra: Literalmente, Caim trouxe o resultado do seu trabalho. Por ser lavrador da terra, trouxe o que a terra havia produzido debaixo do seu esforço. Lembre-se que a terra após o pecado é maldita e produz cardos e abrolhos, e que sem o trabalho braçal do ser humano não seria possível o consumo. Era necessário a fadiga para que Caim pudesse tirar da terra “os Frutos da Terra”. Diante disso, não se pode dizer que a oferta em si tenha sido medíocre, nem resultado.

Uma oferta: O termo empregado aqui por Moisés não é o termo técnico usado em Levítico para descrever uma oferta para oferta (hb. qorban), mas um termo mais genérico, usado inclusive para descrever uma oferta de cerais (hb. Minchah). Note que no segundo capítulo de Levítico, Deus dá a Moisés uma legislação para tratar das ofertas de cereais, que chamamos ofertas de dedicação: “Quando alguma pessoa fizer oferta de manjares ao SENHOR, a sua oferta será de flor de farinha; nela, deitará azeite e, sobre ela, porá incenso. Levá-la-á aos filhos de Arão, os sacerdotes, um dos quais tomará dela um punhado da flor de farinha e do seu azeite com todo o seu incenso e os queimará como porção memorial sobre o altar; é oferta queimada, de aroma agradável ao SENHOR”. Essa oferta a Yahweh seria queimada e teria aroma agradável a Deus. Isso tem levado comentaristas a observarem que o problema não era a oferta em si mesma, mas a atitude do ofertante[35]. Note que Deus não rejeitaria a oferta em si, uma vez que Ele mesmo teria incluído tais ofertas como um modo de oferta legítima.

Yahweh: É interessante observar que a oferta de Caim foi a Yahweh, ou seja, uma manifestação de adoração. O texto é claro em dizer que Caim trouxe uma oferta a Yahweh. Já temos dito que não há nenhuma menção explícita de que tipo de sacrifício era esperado, mas temos por certo que Gn.3.21 parece prefigurar que existe a exigência de derramamento de sangue. É quase convenção que a oferta de Caim não foi aceita em função da falta de derramamento de sangue da sua oferta a Yahweh, contudo, temos que considerar que o texto não vai nessa direção. O texto diz que Deus não se agradou de Caim e de sua oferta. Kidner nos lembra que “tudo o que é explícito aqui é que Abel ofereceu a fina flor do seu rebanho e que o espírito de Caim era arrogante[36]”. Sailhamer entende que o texto, tomado como um todo, não nos ensina sobre que tipo de sacrifício é aceitável a Deus, mas que tipo de atitude é necessária para se ofertar a Yahweh[37]. Note que tanto a aprovação, quanto reprovação de Yahweh iniciam com a declaração pessoal: “Agradou-se o SENHOR de Abel e de sua oferta” (Gn.4.4); “ao passo que de Caim e de sua oferta não se agradou” (Gn 4:5).

O que se pode concluir sobre a adoração de Caim? Vamos tecer algumas possibilidades diante das observações que temos feito ao texto:

  1. Ele pode ter rejeitado uma informação explícita de Deus sobre como Deus gostaria de ser adorado. Se esse é a ênfase principal do texto, entendemos que o modo autônomo de Caim em ofertar nos alerta para o fato de que Deus não quer ser adorado de qualquer jeito, mas que ele espera de nós uma adoração específica. Deus não quer ser adorado com sinceridade, mas do modo correto.
  2. Se a ênfase recai sobre a atitude de Caim, aprendemos que Deus não se apraz da adoração desconexa com a atitude. Jonatas Edwards, considerando essa possibilidade, afirma que Caim prefigura os Fariseus[38], que faziam o que era certo do modo errado, eram peritos em conhecer o que Deus esperava, mas não eram vazios por dentro, cheios de morte.
  3. É importante notar que Deus rejeita pessoas e modos de adoração não compatíveis com a que Ele determinou como certa. O cristianismo e suas desvirtudes na modernidade têm insistido que Deus aceita qualquer adoração de qualquer coração, mas a história de Caim nos lembra que um Deus Santo e Justo como Yahweh deve ser adorado, como Ele determinar que deve ser adorado.

Observe a opinião de Merck:

“O problema maior com a oferta do Caim não era a oferta em si, mas o seu coração.  Não foi um ato de adoração em verdade (por não ser autorizada por Deus) e não foi em espírito.  O coração de Caim estava errado!  O texto enfatiza, “Mas com CAIM, e com sua oferta, Deus não se agradou.”  Algo no coração dele deixava a desejar . . .  talvez fosse rebeldia, talvez ressentimento, talvez indiferença, talvez apatia espiritual.  Talvez ficasse indignado que tinha que doar para um ser celestial invisível o fruto do seu suor e labor.  O que sabemos com certeza é que não foi de coração mas “de boca para fora”que ele fez sua oferta.  E os eventos que seguem verificam esse fato.  Quando repreendido por Deus, ele revela seu desgosto, sua amargura, sua hostilidade diante do Criador.  Algo horrível está acontecendo no coração dele[39]

2.         A Rebeldia de Caim

A adoração vazia de Caim não foi suficiente para comprar o favor e a benevolência de Deus. Embora Caim pudesse ter oferecido a Yahweh, ele não tinha feito como era devido, e as escrituras demonstram como Caim se rebelou contra o Senhor.

…de Caim e de sua oferta: Chamo a sua atenção a um detalhe já apresentado: Deus não se agradou de Caim em primeiro lugar. Tenho a impressão que a ordem de palavras aqui é significativa: Por não ter se agradado de Caim a oferta que trouxera também não fora aceita. Tendo a crer que a oferta segue o coração do ofertante. Não há oferta agradável se não há um coração grato por trás da oferenda. Sobre isso, Calvino nos instrui:

“Não se pode duvidar, que Caim comportou-se como os hipócritas estão acostumados a fazer; ou seja, que ele queria apaziguar Deus, como um cumprimento de uma dívida, através de sacrifícios externos, sem a menor intenção de se dedicar a Deus. (…) Quando Deus vê tamanha hipocrisia, combinada com brutal escárnio manifesto contra Ele mesmo, não é surpreendente que ele odeie, seja incapaz de suportar, de onde segue-se também, que ele rejeita com desprezo os trabalhos daqueles que se afastam Dele[40]”.

É também importante olhar para as escrituras para verificarmos que impressões essa história deixou sobre os autores sagrados. Em primeiro lugar, deve-se lembrar do Apóstolo João, que diz que o problema com Caim eram suas atitudes (1Jo.3.12). Entretanto, o autor de Hebreus entende a rejeição de Deus estava ligada ao fato de que o sacrifício de Caim não tinha sido excelente (Hb.11.4). O que podemos concluir com isso é que, tanto o caráter de Caim estava em desacordo com a expectativa de Deus quanto sua oferta. Com isso, aprendemos que tanto adoração e comportamento estão intimamente ligados.

Irou-se sobremaneira: O texto não e claro em descrever como Deus teria rejeitado sua oferta, mas é claro que, pela descrição do texto, Caim se apercebeu da rejeição e isso lhe deixou irado. Contra quem Caim ficou irado o texto não é plenamente claro, mas parece evidente que a ira de Caim deu-se primeiramente contra Deus, mas que tenha se desenvolvido contra seu irmão. É interessante que, do mesmo modo que a rejeição de Deus pela oferta de Caim é visível para Caim, a ira de Caim contra Deus é plenamente perceptível para Deus.

Descaiu o Semblante: A expressão descrita quase literalmente pela ARA, descreve de modo figurado que a ira de Caim havia se tornado tão evidente que seu semblante já o testemunhava. Note o contraste entre o semblante descaído de Caim, e o rosto levantado de Deus como sinal de bênção para o povo em Nm.6.26. O contraste entre os dois tipos de semblante nos serve para descrever a situação de Caim como profundamente irado.

3.         Graça Preventiva

Note que, embora Caim tenha sido rejeitado do mesmo modo que sua oferta, Deus não havia o abandonado. O texto continua a descrever uma interação de Deus com Caim que reflete cuidado e graça.

Por que andas irado? A aproximação de Deus nesse verso não o apresenta como um Deus desinformado da razão do furor de Caim, muito pelo contrário, de forma graciosa Deus aproxima-se de Caim para auxiliá-lo com sua Ira. Sobre isso Barnes diz que “O Senhor ainda não desistiu de Caim. Em grande misericórdia Deus interage com ele. Ele coloca uma questão que demonstra que não há justa causa seus sentimentos[41]”. Kidner vê nessa aproximação de Deus “Seu apelo para a razão e Seu interesse pelo pecador [que] são assinalados tão vigorosamente como Seu interesse pela verdade e pela justiça[42]”. Do mesmo modo que Deus se apresenta como Justo nesse texto, ele também se apresenta como Gracioso. A rejeição de Caim não era definitiva, a tal ponto que Ele mesmo estava interessado na restauração de Caim.

Se procederes bem: Após sua graciosa aproximação, Deus também deixa com Caim alguns conselhos práticos para enfrentar a situação que tinha diante de si mesmo. Mas, o que poderia ser um bom procedimento para o momento? É bem verdade que nenhuma instrução específica sobre o assunto havia sido dada, mas tendo a crer que Caim teria entendido. Deffinbuag sobre isso diz: “Ainda que não saibamos os pormenores do que o “proceder bem” envolvia, Caim sabia. O problema de Caim não era falta de instrução, mas insurreição e rebelião contra Deus[43]”. De fato, essa expressão aponta, do meu ponto de vista, que a questão fundamental da rejeição era o comportamento e não a oferta em si.

Contudo, não podemos deixar de considerar que o Deus Todo-Conhecedor estava a falar com Caim e que proceder bem pode certamente implicar em não fazer o que Caim parecia predisposto a. Barnes alude ao fato de que Caim teria um caminho de retorno a uma postura aceitável diante de Deus que incluiria reconsiderar seu modo de viver, de oferecer ao Senhor com intenção correta[44].

Serás aceito: Uma breve nota deve ser feita aqui: “No hebraico, aceito é literalmente um exaltar, expressão que pode indicar um semblante sorridente contrariamente a um semblante carrancudo (descaído). Pode ser que o sentido seja o de que o simples olhar para o rosto de Caim o traia; mas provavelmente vai além, incluindo a promessa de restauração da parte de Deus sobre uma mudança de coração[45]”.

E se não fizeres bem: O leitor poderia esperar aqui uma sentença de Deus: “Se não fizeres bem, você morrerá”. Entretanto não é assim que Deus procede para com Caim. Em primeiro lugar, devemos admitir que ele já havia feito o que não era bom, com sua oferta arrogante. Contudo, em seu diálogo, Deus evidência que ele poderia manter-se nesse caminho errôneo, mas assegura que, embora não recomendável, isso não implicaria em um caminho sem retorno Aliás, é digno de nota, que o caminho que teria adotado até aqui ainda tinha retorno e Deus, graciosamente tinha se aproximado de Caim para adverti-lo. Krell, sobre isso diz:

“Isto implica claramente que Caim sabia o que era certo. Ele sabia que a qualidade da oferta a se levar e optou por não trazê-la. Ele sabia que seu coração não estava adequado, mas ele optou por não abordar a questão. No entanto, este versículo mostra também a graça de Deus, pois Caim foi ainda convidado a apresentar a oferta correta. Deus o avisou e  queria que Caim “fazesser o bem”, mas Caim endureceu o seu coração[46]

O pecado jaz à porta: O alerta de Deus é claro: O pecado estará à sua disposição para realizar todo o mal que intentar realizar. Ainda que Caim optasse pela manutenção do seu estado de rebeldia isso não lhe colocava em situação de homicida, ele ainda tinha a possibilidade de controlar sua ira. O alerta de Deus era que “um terrível ato pecaminoso estava perigosamente próximo; estava ali como um animal feroz, esperando para saltar sobre ele[47]”. Deuffinbaug sobre isso diz que “se Caim preferia ignorar a suave cutucada de Deus, que fique então completamente ciente dos perigos à sua frente. O pecado jazia esperando por ele como um animal à espreita. Queria controlá-lo, mas ele devia dominá-lo.  Caim tinha que tomar uma decisão e ficaria responsável por sua escolha[48]”.

De forma prática essas instruções de Deus para Caim podem ser entendidas como boas e más notícias, observe:

  • Más notícias:
    • O pecado está a nossa espera. A influência do mundo, da carne, do Diabo sempre conspiram a favor da nossa queda. Tudo o que lhe falta é oportunidade.
    • O pecado nos deseja, ou melhor, nossa carne deseja o pecado. Por sermos conhecedores do bem e do mal, nos tornamos aptos a saber o certo, mas desejamos o errado.
  • Boas Notícias:
    • Nós podemos dominar o pecado. A partir da salvação em Cristo, somos habilitados a suportar a provação, uma vez que Deus conhece nossa capacidade pessoal e não permitirá que uma tentação venha sobre nós a tal ponto que não possamos suportar. Krell usa uma figura interessante para descrever esse fato: “Quando a tentação bater à porta, nós pedimos para que Jesus atenda[49]”.
    • Nós podemos nos humilhar e voltar a Deus. Ainda que um erro tenha acontecido, como aconteceu com Caim, podemos ter a certeza que podemos nos voltar a Deus humildemente arrependidos por nossas faltas e prontos a aceitar Dele a devida punição graciosa que tem a oferecer para nos purificar o caráter.

4.         O assassinato de Abel

É interessante que a despeito de todos os alertas divinos Caim manteve-se obstinado eu seu furor contra seu irmão. Sua completa rejeição do conselho de Deus demonstra também que Caim dava pouco valor às palavras de Deus. A ira já tinha tomado conta de sua vida e capacidade de reflexão. Caim havia entrado naquele estágio de ignorância provocada pelo aguçar do pecado em nossa vida. Trata-se daquele ponto em que, tomado por ódio, tudo o que se pensa é em como descarregar a raiva e o ódio.

Vamos ao Campo: Por que razão ir ao campo? Uma vez que sabemos que o pecado de Caim é premeditado, temos por certo que ele não está a oferecer um passeio ao campo. Alguns comentaristas tem visto nisso uma declaração de cuidado preventivo de Caim que não queria que o crime tivesse testemunhas. De fato, quanto mais longe das pessoas, mais liberdade para apregoar sua ira Caim teria.

…se levantou Caim contra Abel: Merck vê no texto uma demonstração do tamanho da ira de Caim quando o texto demonstra por 7x que Abel era “seu irmão” (Gn.4.2, 8x2; 9x2, 10, 11)[50]. Essa descrição de relação entre Caim e Abel, como acontece no texto sugere que a atitude de Caim era absurdamente desprezível.

..e o matou:Caim não agiu segundo o conselho divino. Ele não mudou a sua oferta a Deus, tanto do ponto de vista dos sentimentos internos como da forma exterior. Apesar de se falar-lhe do céu, ele não vai ouvir (…) Quando eles estavam no campo e, portanto, fora da vista, ele se levantou contra o seu irmão e o matou. A ação foi realizada e não pode desfeita. Os motivos para isso eram diversos. O egoísmo, o orgulho ferido, ciúmes, e uma consciência culpada estavam todos em funcionamento (1Jo.3.12). Aqui, então, é pecado após pecado, o que comprova a veracidade do alerta dado na paciência misericordiosa de Deus[51]”.

A completa rejeição do conselho de Deus por Caim, fez com que Merck encontrasse em Caim um pecador irado (v.5), teimosos (v.6-7) e assassino cruel (v.8)[52]. Não é à toa que a reputação neotestamentária de Caim é tão ruim. É importante notar que todos os acontecimentos narrados no capítulo 4 são conseqüências anunciadas já na queda. A dissolução da família, a queda do amor e a entrada do ódio eram esperadas. O conhecimento do bem e o mal levou apenas o ser humano a frustração do conhecimento do bem e da maldição do desejo do mal. Agora, aquele homem que havia chegado como esperança e salvador, que pisaria na cabeça da serpente, é agora aquele que matara seu irmão. Ao invés de terminar com o domínio do inimigo, como parecia ser o esperado, ele agora é um aliado do mesmo, plenamente dominado pelo pecado e pronto a levá-lo às ultimas conseqüências.

5.         A confrontação e punição divina

É interessante que a despeito de todos os alertas divinos Caim manteve-se obstinado eu seu furor contra seu irmão. Sua completa rejeição do conselho de Deus demonstra também que Caim dava pouco valor às palavras de Deus. Entretanto, Deus não o deixa sem punição, e por ter graciosamente avisado a Caim do perigo do pecado, Deus aproxima-se a agora como inquisidor.

Onde está Abel, teu irmão? Do mesmo modo que Deus havia se aproximado de seus pais no Éden, Deus aproximasse de Caim. Tenho a impressão Deus inicia suas conversas com perguntas na expectativa de que suas criaturas tenha a oportunidade de se arrepender. Note que Deus tem plena ciência do que havia acontecido, mas não inicia sua conversa com a punição mas com uma pergunta reveladora. Sobre isso Gill diz: “Essa pergunta é feita, não por não saber onde ele estava, mas na intenção de trazer Caim à convicção e confissão do seu pecado, para tocar sua consciência com ela, e enchê-lo de remorso por isso[53]”.

Não sei: Embora a pergunta de Deus a Caim relembre o cuidado de Deus em trazer Adão ao arrependimento no Éden, a resposta de Caim reflete um avanço significativo do poder do pecado em sua constituição. Barnes sobre isso fala que a “resposta de Caim revela um recurso desesperado de falsidade, uma alienação total do sentimento, a extinção do amor fraterno, a predominância desse egoísmo que congela carinho e desperta o ódio[54]”. Keil & Delitzsch afirmam que o ato de desafiar a Deus “cresce com o pecado, e a punição acompanha a culpa. Adão e Eva temeram diante de Deus, (…) Caim corajosamente nega [o pecado][55]”.

