Para onde foi Enoque?


No dia 11 de Maio de 2010, publiquei um artigo sobre sobre as diferentes histórias encontradas nas genealogias de Caim e Sete, descritas em Gênesis num artigo chamado Duas Gerações – Duas Histórias. A idéia do post era ser um comentário expositivo sobre o texto de Gênesis 4 e 5 demonstrando a diferença entre os acontecimentos narrados entre os descendentes de Caim e Sete.

Entetanto, pouco tempo depois um visitate inusitado resolveu levantar uma questão interessante sobre a história de Enoque, que me fez pensar sobre o assunto:

Como podemos conciliar a explicação sobre a “tomada por parte de Deus de Enoque para os céus” com as palavras do Filho de Deus, Jesus Cristo, que vivia no céu na época em que Enoque foi transladado e séculos depois diz em João 3:13: “Ora, ninguém subiu ao céu, senão o que desceu do céu, o Filho do Homem.” (Novo Testamento Interlinear)

Confesso que quando li a pergunta realmente a achei interessante, mas somente de ler a expressão Novo Testamento Interlinear, uma sombrancelha em mim já se levantou, e nas poucas palavras apresentadas começei a perceber os pressupostos do ilustre visitante do Teologando. Entretanto, quando li sua proposta de solução para o problema que tinha criado, conclui que tratava-se de uma Testemunha de Jeová:

Não parece que, como se deu no caso do corpo de Moisés, Deus fez desaparecer o corpo de Enoque, pois “não foi achado em parte alguma”. — De 34:5, 6; Ju 9

Entretanto, algo ainda não estava certo, algo me intrigava: De onde saiu a idéia de que Enoque morreu e seu corpo não foi achado? Certamente não era do texto de Gênesis, pois ao contrário de todos os personagens das genealogias apresentadas, não é dito que Enoque tenha morrido e Hebreus 11.5 explicitamente diz que Enoque não viu a morte. Mas, de onde esse visitante tirou essa idéia? E se Enoque não morreu, como entender o a aparente contradição com Jo.3.13.

Nesse post pretendo guiar nossos leitores a uma proposta de resposta para esse dilema levantado por nosso visitante ilustre, na tentativa de ajudar outras pessoas com essas dúvidas. Para tanto, iremos observar a origem do dilema, uma análise dos diferentes textos envolvidos na questão (Gn.5.24; Jo.3.13 e Hb.11.5) e propor uma visão bíblica para o assunto.

A. Origem do dilema levantado

O dilema levantado sobre o destino do traslado de Enoque nasce em uma das credenciais da Teologia Testemunha de Jeová que não aceita a idéia de que alguém possa chegar ao céus. Para eles, somente um seleto grupo de 144.000 poderão desfrutar da presença de Deus pela eternidade, os outros Testemunhas de Jeová deverão viver em um Paraíso na Terra. Os infiéis a Jeová deixarão de existir, pois não existe um inferno na verdade, apenas ausência de existência. Por isso, a idéia de um homem antes de Cristo ser chamado por Deus à Sua presença sem passar pela morte é um absurdo.

E para defenderem suas idéias, as publicações da STV fornecem extenso material para o assunto. Veja alguns exemplos dessa ideologia:

Na Sentinela  de Outubro de 06, no artigo Corajosos por meio da fé (pp.19) lemos:

“Enoque corajosamente ‘andava com o verdadeiro Deus’ e condenava “as coisas chocantes” que as pessoas diziam contra Jeová. (Gênesis 5:22; Judas 14, 15) Pelo visto, por causa da sua posição corajosa a favor da adoração verdadeira Enoque ganhou muitos inimigos, colocando sua vida em perigo. Nesse caso específico, Jeová poupou seu profeta de uma morte dolorosa. Depois de revelar a Enoque ‘que ele agradara bem a Deus’, Jeová o ‘transferiu’ da vida para a morte, talvez durante um transe profético. — Hebreus 11:5, 13; Gênesis 5:24.”

Observe que a aversão a idéia de que Enoque tenha sido tomado por Deus para si, levou esses comentaristas a afirmar o absurdo de que Deus havia “matado” a Enoque. Observe como essa interpretação não faz o menor sentido com o contexto: Todos os descendentes de Adão, viviam, casavam, tinham filhos e filhas e então morriam, mas Enoque, o homem que andava com Deus, foi por Ele assassinado. Não faz o menor sentido, nem tem qualquer lugar no contexto. Note também, que Deus o fez durante um transe profético. Essa idéia completamente fora de esquadro é uma tentativa de explicar o fato de que Enoque não via a morte. Ou seja, ele morreu mas não percebeu que morreu. É realmente difícil entender como eles puderem levantar essa hipótese, mas esse é o fundamento do nosso ilustre visitante.

