O Dilúvio foi Universal ou Local?


Outra questão ligada ao Dilúvio se refere a sua abrangência: Foi o dilúvio Local ou Universal? Quando se faz essa pergunta não se propõe ignorar o relato das escrituras e buscar em fontes alternativas as respostas para essa questão. A intenção é observar o que dizem as escrituras sobre o assunto.

Uma nota introdutória deve ser levantada aqui: Quando se usa a expressão “Local” para se definir o dilúvio não se pretende afirmar apenas o local onde se encontrava Noé e sua família. Diferentes propostas já foram apresentadas para o uso desse termo que abrange desde o mundo conhecido de Noé até um Dilúvio semi-Universal, incluindo regiões mais abrangentes do globo, entretanto, sem cobri-lo totalmente. Em defesa desse tipo mais abrangente alguns cristãos preferem o título de “Universal” no sentido que inclui todos os seres humanos, em contraste com o Global, que inclui todo o globo.

Em nossa observação, usamos o termo Universal para descrever a idéia que defende que todo o globo foi coberto pelas águas e todos os seres humanos exceto a família de Noé foram aniquilados; já o termo Local, se refere a uma região do globo grande o suficiente para aniquilar todos os seres humanos, mas não todo ele. Vamos a análise.

1.         Universal:

Essa é, sem sombra de dúvidas, a versão mais aceita e recebida no cristianismo. Em nossa alfabetização bíblica nas escolas dominicais temos sido ensinados desse modo a anos. Os cristãos em geral adotam essa posição e não sem evidências, pois as escrituras parecem favorecer essa interpretação largamente, em função de sua linguagem universalista nesse texto (cf. veja a quantidade de “tudo”, “todo”, “todos” usados nesse relato). Observe alguns pontos favoráveis:

a. A humanidade já teria ocupado toda a terra:

Se toda a humanidade já ocupasse toda a terra nesse momento histórico, então, o dilúvio deve ser necessariamente universal. A favor dessa idéia, Gênesis afirma que os homens já haviam enchido a terra: Em primeiro lugar, os homens estavam se multiplicando por todas as regiões da terra: “E aconteceu que, como os homens começaram a multiplicar-se sobre a face da terra, e lhes nasceram filhas” (Gn.6.1). Calvino, falando sobre esse verso, atestou: “Isso aconteceu como efeito da bênção (Gn.1.28), mas a corrupção humana abusou e perverteu essa bênção e a transformou em maldição”. Poucos são os comentaristas que rejeitam a idéia da maldade humana como causa do dilúvio, e Calvino demonstra isso bem. Entretanto, note que o texto nos diz que a multiplicação do homem era sobre a face da terra, como uma forma universal de apresentar a expansão da humanidade. Portanto, se os homens ocupassem todo o globo nessa ocasião, o dilúvio era universalmente necessário.

Em segundo lugar, a linguagem de Gênesis sugere que a maldade do homem já era vista em toda a terra: “A terra estava corrompida à vista de Deus e cheia de violência” (Gn.6.11). Ou seja, a expansão da humanidade povoou a terra de tal modo que a terra era vista como corrompida e a violência humana havia enchido toda a terra. Essa expansão da humanidade caída está em conformidade com o que se espera dela: “Quando os perversos se multiplicam, multiplicam-se as transgressões” (Pr.29.16).

b. Todas as montanhas foram cobertas:

O texto de Gênesis apresenta uma informação interessante sobre as montanhas que precisa ser analisada: “Prevaleceram as águas excessivamente sobre a terra e cobriram todos os altos montes que havia debaixo do céu. Quinze côvados acima deles prevaleceram as águas; e os montes foram cobertos” (Gn.7.19, 20). A descrição aqui é bem abrangente e na opinião dos defensores dessa visão, o texto parece não oferecer margem para outra interpretação.