Sou eu tutor de meu irmão? A mentira deslavada é apresentada, e como se não bastasse, ele acresce a ela um alto teor de sarcasmo: “Sou eu tutor de meu irmão?”. Deffinbaug sobre isso diz: “A insolência de Caim é incrível. Não só ele mente ao negar qualquer conhecimento sobre o paradeiro de seu irmão, mas parece censurar a Deus pela pergunta. Pode até mesmo haver um jogo sarcástico nas palavras para dar a impressão de: ‘Não sei. Deverei eu pastorear o pastor?[56][57]”.

Que fizeste? Mais uma vez Deus age misericordiosamente. Considerando a situação do diálogo, Krell afirma que “se eu fosse Deus, eu teria consumido Caim exatamente onde ele estava! Mas não o Senhor! Em vez disso, Ele pergunta a Caim uma questão de acompanhamento que é a mesma pergunta Ele perguntou Eve (3:13): “O que você fez?”[58]”. No lugar de Deus já teria perdido a paciência, como Krell, mas Deus mantém sua longanimidade e seu diálogo e caminha para a realização de sua disciplina. Deffinbaug, sobre isso nos diz:

“O solo foi amaldiçoado por causa de Adão e Eva (Gn. 3:17). Agora a terra é manchada com o sangue de um homem, e que foi espalhado por seu irmão. Esse sangue agora clama a Deus por justiça (4:10). Deus, então, confronta Caim com seu pecado. O tempo para arrependimento já passou e agora a sentença é dada a Caim pelo Juiz da terra[59]”.

És maldito sobre a terra: A sentença iniciada por Yahweh contém claras evidências de seu Juízo. É Calvino que diz: “Caim, depois de ter sido condenado pelo crime, o julgamento é agora pronunciado contra ele. E em primeiro lugar, Deus constitui a terra do ministro de sua vingança, por ter sido contaminada pelo parricídio ímpio e horrível[60]”.

Quando lavrares a terra: É interessante que Deus inicia a sentença de Caim com o que ele supostamente tinha de melhor, o seu trabalho como lavrador. A terra já havia sido amaldiçoada, e tal maldição teria intensificado seu trabalho. Mas, com a maldição proferida por Deus, nem no seu trabalho Caim poderia ter prazer novamente. É Deffinbaug que diz:

“Caim tinha sido abençoado com um “polegar verde”. Ele tentou se aproximar de Deus através do fruto de seu trabalho. Agora Deus o amaldiçoou bem onde residia sua força e seu pecado. Nunca mais Caim seria capaz de se sustentar pelo cultivo do solo. Enquanto que Adão teve que obter seu sustento pelo suor de seu rosto (3:19), Caim não poderia nem sobreviver pela agricultura. Para ele a maldição do capítulo três foi intensificada. Para Adão a agricultura foi difícil; para Caim foi desastrosa[61]

Keil & Delitzsch nos lembram que tal punição não era demasiada, pois “a terra foi obrigada a beber o sangue inocente,[e] ela se rebela contra o assassino, e quando ele cultivá-la, ela irá retirar a sua força, de modo que a terra não possa produzir[62]”. Se o homem havia sido criado para encontrar no trabalho satisfação, Caim está fadado a nem nisto ter satisfação. “Ele foi banido para uma parte menos produtiva da terra, removida da presença de Deus e da sociedade de seu pai e sua mãe, e abandonado a uma vida errante e incerteza. A sentença de morte já tinha sido pronunciada sobre o homem[63]”.

…serás fugitivo e errante pela terra: O aspecto final da punição de Deus para Caim seria a vida de um “vagabundo”. O termo hebraico usado para descrever o castigo de Caim como fugitivo é o mesmo termo que Deus emprega para destinar o povo de Israel no futuro a vagar pelo deserto. O sentido é claramente um desalojar de Caim, para que perca os benefícios da vida próxima a família (com quem ele parece não conviver bem) para que viva à mercê da benevolência de outras pessoas, pois sua sentença de morte já estava lançada. Dois substantivos similares são usados nessa sentença e o sentido é reforçar a idéia. Invés de se tomar como duas características como a ARA fez, seria adequado tomá-las como descrição de uma mesma ação, como a BJ: “Serás fugitivo errante”.

Não posso suportá-lo: Ao ouvir sua sentença Caim admite ser demasiadamente pesado o seu fardo. A questão de Caim era que a punição parecia desproporcional com o crime, e como poderíamos esperar, Caim está unicamente preocupado consigo mesmo. Observe que em uma pequena sentença (v.13-14) ele conseguiu empregar o pronome pessoal 7x vezes. Sobre isso Krell diz:

“Tudo com o que Caim se preocupava era ele mesmo. Não foi medo ou reverência a Deus, não para lamentar a perda de vidas inocentes, não há tristeza pelo pecado, e nenhum pensamento para os seus pais que perderam um filho tragicamente com o assassinato e estaria perdendo uma outra por causa da rebelião. Houve apenas uma preocupação consigo mesmo. O assassino tem medo de ser morto[64]”.

É interessante que o assassino tenha medo de morrer, mas é um fato que o pecador tem que encarar. O mentiroso sempre está alerta a mentira, o infiel sempre desconfiado, o ladrão sempre receoso. O pecado marca de tal forma o pecador que o que ele faz para outros, espera receber de outros. É por isso que Deffinbaug diz:

“As palavras de Caim soam familiares a qualquer pai. Às vezes uma criança está sinceramente triste por sua desobediência. Em outras está apenas triste por ter sido pega, e lamenta amargamente a severidade do castigo que vai receber. Tudo o que Caim faz é repetir amargamente sua sentença, e expressar seu medo de que os homens o tratem da mesma maneira que ele tratou seu irmão[65]”.

Qualquer que matar a Caim: Apesar da punição, Deus também ofereceu uma promessa. A declaração não era uma garantia de que Caim não seria assassinado, mas de que, aquele que o matasse, teria sobre si a vingança punitiva de Deus multiplicada por sete. Isso significa que a punição contra essa pessoa será “sete vezes maior do que Caim, ou seja, ele deve ser extremamente punido; a vingança deve ser tomada sobre ele de uma forma muito visível, e em outro patamar, mais elevado[66]”. O targum de Onkelos sugere que a punição será em sete gerações, o que demonstra que o entendimento da passagem era de uma vingança ainda maior contra Caim. O sentido dessa punição demonstra para Caim que, embora ele mesmo não tenha dado valor a vida humana, Deus a valoriza de tal modo que garante que Caim não seja morto.

Pôs o Yahweh um sinal: A demonstração da Graça de Deus avança ainda mais, pois além de assegurar que o assassinato de Caim seria vingado pelo próprio Deus, Yahweh coloca um sinal em Caim com o objetivo de protegê-lo de pessoas que o encontrassem. Não temos certeza de que tipo de sinal o texto está nos falando. Três propostas são oferecidas: (1) Um sinal físico, como quem sabe uma marca na pele, uma espécie de tatuagem. (2) Um evento; um sinal como um evento que relembre os homens do valor da vida humana; (3) Antigos rabinos chegaram a afirmar que um cachorro iria ao lado de Caim como proteção. Embora não saibamos com exatidão que tipo de sinal é esse, é certo que o objetivo esse sinal era a proteção da vida de Caim, que protege a Caim da recriminação.

E saiu Caim da presença de Yahweh: O retrato final da sentença de Caim é similar ao que vemos em Adão e Eva, que foram colocados fora do Éden, mas de Caim é dito que ele foi expulso da Presença de Yahweh. A impressão que temos com essa declaração é que Deus encaminhou Caim a vaguear pela terra, e ele foi. Agora sem alternativas, Caim parece ter cumprido a primeira ordem de Deus. “O retirada de Caim da proximidade do afeto dos pais, dos relacionamentos familiares, e da manifestação divina, deve ter sido acompanhada de profundo e ulterior sentimento de arrependimento e remorso. Mas um profundo e recorrente transgressor e ele deve sofrer as conseqüências[67]”.

Terra de Node:O nome Node denota uma terra de transição e exílio, em contraste com Éden, a terra do deleite, onde Yahweh andava com o homem[68]”. “Alguns sugerem que este versículo deve ser assim traduzido: ‘e Caim saiu da presença do Senhor, a leste do Éden, e habitou como um errante na terra’; assim a maldição pronunciada sobre ele em Gn.4.12, foi realizada[69]”.

B.     Abel Sacrifício e Martírio

O outro filho de Adão e Eva apresentados nessa narrativa parece não ter tido especial atenção, como o seu próprio nome parece sugerir. O termo hebraico que origina o nome Abel é “hebel”, que no texto não é definido, mas é entendido como sopro, vaidade e alguns pensam que isso se refere à sua vida de poucos anos sobre a terra. Tenho a impressão que Abel é assim denominado em função de uma expectativa já suprida por Caim, como o descendente da mulher que findaria o domínio da serpente.

Note que nenhuma declaração a respeito de Abel é dada no texto. Sobre Caim, Eva apresenta uma bela afeição, ao passo que nada mais se diz se não que Abel era pastor de ovelhas. A completa faltar de informações, além de nome e profissão, nos faz pensar que Caim tinha sido o filho esperado e que Abel teria vindo como conseqüência natural da existência humana.

Alguns pensam que Caim e Abel eram gêmeos[70], opção que não parece descrever a situação dos irmãos. O que se tem por certo é que a história de Caim e Abel parece iniciar a visão bíblica de que nenhum primogênito seria de fato o filho de quem Deus se apraz, ou escolhe, até que O Primogênito da Criação apareceu sobre a terra, Deus encarnado.

1.         A Adoração de Abel

O que podemos perceber é que, a semelhança de Caim, Abel também se aproximou de Deus com sua oferta. Entretanto a descrição de sua oferta é tanto diferente do que se vê com Caim.

Pastor de Ovelhas: Abel era um pastor de ovelhas (2), uma profissão nobre, pois numa época em que os homens ainda não comiam carne (veja 9.3), ovelhas serviriam para pelo menos 2 propósitos: 1) Cobrir a nudez do homem, que tem precedente no próprio ato de Deus (3.21) e 2) Servir de oferta, um sacrifício pelo pecado, também conforme o modelo de Deus (3.21)[71].

Primícias de seu Rebanho: Note que a oferta de Abel foi similar a oferta feita por seu irmão Caim. Caim era lavrador e ofereceu o fruto do seu trabalho. Abel era pastor de ovelhas e trouxe a Yahweh o fruto do seu trabalho. Por outro lado, note que o silêncio agora é sobre a qualidade da oferta dada por Caim. A oferta de Abel era uma oferta das suas primícias. O termo hebraico “bekowrah” é usado poucas vezes no AT, e normalmente significa primogênito (Gn.43.33), ou até mesmo primogenitura (Gn.25.31). O sentido expresso aqui é bem captado pelas antigas versões portuguesas que verte a expressão como “primogênitos do seu rebanho”. A idéia que se tem desse texto é que Abel trouxe o que tinha de melhor. Seria isso um contraste com a oferta de Caim? Diante do caráter que Caim apresenta nesse capítulo não seria de se estranhar que sua oferta tivesse sido de baixa qualidade. Contudo, sobre isso, podemos apenas inferir. O que é certo é que Abel ofereceu do que tinha de melhor.

Yahweh se agradou de Abel e sua oferta: Como já temos demonstrado, Deus se agrada primeiramente de Abel e conseqüentemente de sua oferta. Isso me sugere que tal ordem é importante: A aceitação da oferta depende do coração do ofertante. Como Abel pode perceber que Deus aceitou sua oferta? O texto não especifica e muitas especulações são feitas sobre o assunto. “O olhar do Senhor em todo caso, é um sinal visível de satisfação. É opinião comum e antiga que o fogo consumiu o sacrifício de Abel e, assim, mostrou que foi gentilmente aceitou[72]”. Seja como for, tanto aprovação como reprovação foram claramente percebidos por Caim e Abel.

2.         A Reputação Bíblica de Abel

O texto de Gênesis 4 nos oferece poucas informações sobre Abel, contudo sua reputação transcende as páginas do Antigo Testamento. Autores neotestamentário ao lançarem os seus olhos sobre o AT encontraram em Abel definições de um homem digno de atenção.  Sua fé, oferta, atitude e caráter são apresentados no NT como declaração de um homem justo.

Diante disso, comentaristas tem afirmado que Abel é, sem dúvidas, um exemplo para os cristãos em todos os tempos. Merckh, por exemplo, entende que Abel “representa o povo de Deus, fiel, com coração sincero, inocente, que adora a Deus em espírito e verdade, resplandescendo como luzeiros no mundo pervertido e corrupto[73]”.

Caráter: Ainda sobre Abel, Jesus afirma: “Por isso, eis que eu vos envio profetas, sábios e escribas. A uns matareis e crucificareis; a outros açoitareis nas vossas sinagogas e perseguireis de cidade em cidade para que sobre vós recaia todo o sangue justo derramado sobre a terra, desde o sangue do justo Abel até ao sangue de Zacarias, filho de Baraquias, a quem matastes entre o santuário e o altar” (Mt.23.34-35). Com esses dois versos aprendemos:

  1. Que Jesus reputava a Abel como um profeta: “eis que eu vos envio profetas”. Não sabemos ao certo que tipo de profeta ele teria sido, mas o fato de Jesus iniciar por Abel e finalizar com Zacaraias (uma impressionante demonstração da extensão do Canon vétero-testamentário) confirma a idéia que Jesus tinha a respeito de Abel.
  2. Que Jesus reputava a Abel como um mártir: “o sangue justo derramado sobre a terra”. Abel é listado como o primeiro que morreu, cujo sangue será Vingado por Deus (Ap.6.9-10).
  3. Que Jesus reputava Abel como Justo: “o sangue justo derramado sobre a terra, desde o sangue do justo Abel até ao sangue de Zacarias”. Duas vezes Jesus usa o termo “justo” (Gr. diakiós) para descrever a Abel, uma vez em referência a seu sangue e outro em relação a sua pessoa.

Oferta: No que se refere à sua oferta, o autor de Hebreus nos diz: “Pela fé, Abel ofereceu a Deus mais excelente sacrifício do que Caim; pelo qual obteve testemunho de ser justo, tendo a aprovação de Deus quanto às suas ofertas. Por meio dela, também mesmo depois de morto, ainda fala” (Hb.11.4). Desse texto retiramos as seguintes observações:

  1. O autor de Hebreus entendeu que o sacrifício de Abel teria sido mais excelente, o que sugere a diferença de qualidade entre as ofertas. Alguns tem objetado à essa conclusão, em função de que o uso normal do adjetivo “pleíona” descreve algo maior em quantidade (Mt.21.36; Mc.12.43; Lc.21.3). Contudo, o sentido qualitativo do termo é claramente encontrado no NT (Mt.6.25; 12.41, 42; Mc.12.33; Lc.11.31, 32; 12.23) e perfeitamente concebido aqui em Hebreus.
  2. O autor de Hebreus defende que Abel, em função da sua oferta, teria o testemunho de ser justo. De onde proveio tal testemunho? O autor de Hebreu diz que sua oferta, apesar de ter sido ele morto, ainda fala. Ou seja, o exemplo registrado em Gênesis serve como fundamento para se descrever Abel como um homem justo. O termo justo (Gr. dikaiós) descreve uma pessoa honesta, boa, reta. Essa definição do caráter de Abel é confirmado pela opinião de Jesus a seu resepeito.
  3. O autor de Hebreus confirma o fato de que a oferta de Abel fora aprovada por Deus. Na verdade o termo que descreve aprovação é testemunhar (Gr.martureö). O sentido aqui é que Deus testificou sua oferta e a aceitou.
  4. O autor de Hebreus também defende que a oferta de Abel teria sido pela fé. É bem possível que Abel tenha sido fiel a Deus no exercício de sua adoração, ao passo que seur irmão teria inventado seu próprio modo de adorar a Yahweh.

Atitudes: Sobre Abel, o apóstolo João diz: “Porque a mensagem que ouvistes desde o princípio é esta: que nos amemos uns aos outros não segundo Caim, que era do Maligno e assassinou a seu irmão; e por que o assassinou? Porque as suas obras eram más, e as de seu irmão, justas” (1Jo.3.11-12). A equiparação que João oferece entre Caim e Abel demonstram ao menos que as atitudes de Abel seguiam seu caráter, conforme já demonstrado por Jesus e o autor de Hebreus. Era de se esperar que um homem cujo caráter é justo, que suas ações seguissem seu caráter.

C.     Sete: Manutenção e Graça de Deus

Um dos detalhes que não se vê em Gênesis 4 é a reação dos pais, Adão e Eva, ao perderem em um curto período de tempo, dois filhos. Ao matar Abel, Caim é feito vaguear pela terra como errante e distante de seus familiares. É bem verdade que Adão e Eva tiveram filhos e filhas, contudo Moisés lança luz sobre mais um dos seus filhos: Sete.

1.         Deus Renova a Esperança

A impressão que temos ao ler Gn.4 é que aparentemente a promessa de Gn.3.15 parece estar mais longe do cumprimento do que se esperava. Enquanto as expectativas de Eva pareciam favorecer Caim como o descendente que terminaria o domínio da serpente, ele acabou por se tornar o assassino de seu irmão.