Na Sentinela de Setembro de 05, no artigo Andemos com Deus nestes tempos turbulentos (pp.15), lemos:

“Então, depois de mencionar a duração da vida de Enoque — longa para os nossos dias, mas curta para aquela época —, o registro continua: “Enoque andou com o verdadeiro Deus. Depois não era mais, porque Deus o tomou.” (Gênesis 5:24) É evidente que Jeová o transferiu do mundo dos vivos para o sono da morte, antes que os opositores pudessem pegá-lo”.

Observe que a idéia de que Enoque não morreu permanece inalterada, mas há um sutil acréscimo aqui: Enoque estava sendo perseguido por seus opositores. Ou seja, para evitar que Enoque fosse morto por seus opositores, Deus o matou primeiro. A conclusão aqui é simples: viva com Deus e se você for perseguido Jeová o matará. Imagina ensinar isso para as crianças.

Na Sentinela de Janeiro de 04, no artigo A palavra de Jeová é viva – Destaques no livro de Gênesis I, pp.29, lemos:

“De que modo Deus ‘tomou Enoque’? Pelo visto, Enoque corria perigo de vida, mas Deus não permitiu que sofresse às mãos de seus inimigos. “Enoque foi transferido para não ver a morte”, escreveu o apóstolo Paulo. (Hebreus 11:5) Isso não significa que Deus o tenha levado para o céu, onde continuou a viver. Jesus foi o primeiro a ir para o céu. (João 3:13; Hebreus 6:19, 20) O fato de Enoque ser “transferido para não ver a morte” pode significar que Deus o pôs num transe profético e então encerrou sua vida enquanto ele estava nessa condição. Em tais circunstâncias, Enoque não sofreu nada, nem ‘viu a morte’, às mãos de seus inimigos”.

Note mais uma vez a idéia da morte de Enoque é colocada nas mãos de Deus, como uma forma de evitar que fosse morto pelos seus inimigos como já tínhamos visto na citação anterior, mas aqui há um novo acréscimo: Deus assim o fez para que Enoque não sentisse a morte. É como se Deus condenasse Enoque a morte por injeção letal: Deus o matava, mas não o fazia sofrer com a morte. A idéia de um transe profético surge novamente nessa sitação, mas nem podemos imaginar de onde tal idéia tenha vindo, mas podemos saber que tipo de transe seria esse. Observe:

Na Sentinela de Dezembro de 99, no artigo Sejamos como os que tem fé, (pp.22):

““Antes de sua transferência, [Enoque] teve o testemunho de que agradara bem a Deus.” (Hebreus 11:5) O que significava isso? Antes de adormecer na morte, Enoque talvez tenha tido algum tipo de visão, talvez do Paraíso terrestre em que um dia, dentro em breve, irá despertar. De qualquer modo, Jeová deixou Enoque saber que se agradava bem do proceder fiel dele. Enoque havia alegrado o coração de Jeová”.

A aversão a idéia de estar com Deus é tão forte que a STV inventou que Enoque tenha tido um transe profético e Deus o matou nesse transe de modo que não viu a própria morte, nem sofreu nas mãos dos seus inimigos. Entretanto, para carimbar tal aversão, a STV já aludiu a possibilidade de ter Enoque teve uma visão com o Paraíso Terrestre. Observe que nenhuma das afirmações apresentadas pela STV tem qualquer relação com o texto: Em Gênesis nada lemos sobre os inimigos, um suposto transe, sobre o assassinato de Jeová ou que tal visão tenha sido com a expectativa escatológica da STV. Na verdade, são mera invensões para manter seus leitores na igorância do ensino das escrituras.

Enquanto lia as citações escabrosas da STV, encontrei uma ainda mais interessante que representa quase integralmente a idéia do nosso visitante inusitado. Na Sentinela de Setembro de 2001, no artigo Enoque andou com Deus num mundo ímpio (pp.31), lemos:

“Portanto, o que aconteceu com Enoque? Ser ele “transferido para não ver a morte” pode significar que Deus fez com que ficasse num transe profético e depois tirou-lhe a vida enquanto estava nesta condição. Em tais circunstâncias, Enoque não teria sofrido as dores da morte. Daí, ele “não foi achado em parte alguma”, aparentemente porque Jeová deu fim ao corpo, assim como fez com o corpo de Moisés. — Deuteronômio 34:5, 6.”.

Aqui vemos a idéia apresentada num comentário por um visitante inusitado plenamente representada: Enoque morreu e seu corpo sumiu. Ou seja, Jeová é o assassino perfeito: Matou Enoque e escondeu o corpo de tal forma que nunca foi encontrado. Acho que o goleiro Bruno do Flamengo teve aulas com ele.