Matthew Henry é um desses que parece defender esse ponto aqui, e sobre ele atesta: “as águas subiram tão alto que não apenas a planície fora inundada, mas para garantir que ninguém pudesse escapar, o topo das mais altas montanhas foram submersas – quinze côvados, ou seja, sete metros e meio, de modo que esperar a salvação nos morros e montanhas era vã [1]”. Provavelmente a citação sobre a possibilidade de salvação encontrada nas montanhas seja uma forma de Henry rejeitar a visão da mitologia grega do Dilúvio de Deucalião, que afirmava que todos os homens morreram, exceto os que subiram ao topo das montanhas[2].

Outra forte evidência desse fato encontra-se no capítulo 8 de Gênesis: “No dia dezessete do sétimo mês, a arca repousou sobre as montanhas de Ararate. E as águas foram minguando até ao décimo mês, em cujo primeiro dia apareceram os cumos dos montes” (Gn.8.4-5). Falando sobre esse texto Krell atesta: “a profundidade da água favorece um dilúvio universal. O Monte Ararate, no qual a arca veio descansar, é superior a 17 mil pés de altitude, e as águas estavam mais de vinte pés mais alto do que todas as montanhas[3]”.

c. Todos os homens foram mortos:

Um fato que não há contra-argumentos é que todos os homens, exceto a família de Noé, foram mortos no dilúvio. Observe que essa tinha sido a promessa de Deus ao enviar o Dilúvio: “Disse o SENHOR: Farei desaparecer da face da terra o homem que criei, o homem e o animal, os répteis e as aves dos céus; porque me arrependo de os haver feito” (Gn.6.7). Sobre esse texto Barnes afirma: “Este testemunho solene para a condenação universal [a queda] não tinha deixado qualquer impressão salutar ou duradoura sobre os sobreviventes. Mas agora uma destruição geral e violenta é atinge toda a humanidade, é  um monumento perpétuo da ira divina contra o pecado, para todas as futuras gerações da única família salva[4]”.Toda a humanidade é alcançada com o dilúvio, e como os defensores dessa visão defendem que os homens ocupavam toda a superfície da terra, era necessário que o dilúvio fosse universal.

Essa promessa feita por Deus foi levada à cabo, observe: “Pereceu toda carne que se movia sobre a terra, tanto de ave como de animais domésticos e animais selváticos, e de todos os enxames de criaturas que povoam a terra, e todo homem” (Gn.7.21; cf.23). A terra fora de tal forma devastada e a humanidade inteira destruída que a ordenança divina dada a Adão precisou ser reafirmada com Noé e sua família: “Abençoou Deus a Noé e a seus filhos e lhes disse: Sede fecundos, multiplicai-vos e enchei a terra” (Gn.9.1).

d. Todos os animais foram mortos:

Um detalhe observado acima, mas ainda não comentado é que todos os animais, excetos os que vivem nas águas, morreram no dilúvio. Isso levanta um importante fato: Ainda que os homens não tivesse povoado cada uma das áreas do globo, os animais já o poderiam ter feito. Se todos os animais morreram no dilúvio, ele foi universal. Note a linguagem universalista dos textos: Disse o SENHOR: Farei desaparecer da face da terra o homem que criei, o homem e o animal, os répteis e as aves dos céus; porque me arrependo de os haver feito” (Gn.6.7).  Pereceu toda carne que se movia sobre a terra, tanto de ave como de animais domésticos e animais selváticos, e de todos os enxames de criaturas que povoam a terra, e todo homem” (Gn.7.21).