“Esta passagem completa o relato da família de Adão. Desse ponto em diante, nós geralmente encontramos com duas linhas paralelas da narrativa, como a família humana está dividida em dois grandes ramos, com interesses opostos e tendências. A principal linha refere-se ao resto da raça que está em termos de reconciliação aberto com Deus, enquanto uma linha colateral demonstra, tanto quanto necessário, o estado daqueles que partiram do conhecimento e no amor do Deus verdadeiro[74]

…a quem pois o nome de Sete: É interessante notar que o trocadilho realizado por Eva ao fala sobre Caim, acontece doutra forma aqui. O termo hebraico “Sheth”, que foi transliterado como descrição do nome de Sete, é uma forma similar do verbo “Shyit” que significa apontado, indicado, concedido. Assim, mais uma vez o nome do descendente de Adão tem alguma relação com a declaração de Eva. “Eva esperou pela salvação através de seu primeiro filho, Caim. Certamente não viria dele ou de seus descendentes. Nem poderia vir de Abel. Mas um outro filho foi dado, cujo nome, Sete, significa “apontado” (ou nomeado). Ele não foi apenas um substituto para Abel (verso 25), ele foi o descendente através do qual nasceria o Salvador[75]”. Sobre isso, Clarke completa:

“Eva deve ter recebido, nesta ocasião, alguma comunicação divina, mais como ela poderia saber que o filho foi nomeado no lugar de Abel, para continuar essa linha de santo pelo qual o Messias estava para vir? Daí se vê que a linha do Messias foi determinado desde o início, e que não foi corrigido pela primeira vez nos dias de Abraão, a promessa era então apenas renovado, e que o ramo de sua família designada por que a linha foi sagrado deve ser prosseguido. E é digno de nota, que a posteridade de Sete só continuou após o dilúvio, quando todas as outras famílias da terra foram destruídos[76]

Deus me concedeu outro descendente: Um detalhe interessante é observado aqui: Eva não usa o nome de Deus. Alguns tem sugerido que sua fala representa uma certa decepção, e por isso evita o nome do Senhor. Contudo, segundo a narrativa é perceptível que ela está aliviada com a possibilidade de ver a promessa de Gn.3.15 cumprida pelo substituto de Abel. O uso do termo mais genérico para descrever a Deus (hb. Elohim) apenas demonstra como esses dois termos são intercambiáveis. Keil & Delitzsch vêem ainda outra razão para o fato:

“O que Caim (maldade humana) tira dela [Eva], Elohim (onipotência divina) havia restaurado restaurado. Devido a essa antítese que chama o doador Elohim, em vez do Yahweh, e não porque as suas esperanças tinham sido, infelizmente, deprimidas por sua experiência dolorosa em conexão com o primogênito[77]

2.         Deus restaura a verdadeira Adoração

A narrativa de Abel e Caim demonstra um fato interessante: ainda que os seres humanos em sua estrema vileza e maldade possam agir contra os propósitos de Deus, o Soberano Senhor, Yahweh, detém o controle de toda a história e está comprometido em cumprir sua palavra e por isso Seus Planos não são frutrados. Ainda que Caim intentasse contra o Senhor, Yahweh age misericordiosamente com Caim e com seus pais, dando-lhe um filho que seria progenitor de um povo que passou a invocar o nome do Senhor.

…pôs o nome Enos: A descrição da curta genealogia apresentada de Sete no capítulo 4 serve como ilustração da distinção entre a descendência de Caim e Abel. Enquanto os descendentes de Caim são marcados pela maldade, vingança, sentimento de soberba e assassinato, a descendência de Sete, o substituto de Caim, é marcado pela verdadeira adoração a Yahweh. Tudo o que sabemos sobre Enos é que ele é conectado com Sete e Noé, sendo considerado na maior genealogia do povo de Yahweh em 1Crônicas (1Cr.1.1) e associado a Cristo em sua genealogia (Lc.3.38). Essa relação entre Sete e Cristo demonstra historicamente que a promessa de Deus foi plenamente cumprida e demonstra definitivamente que Seus Planos não podem ser frustrados (Jo.42.2).

É interessante que alguns comentaristas, como Keil & Delitzsch, defendem que o nome de Enos deriva de um verbo que significa ser fraco, frágil o que designa a sua condição frágil e mortal. Sobre o assunto, ainda acrescenta que “neste nome, portanto, o sentimento e o conhecimento da fraqueza humana e sua fragilidade foram expressos[78].

Invocar o Nome do Senhor: O que significa a expressão “invocar o nome do Senhor” é fruto de debates. Uma opinião interessante é que a partir de Enos, os seres humanos passaram se chamarem pelo nome do Senhor. Ou seja, não trata-se primeiramente de uma adoração, mas de uma identidade adoradora. Sobre isso Clarke diz: “os homens começaram a chamar-se pelo nome do Senhor, essas palavras demonstram que no tempo de Enos os verdadeiros seguidores de Deus começaram a distinguir-se, e ser distinguido por outros, pela denominação de filhos de Deus[79]”.

Ross opta por ver nessa expressão da proclamação do nome de Yahweh[80]. Uma vez que o termo hebraico  “shem” (nome) é seguida do nome próprio Yahweh, e que o mesmo termo é empregado para descrever o caráter ou atributos de uma pessoa (Is.9.6), pode-se supor que o texto trata da proclamação da Pessoa e Caráter de Yahweh. Walter Elwell, de modo similar, entende que o texto fala da adoração pública a Yahweh. Para ele o texto trata da inauguração da verdadeira adoração a Yahweh (Gn.12.8, 13.4; 16.13; 21.33; 26.25) [81]. Wlatke entende que pelo fato de Enos significar fraqueza, fragilidade, a humanidade voltou-se para Deus em adoração (Sl.149.6) [82]. Finalmente, Krell entende que todas essas declarações aponta para o fato de que o homem não irá voltar-se a Deus enquanto não reconhecer sua fragilidade e inabilidade de agradar a Deus em sua própria força. Assim, “o primogênito de Caim e seus sucessores foram pioneiros na civilização, enquanto o primogênito e seus sucessores foram pioneiros na adoração[83]”.

Seja como for, em Enos vemos o início da progressão da fé, que suponho ter sido passada desde Adão. O fato de o texto dar a entender que os homens passaram a se considerar filhos de Deus, certamente será elucidativo no capítulo 6, onde muitas dificuldades também são apresentadas.


[1] MILLAN, John, The Genesis Genealogy. (http://www.reasons.org/genesis-genealogies).

[2] LUTERO, Martinho, The Creation: A Commentary on the First Five Chapters of the Book of Genesis. Pp.449. IN: KVASNICA, Andrew P., The Ages of the Antediluvian Patriarchs In Genesis 5. (http://bible.org/article/ages-antediluvian-patriarchs-genesis-5#P18_3332).

[3] CALVINO, João, Commentary on Genesis. (http://www.ccel.org/ccel/calvin/calcom01.html).

[4] KIDNER, Derek, Gênesis – Introdução e Comentário. pp.78

[5] IDEM, Ibid.

[6] GREEN, Willian Henry, Are there gaps in the biblical genealogies? (http://www.reasons.org/are-there-gaps-biblical-genealogies).

[7] KIDNER, Derek, Gênesis – Introdução e Comentário. pp.78.

[8] Simon Melov et al., “Extension of Life Span with Superoxide Dismutase/Catalase Mimetics,” Science 289 (2000), 1567-69. Judith Campisi, “Aging, Chromatin, and Food Restriction—Connecting the Dots,” Science 289 (2000), 2062-63. “Science Switched Sides: Part 1,” Facts for Faith 1 (Q1 2000), 29. Hugh Ross, The Genesis Question: Scientific Advances and the Accuracy of Genesis (Colorado Springs: NavPress, 1998), 119-21.

[9] FAZALE, Rana, ROSS, Hugh, DEEM, Richard, Long life spam: “Adam lived 930 years and then died”. (http://www.reasons.org/long-life-spans-adam-lived-930-years-and-then-he-died).

[10] GEISLER, Norman, HOWE, Thomas, Manual Popular de Dúvidas, Enigmas e “Contradições” da Bíblia. Pp.44.

[11] WALTKE, Bruce K., Genesis, 114. IN: KVASNICA, Andrew P., The Ages of the Antediluvian Patriarchs In Genesis 5. (http://bible.org/article/ages-antediluvian-patriarchs-genesis-5#P18_3332).

[12] PLAUT, W. Gunther, The Torah: A Modern Commentary: Genesis, 55. IN: KVASNICA, Andrew P., The Ages of the Antediluvian Patriarchs In Genesis 5. (http://bible.org/article/ages-antediluvian-patriarchs-genesis-5#P18_3332).

[13] KVASNICA, Andrew P., The Ages of the Antediluvian Patriarchs In Genesis 5. (http://bible.org/article/ages-antediluvian-patriarchs-genesis-5#P18_3332).

[14] IDEM.

[15] Wenham, Genesis 1-15, 133.

[16] Hasel, “The Meaning of the Chronogenealogies of Genesis 5 and 11,” 65. Esse autor entende que a relação parece forçada..

[17] JACOBS, Joseph, “Chronology” – Jewish Encyclopedia,  66-67. IN: KVASNICA, Andrew P., The Ages of the Antediluvian Patriarchs In Genesis 5. (http://bible.org/article/ages-antediluvian-patriarchs-genesis-5#P18_3332).

[18] WESTERMANN, Genesis 1-11: A Commentary, 354. IN: KVASNICA, Andrew P., The Ages of the Antediluvian Patriarchs In Genesis 5. (http://bible.org/article/ages-antediluvian-patriarchs-genesis-5#P18_3332).

[19] GREEN, Willian Henry, Are there gaps in the biblical genealogies? (http://www.reasons.org/are-there-gaps-biblical-genealogies).

[20] WALVOORD, John, F., Todas as profecias da Bíblia. Pp.20.

[21] FINLAY, Matthew, Salvation from sin. (http://bible.org/seriespage/chapter-ten-salvation-sin)

[22] WALVOORD, John F., Series in Christology—Part 4: The Preincarnate Son of God. (http://bible.org/seriespage/series-christology%E2%80%94part-4-preincarnate-son-god).

[23] http://bible.org/question/why-did-god-have-no-respect-offering-cain

[24] FISHER, Gary, Onde Caim encontrou sua esposa? (http://www.estudosdabiblia.net/bd16.htm)

[25] ROSS, Hugh, Finding a wife for Cain. (http://www.reasons.org/finding-wife-cain-0).

[26] KIDNER, Derek, Gênesis – Introdução e Comentário. pp.69.

[27] EDWARDS, Jonathan, Notes on The Scriptures. (e-sword.net).

[28] CALVINO, João, Commentary on Genesis. (http://www.ccel.org/ccel/calvin/calcom01.html).

[29] CLARKE, Adam, Adam Clarke`s Commentary on the Bible. (http://www.godrules.net/library/clarke/clarke.htm)

[30] SAILHAMER, John, Genesis. Pp.60.

[31] MERCK, David, A História de 3 irmãos.

(http://www.palavraefamilia.org.br/index.php?option=com_content&task=view&id=194&Itemid=108)

[32] KRELL, Keith, Raising Cain (Genesis 4.1-26). (http://bible.org/seriespage/raising-cain-genesis-41-26).

[33] GILL, John, Gill`s Exposition of the entire Bible. (http://www.freegrace.net/gill/).

[34] Jamieson, Fausset, Brown, John Gill, Adam Clarke

[35] Cf. NET Bible notes (http://net.bible.org/bible.php?book=Gen&chapter=4), Kidner, pp.70.

[36] KIDNER, Derek, Gênesis – Introdução e Comentário. pp.70.

[37] SAILHAMER, John, Genesis. Pp.60.

[38] EDWARDS, Jonathan, Notes on The Scriptures. (e-sword.net).

[39] MERCK, David, A História de 3 irmãos.

(http://www.palavraefamilia.org.br/index.php?option=com_content&task=view&id=194&Itemid=108)

[40] CALVINO, João, Commentary on Genesis. (http://www.ccel.org/ccel/calvin/calcom01.html).

[41] BARNES, Albert, Notes on the Bible.

[42] KIDNER, Derek, Gênesis – Introdução e Comentário. pp.70.

[43] DEFFINBAUG, Bob, The fruits of the Fall. Bible.org (http://bible.org/seriespage/fruits-fall-genesis-41-26).

[44] BARNES, Albert, Notes on the Bible.

[45] KIDNER, Derek, Gênesis – Introdução e Comentário. pp.70.

[46] KRELL, Keith, Raising Cain (Genesis 4.1-26). (http://bible.org/seriespage/raising-cain-genesis-41-26).

[47] KEVAN, E.F., Gênesis – Novo Comentário da Bíblia. Vol.1, pp.88.

[48] DEFFINBAUG, Bob, The fruits of the Fall. Bible.org (http://bible.org/seriespage/fruits-fall-genesis-41-26)

[49] KRELL, Keith, Raising Cain (Genesis 4.1-26). (http://bible.org/seriespage/raising-cain-genesis-41-26).

[50] MERCK, David, A História de 3 irmãos.

(http://www.palavraefamilia.org.br/index.php?option=com_content&task=view&id=194&Itemid=108)

[51] BARNES, Albert, Notes on the Bible.

[52] MERCK, David, A História de 3 irmãos.

(http://www.palavraefamilia.org.br/index.php?option=com_content&task=view&id=194&Itemid=108)

[53] GILL, John, Gill`s Exposition of the entire Bible. (http://www.freegrace.net/gill/).

[54] BARNES, Albert, Notes on the Bible.

[55] Keil & Delitzsch, Commentary on the Old Testament.

[56] Gerhard VonRad, Genesis (Philadephia: The Westminster Press, 1972), p. 106.

[57] DEFFINBAUG, Bob, The fruits of the Fall. Bible.org (http://bible.org/seriespage/fruits-fall-genesis-41-26)

[58] KRELL, Keith, Raising Cain (Genesis 4.1-26). (http://bible.org/seriespage/raising-cain-genesis-41-26)

[59] DEFFINBAUG, Bob, The fruits of the Fall. Bible.org (http://bible.org/seriespage/fruits-fall-genesis-41-26)

[60] CALVINO, João, Commentary on Genesis. (http://www.ccel.org/ccel/calvin/calcom01.html).

[61] DEFFINBAUG, Bob, The fruits of the Fall. Bible.org (http://bible.org/seriespage/fruits-fall-genesis-41-26)

[62] Keil & Delitzsch, Commentary on the Old Testament.

[63] BARNES, Albert, Notes on the Bible.

[64] KRELL, Keith, Raising Cain (Genesis 4.1-26). (http://bible.org/seriespage/raising-cain-genesis-41-26)

[65] DEFFINBAUG, Bob, The fruits of the Fall. Bible.org (http://bible.org/seriespage/fruits-fall-genesis-41-26)

[66] GILL, John, Gill`s Exposition of the entire Bible. (http://www.freegrace.net/gill/).

[67] BARNES, Albert, Notes on the Bible.

[68] Keil & Delitzsch, Commentary on the Old Testament.

[69] CLARKE, Adam, Adam Clarke`s Commentary on the Bible. (http://www.godrules.net/library/clarke/clarke.htm)

[70] Adam Clarke, John Gill apresenta a possibilidade.

[71] MERCK, David, A História de 3 irmãos.

(http://www.palavraefamilia.org.br/index.php?option=com_content&task=view&id=194&Itemid=108)

[72] Keil & Delitzsch, Commentary on the Old Testament.

[73] MERCK, David, A História de 3 irmãos.

(http://www.palavraefamilia.org.br/index.php?option=com_content&task=view&id=194&Itemid=108)

[74] BARNES, Albert, Notes on the Bible.

[75] DEFFINBAUG, Bob, The fruits of the Fall. Bible.org (http://bible.org/seriespage/fruits-fall-genesis-41-26)

[76] CLARKE, Adam, Adam Clarke`s Commentary on the Bible. (http://www.godrules.net/library/clarke/clarke.htm)

[77] Keil & Delitzsch, Commentary on the Old Testament.

[78] Keil & Delitzsch, Commentary on the Old Testament.

[79] CLARKE, Adam, Adam Clarke`s Commentary on the Bible. (http://www.godrules.net/library/clarke/clarke.htm)

[80] Uso desta expressão no Pentateuco apoia mais a ideia da proclamação mais do a da oração (cf. Gn 12:8; Êxodo 34:6, Levítico 1:1). O significado do [termo hebraico] shem, “nome”, também exige a interpretação, já que a palavra é, na verdade, seguido do nome próprio. A palavra “nome” também se refere a características ou atributos (ver Isaías 9:6). A ideia desta linha é que as pessoas começaram a fazer a proclamação sobre a natureza do Senhor (“começou a fazer a proclamação do Senhor por nome”).. Ross, Creation & Blessing, 169. IN: KRELL, Keith, Raising Cain (Genesis 4.1-26). (http://bible.org/seriespage/raising-cain-genesis-41-26)

[81] Muito antes de Deus revelar-se plenamente como o Senhor a um povo chamado Israel (Ex 3:6), ou até mesmo para os patriarcas, há pelo menos um pequeno grupo de pessoas que compreender a identidade do verdadeiro Deus. Cf. Walter A. Elwell, ed., Evangelical Commentary on the Bible (Grand Rapids: Baker, 1989), Electronic Ed. IN: KRELL, Keith, Raising Cain (Genesis 4.1-26). (http://bible.org/seriespage/raising-cain-genesis-41-26)

[82] Waltke, Genesis, 101. IN: IN: KRELL, Keith, Raising Cain (Genesis 4.1-26). (http://bible.org/seriespage/raising-cain-genesis-41-26)

[83] KRELL, Keith, Raising Cain (Genesis 4.1-26). (http://bible.org/seriespage/raising-cain-genesis-41-26)

VIII. A História de Três Irmãos: Caim, Abel e Sete

O estudo sobre Caim e Abel é certamente um ponto controvertido no livro de Gênesis. Para falar com franqueza, os primeiros 11 capítulos de Gêneses têm caráter controvertido. É bem verdade que tais dificuldades hermenêuticas não são insolúveis ou sem propostas de tratamento, entretanto, ainda assim são cercadas de ceticismo.