Brincadeira à parte, o dilema levantado por nosso ilustre visitante, nasce na recusa da aceitação da leitura normal de Gn.5.24, associada à má leitura de Jo.3.13 e nas distorções necessárias a serem criadas na inter pretação de Hb.11.5. Por isso, nos cabe agora verificar o que esses textos dizem de fato, na intenção de verificar a validade do questionamento do nosso ilustre visitante.

B. O que dizer de Jo.3.13?

Essa é uma excelente pergunta incial para nosso dilema: Será que a leitura do nosso ilustre visitante tem relação com o contexto da conversa de Jesus com Nicodemos?

O primeiro passo a ser tomado em uma investigação interpretativa é observar o que diz o contexto. Observe o verso anterior: “Se, tratando de coisas terrenas, não me credes, como crereis, se vos falar das celestiais?” Jesus nesse texto faz o claro contraste entre o que é terreno e o que é celestial. Nesse verso Jesus considera que sua mensagem oferecida até aqui é terrena, mensagem que Nicodemos deveria ter entendido. A questão de Cristo é: Se ele falasse de coisas “ἐπουράνιος”, ou seja, celestiais, Nicodemos não seria capaz de entender, ou crer.

Outra observação que podemos fazer aqui é que o termo “ouranós” foi utilizado no NT para descrever o céu no sentido físico (Mt.8.20; At.9.3), mas também no sentido mais elevado e espiritual (Jo.3.27; 3.31), como é usado aqui (Jo.3.13). No contexto do diálogo de Jesus com Nicodemos, o contraste entre o que é terreno e o que é espiritual é fortemente estabelecido, seja na demonstração da origem do nascimento (3.8), a aquisição de conhecimento (3.12), sobre origem (3.13). Essa idéia de contraste entre o que é terreno e o que é espiritual é o foco do diálogo, e está claro que aquele que não é nascido do espírito, não pode entender coisas espirituais pois não tem sua origem nos céus. Por outro lado, Jesus se apresenta como aquele que é perfeitamente habilitado para conduzir os homens ao novo nascimento, pois fala das coisas espirituais pois é do céu e não da terra, como Nicodemos. Diante desse paralelo,fica evidente que a questão não é se alguém foi transladado, mas se alguém tem sua origem nos céus para ensinar coisas espirituais. Quando entendido no seu contexto, notamos que a frase de Jesus em nada se conflita com o testemunho do todo das escrituras sobre Enoque

Vale a pena ser dito que há estreita ligação entre as informações entre o verso 12 e 13 do mesmo capítulo, reforçado pelo uso da conjunção aditiva “καὶ “. Portanto, a expressão “οὐδεὶς ἀναβέβηκεν εἰς τὸν οὐρανὸν” (niguém subiu aos céus) é dependente da sentença anterior e epexegeticamente se refere à ela. Não se pode, portanto, entendê-la excluindo o verso anterior. Assim, fica evidente que a questão não é o subir ao céu, com o sentido de se achegar a Deus na eternidade [visto que nem de longe essa é a ênfase do texto], mas que NINGUÉM jamais teve acesso às informações de caráter celestial e pode voltar para anunciá-las. Ou seja, além do texto nada falar sobre a situação de Enoque, nem fazer referência a ele, nada defende do que tal leitor inusitado tentou fazer que o texto afirmasse. Essa leitura se hamoniza com o todo da passagem e respeita não apenas a gramática como a hermeneutica além de ser encontrada em Teólogos de diferentes opiniões:

“A questão da ascensão de Cristo é usadoa como símbolo de seu conhecimento imediato e intuitivo sobre as coisas celestiais, e Cristo possui de certa forma de conhecimento por ser uma personagem celestial, e, na qualidade do Logos, por ter pobservado, em primeira mão, todos os mistérios de Deus. E assim, na forma de Filho do Homem, andando entre os homens continuava sendo homem vindo dos céus, e continuamente trazendo consigo mesmo o conhecimento de alguém que subira ao céu, e, e fato, de alguém que continuava habitando no céu, embora estivesse com os pés na terra” – Russel Norman Champlin

“Esse versículo [13], ligado ao versículo precedente por kai (e), provê explicação para o fato de que Jesus é capaz de falar com autoridade sobre as coisas celestiais (…) Jesus pode falar de coisas celestiais (v.12) e (kai) ninguém mais subiu ao céu e permanece lá a fim de ser capaz de falar com autoridade sobre coisas celestiais, mas somente aquele que desceu do céu está equipado a fazer isso” – D.A. Carson

Um detalhe que muito me chamou a atenção é que essa visão sobre o texto, simples e adequada, também é ensinada pela STV. Ao menos em duas ocasiões a STV apresentou que esse é o correto entendimento do texto diante do seu contexto, mesmo que isso entre em franca contradição com o que apresenta normalmente.