Linguagem ainda mais abrangente vemos nesse verso: “Porque estou para derramar águas em dilúvio sobre a terra para consumir toda carne em que há fôlego de vida debaixo dos céus; tudo o que há na terra perecerá” (Gn.6.17). Ao comentar esse verso, Gill atesta que o texto fala sobre “todos os seres vivos, homens e mulheres, as feras e o gado da terra, e todo o réptil sobre ela e as aves do céu, mas principalmente o homem, e os outros por sua causa[5]”.

e. Toda a Terra foi devastada:

A promessa de Deus em punir a terra não incluía apenas os seres vivos, mas também o planeta terra: “Então, disse Deus a Noé: Resolvi dar cabo de toda carne, porque a terra está cheia da violência dos homens; eis que os farei perecer juntamente com a terra” (Gn.6.13). Sobre esse texto Keil & Delitzsch afirmam: “Porque toda a carne havia destruído a terra, ela deveria ser destruída com a Terra por Deus[6]”. Até mesmo Pedro parece defender a idéia de um juízo para a terra como um todo quando diz: “Porque, deliberadamente, esquecem que, de longo tempo, houve céus bem como terra, a qual surgiu da água e através da água pela palavra de Deus, pela qual veio a perecer o mundo daquele tempo, afogado em água” (2Pe.3.6). A linguagem universal, parece se repetir em Isaías, observe: “Porque isto é para mim como as águas de Noé; pois jurei que as águas de Noé não mais inundariam a terra, e assim jurei que não mais me iraria contra ti, nem te repreenderia” (Is.54.9). Essa leitura, certamente é um reflexo do próprio relato de Gênesis: “Estabeleço a minha aliança convosco: não será mais destruída toda carne por águas de dilúvio, nem mais haverá dilúvio para destruir a terra” (Gn.9.11).

2.         Local:

Os críticos da visão de um dilúvio local geralmente se interpõem por afirmar que tal opção é na verdade uma tentativa de se adaptar as escrituras ao conhecimento científico dos nossos dias. Segundo eles, essa visão é uma tentativa de “modernização” das escrituras cujo objetivo principal é remover barreiras intelectuais para a mentalidade contemporânea aceitar a palavra de Deus. Eles também afirmam que diante da linguagem universalista da passagem tal conceito fica inviável e que introjetar informações ao texto é necessário para se defender tal posição. Em suma, os críticos a essa visão defendem que não é possível que tal interpretação seja possível.

Mas, será isso mesmo verdade? Nossa análise assume aqui um caráter investigativo do texto, em primeiro lugar, para verificarmos se as críticas são de fato verdadeiras, e verificar a possibilidade de tais críticos estarem equivocados. Vamos à análise:

a. O uso das palavras “kol erets”:

O primeiro debate está relacionado com a expressão hebraica “kol erets”, que é traduzida diversas vezes no relato de Gênesis como “toda terra”. O que percebemos quando observamos a expressão em uso na pena de Moisés percebemos que nem sempre a intenção do autor é que o termo seja realmente tão abrangente como supõe os defensores do dilúvio universal. Por isso, abaixo transcrevemos algumas observações, em demonstração de que a expressão “kol erets” também é usada com outras ênfases, observe

