Decepcionados com a Graça – Uma Análise (2/4)


A. As origens do Movimento Neopentecostal

Paulo Romeiro (PR) defende em primeiro lugar que o neopentecostalismo tem suas raízes no pentecostalismo (pp21), que por sua vez pode ter conexão com antigos movimentos históricos como o Montanismo (pp.23). PR traça a influência do movimento peitista da Alemanhã protestante para o desenvolvimento do Pentecostalísmo, que já tem sido chamado de clássico.

PR cita Mendonça como demonstração de um detalhe importante sobre tal influência:

“O espírito pietista, ao desenvolver uma antiteologia, fecha as portas da reflexão, não permite que as inquietações sociais agitem a instituição. Desse modo, a instituição, assim como a vivência religiosa do cotidiano, pode pairar acima das contradições sociais” (pp.29)

Dentre tantas virtudes que poderiam ser encontradas nesse moviemento, como o apreço às escrituras, o movimento Pentecostal aproveita o que se tinha de menos valoroso no movimento pietista: O apego à ignorância. É por isso que PR afirma que, “por influência do movimento pietista, experiência e emoção se otrnaram elementos vistais para a existência da fé pentecostal” (pp.29).

PR também defende a influência do Metodismo na formação do movimento Pentecostal. Segundo o mesmo autor, o aspecto que se aproveitou de John Wesley, o Pai do Metodismo, foi a idéia da ”segunda bênção” ou como ficou mais conhecido o “batismo com o Espírito Santo” (p.30).

Essas idéias características de outros grupos acabaram por forjar o que ficou conhecido como Teologia Pentecostal. Sob influência de outros homens marcos na história do pentecostalismo como, Charles Parhan, Willian Seymour (o profeta negro), Daniel Berg e Gunnar Vingrenn (fundadores da Assembléia de Deus) e Lois Francescon (fundador da Congregação Cristã do Brasil), o pentecostalismo defendeu fortemente (ao menos na origem do seu movimento) o batismo do ES, experiência que “era sempre acompanhada da manifestação de línguas, profecias e orações em alta voz, que ocorriam junto com cânticos espirituais” (pp.32).

No Brasil o pentecostalismo iniciou sua jornada com a Congregação Cristã do Brasil em 1910 (pp.34) com uma congregação iniciada por G. Lombardi e Lucia Menna (pp.35) a partir da conversão do ateu Vicenzo Pievani e mais nove pessoas.

Pouco tempo depois chegou ao Brasil a Assembléia de Deus por meio do trabalho de Daniel Berg e Gunnar Vingren no Pará. PR nos conta que “assim que aprenderam um pouco da língua, começaram a evangelizar e a disseminar a doutrina pentecostal, principalmente o batismo no Espírito Santo com o falar em línguas” (p.38), que se tornaria a característica fundamental na primeira fase do pentecostalismo no Brasil, que a partir de 50 ganharia outras características e ênfases (pp.39).

Com a chegada da Igreja do Evangelho Quadrangular chegou a Brasil em função do trabalho de Harold Willians, que já havia trabalhado na Bolívia antes de chegar a São Paulo. A principal característica desse movimento, além daquelas já vistas na Assembléia de Deus e Congregação Cristã, era a ênfase na cura divina (pp.41). Citando Duncan A. Reily, PR atesta:

“A principal preocupação do pentecostalismo é o Espírito Santo e seus dons. A declaração de fé da Igreja Quadrangular ilustra este reducionismo doutrinário. Ele se preocupa pouco com grandes temas teológicos clássicos (…) Toda ênfase cai nos quatro ‘ângulos’: Salvação em Cristo, batismo do Espírito Santo, a cura divina e a iminente vinda de Cristo e suas conseqüências” (pp.41).