Nossa proposta não é resolver problemas antigos a teologia, mas refletir sobre a real problemática dessas dificuldades, considerar algumas possibilidades para os mesmos casos e então propor uma conclusão plausível para cada uma das dificuldades observadas. Observe, nosso objetivo não é oferecer uma conclusão definitiva para tais assuntos, mas uma que seja plausível.

Feito isso, trataremos da narrativa com devida atenção ao relacionamento estabelecido entre Deus e suas criaturas conforme observado pelo capítulo 4 de Gênesis.

Introdução

Como já temos dito, estudar o livro de Gênesis associa duas atitudes do cristão que dele se aproxima: devoção e intelectualidade. Devoção, pois nele encontram-se as palavras de Deus, suas orientações, ensinos e exortações. Intelectualidade, pois nele também se encontram obstáculos para a compreensão da verdade exposta em suas páginas. Portanto, é com essa perspectiva que passamos a observar os seguintes aspectos do capítulo 4 e 5 de Gênesis: (1) O Papel das Genealogias; (2) A oferta, (3) A esposa de Caim.

1.         O Papel e Significado das Genealogias em Gênesis:

“As genealogias bíblicas são numerosas, mas ainda assim são, provavelmente, as porções mais freqüentemente ignoradas da Bíblia. A maioria das pessoas acha que as genealogias não são interessantes e difíceis de aplicar às circunstâncias atuais[1]

A princípio não podemos ignorar esse fato: As genealogias não são interessantes a muitos leitores das escrituras, e de fato, são difíceis de serem aplicadas a nossa vida com Deus. Por outro lado, o Deus que se revela nessas páginas das escrituras deve ter um propósito com tal inclusão, e por isso observamos tais porções com zelo e sabedoria.

O primeiro grande obstáculo à mente moderna sobre a validade das escrituras repousa sobre as genealogias de Gênesis, não por serem extensas ou aparentemente repetidas ou repetitivas, mas por conterem afirmações de longevidade invejáveis aos adeptos da cosmética antiidade. Ao considerar sobre as genealogias de Genesis, John Millan afirma:

5 Os dias todos da vida de Adão foram novecentos e trinta anos; e morreu (…) 8 Todos os dias de Sete foram novecentos e doze anos; e morreu (…) 11 Todos os dias de Enos foram novecentos e cinco anos; e morreu (…) 14 Todos os dias de Cainã foram novecentos e dez anos; e morreu (…) 17 Todos os dias de Maalalel foram oitocentos e noventa e cinco anos; e morreu (…) 20 Todos os dias de Jarede foram novecentos e sessenta e dois anos; e morreu (…) 23 Todos os dias de Enoque foram trezentos e sessenta e cinco anos (…) 27 Todos os dias de Metusalém foram novecentos e sessenta e nove anos; e morreu (…) 31 Todos os dias de Lameque foram setecentos e setenta e sete anos; e morreu.

A ordem seguida na genealogia é interessante: Gerar, viver e morrer. Essa relação da existência humana é certamente bem retratada por essas genealogias. O uso recorrente do verbo morrer (heb. muwth) relembra com clareza a recomendação de Yahweh sobre a certeza da morte, caso Adão desobedecesse. Todos os descendentes de Adão, com possível exceção de Enoque, morreram fruto da desobediência de Adão. Todos estão fadados a esse destino.

Contudo, as descrições de tempo observadas levantam sérias dúvidas quanto ao relato de Moisés. Note que o personagem com menor idade narrado viveu 365 anos! Aos olhos da nossa concepção de longevidade esses dados são plenamente incompatíveis com a realidade da humanidade. Por isso, algumas teorias foram anunciadas para compreender esses dados.

A visão mais literal: A visão mais literal, em geral preza pela validade numérica e conceitual das genealogias, entretanto, muitas propostas foram feitas para Gn.5, observe:

1.Lutero sugeriu que a longevidade dos patriarcas anti-diluvianos se dava em função de uma melhor dieta combinada com um corpo mais saudável em função de pouco tempo da entrada do pecado[2]. Contudo, essa visão causa severos problemas para a compreensão da vida tal como está, sem contar no alto grau especulativo da proposta. Outro detalhe é que, se o tempo da raça humana deteriora com o tempo em função da presença do pecado, hoje deveríamos viver muito menos do que temos vivido, sem contar no caso de culturas que, por meio do desenvolvimento higiênico e sanitário, aumentaram sua expectativa de vida nos últimos anos, o que contraria a proposta de Lutero.

2.Calvino entende o registro final de tempo depende do tempo total em que os patriarcas viveram juntos[3]. Segundo essa interpretação Adão teria vivido 130 anos (v.3) e sua família/tribo 930 anos (v.5) Entretanto, Derek Kidner opõe-se veementemente à essa conclusão, pois “Enoque e Noé são exceções fatais para a teoria, pois os dois são claramente retratados como indivíduos até o fim[4]”.

3.Clyde Francisco cita a Lista de Reis Sumérios que chegou até nós através de Berossus, um historiador grego. Nessa lista encontram-se 10 dignitários do período anti-diluviano e um dentre eles, à semelhança de Enoque, não morre. De modo interessante, esse mesmo documento demonstra que a longevidade desses homens era ainda maior que as apresentada por Moisés. Para Clyde, existe alguma relação entre o relato de Moisés e tal documento, embora não possa determinar qual, ou quão grande teria sido tal influência. Segundo ele, “não há nenhuma forma de provar que os patriarcas não viveram tanto tempo quanto o Velho Testamento diz que viveram (…) Certamente os escritores bíblicos não adicionaram ou subtraíram anos das genealogias que receberam. As idades registradas refletem o contexto da tradição quando as fontes foram compostas”. A proposta de Clyde embora nobre, por preservar a literalidade do texto é fundamentada na edição do mesmo e na dependência de um texto que não temos como saber se Moisés teve acesso, ou até mesmo à tradição do mesmo.

4.Derek Kidner reconhece a existência de proposições similares a de Moisés relativas a longevidade de seres humanos do passado, mas ao contrário de Francisco, ele não as toma como interdependentes, mas como demonstração de que, por meio de diferentes autores antigos, um fato pode ter sido registrado. Observe o que diz: “Só podemos dizer que os períodos de duração da vida devem ser entendidos literalmente. Talvez valha a pena pensar que o nosso índice comum de crescimento não é o único que se pode conceber; e também que várias raças tem tradições de longevidade primitiva que poderiam provir de reminiscências autênticas[5]”.

5.James Ussher entendeu que os anos apresentados em Gênesis de 5 a 11 são literais e conseguintes, e concluiu que Adão teria vindo a existir em 4004 anos antes de Cristo. O pressuposto fundamental dele é que as genealogias são completas e não tem lacunas. Esse modo de interpretação é provavelmente o mais rejeitado dentre todas as propostas.

6.Willian Henry Green demonstra que as genealogias bíblicas normalmente apresentam lacunas, como essa apresentada em Gn.5. Segundo ele, essa genealogia foi intencionalmente arranjada, em função da clara estrutura existente. Em relação às genealogias de Gn.5-11, ele atesta que “cada genealogia inclui dez nomes, sendo Noé o décimo depois de Adão, e Terá o décimo de Noé. Todo fim tem um pai tendo três filhos, como no caso da genealogia Canita (4.17-22). A genealogia de Sete (cap.5) culmina no sétimo membro Enoque, que andou com Deus, e ele não era, mas Deus o tomou para is. A genealogia Canita também culmina no sétimo membro, Lameque, que era polígamo, vingativo e cheio de arrogância[6]”. Esse tipo de arranjo certamente favorece a idéia de que a intenção não foi uma genealogia cronológica, mas referencial.

7.John White Comb sugeriu que a longevidade dos seres humanos estava ligada com as diferentes condições climáticas do período anti-diluviano, baseado na idéia de um dossel de vapor de água que protegia a terra da física e geneticamente nociva radiação solar. Concordam com essa proposta Fazale Rana, Hugh Ross e Richard Deem.

8.Outros já sugeriram que as medidas de tempo não são necessariamente as mesmas que temos hoje, e que é possível que o termo “anos” fosse compreendido como “meses”. Assim, os 969 anos seriam 969 meses, ou cerca de 81 anos, o que tornaria compreensão do texto muito mais aceitável. Contudo, se esse esquema fosse adotado para todos os casos, Enoque teria apenas 5 anos (ou 65 meses) de idade quando gerou Matusalém. Sobre esse tipo de tratamento, Kidner também diz: “É igualmente infrutífera a idéia de que as unidades de tempo podem ter mudado de sentido. Além de produzir novas dificuldades nos versos 12, 15, 21, falha completamente na cronologia pormenorizada que se acha entre 7.6 e 8.13[7]”. Essa proposta tornaria a proposta de Gn.6.3 em um absurdo.

9.Fazale Rana acredita que os anos dos personagens apresentados em Gn.5 são literais em função da assertiva divina em 6.3, que afirma que em função da maldade recorrente na humanidade, Deus resolveu reduzir a vida do ser humano a 120 anos. Ele também defende que o avanço da bioquímica pode sugerir modos pelos quais Deus pode ter permitido seres humanos viverem tanto tempo. Segundo Rana, “cientistas descobriram diversos distintivos bioquímicos que ou causam, o são associados com, o envelhecimento. Mesmo uma pequena alteração na química celular pode ser responsável pelo envelhecimento, ou em alguns casos, aumentar a expectativa de vida cerca de 50%[8]. Essas descobertas apontam para diversas possibilidades pelas quais Deus permitiu a longevidade e então alterou a expectativa da vida humana – simplesmente alterando a bioquímica humana[9]”.

10.Norman Geisler se opõe a proposta de Calvino em função de que linhas familiares não geram ou morrem, nem podem ser definidas por “tiveram filhos e filhas”. Rejeita a noção de que o termo anos aqui teria outra conotação, como sugerida por outros comentaristas. Entretanto, ele concorda com Rana e defende que Gn.6.3 define que o termo anos, não pode ser considerado de outro modo. Também defende que após o dilúvio o tempo de vida do homem decresceu, como Gn.6.3 afirmou. Também concorda com Clyde e Kidner ao defender que as escrituras não são as únicas a apresentarem seres humanos com tamanha longevidade. Entretanto, a proposta de Geisler é que os anos devem ser considerados como anos lunares de 360 dias[10].

Embora possam existir outras proposições literais, podemos compreender como se comportam aqueles que optam por uma cronologia literal: Tentam tratar do texto como um todo e não deixar lacunas hermenêuticas para trás, mas fundamentalmente, tratam dos números como dados reais. Entretanto, isso não significa necessariamente que todos sejam favoráveis à versão numérica do texto massorético, mas que são favoráveis ao sentido literal do valor numérico. Sobre as diferentes leituras desse texto falaremos com mais detalhes mais à frente.

A visão mais simbólica: A proposta mais simbólica, em geral, toma os valores numéricos com significados diferenciados. Por exemplo, Waltke sugere que o arranjo literário dessa passagem não pode ser um acaso[11], ao passo que Plaut atesta que essa passagem demonstra uma predileção para o simbolismo numérico[12]. Andrew Kvasnica atesta que “essas opiniões estão relacionadas a prevalência dos números 7 e 10, conhecidos respectivamentes em diversos textos do Oriente Médio Antigo por sua perfeição e plenitude. A lista de 10 nomes em Gn.5 levou muitos a ver uma indubitável e deliberada construção de nomes para se enquadrar no esquema de um padrão de 10 gerações[13]”.

Existem diversas outras propostas simbólicas, mas o que se precisa observar é que, independente do proponente, o fundamento essencial é a consideração não literal dos números, seja pela conexão com a “numerologia” antiga, ou com suposições aleatórias, as idéias sempre giram em torno de valores não numéricos aos números ou à estrutura do texto.

Uma proposta literal/simbólica: Essa proposta é uma adaptação dos dois primeiros modos de interpretação. Kvasnica sugere que tal modo de interpretação toma a estrutura como literal, mas os números relativos à longevidade como organizada mediante um padrão numérico. Ou seja, não trata-se de número exato de anos, mas de um arranjo numérico. Por exemplo, a semelhança de Clyde Francisco, os proponentes dessa teoria entendem que existe uma relação entre a Lista dos Reis Sumérios, porém, estabelecem um arranjo literário para obra como um padrão para o entendimento de Gênesis. Como, aparentemente, a alguns textos sumérios tem predileção pelo número 60, muitos proponentes iniciaram com esse número, embora, muitas outras propostas tenham sido feitas[14].

É importante dizer que tal proposta é uma alternativa frágil, uma vez que não é possível determinar que tipo de influência, se é que existiu alguma, dos antigos textos sumérios nos textos de Moisés. Muito embora alguns comentaristas, como Wenham[15], achem a matemática interessante, são muitos os comentaristas que rejeitam suas conclusões[16].

Outro detalhe importante é que não parece prudente submeter o entendimento das escrituras a outras literaturas antigas muito provavelmente não relacionadas. Essa iniciativa, embora seja realizada por pessoas altamente capazes, sugere que o sentido do texto é devido a interpretações de textos que não se sabe se os leitores originais tiveram acesso. Sem contar que o modo interpretativo desses documentos não é unânime ou sem conflito. Portanto, é seguro afirmar que tal proposta não é aceitável, embora difundida e aceita em alguns círculos teológicos.

A visão mítica: Essa é a visão menos honesta com o texto, pois considera que os nomes tem alguma significância, mas os números são mitos. Considerando que outros textos antigos continham números ainda maiores que os encontrados em Gênesis (cf. 18.000; 36.000), Joseph Jacobs entende que ele são adaptações dos relatos míticos antigos[17]. Westtermann prefere optar por uma declaração de grande antiguidade, e portanto, descarta o valor numérico dos mesmos[18]. Seja como for, não importam os números usados, o que se quer dizer é que eles viviam mais que seus descendentes atuais e que o decréscimo do tempo demonstra a falência da raça humana.

Contudo, se esse fosse a intenção de Moisés ele poderia ter usado essas palavras, mas ele não o fez. Os números devem ter um significado mais específico do que o vago valor assumido por esses que entendem que trata-se de um relato real de detalhes míticos.

Conclusão: Antes de qualquer conclusão plausível, é importante considerar alguns detalhes sobre as genealogias apresentada nas escrituras:

1.Propósito: É digno de nota que as genealogias bíblicas não foram escritas para uma análise cronológica como supôs James Ussher. Também é importante dizer que a genealogia de Gn.5 não é uma genealogia completa e que foi arranjada literariamente para conter uma sequência de 10 gerações (Gn.5.3-), com ênfase especial no sétimo descendente (Enoque, Lameque) sendo que o último sempre gerava três filhos. Esse arranjo por outro lado não atesta seu simbolismo ou sentido mitológico, mas que diante das informações que dispunha, o autor organizou-as cronologicamente sem ocupar-se em oferecer uma genealogia completa. Isso deve-se ao objetivo do autor, que não era remontar exaustivamente a linhagem da humanidade, mas demonstrar a formação de diferentes povos em função de diferentes personagens históricos. Observe a declaração de Millan sobre o assunto: “As genealogia bíblica se dividem em três categorias principais de acordo com sua finalidade: familiar, jurídico-político e religioso. Genealogia Familiar (ou doméstica) são especialmente preocupada com a herança e os privilégios dos filhos primogênitos. Genealogias Jurídico-político são essencialmente centradas em reivindicações para um cargo hereditário, mas outros exemplos incluem o estabelecimento de ascendência para a organização da terra, os agrupamentos territoriais e serviço militar. Genealogias Religiosas eram utilizadas principalmente para estabelecer a associação no sacerdócio levítico e Aarônico. A função de uma genealogia determina em grande parte de sua estrutura e organização. Em cada um desses casos, há pouca razão ou a necessidade de dar uma lista completa de nomes, pois é ascendência, e não o real número de gerações que é importante[19]

2.Linguagem: Para compreender esse fato é importante recorrer à distância da linguagem moderna e àquela usada em Gênesis. Por exemplo, em nosso idioma nós temos termos como avô, pai, tio, primo entre diversos outros para descrever relações familiares. Contudo, o termo hebraico para “filho” (hb. Ben) poderia ser entendido como filho, neto, bisneto ou até mesmo descendente. Do mesmo modo, o termo hebraico para “pai” poderia significar pai, avô e até mesmo progenitor. Tome por exemplo Gn28.13: “Eu sou o SENHOR, Deus de Abraão, teu pai, e Deus de Isaque”. Note que Abraão não era pai Jacó, mas avô. Do mesmo modo, o termo “gerou” (hb. Yalad), não implica necessariamente na produção de um novo ser, mas na relação familiar existente entre eles. Assim, não se deve tomar como determinante a relação entre os substantivos ligados por tal verbo.

3.Abrangência: Outra percepção importante é que os nomes apresentados são geralmente os mais importantes. A existência da declaração “teve filhos e filhas” demonstra que muitos personagens históricos não foram apresentados na genealogia. Portanto, deve se considerar que Moisés, diante das informações que possuía, não apresentou todas, mas optou por apresentar somente as que eram relevantes para sua obra.

Tendo dito isso, podemos afirmar que as propostas que tendem ao mito não devem ser consideradas como válidas, uma vez que reduzem as escrituras a literaturas sem valor. Já as mais simbólicas são tão diversas em proposição e análise que seria difícil manter por todo o Pentateuco o mesmo critério de interpretação. A opção mais mista, entre o simbólico e o literal parece uma alternativa covarde que não assume nem uma nem outra opção.