Na Sentinela de de Junho de 2006, na seção de Perguntas aos Leitores (pp.30) vemos o seguinte texto:

“Visto que Jesus ainda não tinha morrido e sido ressuscitado, a que ele se referia quando disse a Nicodemos: “Nenhum homem ascendeu ao céu, senão aquele que desceu do céu, o Filho do homem”? (João 3:13). Considere o contexto, ou o assunto, sobre o qual Jesus falava com Nicodemos. Quando esse governante judeu foi procurar Jesus na calada da noite, Jesus lhe disse: “Digo-te em toda a verdade: A menos que alguém nasça de novo, não pode ver o reino de Deus.” (João 3:3) Nicodemos perguntou: ‘Como pode ser isso? Como um homem pode nascer uma segunda vez?’ Ele não entendeu esse ensino divino a respeito de estar no Reino de Deus. Será que havia uma maneira de ele aprender sobre isso? Não, não do ponto de vista humano; nenhum homem poderia ensiná-lo a respeito disso, pois nenhum deles havia estado no céu e, assim, não tinha condições de dar alguma explicação sobre entrar no Reino. A única exceção era Jesus. Ele podia ensinar Nicodemos e outros porque havia descido do céu e, portanto, estava habilitado para instruir as pessoas a respeito desses assuntos”

Na Sentinela de de Junho de 1983, na seção Perguntas aos Leitores (pp.30-31), falando sobre o texto de Jo.3.13, afirma:

“De acordo com o contexto, Jesus explicava que era difícil para o governante judaico Nicodemos compreender coisas celestiais. No entanto, o próprio Jesus compreendia esses assuntos, visto que descera do céu“.

Diante da apresentação da própria STV, entendemos que as escrituras são claras em apresentar o que o texto de Jo.3.13 de fato diz, e portanto, podemos concluir com segurança que a leitura de Jo.3.13 está plenamente equivocada e que se considerada dentro do seu contexto, em nada infere na leitura da história de Enoque.

C. O que dizer de Gn.5.24?

A segunda pergunta que nos cabe aqui é o que lemos em Gn.5.24?

O texto assim nos diz: “Andou Enoque com Deus e já não era, porque Deus o tomou para si“. Duas expressões são interessantes aqui: (1) Já não era e (2) Deus o tomou para si.

Já não era: Essa frase de difícil tradução tem levantado algumas perguntas sobre o que de fato aconteceu com Enoque. Mais três opções são vistas nas traduções em português para essa expressão: (1) não foi encontrado (NVI); (2) não apareceu mais (ACF); (3) e já não se viu (ARC). A versão ARA optou por verter “e já não era” seguindo a KJV. A LXX verte de modo similar a NVI: “e não era encontrado” (kaì ouk ëupisketo). O Targun de Onkelos e o de Jerusalém também carregam a idéia da ARA e KJV. Entretanto, o Targun supostamente de Jonatas, diz: “e ele já não estava entre os peregrinos na terra”. Em todas existe a idéia de que Enoque deixou de estar presente, pois não foi encontrado, não apareceu em nenhum outro lugar e por isso, já não era visto. Todas essas idéias são tentativa de se traduzir a partícula negativa (hb. ayin) com o sufixo pronominal. Ou seja, ao invés de afirmar que Enoque morreu, Moisés diz que ele não estava mais presente.

Deus o tomou: Essa expressão não é uma expressão comum no Antigo Testamento, mas sempre que apresentada tendo Deus como sujeito implica em benção, como nos lembra Mário Celso, outro visitante inusitado desse blog. É interessante notar, em primeiro lugar que tal expressão representa de certa forma a expectativa judaica de convívio futuro com Deus, observe: “Mas Deus remirá a minha alma do poder da morte, pois ele me tomará para si”. (Sl.49.15). A expressão usada em referência a Enoque, é nesse Salmo explicada como a redenção da alma do salmista, o que favorece a idéia de que Enoque foi remido por Deus e recebido por Ele em Sua Presença. Fato similar acontece no Salmo 73.24: “Tu me guias com o teu conselho e depois me recebes na glória”. Nesse verso a expressão “me recebe” é exatamente a mesma encontrada na descrição de Enoque em Gênesis. Essa convicção de que uma vida debaixo da orientação de Deus implica em um vida futura com Ele parece muito neotestamentária, entretanto, já é vislumbrada profeticamente no exemplo de Enoque e na expectativa dos salmistas. Esse contexto conceitual já nos ajuda a vislumbrar o que lemos aqui: Não se trata de um assassinato de Jeová, mas de uma ação graciosa de sua parte em prefigurar em Enoque o que fará com todos aqueles que vivem em conformidade com Seu caráter.

