Decepcionados com a Graça – Uma Análise (3/4)


B. Os aspectos Teológicos do Neopentecostalismo

O neopentecostalismo nasce do desenvolvimento do pentecostalismo e adota exatamente o desapreço pelo estudo teológico e bíblico. O ambiente de desenvolvimento do pentecostalismo, por sua vez, acontece em um ambiente mais frio e provavelmente ao desenvolvimento da teologia liberal, que em seus enfadonhos estudos, chegou a negar diversos aspectos da fé cristã.

A resposta do pentecostalismo à essa visão cristã, o pentecostalismo abandonou o estudo aprofundado das escrituras por considerá-lo nocivo. Daí, surgiram novas ideologias que aos poucos foram sendo absorvidas, como a manifestação de dons. Entretanto, o neopentecostalismo desenvolve os aspectos mais negativos do pentecostalismo e o associa a diversas práticas não recomendada pelas escrituras. Contudo, diferente de todas as denominações e movimetos teológicos anteriores, o neopentecostalismo

não apresenta linha teológica própria (…) Não há preocupação com temas importantes da fé cristã (…) Sem uma teologia definida, o movimento reúne várias posições doutrinárias e correntes teológicas. Por ser um movimento fragmentado, com muitos líderes de forte perfil carismático, cada grupo escolhe no que crer e determina a própria liturgia” (pp.87-8).

PR defende, entretanto, que o principal distintivo teológico do neopentecostalismo é a “confissão positiva”, que é o nome alternativo dado à Teologia da Prosperidade. Na definição de Stanley Burgess e Gary McGee, usada por PR, confissão positiva “refere-se literalmente a trazer à existência o que declaramos verbalmente, uma vez que a fé é uma confissão” (pp.89).

Essa ideologia iniciou com Essek Willian Kenyon, que depois de passar por diversas denominações como seu mentor, Charles Emerson, passou a defender a confissão positiva, provavelmente influenciado por um gueto teológico conhecido como Ciência Cristã. Esse ensino fundamental foi o que orientou os principais ideais de Kenneth Hagin, conhecido como um dos fundadores do movimento neopentecostal no mundo.

Os ensinos de Kenyon influenciaram de tal forma Kenneth Hagin, que PR lembra que muitos críticos acreditam que Hagin plagiou os escritos de Kenyon (pp.92). Ao olhar para o passado, Hagin entende que sua teologia é derivada de sua experiência pessoal de vida. Por ter passado por diversos problemas de saúde que não o permitiam sair da cama, Hagin diz ter se dedicado ao estudo das escrituras (pp.93). Em suas reflexões chegou a Mt.11.23-24 onde encontrou fundamento para a doutrina que ficou conhecida como “confissão positiva”. Em suas palavras Hagin disse:

“Entendi o que tenho que fazer, Senhor. Eu tenho que crere que meu coração está bem, enquanto ainda estou deitado aqui nesta cama, e enquanto meu coração ainda não está batendo normalmente. Tenho que crer que minha paralisia se foi enquanto ainda estou deitado, dependendo da ajuda de outros. Tenho que crer que minha paralisia se foi enquanto ainda estou deitado, dependendo da ajuda de outros. Eu creio em meu coração que o senhor já ouviu minha oração! Creio que meu coração está curado e que essa paralisia se foi! Creio em meu coração que já recebi a cura para o meu corpo” (pp.94).

PR nos diz que Hagin creu que estava curado, louvou a Deus pela cura e levantou-se para andar. Apoiado na beira da cama deu os primeiros passos. De fato, ele tinha sido curado. Por ter passado por essa experiência, Hagin passou a freqüentar igrejas pentecostais em 1934, e em 1937 recebeu o batismo com o Espírito Santo falando em línguas estranhas.

Fundou a Kenneth Hagin Evangelistic Assiciation em 1963, em 1966 uma estação de rádio, em 1974 a Rhema Bible Trainning e em 1976 um programa de televisão. Esse seminário de Hagin foi criado com a intenção de propagar os ideais da confissão positiva. Os dados do crescimento desse ministério é impressionante, observe:

“O centro de treinamento Rhema, nos Estados Unidos, já produziu mais de 23 mil pastores. O programa de rádio Faith seminar of the air é transmitido por mais de 250 estações na América do Norte. Na área da literatura, o sucesso é enorme. Kenneth Hagin e seu filho, Kenneth Hagin Jr., já produziram cerca de 150 livros para promover a teologia da prosperidade. Mais de 65 milhões de cópias de seus livros estão em circulação ao redor do planeta” (pp.96).

Outro nome mencionado por PR como um influenciador teológico é Benny Hinn, que é bem conhecido no Brasil. Os idéias de Benny Hinn são extremamente controversos, por exemplo, Hinn defende que o Espírito Santo possui um corpo, que Eva foi criada para dar luz pelos lados, Adão foi sobre-humano, podendo voar à lua ou nadar embaixo d`água sem respirar, além de se auto intitular Homem-Deus (pp.97).

