Jesus: Yahweh Nossa Justiça


A doutrina de Cristo é uma doutrina central no cristianismo: Não é possível falar de Cristianismo sem Cristo. Para fundamentar essa doutrina nada melhor do que recorrer às escrituras como alicerce das nossas convicções sobre Cristo, antes de qualquer doutrina formalizada.

É bem verdade que muitas são as pessoas que tratam da doutrina como anterior as Escrituras e defendem ideais lógicos, mas não verdadeiros diante das escrituras. Esse equívoco percorreu a história do cristianismo, especialmente no que se refere a doutrina da Divindade de Cristo. Diversos movimentos heréticos perverteram as escrituras ao retirar de Cristo qualidades divinas claramente ensinadas pelas escrituras.

Desde cedo esse movimento de perversão da verdade andou paralelamente ao cristianismo outorgado pro Cristo, protegido pelos apóstolos e recebido na Igreja Primitiva. Os ebionitas, por influência do forte monoteísmo judaico, não reconhecia a divindade de Cristo e o consideravam apenas como filho de José e Maria. Eles também eram adocionistas, pois entendiam que Cristo havia sido adotado por Deus na ocasião do seu batismo. De modo semelhante, os alogianos, além de rejeitar a divindade de Cristo, rejeitavam os escritos joaninos pois consideravam que seus escritos entivessem em contradição com as escrituras. Os alogianos, à semelhança dos adocionitas, entendiam que a parte divina de Jesus, o Cristo, teria tomado conta de Jesus na ocasião do batismo, e por isso, teria se tornado poderoso e habilitado a realizar milagres. Já os sabelianos ousaram em sua conceituação de Cristo: Eles o entendiam como a manifestação do Deus Pai na pessoa de Cristo, ou seja, para eles o Filho era a encarnação do Pai. Os arianos entendiam que Jesus era divino, mas não tanto. Para eles, Jesus era uma divindade à parte do Pai, mas não divino como Ele. Eles o entendiam com uma entidade intermediária entre o Pai e os homens, sendo ele a primeira criatura de Deus.

De modo interessante, sob novas formas, motivações e alegações essas perversões se mantém ainda hoje: Algumas seitas pseudo-cristãs ainda defendem a não divindade de Jesus Cristo. Isso é o que acontece com os Testemunhas de Jeová, que adotam o conceito de divindade de Cristo dos arianos, o adocionismo dos ebionitas e o subordinacionismo de Orígenes. É bem verdade que tais perversões acontecem sob novas formas e são defendidas como verdades defendidas pelas escrituras.

Contudo, àqueles que procuram defender a não divindade de Jesus Cristo devem procurar outra fonte para suas pesquisas que não as Escrituras Sagradas. Muito embora sejam poucas as passagens que defendam explicitamente a divindade de Cristo, o conceito permeia toda a escritura (Sobre o assunto recomendo aos leitores dois artigos: (1) Jesus é Deus de acordo com as Escrituras; (2) Jesus: Homem Deus).

Por essa razão, nesse post vamos observar um verso do Antigo Testamento que apresenta o Messias prometido como Yahweh:

Jr.23.5-6: Eis que vêm dias, diz o SENHOR, em que levantarei a Davi um Renovo justo; e, rei que é, reinará, e agirá sabiamente, e executará o juízo e a justiça na terra. Nos seus dias, Judá será salvo, e Israel habitará seguro; será este o seu nome, com que será chamado: SENHOR, Justiça Nossa.

Nesse verso podemos perceber claramente que o Renovo Justo, o Rebento de Davi será chamado (do ponto de vista do autor) SENHOR (YHWH – Yahweh). Mesmo a versão corrompida das Testemunhas de Jeová reconhece esse fato:

Jr.23.5-6: “Eis que vêm dias”, é a pronunciação de Jeová, “e eu vou suscitar a Davi um renovo justo. E um rei há de reinar e agir com discrição, e executar o juízo e a justiça na terra. 6  Nos seus dias, Judá será salvo e o próprio Israel residirá em segurança. E este é o nome pelo qual será chamado: Jeová É Nossa Justiça.”

Portanto, nesse post iremos tratar de três características do Messias apresentadas nesse texto, sua revelação no Antigo e Novo Testamento, suas implicações para a Cristologia Cristã e como esse verso rejeita as perversões cristológicas das seitas pseudo-cristãs modernas. Os três aspectos são:

PRIMEIRO ASPECTO: A Messianidade de Jesus: “levantarei a Davi um Renovo justo

SEGUNDO ASPECTO: O Governo de Jesus: “e, rei que é, reinará,”

TERCEIRO ASPECTO: A Divindade de Jesus: “será este o seu nome, com que será chamado: SENHOR, Justiça Nossa

A. Primeiro aspecto: Jesus como Messias.

O primeiro aspecto que encontramos nesse verso é uma profecia a respeito do Messias, que aqui é prometido como o descendente de Davi, o Renovo Justo. As características do Messias são claramente encontradas no AT e no NT.

1. No Antigo Testamento

O Antigo Testamento apresenta cinco princípios fundamentais acerca do Messias: (1) Ele seria um homem escolhido/separado/ungido por Deus (2) para realizar um propósito Redentor e (3) para realizar o julgamento contra os seus adversários. (4) A Ele se dará o domínio das nações e (5) e em todas essas atividades Yahweh será identificado com autor. Todas essas características se aplicam a Cristo e encontram em nosso texto claro paralelo. Segundo o AT ainda podemos notar algumas informações sobre o Messias Prometido.