  • Em referência específica: No mesmo livro podemos encontrar a expressão com sentido muio mais restrito e específico para “toda a terra”: “O primeiro chama-se Pisom; é o que rodeia toda terra de Havilá, onde há ouro (…)E o nome do segundo rio é Giom; este é o que rodeia toda a terra de Cuxe” (Gn.2.11, 13). Nesses versos fica evidente que a expressão “toda terra” não significa apenas a terra no sentido universal, mas em sentido restrito (cf. Gn.1.29; 17.8; 41.41, 43, 55; 45.20; Ex.9.9; 10.14, 15; 34.2; Dt.34.1).
  • Em referência a pessoas: Eventualmente o termo pode ser usado para descrever pessoas e não lugares: “Longe de ti o fazeres tal coisa, matares o justo com o ímpio, como se o justo fosse igual ao ímpio; longe de ti. Não fará justiça o Juiz de toda a terra?” (Gn.18.25). Certamente aqui a referência é ao uso da justiça para com a humanidade e não com o Planeta Terra por assim dizer. Fato similar acontece em Babel: “Por isso se chamou o seu nome Babel, porquanto ali confundiu o SENHOR a língua de toda a terra, e dali os espalhou o SENHOR sobre a face de toda a terra” (Gn.11.9). Nesse verso os dois sentidos são observados: (1) Trata-se da confusão das línguas dos povos (2) enquanto Deus os espalhava pela superfície do Planeta Terra. Observar que essa expressão pode ter essa conotação ainda na pena de Moisës, nos faz repensar o modo como entendemos tais expressões no texto de do Dilúvio. Um uso interessante desse tipo é ainda visto em Gênesis: “E toda a terra vinha ao Egito, para comprar de José, porque a fome prevaleceu em todo o mundo” (Gn.41.57). Certamente não podemos esperar outra interpretação aqui, senão que o texto fala sobre pessoas. Esse uso é comum na literatura mosaica e no Antigo Testamento (Gn.19.31; Ex. 19.5; cf. Js.23.14; 1Sm.144.25; 2Sm.15.23; 1Re.2.2; 1Cr.16.14; 16.23; Sl.33.8; 66.1; 66.4; 96.1, 96.9; 98.4; 100.1; 105.7; Is.14.7).
  • Em referência a um local restrito: Eventualmente a expressão pode ser usada para descrever porções de toda a terra, e não propriamente a terra toda: “Acaso, não está diante de ti toda a terra? Peço-te que te apartes de mim; se fores para a esquerda, irei para a direita; se fores para a direita, irei para a esquerda” (Gn.13.9). Nesse verso o uso é claramente restrito e não se pode pensar diferente aqui. Em outros textos do Pentateuco esse sentido é óbvio: “Então, disse: Eis que faço uma aliança; diante de todo o teu povo farei maravilhas que nunca se fizeram em toda a terra, nem entre nação alguma, de maneira que todo este povo, em cujo meio tu estás, veja a obra do SENHOR; porque coisa terrível é o que faço contigo” (Ex.34.10; cf. Lv.25.9, 24; Jz.6.37; 1Sm.13.3; 2Sm.18.8; 24, 8; 1Re.10.24; 1Cr.14.17; 1Cr.22.5; 2Cr.9.28 – veja também: Ez.9.9).
  • Conclusão: Diante do uso da expressão precisamos exercer certo cuidado quando lemos o texto do dilúvio, pois é possível que Moisés não esteja dando uma ênfase tão abrangente quanto pensam os defensores do dilúvio universal. Mas, temos alguma indicação na narrativa do dilúvio que poderia sugerir que o Dilúvio é Local e não Universal?

b. O testemunho do próprio texto:

É bem verdade que existem algumas observações importantes a serem feitas no texto do dilúvio que podem confirmar que o Dilúvio narrado nas escrituras não fala de um fato universal, mas local, ainda que esse local inclua a grande parte do globo.