Considerando as limitações de uma Genealogia, podemos assumir com segurança que a leitura literal é preferida em relação às outras. Isso não significa que não se tenha dificuldades com a mesma, mas que, dentre as dificuldades hermenêuticas, é a que apresenta mais plausibilidade escriturística. Diante da diversidade de opiniões sobre o assunto do ponto de vista literal, deve-se dizer que as opções de Calvino, Lutero, Ussher, Clyde e a que defende uma nova leitura quantitativa para o termo ano, devem ser desconsideradas por não serem plausíveis. Já as opções que tendem a uma visão mais científica (Comb, Rana) devem ser analisadas com mais critério e objetividade, embora sejam particularmente interessantes e não sejam excluam outras opções hermenêuticas. No que se refere à comparação com textos sumérios antigos, a similaridade revela não a dependência de Moisés aos mesmos, mas a declaração de fatos verdadeiros (e exagerados) concebidos por outros autores antigos.

Portanto, entendo que a Genealogia de Gn.5 tem um papel mais descritivo que cronológico, cuja ênfase não é a definição de gerações, mas declaração de ascendência. O contraste entre a genealogia do cap.4 e 5 servem para demonstrar a distinção entre o povo eleito e as outras nações, que paulatinamente pervertiam os ideais divinos estabelecidos na criação.

2.         A rejeição da oferta de Caim

O texto de Gênesis parece não ser tão claro no que se refere a razão da rejeição da oferta de Caim. Normalmente se entende que a razão da rejeição é que tal oferta não teria sido uma oferta com sacrifício e por isso sua oferta não foi aceita, ao passo que a de Abel teria sido aceita em pelo mesmo motivo. John Walvoord defende essa opinião: “Embora a Bíblia não apresente a razão dessa rejeição, enfatiza que é necessário um sacrifício com derramamento de sangue, para o perdão dos pecados (Hb.9.22)[20]”.

Considerando as escrituras como um todo, é fato que “sem derramamento de sangue não há redenção dos pecados”. Por outro lado, que evidências temos de que Caim saberia disso? Para respondermos a essa pergunta, vamos realizar algumas considerações.

1.Condenação Universal do Pecado: Gênesis 3 nos ensina com clareza que a sentença universal sobre o pecado já havia sido estabelecida. As atitudes do casal no jardim demonstram que o relacionamento com Deus havia sido rompido e que o pecado já se fizera presente em sua constituição. Outro fato interessante é que Adão, criado à imagem de Deus, gera filhos e filhas à sua própria imagem, o que suporta a idéia de que os efeitos danosos do pecado se transmitiam de modo genealógico. Essa situação da humanidade era irremediável por sua própria capacidade, por outro lado, a Promessa de Deus evidenciava um descendente da mulher como Salvador do poder da Serpente sobre os seres humanos.

2.A expectativa do Salvador: Em Gênesis 3.15 vemos a clara promessa de Deus em resgatar o ser humano por meio de um varão, descendente da mulher. Tal promessa veio antes da sentença de Adão e Eva, como demonstração da Graça Misericordiosa de Deus. Ou seja, o modo pelo qual Deus deseja salvar a humanidade está sendo anunciado, e diante do todo, esse varão precisaria morrer, derramar seu sangue para que a Redenção fosse completa.

3.A santidade de Deus: Outra informação que merece atenção é a clara demonstração da santidade de Deus no Éden. Deus não convive com o ser humano em pecado, e não aceita a humanidade no estado em que está. A santidade de Deus não o permite aceitar o que não é santo. Por isso, é necessário um modo pelo qual o homem possa se aproximar de Deus. Esse modo normalmente parte Dele mesmo.

4.Informações conhecidas e não reveladas: Considerando os pontos anteriores, parece óbvio que não seria qualquer atitude, atividade que poderia colocar o homem e Deus em contato. Assim, que tipo de sacrifício seria aceito por Deus? Tenho a impressão que Gn.3.21 prefigura esse tipo de sacrifício. Entretanto, não há qualquer informação explícita no texto que apresente esse fato. Aliás, é digno de nota que nenhuma referência ou inferência a esse fato jamais acontece nas escrituras para apresentar esse fato. As razões para isso podem estar relacionadas ao fato de que tal informação parecia evidente e não precisava ser clarificada. Mas, ainda assim, a conexão parece entre o conceito de sacrifício em Gn.4 exige que alguma informação tenha sido oferecida por Deus a Caim e a Abel que não teria sido registrada por Moisés. Tome o caso de Jó, que escreve antes mesmo de Moisés nascer. Ele já conhecia o nome de Deus (Yahweh – Jo.12.9), já esperava um Redentor Parente (Jó.19.25) que vive e por fim se levantará sobre a terra, contudo sem qualquer descrição de onde teria conseguido tal informação. Isso evidência que, ainda que Gn.3.21 não possa ser fonte suficiente, o próprio Deus pode ter dado a conhecer que tipo de sacrifício Ele esperava. Doutra sorte, de onde Abel tirara tal informação? Seria apenas o caso de sorte? Entendo que não. Acredito que tal informação era clara para ambos os irmãos, e que Caim resolveu ignorar tal recomendação. Isso explica o modo como Deus fala sobre sua atitude após a rejeição de sua oferta. Essa é a opinião de Matthew Finlay, observe: “Ambos acreditavam em Deus. Ambos desejavam para adorá-Lo. Caim trouxe uma oferta para Deus, mas não foi um sacrifício de sangue, e Deus o rejeitou. Abel trouxe um cordeiro como sacrifício, e Deus o aceitou. Por quê? Deus foi injusto? Não! Deus tinha revelado que somente através de um sacrifício de sangue poderia pecadores abordagem de um Deus santo, e Caim se recusou a fazer isso[21]”.

Sobre o assunto, Walvoord acrescenta:

“A Caim é dito claramente que o caminho do perdão é através da oferta de um sacrifício de sangue. A oferta de Abel dos primogênitos do seu rebanho e da gordura deste (Gn 4:4) foi aceito. Sem dúvida, a oferta refletiu a condição espiritual do proponente, mas o ponto é que os recursos de iluminação de Deus a Caim, com base em revelação dada anteriormente. Abel e Caim sabiam que tanto o sacrifício pelo pecado deveria ser um animal especial, um cordeiro, um cordeiro particular, o primogênito, e uma parte específica do cordeiro, a gordura. Esse conhecimento pode vir apenas da revelação[22]”.

É bem verdade que Walvoord acresce uma dose maior de especulação ao não oferecer qualquer evidência sobre o assunto, mas aquelas que já temos demonstrado parecem suportar tal conclusão. Contudo, é importante notar que o diálogo de Caim e Deus após a rejeição trata mais de sua atitude que sua oferta. Observe:

“O Senhor disse que ele não olha com favor para Caim e sua oferta. O texto não diz que Deus não olha com favor para a sua oferta; o caso era tanto com Caim como com sua oferta. Assim, podemos supor que algo estava errado com sua atitude. Este aspecto é reforçado pelo fato de que o sistema levítico (que esta passagem antecipa no Pentateuco), onde vemos uma ligação entre a atitude correta da fé do fiel, podemos assumir que é importante aqui. Resumindo eu acho que a oferta de Caim não foi oferecida em fé e melhor que ele poderia oferecer. Sua reação a Deus e seu irmão indica raiva contra Deus, provavelmente porque ele foi exposto como pecador elas ações justas do seu irmão e um questionamento sério da obediência sincera sobre este assunto[23]

Sobre o assunto, recomendamos o leitor observar essas considerações nas observações à Genesis 4, pouco à frente.

3.         A esposa de Caim

Apesar de a pergunta ser freqüente e tida por alguns como sem solução, a resposta parece relativamente simples. O parecer comum entre os comentaristas é que Caim casou-se com uma de suas irmãs. Gary Fisher, sobre isso diz:

Esta é uma das perguntas que sempre teimam em reaparecer, algumas vezes usadas para tentar ridicularizar a Bíblia, na sua descrição da criação. Mas, para aqueles que perguntam honestamente, Gênesis 5:4 diz que Adão e Eva tiveram outros filhos e filhas, além de Caim e Abel. É evidente que Caim escolheu uma esposa entre suas irmãs, ou talvez sobrinhas. Enquanto depois, o casamento com a própria irmã foi condenado como fornicação (Levítico 18), isso foi permitido naqueles primeiros tempos da terra, por causa da necessidade prática. Atualmente, o casamento com qualquer parente próximo é desaprovado, porque os filhos daqueles que se casam com parentes próximos correm muito risco de serem retardados mentais ou terem defeitos físicos. Isto é devido ao acúmulo dos defeitos genéticos dos parentes próximos. Mas isto não teria causado nenhum problema a Caim. Deus criou Adão e Eva perfeitos. Naquelas primeiras gerações deve ter havido pouca herança acumulada de defeitos a serem passados aos filho[24].

Alguns entendem que seria um absurdo esperar que Caim se casasse com uma de suas irmãs, em função do tempo e da proximidade. Contudo, Hugh Ross para ilustrar o desenvolvimento da humanidade naquele período propõe a seguinte projeção:



Crescimento esperado da humanidade durante o tempo de vida de Adão

De acordo com Gênesis 5, o tempo médio de vida entre o período de Adão e Noé é de 912 anos. Cada um dos patriarcas mecionados tiveram “filhos e filhas”, em adição aos filhos apresentado com nomes. A tabela de calculo é baseado em:

Tempo de Vida médio = 900 anos,

O primeiro filho chega aos 50 anos,

Tempo útil de gestação =500 anos, e

Uma criança a cada 5 anos durante o tempo útil de gestação.

Ano

Casais Reproduzindo

Crianças Nascidas

População total

0

1

0

2

50

1

0

2

100

1

10

12

150

6

30

42

200

21

100

142

250

71

352

494

300

247

1210

1704

350

852

4180

5884

400

2941

14,450

20,334

450

10,167

49,892

70,226

500

35,113

172,358

242,584

550

121,292

595,378

837,962

600

418,980

2,056,530

2,894,492

650

1,447,245

7,103,862

9,998,364

700

4,999,176

24,538,536

34,536,930

750

17,268,444

84,762,338

119,299,368

800

59,649,613

292,790,780

412,090,500

850

206,045,003

1,011,374,120

1,423,465,830

900

711,732,063

3,493,544,650

4,917,014,660

Após a apresentação desses dados, Ross conclui:

“De acordo com um simples calculo matemático, se Caim esperou para se casar quando ele tinha 200 anos, ele provavelmente tinha diversas mulheres para escolher, fornecendo a migração para o leste em Nod com outros membros de sua família[25]

Tendo considerado que a longevidade em Gênesis é literal, a existência de uma população que pudesse encontrar a Caim é possível, sem contar que diante da quantidade de pessoas existentes não era improvável que Caim encontrasse entre seus familiares uma esposa. Infelizmente os dados de Ross são meramente especulativos e sua proposição sobre o casamento de Caim fere um dado apresentado na própria tabela. Segundo a tabela o primeiro filho chega aos 50 anos do pai, mas a conclusão sugere que ele teria casado com 200. Ainda que tais definições não tem o objetivo de serem definitivas, mas meramente ilustrativas, ficamos com o conceito aqui: Se a longevidade é literal, o casamento de Caim com uma sobrinha, irmã, não seria impossível, do mesmo modo que uma cidade não seria irreal.


A.     Caim e os frutos da Queda

A história de Caim não está demonstrada por acaso nas escrituras. Sua atitude para com seu irmão serve como um claro ilustrativo dos efeitos da queda sobre os seres humanos. Aquele ser criado para estar com Deus, criado para amar, prefere sua distância de seu Criador e dá ao ódio liberdade e os efeitos são completamente danosos. O que pretendemos observar nesse estudo são as atitudes de Caim e Abel, sua relação para com Deus e como Deus intervém de modo Misericordioso e Benevolente com suas criaturas, mesmo após o pecado.

Coabitou: Não é novidade que as escrituras usam em muitos lugares a expressão “Conhecer” para descrever o que a ARA definiu como coabitou. As versões mais antigas em português (ARC, ARF, BRP) todas optam pelo termo “conhecer” para descrever esse ato. As novas versões e paráfrases já tornaram o sentido ainda mais claro que a ARA, como a NTLH optou por descrever o ato como: “teve relações sexuais”. É bem verdade que a ARA e a NTLH são assertivas no que se refere ao sentido do termo, contudo, o termo hebraico tem um sentido mais aprofundado desse relacionamento, e esse sentido merece ser relembrado em nossos dias em que a sexualidade tem sido banalizada.

O termo empregado em hebraico é “yada’”, traduzido para grego na LXX pelo termo “gnoskö”. Ambos expressam o sentido de conhecer pessoalmente e profundamente e por isso é usado com freqüência como um eufemismo para o relacionamento sexual. Entretanto, note que o termo já havia sido usado 4x no capítulo anterior (Gn.3.5x2, 7, 22) e, por conseguinte, não podemos descartar sua conotação mais primária aqui. Todos os usos denotam informação, conhecimento, ciência, e em particular nos versos 5 e 22 demonstram o conhecimento que Deus tem. Por isso, e possível inferir que o nível de intimidade do primeiro casal ao ser descrito por esse eufemismo é muito mais do que a atividade sexual em si, é uma descrição de um relacionamento. É bem verdade que no mesmo livro vamos encontrar o uso do mesmo eufemismo para descrever atos perversos, como em Sodoma (Gn.19.5, 8) ou com as filhas de Ló (19.33, 35), tendo a visualizar uma perversão no sentido do termo, de relacionamento à atividade sexual, à medida que o pecado se alastrava na humanidade. Seja como for, a ênfase do texto descreve a intimidade do casal de modo eufemístico para demonstrar a procriação da humanidade conforme esperada por Deus na Criação.

Concebeu e deu a luz: Essa expressão é importante pelo fato que inaugura a expectativa do cumprimento da promessa: Um varão que termine com o estrago feito pela serpente no Éden e que acabe com a própria serpente. Seria muito inferir que essa era a expectativa do primeiro casal? Provavelmente sim, observe a alegria de Eva em receber um filho homem.

Com auxílio do Senhor: É bem verdade que a expressão hebraica literalmente deveria ser traduzida como “Alcancei do Senhor um homem”, embora Kidner entenda que a expressão possa ser entendida de outros modos, como a ARA verteu[26]. Essa exaltação de Eva nos faz pensar que era parte da expectativa de que a promessa divina estaria a ponto de iniciar. Em suas notas nas Escrituras, Jonatas Edwards diz:

“Na expressão de Eva, é possível que ela tenha lançados os olhas nas palavras de Deus, que sua semente iria pisar na cabeça da serpente e agora vendo que ela tinha um filho, sua fé e esperança foram fortalecidas de que a promessa deveria ser cumprida[27]”.

Calvino, do mesmo modo entende que o sentido genuíno do texto é a expressão da fé de Eva que via em seu filho o cumprimento da promessa de Deus feita no capítulo anterior, embora afirme que Eva estava enganada quanto à pessoa que esperava, que não seria através de Caim, mas de Cristo, que tal promessa seria levada à efeito[28] (Concordam com esse parece, Barnes, Gill, Keil & Delitzsch).

Essa não é a opinião exclusiva para o assunto. Clarke chega a considerar tal possibilidade, mas entende que o sentido é mais restrito, pois entende que tal conclusão seria deveras avançada para aquele período. Segundo ele, Eva apenas agradece as bênçãos de Deus[29]. John Sailhamer entende que a exclamação de Eva não é tão positiva quando Edwards nos faz pensar. Segundo ele, “as palavras de Eva foram proferidas com orgulho de modo que como o Senhor criou o homem, agora a mulher tinha criado um homem[30]”.

Entretanto, é importante notar que a expressão usada por Eva inclui o nome de Deus, Yahweh. Observe que no discurso com a serpente ela o teria chamado Deus de modo genérico (elohim), mas nesse verso faz questão de chamá-lo pelo nome que tem. Nesse contexto, usar a expressão “Deus de salvação” como reconhecimento de auxílio, certamente nos leva a concluir que Eva demonstrava sua expectativa e fé, de receber por meio das mãos de Yahweh a semente que pisaria a cabeça da serpente.

É interessante, que nesse sentido as expectativas do primeiro casal seriam firmemente frustradas. David Merck, que defende tal opinião, afirma:

“O descendente-Libertador da mulher tão esperado nasceu não como semente de vida, mas de morte.  Em vez de libertar da pena da morte, ele se tornou um assassino!  E o filho justo, em vez de esmagar a cabeça da Serpente, foi esmagado pelo próprio irmão, que mostrou-se semente (filho) da Serpente[31]

Caim: Um interessante trocadilho acontece nessa sentença entre o nome de Caim e a declaração de Eva sobre seu filho. Em hebraico, o substantivo Caim (qayim) pode significar “consegui, alcancei, adquiri”, e Eva usa a forma verbal desse substantivo ao dizer “Adquiri um varão” (qanah). Considerando esse paralelo, Krell chega a dizer que Caim é o nome hebraico do primeiro filho de Adão e Eva, mas que em português seu nome seria “consegui[32].

1.         A Religiosidade de Caim

Em poucas palavras, o livro de Gênesis nos apresenta Caim, com sua profissão e religião. Talvez o interesse do autor não fosse uma descrição detalhada sobre a vida dos irmãos, fato que podemos perceber na exclamação de Eva que chamou um infante de homem, varão.