As profecias anteriores a Abraão e Isaque (Gn.18.17-19; 26.4-5) falam apenas da salvação que viria através de sua descendência. Mais tarde, a dignidade real da profecia torna-se a característica proeminente. Ele é descrito como um rei da linhagem de Jacó (Nm.24.19), de Judá (Gn. 49.10), e de Davi (2Sm.7.11-16). Seu reino será eterno (2Sm.7.13), sua influência sem limites (Sl.71.8) e todas as nações o servirão (Sl.71.11). No que se refere às profecias messiânicas observadas a ênfase está na sua posição de herói nacional: Ele trará a Israel e Judá a salvação (Jr.3.6), triunfando sobre os seus inimigos pela força das armas (cf. o rei-guerreiro do Sl.45). Mesmo em Isaías há passagens (cf.61:5-8), no qual outras nações são consideradas como a partilha do reino e não como servos do que como herdeiros, enquanto a função do Messias é levantar Jerusalém a sua glória e lançar as bases de uma teocracia israelita.

Embora muito mais possa ser dito sobre a profecia messiânica, incluindo a natureza espiritual de seu anúncio e cumprimento, ressaltamos esses aspectos aqui em função da ênfase do texto que estamos a analisar.

a. Levantarei:

Segundo o texto vemos que é Yahweh que chamará o Messias, Ele será aquele que escolhe e unge o Ungido de Yahweh. O termo empregado aqui (hb. quwm) é usado com freqüência no AT para descrever a atividade de Yahweh, seja para salvação (Is.44.26; 49.22; Jr.23.4; 30.9; Am.9.11) ou punição (Is.29.3; Jr.13.26; 15.6; 51.1; Am.6.14; Na.3.5). É interessante notar que diante das profecias messiânicas entendemos que Deus seria o responsável pela eleição, separação e unção do Seu Escolhido, o Messias. Essa idéia é perfeitamente encontrada em Is.42.1:

Eis aqui o meu servo, a quem sustenho; o meu escolhido, em quem a minha alma se compraz; pus sobre ele o meu Espírito, e ele promulgará o direito para os gentios.

Essa mesma idéia é apresentada a respeito de Cristo em seu batismo: Ele é o Filho Amado, em quem Deus se alegra, e sobre quem colocou o Seu Espírito. A idéia do Messias como escolhido de Yahweh também é encontrado em Sl.89.3:

Fiz aliança com o meu escolhido e jurei a Davi, meu servo Para sempre estabelecerei a tua posteridade e firmarei o teu trono de geração em geração

b. Davi:

O texto nos ensina que Yahweh iria escolher, levantar no sentido de designar para uma tarefa, da descendência de Davi, um Renovo Justo. Devemos dar atenção à essa referência, pois ela é uma marca da profecia messiânica do Antigo Testamento. Essa concepção nasceu na Promessa de Deus em suscitar de Davi um descendente que teria o Reino Eternamente:

Quando teus dias se cumprirem e descansares com teus pais, então, farei levantar depois de ti o teu descendente, que procederá de ti, e estabelecerei o seu reino. Este edificará uma casa ao meu nome, e eu estabelecerei para sempre o trono do seu reino (2Sm.7.12-13).

Esse descendente de Davi seria Rei e seu Reino seria eterno, mas esse também edificaria o Templo de Yahweh em Jerusalém. Seguindo a história de Israel, sabemos que Salomão foi o descendente de Davi que edificou o Templo em Jerusalém, então, por que a profecia não foi cumprida nele?

No que se refere a profecias vétero-testamentárias temos que compreender o que se denomina sensus plenior da profecia. A expressão latina é usada para descrever aspecto mais abrangentes de uma profecia que contém aspectos cumpridos imediatamente. São diversas as profecias que denotam esse sentido, como a profecia da Queda de Satanás, que fala primeiramente do Rei de Tiro (Ez.28), ou do descendente da mulher (Gn.3.15), que foi esperado imediatamente (Gn.4.1, 25), ainda esperado algum tempo depois (Gn.5.29), mas cumpriu-se apenas em Cristo. Do mesmo modo, o descendente de Davi seria o Rei esperado, o Messias, separado por Yahweh para uma missão redentora estabelecida por Ele, muito embora o descendente imediato de Davi, Salomão, tenha sido aquele que edificou o Templo em Jerusalém.

c. Renovo Justo:

Como sabemos que esse Renovo trata-se do Messias? O termo usado em Jeremias 23.5 (hb. tsemach) é usado em outros lugares em conexão com a expectativa messiânica, como em Is.4.2:

Naquele dia, o Renovo do SENHOR será de beleza e de glória; e o fruto da terra, orgulho e adorno para os de Israel que forem salvos

A expressão “naquele dia” é parte integrante da escatologia bíblica. Os profetas olhavam para o dia do futuro quando o Deus de Israel, que repetidamente visitou Seu povo na História, os visitaria finalmente a fim de julgar os ímpios, redimir os justos, e expurgar todo mal da terra. Existem diversas expressões equivalentes ao termo “Dia do Senhor”, tais como: “Naquele Dia”, “O Dia”, “Aquele Dia”, “Últimos Dias”. Em diversas dessas profecias a idéia de um Messias é presente como em Is.4.2 e Jr.23.5.

No texto que estamos observando vemos o mesmo conceito apresentado na expressão: “Eis que vem dias”, como uma revelação divina de um futuro esperado. Ou seja, nesse futuro, o Renovo Justo, descendente de Davi exerceria seu Reino Eterno. Portanto, é evidente que a referência aqui é ao Messias. Em Zacarias encontramos uma declaração ainda mais explícita sobre a conexão entre o Renovo e o Messias:

Ouve, pois, Josué, sumo sacerdote, tu e os teus companheiros que se assentam diante de ti, porque são homens de presságio; eis que eu farei vir o meu servo, o Renovo (Zc.3.8); E dize-lhe: Assim diz o SENHOR dos Exércitos: Eis aqui o homem cujo nome é Renovo; ele brotará do seu lugar e edificará o templo do SENHOR. (Zc.6.12).

O AT ainda apresenta a mesma idéia ao usar sinônimos do termo hebraico para Renovo, para descrever o Messias, como em Is.11.1: “Do tronco de Jessé sairá um rebento, e das suas raízes, um renovo”. Embora a mesma idéia seja apresentada aqui, um descendente de Davi anunciado como um Renovo, o termo hebraico é apenas sinônimo (hb. netser) do usado por Jeremias (hb. tsemach).