Mas, uma pergunta é pertinente aqui: Como sabemos que Enoque foi estar com Deus e não foi morto por Ele? Em primeiro lugar por que o texto não diz que Enoque tenha morrido. Em segundo lugar por que o texto diz que Deus o tomou. A expressão, o tomou para si, bem representada nas bíblias em português já parece forçar um pouco o conceito do tempo verbal hebraico aqui, mas representa claramente a idéia de que o destino de Enoque tenha sido o próprio Deus e não a morte, como defendem os Testemunhas de Jeová. Em terceiro lugar, por que o termo hebraico “laqach”, não foi usado em nenhum lugar no AT para descrever a morte. O conceito mais natural do texto é que Deus o tomou, ou seja, retirou da terra de modo extraordinário, e o levou para a Sua presença.

D. O que dizer de Hb.11.5?

A última pergunta que devemos nos fazer é se Hb.11.5 dá algum indício para a não morte de Enoque, como afirmam os Testemunhas de Jeová.

O texto diz assim: “Pela fé, Enoque foi trasladado para não ver a morte; não foi achado, porque Deus o trasladara. Pois, antes da sua trasladação, obteve testemunho de haver agradado a Deus“.

A primeira observação que temos que fazer a esse texto é que ele fala duas vezes a respeito do traslado de Enoque: (1) Ele foi trasladado para não ver a morte e (2) Deus o trasladou. Essas duas observações são importantes enquanto lidamos com o que aconteceu com Enoque.

Para não ver a morte: Os Testemunhas de Jeová entendem que Enoque foi assassinado por Jeová, mas estava em transe e por isso não a viu. Essa conclusão tem algum lugar nas escrituras? Certamente não. Trata-se de um arranjo medíocre que não nasce no texto, mas na imaginação do Corpo Governante. Já temos demonstrado que o próprio texto de Gênesis nada fala sobre esse assunto e que o autor de Hebreus clarifica a idéia já apresentada em Gn.5.24: Enoque não viu a morte, ou seja, não morreu.

Um claro indicativo disso é a contrução grega por traz dessa sentença: A expressão “para não ver a morte” é contruída com um infinitivo articulado, que normalmente indica propósito, mas aqui parece apresentar o resultado de uma ação anteriormente realizada. Ou seja, Enoque foi trasladado e por isso não viu a morte (para esse uso do infinitivo, ver: A.T. Robertson, Grammar, pp.1002; Marvin Vincent, Word Studies; Daniel Wallace, Grammar, pp.592-594). Essa simples observação sobre a estrutura do texto impossibilita a idéia de que “não ver a morte” signifique não ter percebido a morte. A idéia do texto é clara: Enoque não experimentou a morte por ter sido trasladado.

Deus o trasladou: Essa expressão é uma complementação à informação anteriomente apresentada: a mudança de plano de Enoque não foi ocasionada por sua piedade, mas pela misericordiosa ação divina. Essa sentença segue o texto da LXX de Gn.5.24 e reflete o aprendizado auferido desse mesmo texto.

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Portanto, parece seguro entender que as escrituras defendem a idéia de que Enoque não morreu, mas foi trasladado para a presença do Senhor. Essa conclusão parece respeitar as escrituras e se harmoniza mais adequadamente ao todo dela. Segue-se a a proposta Testemunha de Jeová não passa de uma proposta que nasce da imaginação e criatividade reativa à verdade do Corpo Governante.

16 comentários sobre “Para onde foi Enoque?

  1. lea beray andrade

    Marcelo: Muito bom o estudo.Há coisas dificeis de entender,(Dt.29:29) mas daí inventar ou acrescentar o que o verso biblico não diz é trazer maldição sobre si e sobre os que são orientados debaixo desse achismo que não encontra respaldo na Palavra. Obrigada por compartilhar um estudo tão bom como esse!! Somos o tempo todo bombardeados com idéias dos TJ sobre um paraiso na terra e sobre coceitos não biblicos…. nem sempre sabemos responder a altura…. Se tiver algo sobre o sono da alma – que é um ensino dos adventistas, eu gostaria de me debruçar nisso, porque não acredito que nossa alma vai ficar dormindo até o dia da ressurreição chegar…. Um abraço. Léa.

  2. Excelente.
    Equilibrado, sem tentar ir além das Escrituras.
    A refutação sobre os ensinos dos TJ´s é muito sólida. Apenas a soberba e cegueria nos os permite considerar as verdades expostas.

    Porém há mistérios:
    o corpo de Enoque, necessáriamente, não ressurecto, sofre a ação da morte de forma diferente dos nosssos corpos;
    seu corpo físico ocupa espaço em algum lugar. Que lugar é esse? Compartilha com as almas dos santos que aguradam a redenção?

