Decepcionados com a Graça – Uma Análise (4/4)


C. Prática Pastoral

Para PR a principal falha do movimento e o fator que mais pessoas se decepcionam com Deus é a completa falta da graça na teologia e prática neopentecostal. Para tratar do assunto, PR de modo sumário passa a defini termo, cita autores como Swindoll, Yancey e conclui que graça é o favor imerecido de Deus:

Certa vez ouvi um pregador comentar sobre a diferença entre misericórida e graça. Explicou que misericórida é quando Deus não dá a pessoa o que ela merece. De fato, todo ser humano merece a ira de Deus, a separação dele e a perdição. Entretanto, Deus em suamisericórdia não age desse modo. Graça por sua vez é quando Deus dá ao ser humano o que ele não merece. Ninguém merece perdão, salvação, vida eterna, comunhão com Deus e paz. O Senhor, porém, em sua graça pode lhe dar tudo isso, pois é favor imerecido. (pp169)

Após algumas demonstrações do conceito nas escrituras, PR passa a tratar do tema das bênçãos de Deus. Segundo PR as bênçãos de Deus para os pentecostais depende de certas condicionais. Para os neopentecostais isso é totalmente verdadeiro. PR demonstra como a má hermenêutica dos pregadores neopentecostais direciona o público a essas conclusões. Ele cita a má exploração de Gn22 e suas implicações para a vida diária do cristão, segundo a lente do neopentecostalismo (pp.172-3).

Após outras reflexões sobre o tema, PR conclui:

O cristão que conheceu a graça de Deus e por ela foi tocado não precisa temer encostos, maldições dos antepassados, nem vive obcecado com demônios ou preso numa batalha espiritual sem base bíblica. Tudo o que o cristão precisa fazer é firmar-se apenas no sólido fundamento da Palavra de Deus. É preciso ter em mente que a vida espiritual não consiste de uma preocupação doentia com Satanás e com o mal, mas da contemplação constante da face do Senhor, como orientam as Escrituras. (pp.179)

Para PR outro problema para o neopentecostalismo é a má compreensão das escrituras quando fala sobre sofrimento e esperança. Grande parte da frustração neopentecostal é que não é capaz de enxergar o sofrimento como uma dádiva divina. Para PR a questão, então, repousa na tensão entre sofrimento presente e a esperança futura.

Se não há esperança no futuro, o sofrimento presente é um pesar sem sentido. Por outro lado, se existe uma esperança no futuro o sofrimento presente, tal como testemunhado pelas Escrituras, é uma dádiva de Deus e uma oportunidade de desenvolvimento do caráter. Paulo é que nos instrui sobre o assunto: “Por que para mim tenho por certo que os sofrimentos do tempo presente não são para se comparar com a glória por vir a ser revelada em nós” (Rm.8.18).

PR passa a tratar do tema do ponto de vista e Jurgen Moltmann, conhecido como Teólogo da esperança. Sobre o autor podemos dizer resumidamente:

Jürgen Moltmann nasceu em 18 de abril de 1926 em Hamburgo. Iniciou seus estudos de teologia numa situação inusitada. Com dezesseis (1943) foi convocado pelo exército alemão onde teve, segundo ele mesmo, “uma carreira breve e sem glória”. Após seis meses na guerra, foi feito prisioneiro no campo de concentração de Northon-Camp, na Inglaterra. Ali se encontravam também alguns professores de teologia que ministravam lições aos seus companheiros; dentre eles, Jürgen Moltmann. Em 1948 retornou para Alemanha onde deu continuidade nos seus estudos na Universidade de Göttingen até 1952. De 1953 a 1958 exerceu atividades pastorais em Bremen. Sendo suas especialidades História dos Dogmas e Teologia Sistemática, iniciou sua docência em 1958 passando pela Escola Kirchliche Hochschule de Wuppertal, pela Universidade  de Bonn, Universidade de Tübingen, Due University – EUA (no caráter de professor visitante)[1]

PR tem convicção que a Teologia de Moltmann é certamente dependente das experiências pessoais vividas por ele enquanto representante do exército alemão no período da segunda guerra (pp.194). Para PR, a teologia de Moltmann pode ser assim expressa:

Moltmann acredita que a compaixão cristã é o centro da vida cristã. Compaixão não é apenas uma maneira de fazer certas coisas em favor de determinada comunidade. Ela está relacionada com o coração, uma forma de experimentar a vida de dentro para fora. Uma comunidade compassiva não se baseia em compatibilidade psicológica ou unanimidade teológica. Ser compassivo é estar com alguém em seu sofrimento. Deus não se revelou em Jesus Cristo para tirar nossas dores, mas para compartilhá-las. Em Jesus, Deus revelou-se a nós como um Deus sofredor. Ele entrou em solidariedade com a humanidade. (pp.185-6).

Por essa razão, PR entende que o sofrimento não apenas faz parte da experiência humana, mas é parte da vida cristã. Para ele “os cristãos sofrem não apenas por que estão num mundo afetado pelo mal, mas pela identificação com Cristo” (pp.188).

Esse é o caso de Paulo que diante de uma enfermidade (espinho na carne) e sua oração para que esse mal lhe fosse retirado, Deus lhe disse: “Minha graça te basta”. Por outro lado, os olhos de Paulo na Eternidade o mantinha esperançoso pelo dia em que estará com Deus. Ele mesmo atesta: “Prefiro partir e estar com Cristo”. Essa relação entre o sofrimento e a esperança, se devidamente equalizados, auxiliam o cristão a levar uma vida mais adequada nesse mundo diante de Deus e vacinado pelas mentiras neopentecostais.

Por fim, PR nos conduz a uma reflexão à ação pastoral da igreja, e aproveitando-se das recomendações de Cassiano Floristán, desenvolve suas recomendações a igreja e como o retorno às escrituras pode ser saudável para a fé. Ou seja, muito embora o neopentecostalismo viva por citar as escrituras, elas são violadas em todos os campos.


[1] Giovani Souza, Jurgen Moltmann – a teologia da esperança.

3 comentários sobre “Decepcionados com a Graça – Uma Análise (4/4)

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  2. Shalom,

    Tenho visto muitas críticas ao neopentecostalismo de todas as direções. Acho que existe muita falta de informações sobre Ele. Não concordo que o neopentecostalismo seja simplesmente um violador de todas as escrituras, creio que tem acertos e erros como as demais denominações; que são muitas. Vejo no entanto que nós evangélicos e reformados, deveriamos buscar mais a Palavra e a Verdade que as acusações mútuas. Uma generalização dessas é absurda e ofensiva ao Senhor Deus e não ajuda na unidade e busca da Verdade, precisamos pedir ao Alto Sabedoria, mística e prática!

    1. Ayrton,

      Muito obrigado por sua participação.

      Sobre o artigo, trata-se de uma resenha ao livro do Paulo Romeiro. Note que o texto fala mais sobre a prática pastoral do neopentecostalismo, fundamentada em um tese doutoral do autor. Portanto, não é uma questão de falta de informação.

      Sobre os acertos do movimento, não sou tão otimista quanto você, pois também vejo acertos em outras religiões, inclusive nas anti-cristãs. Não são esses acertos que validam um movimento religioso, mas sua conformidade com a Palavra de Deus. Nesse quesito, meu parecer é que o neopentecostalismo é um sério desvio das escrituras.

      Um grande abraço,
      Marcelo Berti

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