Entretanto, e importante notar que em Is.11.1 encontramos outro distintivo desse descendente de Davi, que é chamado Rebento de Jessé. Sobre isso, Sl.132.11 é claro:

O SENHOR jurou a Davi com firme juramento e dele não se apartará: Um rebento da tua carne farei subir para o teu trono.

Todas essas designações são suficientes para demonstrar a terminologia vétero-testamentária sobre o Messias, e para evidenciar que é evidente que Jeremias apresenta o Messias como Renovo Justo, que viria como Rei Sábio e Justo Juiz.

d. Justo:

O termo justo (hb. tsadiyq) aqui descreve não apenas o caráter do Messias, mas também suas obras. O termo é normalmente empregado para descrever um grupo de pessoas de comportamento adequado (Sl.1.6),o caráter de uma pessoa (Gn.6.9) ou até mesmo de Yahweh (Sl.7.9; Sl.11.7), mas também às ações que estes realizam (Is.26.7). É por isso que o Renovo Justo julgará com Justiça.

2. No Novo Testamento

A expressão “Filho de Davi’” no NT já é identificada como sinônimo de Messias visto tão grande expectativa que se tinha sobre Sua chegada. Observe que essa era a opinião dos judeus sobre o Messias (Mt.12.23); dos fariseus (Mt.22.42); dos escribas (Mc.12.35); dos cegos à beira do caminho (Mt.9.27; 20.30); da mulher Cananéia (Mt.15.22). Provocativamente, Jesus chamou para si essa designação quando ao entrar em Jerusalém à semelhança da coroação de Salomão (1Rs.1.38) insinuou o cumprimento da profecia messiânica (Mt.21.5; Zc.9.9) enquanto permita que as multidões o chamassem “Filho de Davi” (Mt.21.9).

É por essa razão que a Genealogia de Jesus é tão importante no Novo Testamento: Se Jesus era quem afirmava ser, era necessário que fosse descendente de Davi. Note que essa ênfase foi encontrada na proclamação da igreja primitiva (At.2.25; 29-36).

Outro detalhe que merece nossa atenção é que Jesus é apresentado pelas escrituras como o Messias prometido. Alias o título aplicado a Jesus no NT já apresenta essa verdade: Cristo. O termo Cristo (Gr. Christós) não é, como alguns pensam um sobrenome de Jesus. É na verdade a tradução grega do termo hebraico (hb. mashiah) para Messias. O Apóstolo João deixa isso bem claro, quando usa os dois termos em uma sentença: “Ele achou primeiro o seu próprio irmão, Simão, a quem disse: Achamos o Messias (que quer dizer Cristo)” (Jo.1.41). o Termo grego para Cristo é usado cerca de 531 vezes no NT em referência a Jesus Cristo.

É interessante notar a estreita relação entre as duas idéias: Messias e o Filho de Davi. Os evangelhos apresentam claramente a idéia de que o povo esperava o Messias (Jo.1.20, 41; 4.29; Lc.3.15), que deveria ser descendente de Davi (Mt.21.9; 22.42), que nasceria em Belém (Jo.7.40-42; Mt.2.5), como já vimos demonstrado no Antigo Testamento. Tal expectativa era de tal forma consolidada que até mesmo os magos do oriente vieram a procura de um Rei que havia nascido (Mt.2.1-2), e os escribas que estavam a serviço de Herodes haviam entendido que tal pergunta se referia a Cristo (Mt.2.4). Já Herodes entendeu com um sentido político, e por medo de perder seu cargo (Mt.2.3) e resolveu dar cabo dos recém-nascidos na região (Mt.2.16-18).

Portanto, parece claro que o Novo Testamento atribui a Jesus Cristo a Messianidade esperada pelos judeus conforme anunciada no Antigo Testamento. É interessante que há estreita relação entre o Messias e o Rei esperado, e tal expectativa manifestou-se diversas vezes no ministério público de Jesus. Isso se deve ao fato de que o Messias prometido, também foi prometido como Rei libertador. Esse conceito, é também apresentado com clareza no texto que temos atentado, por isso chamo sua atenção para a continuidade do mesmo.

B. Segundo aspecto: Jesus como Rei

Já temos demonstrado que a terminologia e conceito desse texto apresentam a figura do Messias, como descendente de Davi, o Renovo Justo, o Rebento de Jessé. Também já observamos a estreita relação entre a identidade de descendente de Davi e o Reino prometido a Ele. Não é à toa que o texto que estamos a ler continua: “rei que é, reinará, e agirá sabiamente, e executará o juízo e a justiça na terra”.

1.  No Antigo Testamento

O termo usado para rei (hb. malek) aqui é comum e provavelmente nada extraordinário é visto no sentido desse termo. O sentido mais usual do termo é a idéia de um governante de uma nação (Gn.14.1; Dt.11.3), ou até mesmo de Israel (Dt.17.14; 1Re.1.34; 9.11). Eventualmente, Yahweh é chamado de Rei de Israel (Nm.23.21; Dt.33.5; 1Sm.12.12). Contudo, esse título também é aplicado ao Messias como futuro Rei do Povo de Deus, e segundo o AT, podemos notar algumas características desse prometido Rei:

a. Rei constituído por Yahweh:

Uma das verdades sobre esse Messias-Rei é que Ele seria constituído como tal por Yahweh, O texto que temos observado já demonstrou esse fato, mas é importante lembrar o leitor que essa é uma característica desse Rei expressa no AT,observe:

Sl.2.6: “Eu, porém, constituí o meu Rei sobre o meu santo monte Sião”. A expressão usada pelo salmista aqui demonstra claramente essa dupla função do Ungido Esperado como Messias e Rei: O termo “constituí” foi traduzido em outras versões como “ungi”, “consagrei”, duas designações comuns para se falar do Messias. Entretanto, aqui ele é Ungido como Rei.