Lavrador da Terra: A descrição profissional de Caim é essa. Gill entende que isso se deve à primogenitura de Caim, que por ser o primeiro filho assume do pai a profissão de lavrar a terra[33]. Note que expressão similar é usada em Gn.2.5 para descrever o trabalho de Adão como lavrador da terra, ou aquele que trabalha com a terra. Embora nenhuma explicação tenha sido dada para esse fato, a opção de Gill não é em si mesma errônea, apenas especulativa.

Fim de uns tempos: A expressão usada pela ARA é uma tentativa de se definir aquilo que o hebraico parece ter deixado sem definições. O uso do substantivo “yom” para descrever tempo, como já demonstramos no início do nosso comentário, não tem definição específica de tempo, e por isso as traduções aqui não são unânimes. A ACF e ARC optaram por verter esse texto por “ao cabo de dias”. A SBP optou por verter: “ao fim dum certo tempo”. Seja qual for a tradução, o sentido aqui não é a quantidade exata de tempo que se passara, mas que, em certa ocasião, depois de algum tempo passado, Caim trouxe uma oferta ao Senhor. Alguns, mais especifistas, entendem que a expressão deveria ser entendida como “ao fim de dias”, como uma alusão ao Sábado[34], entretanto, tendo a ver essa opção como um pouco especulativa demais.

Fruto da terra: Literalmente, Caim trouxe o resultado do seu trabalho. Por ser lavrador da terra, trouxe o que a terra havia produzido debaixo do seu esforço. Lembre-se que a terra após o pecado é maldita e produz cardos e abrolhos, e que sem o trabalho braçal do ser humano não seria possível o consumo. Era necessário a fadiga para que Caim pudesse tirar da terra “os Frutos da Terra”. Diante disso, não se pode dizer que a oferta em si tenha sido medíocre, nem resultado.

Uma oferta: O termo empregado aqui por Moisés não é o termo técnico usado em Levítico para descrever uma oferta para oferta (hb. qorban), mas um termo mais genérico, usado inclusive para descrever uma oferta de cerais (hb. Minchah). Note que no segundo capítulo de Levítico, Deus dá a Moisés uma legislação para tratar das ofertas de cereais, que chamamos ofertas de dedicação: “Quando alguma pessoa fizer oferta de manjares ao SENHOR, a sua oferta será de flor de farinha; nela, deitará azeite e, sobre ela, porá incenso. Levá-la-á aos filhos de Arão, os sacerdotes, um dos quais tomará dela um punhado da flor de farinha e do seu azeite com todo o seu incenso e os queimará como porção memorial sobre o altar; é oferta queimada, de aroma agradável ao SENHOR”. Essa oferta a Yahweh seria queimada e teria aroma agradável a Deus. Isso tem levado comentaristas a observarem que o problema não era a oferta em si mesma, mas a atitude do ofertante[35]. Note que Deus não rejeitaria a oferta em si, uma vez que Ele mesmo teria incluído tais ofertas como um modo de oferta legítima.

Yahweh: É interessante observar que a oferta de Caim foi a Yahweh, ou seja, uma manifestação de adoração. O texto é claro em dizer que Caim trouxe uma oferta a Yahweh. Já temos dito que não há nenhuma menção explícita de que tipo de sacrifício era esperado, mas temos por certo que Gn.3.21 parece prefigurar que existe a exigência de derramamento de sangue. É quase convenção que a oferta de Caim não foi aceita em função da falta de derramamento de sangue da sua oferta a Yahweh, contudo, temos que considerar que o texto não vai nessa direção. O texto diz que Deus não se agradou de Caim e de sua oferta. Kidner nos lembra que “tudo o que é explícito aqui é que Abel ofereceu a fina flor do seu rebanho e que o espírito de Caim era arrogante[36]”. Sailhamer entende que o texto, tomado como um todo, não nos ensina sobre que tipo de sacrifício é aceitável a Deus, mas que tipo de atitude é necessária para se ofertar a Yahweh[37]. Note que tanto a aprovação, quanto reprovação de Yahweh iniciam com a declaração pessoal: “Agradou-se o SENHOR de Abel e de sua oferta” (Gn.4.4); “ao passo que de Caim e de sua oferta não se agradou” (Gn 4:5).

O que se pode concluir sobre a adoração de Caim? Vamos tecer algumas possibilidades diante das observações que temos feito ao texto:

1.Ele pode ter rejeitado uma informação explícita de Deus sobre como Deus gostaria de ser adorado. Se esse é a ênfase principal do texto, entendemos que o modo autônomo de Caim em ofertar nos alerta para o fato de que Deus não quer ser adorado de qualquer jeito, mas que ele espera de nós uma adoração específica. Deus não quer ser adorado com sinceridade, mas do modo correto.

2.Se a ênfase recai sobre a atitude de Caim, aprendemos que Deus não se apraz da adoração desconexa com a atitude. Jonatas Edwards, considerando essa possibilidade, afirma que Caim prefigura os Fariseus[38], que faziam o que era certo do modo errado, eram peritos em conhecer o que Deus esperava, mas não eram vazios por dentro, cheios de morte.

3.É importante notar que Deus rejeita pessoas e modos de adoração não compatíveis com a que Ele determinou como certa. O cristianismo e suas desvirtudes na modernidade têm insistido que Deus aceita qualquer adoração de qualquer coração, mas a história de Caim nos lembra que um Deus Santo e Justo como Yahweh deve ser adorado, como Ele determinar que deve ser adorado.

Observe a opinião de Merck:

O problema maior com a oferta do Caim não era a oferta em si, mas o seu coração.  Não foi um ato de adoração em verdade (por não ser autorizada por Deus) e não foi em espírito.  O coração de Caim estava errado!  O texto enfatiza, “Mas com CAIM, e com sua oferta, Deus não se agradou.”  Algo no coração dele deixava a desejar . . .  talvez fosse rebeldia, talvez ressentimento, talvez indiferença, talvez apatia espiritual.  Talvez ficasse indignado que tinha que doar para um ser celestial invisível o fruto do seu suor e labor.  O que sabemos com certeza é que não foi de coração mas “de boca para fora”que ele fez sua oferta.  E os eventos que seguem verificam esse fato.  Quando repreendido por Deus, ele revela seu desgosto, sua amargura, sua hostilidade diante do Criador.  Algo horrível está acontecendo no coração dele[39]

2.         A Rebeldia de Caim

A adoração vazia de Caim não foi suficiente para comprar o favor e a benevolência de Deus. Embora Caim pudesse ter oferecido a Yahweh, ele não tinha feito como era devido, e as escrituras demonstram como Caim se rebelou contra o Senhor.

…de Caim e de sua oferta: Chamo a sua atenção a um detalhe já apresentado: Deus não se agradou de Caim em primeiro lugar. Tenho a impressão que a ordem de palavras aqui é significativa: Por não ter se agradado de Caim a oferta que trouxera também não fora aceita. Tendo a crer que a oferta segue o coração do ofertante. Não há oferta agradável se não há um coração grato por trás da oferenda. Sobre isso, Calvino nos instrui:

Não se pode duvidar, que Caim comportou-se como os hipócritas estão acostumados a fazer; ou seja, que ele queria apaziguar Deus, como um cumprimento de uma dívida, através de sacrifícios externos, sem a menor intenção de se dedicar a Deus. (…) Quando Deus vê tamanha hipocrisia, combinada com brutal escárnio manifesto contra Ele mesmo, não é surpreendente que ele odeie, seja incapaz de suportar, de onde segue-se também, que ele rejeita com desprezo os trabalhos daqueles que se afastam Dele[40]”.

É também importante olhar para as escrituras para verificarmos que impressões essa história deixou sobre os autores sagrados. Em primeiro lugar, deve-se lembrar do Apóstolo João, que diz que o problema com Caim eram suas atitudes (1Jo.3.12). Entretanto, o autor de Hebreus entende a rejeição de Deus estava ligada ao fato de que o sacrifício de Caim não tinha sido excelente (Hb.11.4). O que podemos concluir com isso é que, tanto o caráter de Caim estava em desacordo com a expectativa de Deus quanto sua oferta. Com isso, aprendemos que tanto adoração e comportamento estão intimamente ligados.

Irou-se sobremaneira: O texto não e claro em descrever como Deus teria rejeitado sua oferta, mas é claro que, pela descrição do texto, Caim se apercebeu da rejeição e isso lhe deixou irado. Contra quem Caim ficou irado o texto não é plenamente claro, mas parece evidente que a ira de Caim deu-se primeiramente contra Deus, mas que tenha se desenvolvido contra seu irmão. É interessante que, do mesmo modo que a rejeição de Deus pela oferta de Caim é visível para Caim, a ira de Caim contra Deus é plenamente perceptível para Deus.

Descaiu o Semblante: A expressão descrita quase literalmente pela ARA, descreve de modo figurado que a ira de Caim havia se tornado tão evidente que seu semblante já o testemunhava. Note o contraste entre o semblante descaído de Caim, e o rosto levantado de Deus como sinal de bênção para o povo em Nm.6.26. O contraste entre os dois tipos de semblante nos serve para descrever a situação de Caim como profundamente irado.

3.         Graça Preventiva

Note que, embora Caim tenha sido rejeitado do mesmo modo que sua oferta, Deus não havia o abandonado. O texto continua a descrever uma interação de Deus com Caim que reflete cuidado e graça.

Por que andas irado? A aproximação de Deus nesse verso não o apresenta como um Deus desinformado da razão do furor de Caim, muito pelo contrário, de forma graciosa Deus aproxima-se de Caim para auxiliá-lo com sua Ira. Sobre isso Barnes diz que “O Senhor ainda não desistiu de Caim. Em grande misericórdia Deus interage com ele. Ele coloca uma questão que demonstra que não há justa causa seus sentimentos[41]”. Kidner vê nessa aproximação de Deus “Seu apelo para a razão e Seu interesse pelo pecador [que] são assinalados tão vigorosamente como Seu interesse pela verdade e pela justiça[42]”. Do mesmo modo que Deus se apresenta como Justo nesse texto, ele também se apresenta como Gracioso. A rejeição de Caim não era definitiva, a tal ponto que Ele mesmo estava interessado na restauração de Caim.

Se procederes bem: Após sua graciosa aproximação, Deus também deixa com Caim alguns conselhos práticos para enfrentar a situação que tinha diante de si mesmo. Mas, o que poderia ser um bom procedimento para o momento? É bem verdade que nenhuma instrução específica sobre o assunto havia sido dada, mas tendo a crer que Caim teria entendido. Deffinbuag sobre isso diz: “Ainda que não saibamos os pormenores do que o “proceder bem” envolvia, Caim sabia. O problema de Caim não era falta de instrução, mas insurreição e rebelião contra Deus[43]”. De fato, essa expressão aponta, do meu ponto de vista, que a questão fundamental da rejeição era o comportamento e não a oferta em si.

Contudo, não podemos deixar de considerar que o Deus Todo-Conhecedor estava a falar com Caim e que proceder bem pode certamente implicar em não fazer o que Caim parecia predisposto a. Barnes alude ao fato de que Caim teria um caminho de retorno a uma postura aceitável diante de Deus que incluiria reconsiderar seu modo de viver, de oferecer ao Senhor com intenção correta[44].

Serás aceito: Uma breve nota deve ser feita aqui: “No hebraico, aceito é literalmente um exaltar, expressão que pode indicar um semblante sorridente contrariamente a um semblante carrancudo (descaído). Pode ser que o sentido seja o de que o simples olhar para o rosto de Caim o traia; mas provavelmente vai além, incluindo a promessa de restauração da parte de Deus sobre uma mudança de coração[45]”.

E se não fizeres bem: O leitor poderia esperar aqui uma sentença de Deus: “Se não fizeres bem, você morrerá”. Entretanto não é assim que Deus procede para com Caim. Em primeiro lugar, devemos admitir que ele já havia feito o que não era bom, com sua oferta arrogante. Contudo, em seu diálogo, Deus evidência que ele poderia manter-se nesse caminho errôneo, mas assegura que, embora não recomendável, isso não implicaria em um caminho sem retorno Aliás, é digno de nota, que o caminho que teria adotado até aqui ainda tinha retorno e Deus, graciosamente tinha se aproximado de Caim para adverti-lo. Krell, sobre isso diz:

“Isto implica claramente que Caim sabia o que era certo. Ele sabia que a qualidade da oferta a se levar e optou por não trazê-la. Ele sabia que seu coração não estava adequado, mas ele optou por não abordar a questão. No entanto, este versículo mostra também a graça de Deus, pois Caim foi ainda convidado a apresentar a oferta correta. Deus o avisou e  queria que Caim “fazesser o bem”, mas Caim endureceu o seu coração[46]

O pecado jaz à porta: O alerta de Deus é claro: O pecado estará à sua disposição para realizar todo o mal que intentar realizar. Ainda que Caim optasse pela manutenção do seu estado de rebeldia isso não lhe colocava em situação de homicida, ele ainda tinha a possibilidade de controlar sua ira. O alerta de Deus era que “um terrível ato pecaminoso estava perigosamente próximo; estava ali como um animal feroz, esperando para saltar sobre ele[47]”. Deuffinbaug sobre isso diz que “se Caim preferia ignorar a suave cutucada de Deus, que fique então completamente ciente dos perigos à sua frente. O pecado jazia esperando por ele como um animal à espreita. Queria controlá-lo, mas ele devia dominá-lo.  Caim tinha que tomar uma decisão e ficaria responsável por sua escolha[48]”.

De forma prática essas instruções de Deus para Caim podem ser entendidas como boas e más notícias, observe:

·Más notícias:

oO pecado está a nossa espera. A influência do mundo, da carne, do Diabo sempre conspiram a favor da nossa queda. Tudo o que lhe falta é oportunidade.

oO pecado nos deseja, ou melhor, nossa carne deseja o pecado. Por sermos conhecedores do bem e do mal, nos tornamos aptos a saber o certo, mas desejamos o errado.

·Boas Notícias:

oNós podemos dominar o pecado. A partir da salvação em Cristo, somos habilitados a suportar a provação, uma vez que Deus conhece nossa capacidade pessoal e não permitirá que uma tentação venha sobre nós a tal ponto que não possamos suportar. Krell usa uma figura interessante para descrever esse fato: “Quando a tentação bater à porta, nós pedimos para que Jesus atenda[49]”.

oNós podemos nos humilhar e voltar a Deus. Ainda que um erro tenha acontecido, como aconteceu com Caim, podemos ter a certeza que podemos nos voltar a Deus humildemente arrependidos por nossas faltas e prontos a aceitar Dele a devida punição graciosa que tem a oferecer para nos purificar o caráter.

4.         O assassinato de Abel

É interessante que a despeito de todos os alertas divinos Caim manteve-se obstinado eu seu furor contra seu irmão. Sua completa rejeição do conselho de Deus demonstra também que Caim dava pouco valor às palavras de Deus. A ira já tinha tomado conta de sua vida e capacidade de reflexão. Caim havia entrado naquele estágio de ignorância provocada pelo aguçar do pecado em nossa vida. Trata-se daquele ponto em que, tomado por ódio, tudo o que se pensa é em como descarregar a raiva e o ódio.

Vamos ao Campo: Por que razão ir ao campo? Uma vez que sabemos que o pecado de Caim é premeditado, temos por certo que ele não está a oferecer um passeio ao campo. Alguns comentaristas tem visto nisso uma declaração de cuidado preventivo de Caim que não queria que o crime tivesse testemunhas. De fato, quanto mais longe das pessoas, mais liberdade para apregoar sua ira Caim teria.

…se levantou Caim contra Abel: Merck vê no texto uma demonstração do tamanho da ira de Caim quando o texto demonstra por 7x que Abel era “seu irmão” (Gn.4.2, 8x2; 9x2, 10, 11)[50]. Essa descrição de relação entre Caim e Abel, como acontece no texto sugere que a atitude de Caim era absurdamente desprezível.

..e o matou:Caim não agiu segundo o conselho divino. Ele não mudou a sua oferta a Deus, tanto do ponto de vista dos sentimentos internos como da forma exterior. Apesar de se falar-lhe do céu, ele não vai ouvir (…) Quando eles estavam no campo e, portanto, fora da vista, ele se levantou contra o seu irmão e o matou. A ação foi realizada e não pode desfeita. Os motivos para isso eram diversos. O egoísmo, o orgulho ferido, ciúmes, e uma consciência culpada estavam todos em funcionamento (1Jo.3.12). Aqui, então, é pecado após pecado, o que comprova a veracidade do alerta dado na paciência misericordiosa de Deus[51]”.

A completa rejeição do conselho de Deus por Caim, fez com que Merck encontrasse em Caim um pecador irado (v.5), teimosos (v.6-7) e assassino cruel (v.8)[52]. Não é à toa que a reputação neotestamentária de Caim é tão ruim. É importante notar que todos os acontecimentos narrados no capítulo 4 são conseqüências anunciadas já na queda. A dissolução da família, a queda do amor e a entrada do ódio eram esperadas. O conhecimento do bem e o mal levou apenas o ser humano a frustração do conhecimento do bem e da maldição do desejo do mal. Agora, aquele homem que havia chegado como esperança e salvador, que pisaria na cabeça da serpente, é agora aquele que matara seu irmão. Ao invés de terminar com o domínio do inimigo, como parecia ser o esperado, ele agora é um aliado do mesmo, plenamente dominado pelo pecado e pronto a levá-lo às ultimas conseqüências.

5.         A confrontação e punição divina

É interessante que a despeito de todos os alertas divinos Caim manteve-se obstinado eu seu furor contra seu irmão. Sua completa rejeição do conselho de Deus demonstra também que Caim dava pouco valor às palavras de Deus. Entretanto, Deus não o deixa sem punição, e por ter graciosamente avisado a Caim do perigo do pecado, Deus aproxima-se a agora como inquisidor.