Outro nome lembrado por PR é William Marrion Branham pregador da cura divina, além de ter declarado “ser o anjo mencionado em Apocalipse 3.14 e 10.7, e que o arrebatamento da igreja e a destruição do mundo aconteceriam em 1977”. Sua presença e carisma eram tamanho, que após morrer em 1965, alguns dos seus adeptos chegaram a pensar que ele ressuscitaria (pp.97). Outro homem a ser lembrado foi Tommy Lee Osborn, após sobrer direta influência dos ideais de Branham iniciou um ministério evangelístico de cura divina.

É interessante que os teólogos representantes do neopentecostalismo apresentam desvios teológicos significativos. Todos, sem exceção são representantes de heresias. Não apenas isso, rejeitam o ensino das escrituras em diversos aspectos, como William Branham que provinha de um ambiente unicista, que não acredita na divindade de Cristo.

Isso acontece por que as ênfases teológicas do movimento da confissão positiva excluem em grande parte as escrituras. Embora possam nomear um ou outro verso fora de contexto nas escrituras, a teologia como um todo nasce fora das escrituras.

Segundo eles, Is.53.4-5 é um texto central nas escrituras pois promete saúde física. Hagin, lendo esse texto, diz: “A doença e a enfermidade são do Diabo. Deixe que a verdade dessa afirmação entre profundamente em seu espírito. Então siga os passos de Jesus e trate com a doença da forma que Jesus tratou. Trate a doença e a enfermidade como um inimigo, e nunca as tolere em sua vida” (pp.99).

A idéia é que a cruz de Cristo garante a saúde física, como defendeu T.L. Osborn:

“Se somos curados somos salvos. Nosso Senhor não dica satisfeito com meia salvação (…) A enfermidade não provém do amor, e Deus é amor. A doença rouba a saúde, rouba a felicidade, rouba o dinheiro de que necessitamos para outras coisas. A doença é nossa inimiga (…) Não digais a ninguém que doença assim é a vontade de Deus. É a vontade do ódio, é a vontade de Satanás. Se a doença se tem tornado a vontade do amor, então o amor se tem tornado em ódio. Se a doença é a vontade de Deus, então o céu está cheio de doenças” (pp.100).

Todas essas baboseiras chegaram ao Brasil nos mesmos moldes, mas em alguns lugares ainda mais tolas que as originais. Jorge Tadeu, por exemplo, defendeu que “doenças e dores não são vida em abundância. Como é que Deus pode dar a alguém uma doença se ele não tem nenhuma lá no Céu para nos dar? Deus só pode dar o que ele tem. Para Deus lhe dar uma doença, teria de pedi-la ao Diabo, o que é uma idéia absurda” (pp.102)

Em geral, os pregadores neopentecostais defendem que a doença tem origem espiritual, e por isso o remédio para elas deve ser da mesma natureza. Alguns, mais confusos, defendem que os agentes físicos das doenças são emissários de Satanás. Branham defendeu que:

“Toda doença tem vida – um germe. Este germe é de Satanás, por que destrói. É o que Jesus chamou de espírito de enfermidade (…) Nós temos poder sobre o espírito do Diabo que nos traz a doença por que Jesus disse: ‘Em meu nome expelirão demônios’. Em seu nome temos absoluta autoridade para ordenar que a vida da moléstia sai, e ela tem que obedecer-nos” (pp.103).

O resultado desse posicionamento diante das doenças tem feito com que muitos dos adeptos dessa ideologia rejeitem tratamento médico, e alguns tem morrido em função disso. R.R. Soares, por exemplo, entende Mt.9.12 como uma demonstração de que o cristão não depende de médicos, ele diz:

“Os sãos – aqueles que são sadios na fé, que temem a Deus, que executam a sua vontade – não precisam de médico, só os doentes  – os que não temem a Deus. Se a pessoa não tem o temor de Deus, não conhece sua Palavra, que vá correndo se tratar” (pp.106).

Jorge Tadeu vai além em sua idiotice, ele defende que “ninguém está a lhe dizer para fingir ou fazer de conta que os sintomas e as dores não existem. Eles existem e são reais. Só que você deve ignorá-los. Não olhe, não medite, não pense, não fale dos sintomas e dores” (pp.107).

Outra desgraça da teologia neopentecostal é a busca por dinheiro. Os apelos para arrecadar recursos nos cultos são tão intensos que pode-se dizer que hoje, essa é a real motivação dessas “igrejas”. O ideal neopentecostal é simples e pode ser resumido em uma simples frase: “Me de o seu dinheiro que, se você tiver fé, Deus vai te dar ainda mais”.

Em um país cercado pela diferença social como o Brasil, essa ideologia teve pleno ambiente para se desenvolver, Seus líderes, em geral provenientes de classes mais pobres, encontram nessa ideologia supostamente bíblica um modo de sair da miséria enquanto ilude pessoas a dizer que estão fazendo o mesmo.