Sl.18.50: “É ele quem dá grandes vitórias ao seu rei e usa de benignidade para com o seu ungido, com Davi e sua posteridade, para sempre”. Nesse salmo encontramos a ação de Yahweh em conceder a Seu Rei vitórias, além de o chamar de Seu Ungido. Ambos os termos são usado em relação a Davi e seu reino, contudo a promessa de Deus se estende para sua posteridade, eternamente. Portanto, aqui vemos a Yahweh como aquele que separa da linhagem de Davi Seu rei, Seu Ungido e o habilita a vencer. Segue-se que tal Rei e Ungido é estabelecido e mantido por Yahweh.

b. Seu Reino é Eterno:

Uma das características desse Reino do descendente de Davi é que seria Eterno. Desde que a promessa divina foi dada a Davi esse aspecto ficou claro: “Quando teus dias se cumprirem e descansares com teus pais, então, farei levantar depois de ti o teu descendente, que procederá de ti, e estabelecerei o seu reino. Este edificará uma casa ao meu nome, e eu estabelecerei para sempre o trono do seu reino” (2Sm.7.12-13). Assim, Yahweh ao apresentar a idéia de um Rei descendente de Davi, prometeu um reino eterno, conceito que foi expandido pelos profetas (cf. 2Pe.1.11):

Dn.2.44: “Mas, nos dias destes reis, o Deus do céu suscitará um reino que não será jamais destruído; este reino não passará a outro povo; esmiuçará e consumirá todos estes reinos, mas ele mesmo subsistirá para sempre”. Ao passo que o reino das nações é temporal e passageiro, o reino prometido por Yahweh não pode ser destruído nem deixar de existir. Essa promessa sobre a eternidade do reino do ungido de Yahweh é ampliada com o conceito da impossibilidade de esse reino ser destruído.

Dn.7.14: “Foi-lhe dado domínio, e glória, e o reino, para que os povos, nações e homens de todas as línguas o servissem; o seu domínio é domínio eterno, que não passará, e o seu reino jamais será destruído”. É interessante que a profecia passa agora a garantir que não apenas o Reino será Eterno mas o Domínio do Rei o será. Ora, se o domínio não tem fim, segue-se que aquele que o possui não pode ser temporal.. Portanto, há estreita ligação entre a eternidade do reino e a eternidade do Rei, como veremos adiante.

c. Seu Reino é Justo:

Essa é uma verdade claramente exposta em nosso texto: O Messias-Rei exercerá a justiça e o juízo durante seu Reinado eterno. Essa verdade é atestada em outros lugares na escritura, observe:

Is.32.1:Eis aí está que reinará um rei com justiça, e em retidão governarão príncipes”. A idéia de um Rei Justo que viria é parte da expectativa judaica sobre o Messias, sendo vista em alguns Salmos:

Zc.9.9: “Alegra-te muito, ó filha de Sião; exulta, ó filha de Jerusalém: eis aí te vem o teu Rei, justo e salvador, humilde, montado em jumento, num jumentinho, cria de jumenta”. O Rei prometido também é visto como Justo e Salvador: Repousa sobre esse Rei a promessa da Salvação de Judá e a segurança de Israel. Esse Rei é humilde e é apresentado pela figura do homem montado na jumenta, como Cristo bem apresentou em sua entrada triunfal em Jerusalém (Mt.21.5).

Sl.99.4:És rei poderoso que ama a justiça; tu firmas a eqüidade, executas o juízo e a justiça em Jacó”. A similaridade do fim desse verso com o texto que temos analisado reforça a idéia de um Rei cujo Reino é realizado em Justiça. De modo interessante, é também prometido um Reino cujo súditos andam em justiça, observe:

Ez.37.24: “O meu servo Davi reinará sobre eles; todos eles terão um só pastor, andarão nos meus juízos, guardarão os meus estatutos e os observarão”. Em função de um governo justo, exercido por um Rei justo, os súditos desse reino futuro, serão obedientes aos estatutos e mandamentos de Yahweh.

d. É Rei Digno de Adoração:

Um dos detalhes que merece atenção é a promessa de Yahweh de que o Seu Ungido será adorado, por causa do amor de Yahweh: “Assim diz o SENHOR, o Redentor e Santo de Israel, ao que é desprezado, ao aborrecido das nações, ao servo dos tiranos: Os reis o verão, e os príncipes se levantarão; e eles te adorarão por amor do SENHOR, que é fiel, e do Santo de Israel, que te escolheu“ (Is.49.7). Alguns pensam que o termo “adorar” aqui deveria ser entendido como se prostrar. É importante lembrar que o termo aqui (hb. shachah) é usado para descrever a atitude de prostrar-se reverentemente diante de alguém de maior autoridade (1Sm.24.9), entretanto, esse não é seu uso primordial, uma vez que esse uso apenas atesta-se 18x, enquanto o sentido de adorar, 99x no AT. Outro detalhe que merece nossa atenção é o termo “levantar” (hb. quwn) exige que o termo seja entendido como adoração e não com o sentido de prostrar-se.

e. É Rei Eterno, como Yahweh:

Todas essas características apresentam um fato interessante: O Messias Prometido tem os mesmos atributos que Yahweh. Note que é dito no AT sobre Yahweh como Deus eterno, do mesmo modo que o Mesias-Rei o É.  O Reino de Yahweh é Eterno, do mesmo modo que o Reino do Messias-Rei prometido. E por isso que o Messias é chamado nesse verso de Yahweh.

Sl.61.6: “Dias sobre dias acrescentas ao rei; duram os seus anos gerações após gerações”. O Rei prometido é um Rei cujos dias não se acabam, portanto, eterno. Essa característica é exclusiva de Yahweh no AT (Gn.21.33), observe: “O SENHOR é rei eterno: da sua terra somem-se as nações” (Sl.10.16); “Mas o SENHOR é verdadeiramente Deus; ele é o Deus vivo e o Rei eterno; do seu furor treme a terra, e as nações não podem suportar a sua indignação” (Jr.10.10; cf. Ex.15.25; Sl.29.10; Zc.14.9).