    Em Cristo

  3. Irmão, Marcelo (permita-me chamá-lo assim, pois considero a qualquer ser humano como tal), gostei muito de ler sua excelente defesa em prol das Escrituras, frente às crenças particulares de humanos, mesmo que tais humanos sejam os da dianteira da organização da qual sou um dos membros.

    Realmente, sua explicação tem muito mais sentido e, a partir de hoje, entenderei essa passagem deste modo, conforme explicado por si. Grato pela aula!

    Abraços e, saiba, considere-me seu leitor a partir de hoje.

    Wanderley
    São Paulo/SP
    Cong. Jd. Columbia – Mauá/SP

  4. jonathas p.j.m

    Gostei muito dessa pagina! mas… com todo este conhecimento descrito no mesmo
    desconsiderar o seguinte é valido?

    Ninguém seduza a si mesmo: Se alguém entre vós pensa que é sábio neste sistema de coisas, torne-se ele tolo, para que se torne sábio. 19 Pois a sabedoria deste mundo é tolice perante Deus; porque está escrito: “Ele apanha os sábios na sua própria astúcia.” 20 E novamente: “Jeová sabe que os raciocínios dos sábios são fúteis.

    1. Eliézer Perruci

      Caro jonathas,

      Após ler um comentário como seu, lembro apenas da sugestão feita pelo sábio provérbio: “Até o tolo, quando se cala, é tido por sábio…” (Pv 17.28). Sugiro uma breve reflexão nessas palavras antes de quaisquer futuros comentários ou respostas. Ah, e falo isso apenas pra te ajudar, afinal de contas fica difícil entender discursos do tipo: “picoca não tem antena pela mesma razão que navio não tem rodinha”.

      Eliézer

  5. jonathas p.j.m

    Olá Marcelo e amigos, acredito que me expressei mau, pois minha pergunta não foi respondida. Acredito que pelo meu raciocínio atropelado, vocês não entenderam minha pergunta que é esta:
    Enoque foi perfeito? pois se fosse não teria morrido.

    Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus; ROMANOS 3:23

    Por que ele morreu?

    Portanto, como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens por isso que todos pecaram.
    Porque até à lei estava o pecado no mundo, mas o pecado não é imputado, não havendo lei.
    No entanto,(a morte reinou desde Adão até Moisés até sobre aqueles que não tinham pecado à semelhança da transgressão de Adão), o qual é a figura daquele que havia de vir.
    Mas não é assim o dom gratuito como a ofensa. Porque, se pela ofensa de um morreram muitos, muito mais a graça de Deus, e o dom pela graça, que é de um só homem, Jesus Cristo, abundou sobre muitos.
    E não foi assim o dom como a ofensa, por um só que pecou. Porque o juízo veio de uma só ofensa, na verdade, para condenação, mas o dom gratuito veio de muitas ofensas para justificação.
    Porque, se pela ofensa de um só, a morte reinou por esse, muito mais os que recebem a abundância da graça, e do dom da justiça, reinarão em vida por um só, Jesus Cristo.
    Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para justificação de vida.
    Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores, assim pela obediência de um muitos serão feitos justos. ROMANOS 5:12-19.

    E o meu comentário que na verdade é uma pergunta, a qual eu respondi agora. (do dia 6 de agosto ) foi removido, por isso o comentário seguinte ficou desconexo
    pois ele era um complemento do anterior.
    E para os dois amigos que responderam ao meus comentários deixo o seguinte para o Eliézer:

    O que repreende o escarnecedor, toma afronta para si; e o que censura o ímpio recebe a sua mancha.
    Não repreendas o escarnecedor, para que não te odeie; repreende o sábio, e ele te amará.
    Dá instrução ao sábio, e ele se fará mais sábio; ensina o justo e ele aumentará em doutrina.
    O temor do SENHOR é o princípio da sabedoria, e o conhecimento do Santo a prudência. Provérbios 9:7-10.

    1. Jonathas,

      Para responder sua pergunta, vou usar alguns dos comentários que já fiz em outro artigo.

      Vamos olhar com calma o texto de Gênesis, a tradição judaica e cristã sobre o texto e o que o NT diz sobre Enoque:

      1. Em primeiro lugar as escrituras não dizem apenas que ele não foi mais achado, também diz que Deus o tomou. A Tradução do Novo Mundo, versão que você deve usar, sobre ele diz: “Depois não era mais, porque Deus o tomou” (Gn.5.24). A expressão “não era mais” é uma forma de dizer que Enoque não estava mais presente. Já a expressão, “Deus o tomou” implica em dizer que Deus anulou, sobrepujou a morte de Enoque e não o permitiu morrer.