PR também cita outros exemplos de igrejas que carregavam esses distintivos teológicos, como Brasil pra Cristo (pp.40), Deus é Amor (p.42) e a  Igreja Nova Vida (pp.44) “de onde sairiam os principais líderes do neopentecostalismo brasileiro, como Edir Macedo, R.R. Soares”. Todos esses ministério defendem os ideiais pentecostais (batismo no ES e ênfase em curas) e a rejeição ao estudo teológico herdada dos pietistas. No caso da Deus é Amor, o fiel é proibido de estudar teologia ou até cursos bíblicos em outras igrejas (pp.43).

A partir dessas considerações PR inicia sua demonstração de como o neopentecostalismo herdou tais ideais, os levou a outras proporções e como ouras ênfases rapidamente adentraram o movimento. Antes, entretanto, PR demonstra por que deve-se considerar o neopentecostalismo como movimento e não como uma demoninação (pp.47-49) e também demonstra que o pentecostalismo em sua última forma tornou-se o neopentecostalismo, como uma foram de renovação espiritual do movimento anterior somado a novas idéias, como o exorcismo e a mal fadada teologia da prosperidade. Para PR, nesse movimento estão as igrejas: Igreja Universal do Reino de Deus, Igreja Apostólica Renascer em Cristo, Comunidade Sara Nossa Terra, Igreja Nacional do Senhor Jesus Cristo, Comunidade Cristã Paz e Vida, Igreja Bola de Neve e A Igreja Internacional da Graça de Deus. Após breve apresentação dessas igrejas, PR trata de duas características interessantes presentes no movimento neopentecostal: (1) Forma de Governo; (2) o Ministério Pastoral. Sobre o assunto PR diz:

“Os neopentecostais não têm forma de governo nem estrutura administrativa definidas. Cada segmento adota o que considera mais conveniente. Geralmente, o governo e a estrutura do grupo gravitam em torno do líder. Por iss, dos modelos apresentados (…), o que mais se encaixa no movimento neopentecostal é o personalista [em função do relacionamento entre pastor e fiel, que se assemelha aos laços de dominação pessoal que ligam o agregado ao patrão no meio rural tradicional]. Quase todas as igrejas neopentecostais possuem a figura de um líder forte e carismático” (pp.63).

Sobre o ministério pastoral, percebe-se pela exposição de PR que o Pastor representa uma figura intocável, como aquele ungido do Senhor. Assim, não presta contas a ninguém e suas falhas pessoais não fazem diferença no exercício da sua função. Eles são os autocratas da fé contemperânea no que se refere ao governo da Igreja. No que se refere ao ministério pastoral, são ídolos apresentadores de auditório, sem qualquer contato com o público de suas igrejas. Como sempre estão envolvidos em diversos compromissos de “pregação” da palavra, não tem tempo para atendimento dos fiéis. Sua interação com os mesmos acontece em breves diálogos promovidos pelo mesmo no próprio momento de culto.

Outra característica do movimento neopentecostal é a completa rejeição ao estudo das escrituras. Nenhuma das igreja que carregam características do movimento tem Escola Bíblica. Vários são os fatores para isso: (1) A herança dos Pentecostais e sua rejeição ao estudo formal das escrituras; (2) O Batismo no ES e sua suficiência para levar o fiel às mais altas áreas da fé; (3) A má interpretação das escrituras, como no caso 2Co.3.6, de onde tiram a conclusão que o estudo da letra mata; (4) O mau desejo dos líderes de que seus fieis descubram o que realmente as escrituras ensinam.

Além dessas características, os neopentecostais em geral não se preocupam com assistência social (pp.69), nem com missões, ou discipulado ou desenvolvimento espiritual ou doutrinário dos adeptos, e o evangelismo é realizado por meio da mídia (pp.70). Em outras palavras, por rejeição a Palavra, o neopentecostalismo rejeita diversas práticas essenciais à fé crista, ordenadas por Jesus Cristo, deve ser por isso que cresce tanto e exerce tanta influência. PR atesta:

“[O movimento neopentecostal] consegue mobilizar as massas e controlar não apenas grandes somas de dinheiro como boa parte da midia eletrônica (…) Por isso, o grupo agrada e incomoda ao mesmo tempo” (pp.71)