  • O uso de erets: No relato do dilúvio alguns usos do substantivo referente a terra se referem ao planeta, observe: “A terra estava corrompida à vista de Deus e cheia de violência. Viu Deus a terra, e eis que estava corrompida; porque todo ser vivente havia corrompido o seu caminho na terra” (Gn.6.11,12). Note que a idéia de uma terra corrompida aqui certamente fala sobre a humanidade e não sobre o planeta. No verso 12 fica evidente a equiparação entre a idéia da terra corrompida e de todo ser vivente como um modo de viver corrompido. Essa idéia é importante, pois apresenta que o foco do motivo do dilúvio é restrito à humanidade e não a todo o planeta. Assim, não é exigido que o dilúvio atinja toda a terra. Outro detalhe importante, é que a aliança que Deus faz como Noé inclui toda a humanidade: “Disse Deus: Este é o sinal da minha aliança que faço entre mim e vós e entre todos os seres viventes que estão convosco, para perpétuas gerações, porei nas nuvens o meu arco; será por sinal da aliança entre mim e a terra” (9.12, 13). Sobre esses versos, Rich Deem afirma: “Gênesis 6, versículos 11 e 12 nos dizem que a terra estava corrompida, apesar de entendermos este versículo como uma referência ao povo da terra. Da mesma forma, em Gênesis 9:13, o versículo nos diz que Deus fez uma aliança entre Ele mesmo e a terra. No entanto, mais tarde, versos esclarece que a Aliança é entre Deus e as criaturas da terra. O texto de Gênesis estabelece claramente (juntamente com o Novo Testamento) que o julgamento de Deus foi universal em referência aos seres humanos (com exceção de Noé e sua família)[7]
  • O uso de kol: Em algumas ocasiões o uso de “kol” (tr. Todo) no relato do dilúvio não significa “tudo” no sentido mais absoluto. Em algumas ocasiões a referência é à abrangência, mas não à totalidade, observe: “Então, disse Deus a Noé: Resolvi dar cabo de toda carne, porque a terra está cheia da violência dos homens; eis que os farei perecer juntamente com a terra” (Gn.6.13). Observe que embora o dilúvio tenha alcançado toda a humanidade não alcançou a Noé e seus familiares. Por isso, podemos entender que tal afirmação não é absoluta, mas genérica (cf. Gn.6.17, 19). O mesmo aconteceu com o término do dilúvio, quando o texto atesta que o dilúvio teria matado todos os seres viventes, mas isso certamente não incluía a Noé, sua família e os animais da arca (cf. 7.21).
  • O uso de har: O termo hebraico “har” é freqüentemente traduzido por montanha no relato do dilúvio, mas o termo hebraico é um pouco mais abrangente do que isso. Em um texto, seu uso pode ser significativo, observe: “Prevaleceram as águas excessivamente sobre a terra e cobriram todos os altos montes que havia debaixo do céu. Quinze côvados acima deles prevaleceram as águas; e os montes foram cobertos” (Gn.7.19-20). O termo foi corretamente traduzido pela ARA, usando montes ao invés de montanhas. Embora a diferenciação léxica não seja definitiva, certamente inclui a possibilidade de um dilúvio que não tenha submerso o Everest, por exemplo. Alguns autores que se propuseram a medir o Monte Ararate, onde a Arca parou, afirmam que sua altitude é aproximadamente 16.500[8] pés de altura, enquanto as montanhas do Himalaia ultrapassam os 26.000 pés! Por essa razão, é prudente tomarmos os relato de Gn.7.19 como uma expressão retórica. Para explicar esse fato Barnes acresce: “Nenhum monte estava sobre a água dentro do horizonte do espectador humano[9]”.
  • O fim do relato do dilúvio: Duas observações podem ser feitas aqui:
    1. Vento: O autor de Gênesis descreve que as águas do dilúvio foram minimizadas por vento, observe: “Lembrou-se Deus de Noé e de todos os animais selváticos e de todos os animais domésticos que com ele estavam na arca; Deus fez soprar um vento sobre a terra, e baixaram as águas” (Gn.8.1). Não devemos minimizar a idéia de o vento fazer as águas baixarem, mas pensar que na idéia de um dilúvio universal, as águas não seriam escoadas pelo vento, pois não teriam para onde ir. Note que essa é a tônica que o autor de Gênesis dá ao relato, observe: “As águas iam-se escoando continuamente de sobre a terra e minguaram ao cabo de cento e cinqüenta dias” (Gn.8.3, cf. v.5).
    2. Deserto Universal: Outro detalhe que merece destaque, é que se tomarmos literalmente as declarações sobre o fim do dilúvio, teremos que admitir que o globo sofreu, ainda que temporariamente, da completa ausência de água, observe: “Ao cabo de quarenta dias, abriu Noé a janela que fizera na arca e soltou um corvo, o qual, tendo saído, ia e voltava, até que se secaram as águas de sobre a terra (…)Sucedeu que, no primeiro dia do primeiro mês, do ano seiscentos e um, as águas se secaram de sobre a terra. Então, Noé removeu a cobertura da arca e olhou, e eis que o solo estava enxuto (…)E, aos vinte e sete dias do segundo mês, a terra estava seca” (Gn.8.6-7, 13, 14). A mesma ênfase aqui é dada quando o autor narra a abrangência do dilúvio: Portanto, se o dilúvio foi local, é de se esperar que a parte inundada, ainda que ocupe grande parte do globo, secou, e não toda a terra como se esperaria na leitura universal do dilúvio.