Onde está Abel, teu irmão? Do mesmo modo que Deus havia se aproximado de seus pais no Éden, Deus aproximasse de Caim. Tenho a impressão Deus inicia suas conversas com perguntas na expectativa de que suas criaturas tenha a oportunidade de se arrepender. Note que Deus tem plena ciência do que havia acontecido, mas não inicia sua conversa com a punição mas com uma pergunta reveladora. Sobre isso Gill diz: “Essa pergunta é feita, não por não saber onde ele estava, mas na intenção de trazer Caim à convicção e confissão do seu pecado, para tocar sua consciência com ela, e enchê-lo de remorso por isso[53]”.

Não sei: Embora a pergunta de Deus a Caim relembre o cuidado de Deus em trazer Adão ao arrependimento no Éden, a resposta de Caim reflete um avanço significativo do poder do pecado em sua constituição. Barnes sobre isso fala que a “resposta de Caim revela um recurso desesperado de falsidade, uma alienação total do sentimento, a extinção do amor fraterno, a predominância desse egoísmo que congela carinho e desperta o ódio[54]”. Keil & Delitzsch afirmam que o ato de desafiar a Deus “cresce com o pecado, e a punição acompanha a culpa. Adão e Eva temeram diante de Deus, (…) Caim corajosamente nega [o pecado][55]”.

Sou eu tutor de meu irmão? A mentira deslavada é apresentada, e como se não bastasse, ele acresce a ela um alto teor de sarcasmo: “Sou eu tutor de meu irmão?”. Deffinbaug sobre isso diz: “A insolência de Caim é incrível. Não só ele mente ao negar qualquer conhecimento sobre o paradeiro de seu irmão, mas parece censurar a Deus pela pergunta. Pode até mesmo haver um jogo sarcástico nas palavras para dar a impressão de: ‘Não sei. Deverei eu pastorear o pastor?[56][57]”.

Que fizeste? Mais uma vez Deus age misericordiosamente. Considerando a situação do diálogo, Krell afirma que “se eu fosse Deus, eu teria consumido Caim exatamente onde ele estava! Mas não o Senhor! Em vez disso, Ele pergunta a Caim uma questão de acompanhamento que é a mesma pergunta Ele perguntou Eve (3:13): “O que você fez?”[58]”. No lugar de Deus já teria perdido a paciência, como Krell, mas Deus mantém sua longanimidade e seu diálogo e caminha para a realização de sua disciplina. Deffinbaug, sobre isso nos diz:

“O solo foi amaldiçoado por causa de Adão e Eva (Gn. 3:17). Agora a terra é manchada com o sangue de um homem, e que foi espalhado por seu irmão. Esse sangue agora clama a Deus por justiça (4:10). Deus, então, confronta Caim com seu pecado. O tempo para arrependimento já passou e agora a sentença é dada a Caim pelo Juiz da terra[59]”.

És maldito sobre a terra: A sentença iniciada por Yahweh contém claras evidências de seu Juízo. É Calvino que diz: “Caim, depois de ter sido condenado pelo crime, o julgamento é agora pronunciado contra ele. E em primeiro lugar, Deus constitui a terra do ministro de sua vingança, por ter sido contaminada pelo parricídio ímpio e horrível[60]”.

Quando lavrares a terra: É interessante que Deus inicia a sentença de Caim com o que ele supostamente tinha de melhor, o seu trabalho como lavrador. A terra já havia sido amaldiçoada, e tal maldição teria intensificado seu trabalho. Mas, com a maldição proferida por Deus, nem no seu trabalho Caim poderia ter prazer novamente. É Deffinbaug que diz:

“Caim tinha sido abençoado com um “polegar verde”. Ele tentou se aproximar de Deus através do fruto de seu trabalho. Agora Deus o amaldiçoou bem onde residia sua força e seu pecado. Nunca mais Caim seria capaz de se sustentar pelo cultivo do solo. Enquanto que Adão teve que obter seu sustento pelo suor de seu rosto (3:19), Caim não poderia nem sobreviver pela agricultura. Para ele a maldição do capítulo três foi intensificada. Para Adão a agricultura foi difícil; para Caim foi desastrosa[61]

Keil & Delitzsch nos lembram que tal punição não era demasiada, pois “a terra foi obrigada a beber o sangue inocente,[e] ela se rebela contra o assassino, e quando ele cultivá-la, ela irá retirar a sua força, de modo que a terra não possa produzir[62]”. Se o homem havia sido criado para encontrar no trabalho satisfação, Caim está fadado a nem nisto ter satisfação. “Ele foi banido para uma parte menos produtiva da terra, removida da presença de Deus e da sociedade de seu pai e sua mãe, e abandonado a uma vida errante e incerteza. A sentença de morte já tinha sido pronunciada sobre o homem[63]”.

…serás fugitivo e errante pela terra: O aspecto final da punição de Deus para Caim seria a vida de um “vagabundo”. O termo hebraico usado para descrever o castigo de Caim como fugitivo é o mesmo termo que Deus emprega para destinar o povo de Israel no futuro a vagar pelo deserto. O sentido é claramente um desalojar de Caim, para que perca os benefícios da vida próxima a família (com quem ele parece não conviver bem) para que viva à mercê da benevolência de outras pessoas, pois sua sentença de morte já estava lançada. Dois substantivos similares são usados nessa sentença e o sentido é reforçar a idéia. Invés de se tomar como duas características como a ARA fez, seria adequado tomá-las como descrição de uma mesma ação, como a BJ: “Serás fugitivo errante”.

Não posso suportá-lo: Ao ouvir sua sentença Caim admite ser demasiadamente pesado o seu fardo. A questão de Caim era que a punição parecia desproporcional com o crime, e como poderíamos esperar, Caim está unicamente preocupado consigo mesmo. Observe que em uma pequena sentença (v.13-14) ele conseguiu empregar o pronome pessoal 7x vezes. Sobre isso Krell diz:

Tudo com o que Caim se preocupava era ele mesmo. Não foi medo ou reverência a Deus, não para lamentar a perda de vidas inocentes, não há tristeza pelo pecado, e nenhum pensamento para os seus pais que perderam um filho tragicamente com o assassinato e estaria perdendo uma outra por causa da rebelião. Houve apenas uma preocupação consigo mesmo. O assassino tem medo de ser morto[64]”.

É interessante que o assassino tenha medo de morrer, mas é um fato que o pecador tem que encarar. O mentiroso sempre está alerta a mentira, o infiel sempre desconfiado, o ladrão sempre receoso. O pecado marca de tal forma o pecador que o que ele faz para outros, espera receber de outros. É por isso que Deffinbaug diz:

“As palavras de Caim soam familiares a qualquer pai. Às vezes uma criança está sinceramente triste por sua desobediência. Em outras está apenas triste por ter sido pega, e lamenta amargamente a severidade do castigo que vai receber. Tudo o que Caim faz é repetir amargamente sua sentença, e expressar seu medo de que os homens o tratem da mesma maneira que ele tratou seu irmão[65]”.

Qualquer que matar a Caim: Apesar da punição, Deus também ofereceu uma promessa. A declaração não era uma garantia de que Caim não seria assassinado, mas de que, aquele que o matasse, teria sobre si a vingança punitiva de Deus multiplicada por sete. Isso significa que a punição contra essa pessoa será “sete vezes maior do que Caim, ou seja, ele deve ser extremamente punido; a vingança deve ser tomada sobre ele de uma forma muito visível, e em outro patamar, mais elevado[66]”. O targum de Onkelos sugere que a punição será em sete gerações, o que demonstra que o entendimento da passagem era de uma vingança ainda maior contra Caim. O sentido dessa punição demonstra para Caim que, embora ele mesmo não tenha dado valor a vida humana, Deus a valoriza de tal modo que garante que Caim não seja morto.

Pôs o Yahweh um sinal: A demonstração da Graça de Deus avança ainda mais, pois além de assegurar que o assassinato de Caim seria vingado pelo próprio Deus, Yahweh coloca um sinal em Caim com o objetivo de protegê-lo de pessoas que o encontrassem. Não temos certeza de que tipo de sinal o texto está nos falando. Três propostas são oferecidas: (1) Um sinal físico, como quem sabe uma marca na pele, uma espécie de tatuagem. (2) Um evento; um sinal como um evento que relembre os homens do valor da vida humana; (3) Antigos rabinos chegaram a afirmar que um cachorro iria ao lado de Caim como proteção. Embora não saibamos com exatidão que tipo de sinal é esse, é certo que o objetivo esse sinal era a proteção da vida de Caim, que protege a Caim da recriminação.

E saiu Caim da presença de Yahweh: O retrato final da sentença de Caim é similar ao que vemos em Adão e Eva, que foram colocados fora do Éden, mas de Caim é dito que ele foi expulso da Presença de Yahweh. A impressão que temos com essa declaração é que Deus encaminhou Caim a vaguear pela terra, e ele foi. Agora sem alternativas, Caim parece ter cumprido a primeira ordem de Deus. “O retirada de Caim da proximidade do afeto dos pais, dos relacionamentos familiares, e da manifestação divina, deve ter sido acompanhada de profundo e ulterior sentimento de arrependimento e remorso. Mas um profundo e recorrente transgressor e ele deve sofrer as conseqüências[67]”.

Terra de Node:O nome Node denota uma terra de transição e exílio, em contraste com Éden, a terra do deleite, onde Yahweh andava com o homem[68]”. “Alguns sugerem que este versículo deve ser assim traduzido: ‘e Caim saiu da presença do Senhor, a leste do Éden, e habitou como um errante na terra’; assim a maldição pronunciada sobre ele em Gn.4.12, foi realizada[69]”.

B.     Abel Sacrifício e Martírio

O outro filho de Adão e Eva apresentados nessa narrativa parece não ter tido especial atenção, como o seu próprio nome parece sugerir. O termo hebraico que origina o nome Abel é “hebel”, que no texto não é definido, mas é entendido como sopro, vaidade e alguns pensam que isso se refere à sua vida de poucos anos sobre a terra. Tenho a impressão que Abel é assim denominado em função de uma expectativa já suprida por Caim, como o descendente da mulher que findaria o domínio da serpente.

Note que nenhuma declaração a respeito de Abel é dada no texto. Sobre Caim, Eva apresenta uma bela afeição, ao passo que nada mais se diz se não que Abel era pastor de ovelhas. A completa faltar de informações, além de nome e profissão, nos faz pensar que Caim tinha sido o filho esperado e que Abel teria vindo como conseqüência natural da existência humana.

Alguns pensam que Caim e Abel eram gêmeos[70], opção que não parece descrever a situação dos irmãos. O que se tem por certo é que a história de Caim e Abel parece iniciar a visão bíblica de que nenhum primogênito seria de fato o filho de quem Deus se apraz, ou escolhe, até que O Primogênito da Criação apareceu sobre a terra, Deus encarnado.

1.         A Adoração de Abel

O que podemos perceber é que, a semelhança de Caim, Abel também se aproximou de Deus com sua oferta. Entretanto a descrição de sua oferta é tanto diferente do que se vê com Caim.

Pastor de Ovelhas: Abel era um pastor de ovelhas (2), uma profissão nobre, pois numa época em que os homens ainda não comiam carne (veja 9.3), ovelhas serviriam para pelo menos 2 propósitos: 1) Cobrir a nudez do homem, que tem precedente no próprio ato de Deus (3.21) e 2) Servir de oferta, um sacrifício pelo pecado, também conforme o modelo de Deus (3.21)[71].

Primícias de seu Rebanho: Note que a oferta de Abel foi similar a oferta feita por seu irmão Caim. Caim era lavrador e ofereceu o fruto do seu trabalho. Abel era pastor de ovelhas e trouxe a Yahweh o fruto do seu trabalho. Por outro lado, note que o silêncio agora é sobre a qualidade da oferta dada por Caim. A oferta de Abel era uma oferta das suas primícias. O termo hebraico “bekowrah” é usado poucas vezes no AT, e normalmente significa primogênito (Gn.43.33), ou até mesmo primogenitura (Gn.25.31). O sentido expresso aqui é bem captado pelas antigas versões portuguesas que verte a expressão como “primogênitos do seu rebanho”. A idéia que se tem desse texto é que Abel trouxe o que tinha de melhor. Seria isso um contraste com a oferta de Caim? Diante do caráter que Caim apresenta nesse capítulo não seria de se estranhar que sua oferta tivesse sido de baixa qualidade. Contudo, sobre isso, podemos apenas inferir. O que é certo é que Abel ofereceu do que tinha de melhor.

Yahweh se agradou de Abel e sua oferta: Como já temos demonstrado, Deus se agrada primeiramente de Abel e conseqüentemente de sua oferta. Isso me sugere que tal ordem é importante: A aceitação da oferta depende do coração do ofertante. Como Abel pode perceber que Deus aceitou sua oferta? O texto não especifica e muitas especulações são feitas sobre o assunto. “O olhar do Senhor em todo caso, é um sinal visível de satisfação. É opinião comum e antiga que o fogo consumiu o sacrifício de Abel e, assim, mostrou que foi gentilmente aceitou[72]”. Seja como for, tanto aprovação como reprovação foram claramente percebidos por Caim e Abel.

2.         A Reputação Bíblica de Abel

O texto de Gênesis 4 nos oferece poucas informações sobre Abel, contudo sua reputação transcende as páginas do Antigo Testamento. Autores neotestamentário ao lançarem os seus olhos sobre o AT encontraram em Abel definições de um homem digno de atenção.  Sua fé, oferta, atitude e caráter são apresentados no NT como declaração de um homem justo.

Diante disso, comentaristas tem afirmado que Abel é, sem dúvidas, um exemplo para os cristãos em todos os tempos. Merckh, por exemplo, entende que Abel “representa o povo de Deus, fiel, com coração sincero, inocente, que adora a Deus em espírito e verdade, resplandescendo como luzeiros no mundo pervertido e corrupto[73]”.

Caráter: Ainda sobre Abel, Jesus afirma: “Por isso, eis que eu vos envio profetas, sábios e escribas. A uns matareis e crucificareis; a outros açoitareis nas vossas sinagogas e perseguireis de cidade em cidade para que sobre vós recaia todo o sangue justo derramado sobre a terra, desde o sangue do justo Abel até ao sangue de Zacarias, filho de Baraquias, a quem matastes entre o santuário e o altar” (Mt.23.34-35). Com esses dois versos aprendemos:

1.Que Jesus reputava a Abel como um profeta: “eis que eu vos envio profetas”. Não sabemos ao certo que tipo de profeta ele teria sido, mas o fato de Jesus iniciar por Abel e finalizar com Zacaraias (uma impressionante demonstração da extensão do Canon vétero-testamentário) confirma a idéia que Jesus tinha a respeito de Abel.

2.Que Jesus reputava a Abel como um mártir: “o sangue justo derramado sobre a terra”. Abel é listado como o primeiro que morreu, cujo sangue será Vingado por Deus (Ap.6.9-10).

3.Que Jesus reputava Abel como Justo: “o sangue justo derramado sobre a terra, desde o sangue do justo Abel até ao sangue de Zacarias”. Duas vezes Jesus usa o termo “justo” (Gr. diakiós) para descrever a Abel, uma vez em referência a seu sangue e outro em relação a sua pessoa.

Oferta: No que se refere à sua oferta, o autor de Hebreus nos diz: “Pela fé, Abel ofereceu a Deus mais excelente sacrifício do que Caim; pelo qual obteve testemunho de ser justo, tendo a aprovação de Deus quanto às suas ofertas. Por meio dela, também mesmo depois de morto, ainda fala” (Hb.11.4). Desse texto retiramos as seguintes observações:

1.O autor de Hebreus entendeu que o sacrifício de Abel teria sido mais excelente, o que sugere a diferença de qualidade entre as ofertas. Alguns tem objetado à essa conclusão, em função de que o uso normal do adjetivo “pleíona” descreve algo maior em quantidade (Mt.21.36; Mc.12.43; Lc.21.3). Contudo, o sentido qualitativo do termo é claramente encontrado no NT (Mt.6.25; 12.41, 42; Mc.12.33; Lc.11.31, 32; 12.23) e perfeitamente concebido aqui em Hebreus.

2.O autor de Hebreus defende que Abel, em função da sua oferta, teria o testemunho de ser justo. De onde proveio tal testemunho? O autor de Hebreu diz que sua oferta, apesar de ter sido ele morto, ainda fala. Ou seja, o exemplo registrado em Gênesis serve como fundamento para se descrever Abel como um homem justo. O termo justo (Gr. dikaiós) descreve uma pessoa honesta, boa, reta. Essa definição do caráter de Abel é confirmado pela opinião de Jesus a seu resepeito.

3.O autor de Hebreus confirma o fato de que a oferta de Abel fora aprovada por Deus. Na verdade o termo que descreve aprovação é testemunhar (Gr.martureö). O sentido aqui é que Deus testificou sua oferta e a aceitou.

4.O autor de Hebreus também defende que a oferta de Abel teria sido pela fé. É bem possível que Abel tenha sido fiel a Deus no exercício de sua adoração, ao passo que seur irmão teria inventado seu próprio modo de adorar a Yahweh.

Atitudes: Sobre Abel, o apóstolo João diz: “Porque a mensagem que ouvistes desde o princípio é esta: que nos amemos uns aos outros não segundo Caim, que era do Maligno e assassinou a seu irmão; e por que o assassinou? Porque as suas obras eram más, e as de seu irmão, justas” (1Jo.3.11-12). A equiparação que João oferece entre Caim e Abel demonstram ao menos que as atitudes de Abel seguiam seu caráter, conforme já demonstrado por Jesus e o autor de Hebreus. Era de se esperar que um homem cujo caráter é justo, que suas ações seguissem seu caráter.