Mq.5.2:E tu, Belém-Efrata, pequena demais para figurar como grupo de milhares de Judá, de ti me sairá o que há de reinar em Israel, e cujas obras são desde os tempos antigos, desde os dias da eternidade” . Nesse verso vemos claramente o fato de que o Messias Prometido, que irá Reinar sobre Israel, não tem início de dias, e, portanto, não criado. Esse conceito é claramente ensinado no AT em referência a Yahweh, como o primeiro e o último (Is.44.6; 48.12) terminologia que também é aplicada a Jesus Cristo, o Messias-Rei prometido no AT, em Apocalipse (Ap.1.17, 2.8; 22.13).

Todas essas designações do Messias-Rei prometido testemunham a identidade de Cristo como o Messias-Rei esperado, e na identificação do Messias com Yahweh vemos claramente sua divindade anunciada muito antes de sua encarnação. Não é à toa que lemos nesse texto que Ele é chamado Yahweh, nossa Justiça.

2. No Novo Testamento

Como já demonstramos, havia nos tempos de Jesus uma clara expectativa da vinda do Messias-Rei como libertador político. A expectativa judaica era que o Messias-Rei viria de Jerusalém (Mt.5.35), como o magos do oriente já tinham demonstrado (Mt.2.2), fato não negado pelo próprio Cristo (Mt.27.11; Jo.18.37) e ironizado por aqueles que o crucificaram (Mt.27.27, 37, 42).

De modo interessante, os judeus tinham certa resistência com esse fato, pois não o viam como o Filho de Davi, Messias-Rei libertador de Israel. Note que é exatamente essa uma das acusações contra Jesus Cristo: “E ali passaram a acusá-lo, dizendo: Encontramos este homem pervertendo a nossa nação, vedando pagar tributo a César e afirmando ser ele o Cristo, o Rei” (Lc.23.2). Isso é importante ser ressaltado, pois nesse sentido Jesus foi uma decepção para aqueles que o esperavam, pois não viam nele um Rei Valente, um líder político que vira para libertar a Israel.

Essa frustração não veio sem evidências, pois o próprio Jesus em algumas ocasiões rejeitou a idéia de ser feito rei entre ele: “Sabendo, pois, Jesus que estavam para vir com o intuito de arrebatá-lo para o proclamarem rei, retirou-se novamente, sozinho, para o monte” (Jo.6.15). Além disso, Ele mesmo testificava que seu Reino não era desse mundo: “O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus ministros se empenhariam por mim, para que não fosse eu entregue aos judeus; mas agora o meu reino não é daqui” (Jo.18.36).

A verdade é que o Reino de Cristo, segundo ensinado por Ele mesmo, na ocasião da sua encarnação não era um Reino Físico: “Interrogado pelos fariseus sobre quando viria o reino de Deus, Jesus lhes respondeu: Não vem o reino de Deus com visível aparência. Nem dirão: Ei-lo aqui! Ou: Lá está! Porque o reino de Deus está dentro de vós” (Lc.17.20-21). Esse reino apresentado por Cristo não era o Reino que os judeus pareciam esperar, apesar de ser o Reino Prometido.

O Reino apresentado por Cristo, era um Reino dos céus (Mt.3.2; 4.17), uma forma mais aceitável de se apresentar o Reino de Deus a um Judeu. É evidente que o Reino dos céus apresentado por Cristo no Evangelho de Mateus é o Reino de Yahweh, mas que por zelo ao uso do nome do Senhor, foi apresentado como Reino dos céus. Uma rápida observação nos evangelhos sinóticos irá revelar esse fato. Reforça essa idéia o eventual uso do termo céu (Gr. ouranós) como alusão ao próprio Deus em Mateus (Mt.21.25; cf. Mt.5.16; 5.34; 5.45; 6.9; 16.1; 23.22).

Esse Reino dos céus estava próximo e essa era a mensagem pregada por Cristo (Mt.3.2) e ensinada aos seus seguidores (Mt.10.7), a quem revelaria os mistérios desse reino (Mt.13.11). Esse reino seria visto por seus seguidores antes que viessem a morrer (Mt.16.28), o que reforça a idéia de um Reino espiritual e não físico. A participação nesse Reino exigia arrependimento (Mc.1.15), ser como uma criança (Mc.10.14), ser desapegado ao dinheiro (Mt.19.24), ser humilde de espírito (Mt.5.3), perseguido por causa da justiça (Mt.5.10), nascer de novo (Jo.3.3-5). Em outras palavras, era necessário exercer a fé centrada no Messias-Rei como Salvador e Senhor (At.2.36; Rm.10.9). Não é à toa que os judeus não aceitavam sua mensagem, e que o acusavam de usurpar das escrituras um direito que não era dele (Lc.23.2).

Contudo, deve-se lembrar que desde cedo no Ministério Público de Jesus, os seus seguidores o reconheceram como Messias e Rei. Natanael assim que o conheceu testemunhou: “Então, exclamou Natanael: Mestre, tu és o Filho de Deus, tu és o Rei de Israel!” (Jo.1.49). Eles também esperavam pela concretização desse reino durante todo o tempo de ministério de Jesus entre eles. A curiosidade deles era tanta que gostariam de saber quem seria o que se assentaria ao seu lado no Reino (Mt.20.21), ou quem seria o maior nele (Mt.18.1). De modo interessante, Jesus nunca corrigiu seus seguidores sobre o conceito que tinham sobre o Reino, o que sugere que este não seria apenas espiritual.

Note que Jesus, depois de ressuscitado é interrogado pelos discípulos se esse era a ocasião em que ele restauraria a Israel o reino (At.1.6). Se o Reino fosse estritamente espiritual, Jesus deveria ter corrigido a pergunta dos apóstolos, mas não o fez. Em sua resposta, afirmou: “Não vos compete conhecer tempos ou épocas que o Pai reservou pela sua exclusiva autoridade” (At.1.7). Em outras palavras, Jesus disse: “não te interessa quando vou fazer isso, faça a sua parte (At.1.8) que no tempo certo o Senhor fará a sua”. Entretanto, é importante ressaltar que o reino fazia parte do conceito de expansão da Igreja (At.8.12; 14.22; 19.8; 20.25; 28.23, 31).