Ao descrever sobre os fatores de crescimento do movimento, PR destaca cinco pontos essenciais:

  1. Liderança Carismática: É interessante que quase todas as igrejas desse movimento tem referenciais extremamente carismáticos. Citando Michael Green, PR diz que “os fiéis endeusam o líder: ele é supremo, e sua vontade tem de ser obedecida (…) Ele tomou o lugar de Deus” (pp.73) Esse carisma também é ferramenta usada para aprisionar o fiel e coordenar as pessoas na direção esperada pelo líder, a tal ponto que “os seguidores sentem-se todo o tempo dependentes de suas orientações e vivem segundo a sua aprovação” (pp.74).
  2. Mudança de Paradigma: Um dos pontos que atrasava o avanço dos pentecostais, por assim dizer, era o apreço a determinados usos e costumes de vestuário, postura e uma severa lista sem fim de proibições, o que não existe no neopentecostalismo. PR atesta que isso iniciou com a jornada de jovens cristãos desses guetos ostracistas na Universidade e “despertava assim no cenário brasileiro, uma nova geração de crentes que rompeu com as práticas radicais do pentecostalismo e alterou os usos e costumes, a liturgia, a cosmovisão, a eclesiologia e a espiritualidade” (pp.76).
  3. Liturgia descontraída: O pentecostalismo mais tradicional tinha modo de cultos mais sisudo e fechado. A extrema formalidade era característica fundamental de seus encontros. Por outro lado, no neopentecostalismo os cultos são mais alegres e musicados. Falando sobre essa situação, Waldo Césas e Richard Shaull dizem: “No ritmo alucinante, a palavra é multiplicada por centenas, milhares de bocas. O vocabulário é pobre, com freqüência a gramática é incorreta, mas a força da palavra está na resposta imediata às aflições do cotidiano” (pp.77).
  4. Catolicismo: Segundo fontes de PR, “todo ano, mais de seiscentas mil pessoas deixavam suas fileiras em busca de experiências espirituais em igrejas evangélicas, principalmente entre as pentecostais e neopentecostais” (pp.77). Tal fuga do catolicismo somada à inconformidade com tal realidade, até mesmo a Igreja Católica adotou práticas encontradas nos guetos pentecostais e neopentecostais, movimento que ficou conhecido como Renovação Carismática. “Em 1988, os carismáticos já passavam de dois milhões. Com a bênção do Vaticano, a renovação carismática tornou-se instrumento eficiente para, pelo menos, reduzir o êxodo de católicos para as igrejas pentecostais, das quais imitam métodos e práticas” (pp.80).
  5. A mídia: O termo igreja eletrônica foi criado para explicar esse fenômeno, do mesmo modo que igreja comercial, marketing da fé entre outros termos. A presença desses movimentos diariamente na mídia, certamente favoreceu o crescimento desse grupo. Os constantes apelos para participar de cultos, curas, libertações e prosperidades, certamente alcançou seus adeptos entre os menos afortunados. Em pouco tempo, pequenas igrejas dissidentes de movimentos pentecostais, como a IURD, levantaram um império no Brasil e o mundo.

Todas essas considerações de PR falam sobre o que o movimento é e faz, mas na próxima parte do livro, PR se dedica a demonstrar no que esse movimento acredita. Quais são os ideais teológicos desse movimento e como suas práticas são por elas desencadeadas.

2 comentários sobre “Decepcionados com a Graça – Uma Análise (2/4)

  1. alluft

    Estou lendo o livro “OS PAIS DA IGREJA” muito interessante! Parece que PR “bebeu dessa fonte” ao escrever esse documentario….

  2. Bete

    Sabemos irmaos que da forma que esta tudo ocorrendo na maior licenciosidade,me alegra que o meu Senhor Jesus ta as portas!Maranata!!!Otimo comentario.Ai daqueles que desviam as criaturas do Senhor…!´´A Lei e ao Testemunho!Se eles nao falarem segundo Essa Palavra ,jamais verao a alva.´´Isaias 8:20

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