      2. Em segundo lugar, diferente de todos os homens apresentados nesse capítulo, de Enoque não é dito que morreu. No capítulo 5 de Gênesis, Moisés usa o termo “morreu” oito vezes (5.5, 8, 11, 14, 17, 20, 27, 31) em referência a todos os personagens apresentados. Mas quando fala de Enoque, Moisés propositadamente não usa o termo morreu, mas tomou. Ora, tomar e morrer são termos deveras diferentes. Quem toma, toma algo ou alguém para si; quem morre, simplesmente morre. Portanto, parece evidente que o texto de Gênesis evidencia claramente que Enoque não morreu, mas foi tomado por Deus.

      3. Em terceiro lugar, as mais antigas fontes judaicas defendem que Enoque não morreu. Por exemplo, no Targum de Onkelos lemos a seguinte paráfrase do texto: “E Enoque andou no temor do Senhor, e ele não foi mais encontrado, por que o Senhor fez com que ele não morresse”. O Targum de Jerusalém, interpretando o texto hebraico disse: “ele não estava entre os peregrinos da terra, pois ele foi levado, e subiu ao firmamento por intermédio da Palavra diante do Senhor“.

      4. Em quarto lugar, o NT deixa uma breve e clara afirmação sobre o que aconteceu com Enoque. Na TNM lemos: “Pela fé Enoque foi transferido para não ver a morte, e não foi achado em parte alguma, porque Deus o havia transferido; pois, antes de sua transferência, ele teve o testemunho de que agradara bem a Deus” (Hb.11.5). Nesse texto vemos claramente a idéia de que Enoque não morreu. O termo “transferido” é a tradução do termo grego “metatíthëmi”, o mesmo termo usado pela LXX em tradução ao termo “laqach” (tomou). A questão é para onde Enoque foi transferido. Quem transfere, transfere algo para algum lugar. Enoque deixou essa terra, e foi tomado por Deus para Deus.

      5. Em quinto lugar, a tradição cristã, desde os tempos mais remotos aprovam a idéia de que Enoque foi levado por Deus para Deus. Cipriano usa o textode Gênesis para falar sobre a segurança do cristão na certeza da vida com Deus no futuro (The Treatises of Cyprian, Livro 3, 58). Falando sobre a vida futura com Deus, pouco à frente, Cipriano acrescenta: “Assim também vemos que Enoque agradou a Deus, como foi traduzido em Genesis, as Escrituras Sagradas testemunham e dizem: “E Enoque agradou a Deus e depois não foi achado, porque Deus o trasladara”. Por ter sido agradável aos olhos de Deus, portanto, mereceu ser trasladado do contágio desse mundo” (The Treatises of Cyprian, Livro 4, 23). Agostinho, falando sobre a moralidade, defende que Enoque era um homem justo em uma sociedade corrupta, e por isso foi tomado por Deus (Exposition Psalm CXXIX, 2). Gregório Nazianzen também afirma que Enoque foi trasladado para os céus e complementa: “mas ainda não está claro se foi porque ele já havia compreendido a natureza divina, ou para que ele possa compreendê-la” (Select Orations os St. Gregory Nazianzen, The second theological oration). Clemente de Roma falando sobre o exemplo dos santos do passado disse: “Enoque, que sendo encontrado justo em obediência, foi trasladado, e nunca conheceu ou experimentou a morte” (Epistle of Clement to the Corinthians, Cap.9). Esses exemplos e muitos outros poderiam ser oferecidos, mas esses já demonstram a antiguidade da visão sobre o que aconteceu com Enoque.

      6. Em último lugar, o texto que você usa como referência (Rm.5) reflete uma verdade divina que fala sobre o modo normal pelo qual se manifesta a ação do pecado. Ou seja, a morte é a evidência mais clara do pecado, entretanto, não é definitiva. Lembre-se das palavras de Paulo: “Eis que vos digo um mistério: nem todos dormiremos [morreremos], mas transformados seremos todos ” (1Co.15.51). Ou seja, Paulo evidência que no futuro, muitos cristãos não sofrerão a morte, mas serão transformados. O que entendo é que Enoque foi apenas um exemplo desse fato, não a regra, ele é a excessão.

      Portanto, parece consistente com as escrituras que a opinião da STV sobre Enoque não parece fundamentada nas escrituras, e se você lesse melhor o texto de Gênesis sem as revistas da STV isso ficaria mais claro.

      Marcelo Berti

    2. Jonathas,

      Em que dicionário “tomar” significa “matar”?

      Ah…. e em que mundo “não ver a morte” significa “morrer em transe”?

      Se puder responder somente essas questões, já fico satisfeito.