Na exposição de Paulo, o reino também é apresentado como não primeiramente físico: “Porque o reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo” (Rm.14.17; cf. 1Co.4.20); “Isto afirmo, irmãos, que a carne e o sangue não podem herdar o reino de Deus, nem a corrupção herdar a incorrupção” (1Co.15.50). Ao que tudo indica, o Reino de Deus para Paulo era primeiramente espiritual e exige conformidade ética e moral com o Rei (1Co.6.9; Gl.5.21; Ef.5.5). Paulo chega a usar a expressão reino celestial para se referir à natureza desse Reino de Deus (2Tm.4.18; cf. 1Ts.2.12; Cl.1.13).

Assim, entendemos que o Reino do qual Jesus é Rei é primeiramente espiritual, mas também o será literal e fisicamente no futuro, quando o Senhor volta para realizar as profecias referentes a Israel, como anunciadas no Antigo Testamento, como o Apocalipse claramente nos informa (Ap.17.14; 19.16; 20.6). Portanto, entendemos que Jesus é o Messias-Rei prometido.

D. Terceiro Aspecto: Jesus como Deus

O que vimos até aqui fortalecem a idéia de uma real identidade entre Yahweh e o Messias-Rei prometido. Isso não significa que o Messias e Yahweh são a mesma pessoa, como pensam os sabelianos. Está claro até aqui que Yahweh e o Messias-Rei prometido não pode ser a mesma pessoa, uma vez que percebemos que esse Rei é Estabelecido por Yahweh. Por outro lado, também fica evidente que o Messias-Rei é Deus, tão divino quanto Yahweh, e essa verdade é claramente ensinada nesse verso. Os arianos, modernos e antigos, devem considerar esse fato quando descrevem a Jesus Cristo como Messias-Rei prometido no AT, pois tal é divino como Yahweh: “será este o seu nome, com que será chamado: SENHOR, Justiça Nossa”.

Já temos demonstrado em outros artigos o conceito de que o Antigo Testamento já atestava a idéia de um Messias-Rei que fosse divino. Várias passagens do AT são usadas no NT com reforço dessa ênfase. Uma das descrições sobre a Eternidade de Yahweh em Isaías é claramente usada em Apocalipse em referência a Jesus Cristo, observe:

Is.44.6: Assim diz o SENHOR, Rei de Israel, seu Redentor, o SENHOR dos Exércitos: Eu sou o primeiro e eu sou o último, e além de mim não há Deus (cf. 48.12)

Ap.2.8: Ao anjo da igreja em Esmirna escreve: Estas coisas diz o primeiro e o último, que esteve morto e tornou a viver (cf. 1.17; 22.13)

Em Apocalipse a referência a Jesus Cristo com uma característica de Yahweh é clara: É sempre Jesus que fala ao mensageiro das igrejas, e aqui além do título de primeiro e último, Jesus se apresenta como aquele que esteve morto e tornou a viver. Portanto, não temos por que pensar que a referência aqui não é a Jesus Cristo.

De modo interessante, tal expressão evidencia o fato de que tanto Yahweh como Jesus não tem nem início nem fim, pois antes deles não houve jamais ninguém, nem depois deles haverá. Se Yahweh é o primeiro do mesmo modo que Jesus, afirma-se claramente a idéia de que Eles são um, não apenas em propósito, mas em essência. Essa verdade clara nas escrituras seria suficiente para demonstrar a divindade de Cristo como anunciada pelas escrituras, fato que deveria fazer os arianos, modernos e antigos, repensar suas ideologias. Não é à toa que foram chamados de hereges.

Entretanto, poderíamos usar outras declarações para evidenciar que Jesus é Divino, afinal o Antigo Testamento também atesta com clareza que aquele a Salvação é obra de Yahweh, e que apenas Yahweh é Salvador, fato que no Novo Testamento é aplicado claramente a Jesus Cristo:

Jl.2.32: E acontecerá que todo aquele que invocar o nome do SENHOR será salvo.

At.2.21: E acontecerá que todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo. (Em referência a Jesus)

1Co.1.2: à igreja de Deus que está em Corinto, aos santificados em Cristo Jesus, chamados para ser santos, com todos os que em todo lugar invocam o nome de nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor deles e nosso.

Rm.10.9, 13: Se, com a tua boca, confessares Jesus como Senhor e, em teu coração, creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo (…)Porque: Todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo.

O texto de Joel atesta que aquele que invocar o nome do SENHOR será salvo. O uso de caixa alta para descrever o termo SENHOR na ARA é uma designação de que o Tetragrama (YHWH – Yahweh) está sendo usado. Portanto, está claro que o texto ensina que aqueles que invocarem o nome de Yahweh serão salvos. Os judeus contemporâneos de Jesus certamente teriam acesso a essa informação e sabiam do que se tratava o texto, e Pedro, judeu contemporâneo de Jesus, usa esse texto em referência a Jesus (At.2.21). Em sua pregação ele encerra sua mensagem por anunciar que Jesus Cristo, varão conhecido diante dos seus ouvintes, é Senhor e Cristo, ou seja, Yahweh e Messias.

Paulo também faz uso desse mesmo texto de Joel e o aplica a Jesus Cristo (1Co.1.2), chamando a Jesus de Yahweh. É bem verdade que a alusão feita aqui pode ser muito mais amena que a feita por Pedro, mas não é a única ocasião em que ele a usa. Observe que ele faz o mesmo quando apresenta o modo da salvação em Rm.10.9 e cita Jl.2.32 como demonstração de cumprimento profético em Rm.10.13. A idéia de “confessar a Jesus como Senhor” em referência a Jl.2.32 certamente atesta que a verdadeira fé cristã reconhece a divindade de Jesus Cristo. Esse fato é evidente na fundamentação paulina encontrada no profeta Joel. Na mente de Paulo Jesus e Yahweh são um, como Jesus já tinha ensinado (Jo.10.31).