Enquanto os cristãos esperam pela Eternidade, onde o Senhor Reinará e os todos dilemas causados pelo pecado serão dizimados, os neopentecostais esperam fazer o seu “céu” agora, “não é possível esperar apenas a felicidade futura. Ela deve ser buscada aqui e agora. O vale das lágrimas deve ser transformado em vale de abundância, saúde e sucesso” (pp.112).

R.R. Soares acredita que essa declaração de sucesso financeiro é na verdade o verdadeiro evangelho, observe:

“Prefiro que digam que eu prego o evangelho da prosperidade, pois na verdade, esse é o evangelho que eu propago. Sabemos que a palavra evangelho significa Boas Novas. Então, ensino as Boas Novas da prosperidade, saúde, santidade e do sucesso completo em Cristo Jesus” (pp.112).

Contudo, saúde e dinheiro no bolso não é tudo que o neopentecostalismo prega. Eles também tem um severo embate com as forças do mal. A doutrinas da Batalha Espiritual e Maldição Hereditária fazem parte de grande parte dos guetos neopentecostais. Essa visão é propagada em grandes campanhas contra o mal, por exemplo nas seções do descarrego e seus congêneres. É interessante que para o neopentecostalismo, tanto a doença como o insucesso financeiro, profissional provém de influências satânicas.

Todas esses distintivos teológicos (que de Theós nada tem, quanto menos de Logia) são provenientes de uma hermenêutica reducionista, que procura encontrar nas escrituras apenas os suportes para seus ideais. PR é mais incisivo do que isso, pois para ele não há conexão entre o kerigma (mensagem) do neopentecostalismo e a hermenêutica (pp.117).

Para Edir Macedo “todas as formas e todos os ramos da teologia são fúteis, não passam de emaranhados de idéias que nada dizem ao inculto, confundem os simples e iludem os sábios. Nada acrescentam a fé e nada podem fazer pelos homens, a não ser aumentar sua capacidade de discutir e discordar entre si” (pp.118).

Uma declaração que pode resumir com excelência a visão neopentecostal para com as escrituras, pode ser vista em dois pontos fundamentais, segundo Walter Hollenweger:

“A primeira é sua atitude para com as Escrituras, que tem revelado sistematicamente desprezo geral pela exegese e pela hermenêutica refletida com cuidado. Na verdade, a hermenêutica não tem sido algo pentecostal. As escrituras são a Palavra de Deus, e devem ser obedecidas. Em vez da hermenêutica científica, desenvolveu-se uma espécie de hermeneutica pragmática – obedece ao que pode ser tomado literalmente: Espiritualize, alegorize e devocionalize o restante (…) A segunda ,provavelmente justa e importante é observar que, em geral, a experiência dos pentecostais tem precedido à hermenêutica. Num certo sentido, o pentecostal tente a fazer exegese com base na sua experiência” (pp.121)

A verdade é que não se precisa de grande investigação para perceber que não existe o conceito de interpretação de textos entre os neopentecostais, pois para eles, os textos dizem o que eles querem que o texto diz. Isso certamente provém da antiga ideologia que estudar é enfado da carne e que a letra mata, mas tem sido propagada de outros modos mais recentemente. Entre os neopentecostais são muitos os que acreditam piamente que Deus se revela pessoalmente a cada individuo com novas profecias e revelações, de modo que a experiência pessoal viesse antes das escrituras.

Com isso, PR atesta:

“Sem os ditames da hermenêutica, o neopentecostalismo concede a seus arautos a livre interpretação do texto bíblico, o surgimento de novidades doutrinárias, além de promover a criatividade para levantar fundos e novas técnicas de persuasão na busca de mais adeptos” (pp.123).

Tudo isso é feito com ênfase quase exclusiva no Antigo Testamento, por três razões basicamente: (1) Por serem textos mais antigos e de difícil compreensão em muitos lugares, fica mais fácil para os pregadores neopentecostais tirarem qualquer doutrina do texto; (2) Por não compreenderem o papel da fé no antigo testamento e do relacionamento pessoal com Deus no antigo testamento, os pregadores neopentecostais podem retirar fundamento para suas doutrinas a partir da má interpretação dos textos de modo a convencer seus ouvintes que fala sobre uma doutrina bíblica; (3) Pela extensa falta de preparo teológico dos líderes e pela baixa representatividade de pessoas com altos níveis educacionais na platéia, o engodo é absorvido mais facilmente

Ao tratar sobre esses assuntos PR encerra o discurso sobre a teologia neopentecostal e passa a falar sobre sua influência na liturgia de seus cultos. Então, desenvolve alguns comentários finais com demonstração de testemunhos de pessoas extremamente frustradas com o neopentecostalismo. Após essa parte, PR chega a parte principal do livro, com sugestões pastorais para pessoas que saíram do movimento neopentecostal.

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