c. O Testemunho de outras passagens:

Outras passagens nas escrituras parecem favorecer a idéia de um dilúvio local e não universal, observe:

  • Sl.104.5-9: “Lançaste os fundamentos da terra, para que ela não vacile em tempo nenhum. Tomaste o abismo por vestuário e a cobriste; as águas ficaram acima das montanhas; à tua repreensão, fugiram, à voz do teu trovão, bateram em retirada. Elevaram-se os montes, desceram os vales, até ao lugar que lhes havias preparado. Puseste às águas divisa que não ultrapassarão, para que não tornem a cobrir a terra”. O texto parece apontar para o ato da criação divina, que lançou os fundamentos da terra e a cobriu com água, então elevou os montes e desceu os vales e determinou que as águas não cobrissem a terra novamente. Esse paralelo com a criação parece sugerir que no período da criação toda a terra fora coberta por água, mas após criar as montanhas, um limite foi determinado para que nunca mais as águas cobrissem a terra. Portanto, temos que considerar que o dilúvio não poderia ultrapassar os limites determinados por Deus.
  • Pv.8.27-29: “Quando ele preparava os céus, aí estava eu; quando traçava o horizonte sobre a face do abismo, quando firmava as nuvens de cima; quando estabelecia as fontes do abismo, quando fixava ao mar o seu limite, para que as águas não traspassassem os seus limites; quando compunha os fundamentos da terra”. Nesse verso vemos a presença da sabedoria por toda a criação divina, e nesse verso vemos que Deus estabeleceu um limite para as águas dos mares para que não ultrapassassem. Essa é mais uma sugestão de que o dilúvio não teria sido universal.
  • 2Pe.3.5-6: “Porque, deliberadamente, esquecem que, de longo tempo, houve céus bem como terra, a qual surgiu da água e através da água pela palavra de Deus, pela qual veio a perecer o mundo daquele tempo, afogado em água”. Nesse verso Pedro não diz que todo o mundo havia sido destruído pelo dilúvio, mas que o mundo conhecido naquele tempo fora destruído.
  • Outros: Em outros lugares do Novo Testamento, fica evidente que o propósito do dilúvio era a atribuição da ira divina sobre os homens, e não sobre todo o planeta, observe: “Assim como foi nos dias de Noé, será também nos dias do Filho do Homem: comiam, bebiam, casavam e davam-se em casamento, até ao dia em que Noé entrou na arca, e veio o dilúvio e destruiu a todos” (Lc.17-26-27); “Pela fé, Noé, divinamente instruído acerca de acontecimentos que ainda não se viam e sendo temente a Deus, aparelhou uma arca para a salvação de sua casa; pela qual condenou o mundo e se tornou herdeiro da justiça que vem da fé” (Hb.11.7). Essa informação reforça a idéia de que o mundo em foco para destruição era uma referência ao ser humano e não ao planeta. Portanto, o dilúvio tinha o objetivo de destruir apenas os seres humanos e não submergir o Planeta Terra.

3.         Parecer Pessoal:

Para concluir esse aspecto das nossas considerações sobre o dilúvio temos que admitir que nenhuma das leituras é recebida sem dificuldades. Ainda que outras considerações sobre cada uma das opções analisadas possam ser vistas, é fundamental reconhecer que o aspecto fundamental do dilúvio não é perdido em nenhuma das duas análises: A questão fundamental é a Soberania de Deus no exercício de sua santa e justa Ira contra o pecador e julgamento contra a maldade da humanidade. Tendo dito isso, pretendo levantar algumas considerações sobras as diferentes opções.