Como vários exemplos já foram oferecidos nos posts: (1) Jesus é Deus de acordo com as Escrituras; (2) Jesus: Homem Deus, pretendo usar apenas mais um:

Is.40.3: Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do SENHOR; endireitai no ermo vereda a nosso Deus.

Mt.3.3: Porque este é o referido por intermédio do profeta Isaías: Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas

É evidente que Mateus entendeu o recado do profeta Isaías como uma predição ao trabalho de João Batista em relação ao ministério de Jesus. Fato interessante, é que Mateus usou um texto que Isaías atribuiu a Yahweh para se referir a Cristo. Essa relação tem sido atacada pelos arianos modernos (Testemunhas de Jeová), como se o texto estivesse a dizer que o caminho estava sendo preparado para Yahweh por intermédio de Jesus. Contudo, nada no texto sugere esse tipo de interpretação. E para demonstrar tão grande equívoco dessa afirmação, temos que demonstrar dois fatos: (1) João Batista tinha convicção que estava preparando o caminho para Cristo (Mt.3.11); (2) As profecias referentes a João Batista incluíam a específica declaração: Eis que eu envio o meu mensageiro, que preparará o caminho diante de mim; de repente, virá ao seu templo o Senhor, a quem vós buscais, o Anjo da Aliança, a quem vós desejais; eis que ele vem, diz o SENHOR dos Exércitos (Ml.3.1). Ou seja, João Batista iria preparar o caminho à frente de Yahweh, como fez em seu ministério adiante de Cristo.

É evidente que o Antigo Testamento prevê um Messias-Rei que fosse divino. É digno de nota que o texto que estamos a observar traz uma das mais evidentes provas desse fato:

Jr.23.5-6: Eis que vêm dias, diz o SENHOR, em que levantarei a Davi um Renovo justo; e, rei que é, reinará, e agirá sabiamente, e executará o juízo e a justiça na terra. Nos seus dias, Judá será salvo, e Israel habitará seguro; será este o seu nome, com que será chamado: SENHOR, Justiça Nossa.

Para observarmos esse texto com justiça, vamos considerar duas declarações fundamentais ainda não analisadas: (1) o uso da expressão “nome” (hb. shem); (2) O uso do tetragrama (YHWH – Yahweh).

a. Será este o seu nome:

Uma das primeiras objeções que se faz a compreensão da profecia de um Messias-Rei Divino é que o texto não diz que o Messias é Yahweh, mas que será chamado Yahweh. Segue-se a essa objeção o fato de que no mesmo livro, Jeremias usa uma expressão similar para se referir ao povo de Jerusalém: Naqueles dias, Judá será salvo e Jerusalém habitará seguramente; ela será chamada SENHOR, Justiça Nossa (Jr.33.16). Note que o conjunto das objeções parece aceitável, e por essa razão merece nossa atenção.

Em primeiro lugar precisamos estabelecer uma distinção importante entre Jr.23.6 e 33.16:

Jr.23.6: Nos seus dias, Judá será salvo, e Israel habitará seguro; será este o seu nome, com que será chamado: SENHOR, Justiça Nossa.

Jr.33.16: Naqueles dias, Judá será salvo e Jerusalém habitará seguramente; ela será chamada SENHOR, Justiça Nossa

O primeiro detalhe que nos chama a atenção é a distinção de foco: O primeiro texto claramente fala sobre o Messias, ou o Renovo; Já o segundo fala claramente sobre Jerusalém. Se 23.5 fala da divindade do Messias, 33.16 deveria falar da divindade de Jerusalém.

Entretanto, temos que notar que há uma pequena diferença de grandes proporções nos dois textos, pois 33.16 diz que a nação será chamada Yahweh nossa Justiça, enquanto 23.6 afirma que esse será o nome do Messias. O termo hebraico usado para descrever “nome“ (hb. shem) tem um significado muito mais aprofundado do que a expressão portuguesa aqui: O termo refere-se ao caráter e essência de um ser. Observe esse fato expresso no AT:

1Sm.25.25: Não se importe o meu senhor com este homem de Belial, a saber, com Nabal; porque o que significa o seu nome ele é. Nabal é o seu nome, e a loucura está com ele; eu, porém, tua serva, não vi os moços de meu senhor, que enviaste

Essa relação entre nome e caráter no Antigo Testamento é fato claramente. Considere o caso de Jacó que teve seu nome alterado para Israel por Yahweh (Gn.35.10). O significado de Jacó é “enganador” ao passo que Israel “Deus prevalece” como expressão da fidelidade e manutenção graciosa do Seu Soberano Plano apresentado a Abraão.

Fato similar acontece com Noemi, que por grande sofrimento pela perda do marido e dos seus filhos (Rt.1.12), descreve sua situação com o termo “amarga” (hb. Mara; Rt.1.13; cf. Ex.15.23), nome que adota para descrever sua situação: “Porém ela lhes dizia: Não me chameis Noemi; chamai-me Mara, porque grande amargura me tem dado o Todo-Poderoso” (Rt.1.20). Muitos outros exemplos poderiam ser usados para ilustrar esse fato, mas já temos demonstrado um fato recorrente no AT, e por isso podemos concluir seguramente que a relação entre o nome e o caráter e a essência de um ser na mentalidade hebréia antiga é fato claramente observável no AT.

Entretanto, é fundamental demonstrar que esse termo (hb. shem) é usado no AT para descrever a exclusividade de Yahweh e eventualmente é usado em substituição do tetragrama quando em referência a Yahweh:

Ex.20.24: Um altar de terra me farás e sobre ele sacrificarás os teus holocaustos, as tuas ofertas pacíficas, as tuas ovelhas e os teus bois; em todo lugar onde eu fizer celebrar a memória do meu nome, virei a ti e te abençoarei

Sl.61.8: Assim, salmodiarei o teu nome para sempre, para cumprir, dia após dia, os meus votos

Diversos casos podem ser apresentados para descrever uma ação feita a Yahweh apresentada como uma ação feita em seu nome (Ex.34.14). Essa identificação entre nome e pessoa (caráter e essência) é fundamental para entendermos o que significa o Messias-Rei ter o nome de Yahweh. Note que as profecias já atribuíam ao Messias Divino:

Is.7.14: Portanto, o Senhor mesmo vos dará um sinal: eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho e lhe chamará Emanuel.