      Max

  6. Anderson

    Jonathas,

    O texto diz que “E Enoque andou com o [verdadeiro] Deus. Depois não era mais, porque Deus o tomou por que Deus o tomou” (Gn.5.24 – TNM). O texto não diz Deus o matou, o colocou em transe com o paraíso, mas Deus o tomou. O termo tomar é o mesmo usado para descrever a ação de “receber”, você sabia disso? O termo hebraico “laqaq” é usado diversas vezes no AT para descrever a ação de recebimento de Deus, como em Salmos 6.9: “Jeová deveras ouvirá meu pedido de favor; Jeová mesmo aceitará [receberá]a minha própria oração” (TNM). Ou no Salmo 73.24: “Tu me guiarás com o teu conselho E depois me levarás [receberás] à própria glória” (TNM). Não é justo então pensar que Deus recebeu a Enoque?

    Algumas versões mais antigas liam o texto de Gn.5.24, respeitando a reflexividade do termo hebraico e traduziam: “Deus o tomou para si” (ARA, ARC, ARF). Quando lido com um pouco mais de atenção fica evidente que a idéia de que Deus o tomou para si, ou o recebeu, parece muito mais adequada ao texto. Se Deus está no céu (ou nas regiões celestiais) e tomou para si Enoque, ou o recebeu, Enoque foi para o céu, não para a morte.

    Como a expressão “Deus o tomou” se tornou “Deus o matou”?

    Ainda não entendi como isso pôde acontecer… dever ser qualquer coisa, menos leitura bíblica.

  7. Ckeuksib

    Marcelo, parabééééééééééééns! Deus seja louvaaaaaaaaaado pela capacidade que lhe deu. Estou admirado com Deus por ter colocado um homem como vc na rede.

    Deixando de lado os comentários do tj aí em cima (inclusive o Wanderley, que tb é tj já se convenceu com sua maravilhosa explicação), quero fazer uma pergunta que vem me incomodando há mto tempo.

    É sobre o estado intermediário.

    Sabemos que quando o crente morre, sua alma é apefeiçoada e vai estar com Cristo, aguardando a Segunda Vinda para juntar-se ao corpo ressurreto e glorificado para viver para sempre com o Senhor.

    No caso de Enoque (Elias também), que não morreu, poderia seu corpo ter sido glorificado, ou não? uma vez que:

    a) Se não foi glorificado, como explicar que carne e sangue não podem herdar o reino de Deus (1Co 15.50)?

    b) Se foi glorificado, como explicar Hb 11.39,40 que diz que os heróis da fé não alcançaram a promessa e que eles não foram aperfeiçoados sem nós?…

    O que então teria acontecido ao corpo desses homens? Foram glorificados (mas nesse caso como fica o versículo de Hebreus?), ou estão com Cristo nesse corpo físico (o que é impossível, visto que não teriam durado muitos anos, e contradiria 1Co 15.50)?

    Mais uma vez parabéns e abçs.

    1. Cleison,

      Muito obrigado por seu comentário, e obrigado pelo estímulo.

      Sobre sua questão, poderíamos divagar centenas de emails sobre o assunto, mas realmente não temos uma resposta objetiva das escrituras para esse assunto. Tenho a impressão que tanto Enoque quanto Elias foram glorificados em um daqueles eventos em que Deus prefigura o que irá acontecer com todos os fiéis no futuro. Por isso, acredito que esses santos homens do passado estão incluídos em 1Co.15.50.

      Sobre Hb.11.40 em especial, penso no texto do seguinte modo: “Por que Deus providenciou algo melhor para nós, para que ele pudessem ser aperfeiçoados conosco“. Embora os santos homens do passado não tivessem recebido a promessa (entenda-se plenamente), eles também serão aperfeiçoados conosco por meio dela.

      Não sei se isso resolve a questão, mas me ajuda a pensar nela.

      Grande abraço,
      Marcelo Berti

  8. francisco

    marcelo que Deus continue te a bençoando por nos ajudar a defender o evangelho e as escrituras sagradas com essas explicaloes na qual podemos ter base para provar as evidencias das escrituras e nao deixar ngm distorcelas. amem

  9. El Tapevino

    Meu caro irmão Marcelo,
    Gostei muito da sua explicação. Tem coerência e fundamento.
    Durante 30 anos fiz parte da religião Testemunhas de Jeová e nunca me havia dado conta do contexto de João. Mas agora, parece bem mais simples entender a situação envolvida nas palavras de Nosso Senhor.
    Interessante também que nunca havia notado as discordâncias ao ler os artigos da STV. Uma hora explicam o texto de uma maneira, sem o contexto. Em outro momento, explicam o assunto se contradizendo com o uso do contexto.
    Por coincidência, esse foi o tema que analisei à luz da Bíblia com meu tio que é da Assembléia de Deus.
    Hoje sou grato a Cristo Jesus que me libertou e também sou grato a Deus por usar pessoas como vc para ajudar pessoas de mentalidade liberta a analisar a Bíblia sem ser tendencioso.
    Um grande abraço e que Deus continue te abençoando.

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