C.     Sete: Manutenção e Graça de Deus

Um dos detalhes que não se vê em Gênesis 4 é a reação dos pais, Adão e Eva, ao perderem em um curto período de tempo, dois filhos. Ao matar Abel, Caim é feito vaguear pela terra como errante e distante de seus familiares. É bem verdade que Adão e Eva tiveram filhos e filhas, contudo Moisés lança luz sobre mais um dos seus filhos: Sete.

1.         Deus Renova a Esperança

A impressão que temos ao ler Gn.4 é que aparentemente a promessa de Gn.3.15 parece estar mais longe do cumprimento do que se esperava. Enquanto as expectativas de Eva pareciam favorecer Caim como o descendente que terminaria o domínio da serpente, ele acabou por se tornar o assassino de seu irmão.

Esta passagem completa o relato da família de Adão. Desse ponto em diante, nós geralmente encontramos com duas linhas paralelas da narrativa, como a família humana está dividida em dois grandes ramos, com interesses opostos e tendências. A principal linha refere-se ao resto da raça que está em termos de reconciliação aberto com Deus, enquanto uma linha colateral demonstra, tanto quanto necessário, o estado daqueles que partiram do conhecimento e no amor do Deus verdadeiro[74]

…a quem pois o nome de Sete: É interessante notar que o trocadilho realizado por Eva ao fala sobre Caim, acontece doutra forma aqui. O termo hebraico “Sheth”, que foi transliterado como descrição do nome de Sete, é uma forma similar do verbo “Shyit” que significa apontado, indicado, concedido. Assim, mais uma vez o nome do descendente de Adão tem alguma relação com a declaração de Eva. “Eva esperou pela salvação através de seu primeiro filho, Caim. Certamente não viria dele ou de seus descendentes. Nem poderia vir de Abel. Mas um outro filho foi dado, cujo nome, Sete, significa “apontado” (ou nomeado). Ele não foi apenas um substituto para Abel (verso 25), ele foi o descendente através do qual nasceria o Salvador[75]”. Sobre isso, Clarke completa:

“Eva deve ter recebido, nesta ocasião, alguma comunicação divina, mais como ela poderia saber que o filho foi nomeado no lugar de Abel, para continuar essa linha de santo pelo qual o Messias estava para vir? Daí se vê que a linha do Messias foi determinado desde o início, e que não foi corrigido pela primeira vez nos dias de Abraão, a promessa era então apenas renovado, e que o ramo de sua família designada por que a linha foi sagrado deve ser prosseguido. E é digno de nota, que a posteridade de Sete só continuou após o dilúvio, quando todas as outras famílias da terra foram destruídos[76]

Deus me concedeu outro descendente: Um detalhe interessante é observado aqui: Eva não usa o nome de Deus. Alguns tem sugerido que sua fala representa uma certa decepção, e por isso evita o nome do Senhor. Contudo, segundo a narrativa é perceptível que ela está aliviada com a possibilidade de ver a promessa de Gn.3.15 cumprida pelo substituto de Abel. O uso do termo mais genérico para descrever a Deus (hb. Elohim) apenas demonstra como esses dois termos são intercambiáveis. Keil & Delitzsch vêem ainda outra razão para o fato:

“O que Caim (maldade humana) tira dela [Eva], Elohim (onipotência divina) havia restaurado restaurado. Devido a essa antítese que chama o doador Elohim, em vez do Yahweh, e não porque as suas esperanças tinham sido, infelizmente, deprimidas por sua experiência dolorosa em conexão com o primogênito[77]

2.         Deus restaura a verdadeira Adoração

A narrativa de Abel e Caim demonstra um fato interessante: ainda que os seres humanos em sua estrema vileza e maldade possam agir contra os propósitos de Deus, o Soberano Senhor, Yahweh, detém o controle de toda a história e está comprometido em cumprir sua palavra e por isso Seus Planos não são frutrados. Ainda que Caim intentasse contra o Senhor, Yahweh age misericordiosamente com Caim e com seus pais, dando-lhe um filho que seria progenitor de um povo que passou a invocar o nome do Senhor.

…pôs o nome Enos: A descrição da curta genealogia apresentada de Sete no capítulo 4 serve como ilustração da distinção entre a descendência de Caim e Abel. Enquanto os descendentes de Caim são marcados pela maldade, vingança, sentimento de soberba e assassinato, a descendência de Sete, o substituto de Caim, é marcado pela verdadeira adoração a Yahweh. Tudo o que sabemos sobre Enos é que ele é conectado com Sete e Noé, sendo considerado na maior genealogia do povo de Yahweh em 1Crônicas (1Cr.1.1) e associado a Cristo em sua genealogia (Lc.3.38). Essa relação entre Sete e Cristo demonstra historicamente que a promessa de Deus foi plenamente cumprida e demonstra definitivamente que Seus Planos não podem ser frustrados (Jo.42.2).

É interessante que alguns comentaristas, como Keil & Delitzsch, defendem que o nome de Enos deriva de um verbo que significa ser fraco, frágil o que designa a sua condição frágil e mortal. Sobre o assunto, ainda acrescenta que “neste nome, portanto, o sentimento e o conhecimento da fraqueza humana e sua fragilidade foram expressos[78].

Invocar o Nome do Senhor: O que significa a expressão “invocar o nome do Senhor” é fruto de debates. Uma opinião interessante é que a partir de Enos, os seres humanos passaram se chamarem pelo nome do Senhor. Ou seja, não trata-se primeiramente de uma adoração, mas de uma identidade adoradora. Sobre isso Clarke diz: “os homens começaram a chamar-se pelo nome do Senhor, essas palavras demonstram que no tempo de Enos os verdadeiros seguidores de Deus começaram a distinguir-se, e ser distinguido por outros, pela denominação de filhos de Deus[79]”.

Ross opta por ver nessa expressão da proclamação do nome de Yahweh[80]. Uma vez que o termo hebraico  “shem” (nome) é seguida do nome próprio Yahweh, e que o mesmo termo é empregado para descrever o caráter ou atributos de uma pessoa (Is.9.6), pode-se supor que o texto trata da proclamação da Pessoa e Caráter de Yahweh. Walter Elwell, de modo similar, entende que o texto fala da adoração pública a Yahweh. Para ele o texto trata da inauguração da verdadeira adoração a Yahweh (Gn.12.8, 13.4; 16.13; 21.33; 26.25) [81]. Wlatke entende que pelo fato de Enos significar fraqueza, fragilidade, a humanidade voltou-se para Deus em adoração (Sl.149.6) [82]. Finalmente, Krell entende que todas essas declarações aponta para o fato de que o homem não irá voltar-se a Deus enquanto não reconhecer sua fragilidade e inabilidade de agradar a Deus em sua própria força. Assim, “o primogênito de Caim e seus sucessores foram pioneiros na civilização, enquanto o primogênito e seus sucessores foram pioneiros na adoração[83]”.

Seja como for, em Enos vemos o início da progressão da fé, que suponho ter sido passada desde Adão. O fato de o texto dar a entender que os homens passaram a se considerar filhos de Deus, certamente será elucidativo no capítulo 6, onde muitas dificuldades também são apresentadas.


[1] MILLAN, John, The Genesis Genealogy. (http://www.reasons.org/genesis-genealogies).

[2] LUTERO, Martinho, The Creation: A Commentary on the First Five Chapters of the Book of Genesis. Pp.449. IN: KVASNICA, Andrew P., The Ages of the Antediluvian Patriarchs In Genesis 5. (http://bible.org/article/ages-antediluvian-patriarchs-genesis-5#P18_3332).

[3] CALVINO, João, Commentary on Genesis. (http://www.ccel.org/ccel/calvin/calcom01.html).

[4] KIDNER, Derek, Gênesis – Introdução e Comentário. pp.78

[5] IDEM, Ibid.

[6] GREEN, Willian Henry, Are there gaps in the biblical genealogies? (http://www.reasons.org/are-there-gaps-biblical-genealogies).

[7] KIDNER, Derek, Gênesis – Introdução e Comentário. pp.78.

[8] Simon Melov et al., “Extension of Life Span with Superoxide Dismutase/Catalase Mimetics,” Science 289 (2000), 1567-69. Judith Campisi, “Aging, Chromatin, and Food Restriction—Connecting the Dots,” Science 289 (2000), 2062-63. “Science Switched Sides: Part 1,” Facts for Faith 1 (Q1 2000), 29. Hugh Ross, The Genesis Question: Scientific Advances and the Accuracy of Genesis (Colorado Springs: NavPress, 1998), 119-21.

[9] FAZALE, Rana, ROSS, Hugh, DEEM, Richard, Long life spam: “Adam lived 930 years and then died”. (http://www.reasons.org/long-life-spans-adam-lived-930-years-and-then-he-died).

[10] GEISLER, Norman, HOWE, Thomas, Manual Popular de Dúvidas, Enigmas e “Contradições” da Bíblia. Pp.44.

[11] WALTKE, Bruce K., Genesis, 114. IN: KVASNICA, Andrew P., The Ages of the Antediluvian Patriarchs In Genesis 5. (http://bible.org/article/ages-antediluvian-patriarchs-genesis-5#P18_3332).

[12] PLAUT, W. Gunther, The Torah: A Modern Commentary: Genesis, 55. IN: KVASNICA, Andrew P., The Ages of the Antediluvian Patriarchs In Genesis 5. (http://bible.org/article/ages-antediluvian-patriarchs-genesis-5#P18_3332).

[13] KVASNICA, Andrew P., The Ages of the Antediluvian Patriarchs In Genesis 5. (http://bible.org/article/ages-antediluvian-patriarchs-genesis-5#P18_3332).

[14] IDEM.

[15] Wenham, Genesis 1-15, 133.

[16] Hasel, “The Meaning of the Chronogenealogies of Genesis 5 and 11,” 65. Esse autor entende que a relação parece forçada..

[17] JACOBS, Joseph, “Chronology” – Jewish Encyclopedia,  66-67. IN: KVASNICA, Andrew P., The Ages of the Antediluvian Patriarchs In Genesis 5. (http://bible.org/article/ages-antediluvian-patriarchs-genesis-5#P18_3332).

[18] WESTERMANN, Genesis 1-11: A Commentary, 354. IN: KVASNICA, Andrew P., The Ages of the Antediluvian Patriarchs In Genesis 5. (http://bible.org/article/ages-antediluvian-patriarchs-genesis-5#P18_3332).

[19] GREEN, Willian Henry, Are there gaps in the biblical genealogies? (http://www.reasons.org/are-there-gaps-biblical-genealogies).

[20] WALVOORD, John, F., Todas as profecias da Bíblia. Pp.20.

[21] FINLAY, Matthew, Salvation from sin. (http://bible.org/seriespage/chapter-ten-salvation-sin)

[22] WALVOORD, John F., Series in Christology—Part 4: The Preincarnate Son of God. (http://bible.org/seriespage/series-christology%E2%80%94part-4-preincarnate-son-god).

[24] FISHER, Gary, Onde Caim encontrou sua esposa? (http://www.estudosdabiblia.net/bd16.htm)

[25] ROSS, Hugh, Finding a wife for Cain. (http://www.reasons.org/finding-wife-cain-0).

[26] KIDNER, Derek, Gênesis – Introdução e Comentário. pp.69.

[27] EDWARDS, Jonathan, Notes on The Scriptures. (e-sword.net).

[28] CALVINO, João, Commentary on Genesis. (http://www.ccel.org/ccel/calvin/calcom01.html).

[29] CLARKE, Adam, Adam Clarke`s Commentary on the Bible. (http://www.godrules.net/library/clarke/clarke.htm)

[30] SAILHAMER, John, Genesis. Pp.60.

[32] KRELL, Keith, Raising Cain (Genesis 4.1-26). (http://bible.org/seriespage/raising-cain-genesis-41-26).

[33] GILL, John, Gill`s Exposition of the entire Bible. (http://www.freegrace.net/gill/).

[34] Jamieson, Fausset, Brown, John Gill, Adam Clarke

[35] Cf. NET Bible notes (http://net.bible.org/bible.php?book=Gen&chapter=4), Kidner, pp.70.

[36] KIDNER, Derek, Gênesis – Introdução e Comentário. pp.70.

[37] SAILHAMER, John, Genesis. Pp.60.

[38] EDWARDS, Jonathan, Notes on The Scriptures. (e-sword.net).

[40] CALVINO, João, Commentary on Genesis. (http://www.ccel.org/ccel/calvin/calcom01.html).

[41] BARNES, Albert, Notes on the Bible.

[42] KIDNER, Derek, Gênesis – Introdução e Comentário. pp.70.

[43] DEFFINBAUG, Bob, The fruits of the Fall. Bible.org (http://bible.org/seriespage/fruits-fall-genesis-41-26).

[44] BARNES, Albert, Notes on the Bible.

[45] KIDNER, Derek, Gênesis – Introdução e Comentário. pp.70.

[46] KRELL, Keith, Raising Cain (Genesis 4.1-26). (http://bible.org/seriespage/raising-cain-genesis-41-26).

[47] KEVAN, E.F., Gênesis – Novo Comentário da Bíblia. Vol.1, pp.88.

[48] DEFFINBAUG, Bob, The fruits of the Fall. Bible.org (http://bible.org/seriespage/fruits-fall-genesis-41-26)

[49] KRELL, Keith, Raising Cain (Genesis 4.1-26). (http://bible.org/seriespage/raising-cain-genesis-41-26).

[51] BARNES, Albert, Notes on the Bible.

[53] GILL, John, Gill`s Exposition of the entire Bible. (http://www.freegrace.net/gill/).

[54] BARNES, Albert, Notes on the Bible.

[55] Keil & Delitzsch, Commentary on the Old Testament.

[56] Gerhard VonRad, Genesis (Philadephia: The Westminster Press, 1972), p. 106.

[57] DEFFINBAUG, Bob, The fruits of the Fall. Bible.org (http://bible.org/seriespage/fruits-fall-genesis-41-26)

[58] KRELL, Keith, Raising Cain (Genesis 4.1-26). (http://bible.org/seriespage/raising-cain-genesis-41-26)

[59] DEFFINBAUG, Bob, The fruits of the Fall. Bible.org (http://bible.org/seriespage/fruits-fall-genesis-41-26)

[60] CALVINO, João, Commentary on Genesis. (http://www.ccel.org/ccel/calvin/calcom01.html).

[61] DEFFINBAUG, Bob, The fruits of the Fall. Bible.org (http://bible.org/seriespage/fruits-fall-genesis-41-26)

[62] Keil & Delitzsch, Commentary on the Old Testament.

[63] BARNES, Albert, Notes on the Bible.

[64] KRELL, Keith, Raising Cain (Genesis 4.1-26). (http://bible.org/seriespage/raising-cain-genesis-41-26)

[65] DEFFINBAUG, Bob, The fruits of the Fall. Bible.org (http://bible.org/seriespage/fruits-fall-genesis-41-26)

[66] GILL, John, Gill`s Exposition of the entire Bible. (http://www.freegrace.net/gill/).

[67] BARNES, Albert, Notes on the Bible.

[68] Keil & Delitzsch, Commentary on the Old Testament.

[69] CLARKE, Adam, Adam Clarke`s Commentary on the Bible. (http://www.godrules.net/library/clarke/clarke.htm)

[70] Adam Clarke, John Gill apresenta a possibilidade.

[72] Keil & Delitzsch, Commentary on the Old Testament.

[74] BARNES, Albert, Notes on the Bible.

[75] DEFFINBAUG, Bob, The fruits of the Fall. Bible.org (http://bible.org/seriespage/fruits-fall-genesis-41-26)

[76] CLARKE, Adam, Adam Clarke`s Commentary on the Bible. (http://www.godrules.net/library/clarke/clarke.htm)

[77] Keil & Delitzsch, Commentary on the Old Testament.

[78] Keil & Delitzsch, Commentary on the Old Testament.

[79] CLARKE, Adam, Adam Clarke`s Commentary on the Bible. (http://www.godrules.net/library/clarke/clarke.htm)

[80] Uso desta expressão no Pentateuco apoia mais a ideia da proclamação mais do a da oração (cf. Gn 12:8; Êxodo 34:6, Levítico 1:1). O significado do [termo hebraico] shem, “nome”, também exige a interpretação, já que a palavra é, na verdade, seguido do nome próprio. A palavra “nome” também se refere a características ou atributos (ver Isaías 9:6). A ideia desta linha é que as pessoas começaram a fazer a proclamação sobre a natureza do Senhor (“começou a fazer a proclamação do Senhor por nome”).. Ross, Creation & Blessing, 169. IN: KRELL, Keith, Raising Cain (Genesis 4.1-26). (http://bible.org/seriespage/raising-cain-genesis-41-26)

[81]Muito antes de Deus revelar-se plenamente como o Senhor a um povo chamado Israel (Ex 3:6), ou até mesmo para os patriarcas, há pelo menos um pequeno grupo de pessoas que compreender a identidade do verdadeiro Deus. Cf. Walter A. Elwell, ed., Evangelical Commentary on the Bible (Grand Rapids: Baker, 1989), Electronic Ed. IN: KRELL, Keith, Raising Cain (Genesis 4.1-26). (http://bible.org/seriespage/raising-cain-genesis-41-26)

[82] Waltke, Genesis, 101. IN: IN: KRELL, Keith, Raising Cain (Genesis 4.1-26). (http://bible.org/seriespage/raising-cain-genesis-41-26)

[83] KRELL, Keith, Raising Cain (Genesis 4.1-26). (http://bible.org/seriespage/raising-cain-genesis-41-26)

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