As duas análises não foram feitas à exaustão, mas servem como demonstração das diferentes opiniões sobre o assunto. Certamente por isso, temos algumas questões ainda não respondidas em ambas as leituras: Se o dilúvio foi universal, algumas perguntas permanecem sem resposta:

  1. Se o dilúvio foi universal e encobriu o monte Everest, como ficou a respiração de Adão, sua família e dos animais na Arca, uma vez que nessa altitude o ar é extremamente rarefeito?
  2. Por que nos faltam provas geológicas que indiquem esse fato?
  3. Por que razão o foi? Nenhum ser humano jamais habitou nas mais altas montanhas do mundo. Se o propósito do dilúvio era um julgamento contra o homem e os animais, o dilúvio não necessitaria ser universal.
  4. As espécies características de regiões específicas do globo, como coalas, e cangurus (Austrália) foram preservados por Noé? Se sim, como foram capturados?
  5. Se o dilúvio foi universal e todas as espécies de animais foram preservadas, a arca era suficientemente grande para conter todas as espécies existentes?
  6. Se o dilúvio foi universal, para onde escoaram as águas do dilúvio?

Por outro lado, se o dilúvio foi local, algumas questões parecem ficar sem respostas:

  1. Como explicar os textos que sugerem que o dilúvio também foi uma punição para a terra (6.13; 9.11)?
  2. Como evitar a leitura universal em um texto repleto de informações que parecem exigir a idéia de uma catástrofe universal?
  3. Se Deus é o autor do Dilúvio, Ele não poderia tê-lo feito universal, como o texto parece sugerir?

Responder a essas perguntas, não significa resolver os problemas e dilemas de interpretação desse texto, mas de caminhar em direção a uma resposta mais plausível. Evidentemente, o autor desse artigo tem certa preferência pela leitura de um Dilúvio Local, que em nenhum momento se propõe a restringir a ação de Deus, mas de conciliar informações expostas nas escrituras com aquelas encontradas na natureza.


[1] HENRY, Matthew, Matthew Henry`s Commentary on the Whole Bible. (http://www.biblestudytools.com/commentaries/matthew-henry-complete/).

[2] GILL, John, Gill`s Exposition of the entire Bible. (http://www.freegrace.net/gill/).

[3] KRELL, Keith, It’s Raining, It’s Pouring, and the Lord is NOT Snoring! (Genesis 6.9-8.22). (http://bible.org/seriespage/it%E2%80%99s-raining-it%E2%80%99s-pouring-and-lord-not-snoring-genesis-69-822).

[4] BARNES, Albert, Notes on the Bible.

[5] GILL, John, Gill`s Exposition of the entire Bible. (http://www.freegrace.net/gill/).

[6] Keil & Delitzsch, Commentary on the Old Testament.

[7] DEEM, Rich, The Genesis Flood: Why the Bible Says It Must be Local. (http://www.godandscience.org/apologetics/localflood.html).

[8] Deem afirma ser 17.000 pés, enquanto Keil & Delitzsch afirma que Perrot o mediu em 16.254 pés. Uma medida aproximada de ambas as informações foi preferida.

[9] BARNES, Albert, Notes on the Bible.

2 comentários sobre “O Dilúvio foi Universal ou Local?