Is.9.6: Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu; o governo está sobre os seus ombros; e o seu nome será: Maravilhoso Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz

Emanuel, Deus Conosco, seria a descrição da pessoa e caráter desse Messias prometido, do mesmo modo que Maravilhoso Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade e Príncipe da Paz. Esse Messias seria Deus entre nós, Deus forte e Pai da Eternidade, atribuições evidentes de sua Divindade absoluta.

Entretanto, esse Messias-Rei Divino prometido também levaria sobre si a designação do nome de Yahweh: “Nos seus dias, Judá será salvo, e Israel habitará seguro; será este o seu nome, com que será chamado: SENHOR, Justiça Nossa” Entretanto, esse nome é exclusivo do Deus Eterno e Pai e ninguém mais têm tal nome e glória, pois Yahweh não divide com os ninguém.

Ex.15.3: O SENHOR é homem de guerra; SENHOR é o seu nome

Ex.3.15: Assim dirás aos filhos de Israel: O SENHOR, o Deus de vossos pais, o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó, me enviou a vós outros; este é o meu nome eternamente, e assim serei lembrado de geração em geração

Sl.83.18: E reconhecerão que só tu, cujo nome é SENHOR, és o Altíssimo sobre toda a terra

Is.42.8: Eu sou o SENHOR, este é o meu nome; a minha glória, pois, não a darei a outrem, nem a minha honra, às imagens de escultura

Jr.16.21: Portanto, eis que lhes farei conhecer, desta vez lhes farei conhecer a minha força e o meu poder; e saberão que o meu nome é SENHOR

O que é evidente no AT é que ninguém mais pode ser chamado pelo nome de Yahweh, pois esse é o nome de Deus. É interessante que tal nome é uma descrição do próprio Deus, como Aquele que é, o Auto-existente, o Doador da vida e da existência, o Criador, Imutável e Eterno. É interessante que todas essas características de Yahweh são atribuídas a Jesus Cristo no NT: Aquele que é (Jo.8.58); Auto-existente (Jo.5.26); Autor da vida (At.3.15); Criador (Jo.1.3; Cl.1.16), Imutável (Hb.13.8) e Eterno (Jo.1.1). Ao que tudo indica, os autores neotestamentários entenderam que as profecias de um Messias-Rei Divino se cumpriram plenamente em Jesus Cristo.

Assim, diante dessas informações temos certeza de que Jr.23.6 atesta a identidade plenamente divina do Messias-Rei prometido, que é vista na figura de Jesus Cristo, nosso Deus e Salvador (Tt.2.13; 2Pe.1.1).

b. Yahweh Nossa Justiça:

O texto de Jr.23.5 atesta que o nome do Messias-Rei prometido é Yahweh nossa Justiça, e como vimos isso atesta o fato de que Jesus é tão divino quanto Yahweh, e não uma divindade à parte do Pai como pensam os arianos. Entretanto, alguém poderia objetar por dizer que outros personagens no Antigo Testamento já tiveram em seus nomes o título de Jeová, o que deveria aumentar nossa lista de pessoas divinas.

Por exemplo o nome Josué (hb. Yehowshuwa) significa Yahweh é Salvador, mas os cristãos não o entendem como uma pessoa divina. Fato similar acontece com Zacarias (hb. Zekaryah), cujo nome significa Yahweh não esquece, ou Isaías (hb. Yesha`yah) Yahweh Salva, ou Jeozadaque (hb. Yehowtsadaq), Yahweh é Justo.

Entretanto, devem-se notar dois detalhes importantes no que se refere a pessoas cujos nomes fazem alusão ao nome do Senhor, Yahweh: (1) a nenhum desses personagens se disse que o nome (hb. shem) do Senhor seria dado a qualquer um deles e (2) em nenhum dos nomes desses personagens se usou o Tetragrama (YHWH – Yahweh). Embora seus nomes fizessem alusão ao nome sagrado, ele não estava lá.

Essa distinção é interessante e fundamental, pois apenas o Messias-Rei prometido é que recebeu o nome do Senhor e sua descrição foi feita com o tetragrama, nome exclusivo de Yahweh. Portanto, é seguro afirmar que tal declaração de Jeremias consolida claramente a identidade divina do Messias-Rei prometido. Segue-se que Jesus Cristo, o Messias e Rei prometido  no AT, é Deus como Yahweh, o Eterno Deus, Senhor dos senhores.

Conclusão

Para encerrar esse post, resolvi transcrever a opinião de um dos grandes pensadores cristãos do passado e suas impressões sobre esse texto, Charles Suprgeon:

Jesus Cristo é o Senhor nossa Justiça. Há porém, três palavras “Jeová” – pois assim está no original – “NOSSA JUSTIÇA. Ele é o Senhor. Leia esse versículo, e você vai perceber claramente que o Messias dos judeus, Jesus de Nazaré, o Salvador dos gentios, certamente é o Senhor. Ele tem o título incomunicáveis de Deus, o Altíssimo. “Eis que vêm dias, diz o SENHOR, em que levantarei a Davi um Renovo justo; e, rei que é, reinará, e agirá sabiamente, e executará o juízo e a justiça na terra. Nos seus dias, Judá será salvo, e Israel habitará seguro; será este o seu nome, com que será chamado: SENHOR, Justiça Nossa”. Oh, vós soncinianos e  arianos, que monstruosamente negam o Senhor que os comprou e vocês o colocaram à ignomínia, negando sua divindade. Leia esse verso e deixe a sua língua blasfema ficar em silêncio, e deixe o seu coração obstinado derreter em penitência,  porque tens pecado  maldosamente contra Ele. Ele é Jeová[1].


[1] Charles Spurgeon, The Lord Our Righteousness, June 2nd, 1861