  1. luciano de souza amaral

    Respondendo as suas indagações e dúvidas sobre o dilúvio universal, quem disse que existira o monte everest e os outros altíssimos na era pré-diluviana? Procure o estudo de geologia da terra nova e verás que as formações rochosas são oriundas do que aconteceu durante uma catástrofe que mecheu com todo o planeta. Noé colocou todos os animais na arca, mas não os adultos, somente filhotes macho e fêma. Até hoje os zoológicos transportam animais recém adquiridos desta forma, filhotes. Os coalas, cangurus e outras esécies de animais que vemos hoje habitar lugares inóspitos foram aparecendo após o dilúvio pela micro-evolução (adaptabilidade) dentro das esécies. Exemplo: o urso polar, o urso panda etc…
    Toda a água do dilúvio está acondicionada nas camadas da crosta terrestre. A geologia afirma que entre a superfíce terrestre e o magma vulcânico existe água suficiente em quantidade para inundá-la. Estas águas estavam pressurizadas dentro da crosta. Muitos tém a idéias de dilúvio vindo somente do céu, mas a bilblia diz que Deus abriu a face do abismo e inundou de chuva a terra. O abismo é sempre pra baixo e nunca pra cima. Quando estas águas foram liberadas, a pressão foi tão grande que parecia um chafariz colossal e para isto aconter, houve terremotos e colisão das placas tectônicas durante o dilúvio. Aconselho você assistir os artigos do cientista físico e teólogo sr. Adauto Lourenço que ele explica tudo isto à base da bíblia.
    Fica na Paz do Senhor JESUS.
    LUCIANO DE SOUZA AMARAL.

    1. Luciano,

      Obrigado por sua participação no Teologando. Eu estou particularmente familiarizado com o trabalho do Adauto Lourenço. Além do site, dos vídeos na internet passei por um workshop de uma semana com ele durante minha formação acadêmica.

      Confesso que aprecio o trabalho dele e reconheço que reflete inteligência e piedade cristã. Entretanto, não acredito que sejam os argumentos irrefutáveis ou finais. Porém, devo reconhecer que o estudo aprofundado de ciência não é minha área de pesquisa, e se você prestar atenção, os argumentos usados foram todos textuais e não científicos.

      O que pretendi realizar nesse texto foi demonstrar que o texto em si mesmo não é garantia para um dilúvio universal. As linhas de conclusão são, na verdade, citações de questões feitas por defensores de cada uma das linhas de defesa e suas respostas a cada uma dessa perguntas também não são definitivas.

      Em primeiro lugar, a questão sobre o Monte Everest e seu surgimento recente, como defendido pelos criacionistas da terra jovem, não parece aceitável com as evidências geológicas.

      Em segundo lugar, a questão da micro-evolução não parece atender as questões do desenvolvimento dos cangurus, por exemplo. Primeiro por que não haveria tempo suficiente para tal evolução acontecer, e nem tempo suficiente para os animais alcançarem todo o mundo após um cataclisma universal que teria devastado toda vegetação e vida ao redor do planeta.

      Em terceiro lugar, a questão das águas são sériamente problemáticas para os defensores do Dilúvio Universal, afinal “Deus fez soprar um vento sobre a terra, e baixaram as águas“. A proposição fundamental do Adauto é que o cataclisma que gerou o dilúvio também separou os continentes e acomodou toda água nos oceanos, e que as águas do Dilúvio estão onde sempre estiveram. Contudo, o texto diz que Deus fez soprar um vento, e não separar os continentes.

      Por fim, gostaria de lembrá-lo do que defendi no meu artigo: (1) “Temos que admitir que nenhuma das leituras é recebida sem dificuldades“; (2) Que “é fundamental reconhecer que o aspecto fundamental do dilúvio não é perdido em nenhuma das duas análises” e (3) “Responder a essas perguntas, não significa resolver os problemas e dilemas de interpretação desse texto, mas de caminhar em direção a uma resposta mais plausível“. Na minha opinião (não estou afirmando que ela seja a verdade), um dilúvio local parece mais apropriada diante do texto de Gênesis, como muitos outros cristãos do passado defenderam, muito antes de conhecerem a ciência moderna.

      Grande abraço,
      Marcelo Berti

Os comentários estão desativados.