Mara Bar-Serapião e a Historicidade de Cristo


Mara Bar-Serapião era um filósofo estoico da província romana da Síria que tornou-se amplamente conhecido em função de uma carta que teria escrito a seu filho, também chamado Serapião, que segundo Robert E. Voorstpor fora escrita volta do ano 73 dC (VOORST, Robert E. Jesus outside the New Testament: An introduction to the ancient evidence. Eedermnans, 2000, pp.53). Em função dessa carta tornou-se uma das primeiras referências não judaica e não cristã a se referir a Jesus Cristo. Ela foi publicada pela primeira vez no século XIX por Willian Cureton, que acreditava que Mara Bar-Serpaião era cristão sofrendo perseguição, opinião que os mais recentes acadêmicos rejeitam veementemente. Sobre essa carta, F.F. Bruce atesta:

“É uma carta enviada por um cidadão sírio, chamado Mara Bar-Serapião, ao filho de nome Serapião. Mara Bar-Serapiaão achava-se encarcerado por essa época, mas escrevia com o propósito de estimular ao filho na aquisição da sabedoria e ressaltava que aqueles que se davam à perseguição dos sábios eram fatalmente vítimas de infortúnios” – (BRUCE, F.F., Merece Confiança o Novo Testamento, Vida Nova, 1965, pp.148)

Para demonstrar o fato de que a perseguição de sábios leva a infortúnios, Mara Bar-Serapião afirma:

“Que proveito os atenienses abtiveram em condenar Sócrates à morte? Fome e peste lhe sobrevieram como castigo pelo crime que cometeram. Que vantagem os habitantes de Samos obtiveram ao pôr em fogo em Pitágoras? Logo depois sua terra ficou coberta de areia. Que vantagem os judeus obtiveram com a execução do seu sábio rei? Foi logo após esse acontecimento que o reino dos judeus foi aniquilado. Com justiça Deus vingou a morte desses três sábios: os atenienses morreram de fome; os habitantes de Samos foram surpreendidos pelo mar; os judeus arruinados e expulsos de sua terra, vivem completamente dispersos. Mas Sócrates não está morto, ele sobrevive aos ensinos de Platão. Pitágoras não está morto; ele sobrevive na estátua de Hera, Nem o sábio rei está morto; ele sobrevive nos ensinos que deixou” – (IN: GEISLER, Norman, Enciclopédia de Apologética, Vida, 2003, pp.451)

A declaração de Mara Bar-Serapião, e interessantíssima, e igualmente controversa. A primeira controvérsia refere-se à data, fato que até mesmo Bruce já havia atestado: “É verdade que há no museu Britânico interessante manuscrito que preserva o texto de uma carta escrita algum tempo depois no ano 73 da era cristã; quando depois, entretanto, não há certeza” (BRUCE, F.F., Merece Confiança o Novo Testamento, Vida Nova, 1965, pp.148). Geisler parece mais inespecífico quando fala da ocasião da carta, pois em sua opinião, foi uma carta escrita entre o primeiro e o terceiro século (GEISLER, Norman, Enciclopédia de Apologética, Vida, 2003, pp.451), do mesmo modo que Habermas (HABERMAS, Gary, Historical Jesus, College Press, 1996; pp.207). Entretanto, a questão da data da carta, apesar do caloroso debate sobre ela, nada infere sobre o testemunho que esta carta apresenta, se é o caso de que o sábio rei dos judeus fosse de fato uma referência a Jesus Cristo.

A mais importante controvérsia, entretanto, refere-se a identidade do Sábio Rei: O sábio Rei é de fato Jesus Cristo? Por exemplo, Farrel Till defende que o Sábio Rei seja Jesus Cristo, pelo simples fato de que “pretensos messias eram encontrados às dúzias na Judéia” (TILL, Farrell, “The ‘Testimony’ of Mara Bar-Serapion“, The Skeptical Review 1995; IN: http://www.theskepticalreview.com/tsrmag/4mara95.html; em 03/05/2011). Jeffery Jay Lowder, seguindo Farrel defende ainda que também é possível que o Professor da Justiça, mencionado nos manuscritos de Quran também pudesse ser a referência a quem Mara Bar-Serapião endereça (LOWDER, Jeffery, J., Josh McDowell’s “Evidence” for Jesus: Is It Reliable?; IN: http://www.infidels.org/library/modern/jeff_lowder/jury/chap5.html#mara; em 03/05/2011).

Essa questão é importante, e era de se esperar que céticos questionassem sua veracidade comoreferência a Jesus Cristo, entretanto, devemos lembrar que existem ao menos sete declarações feitas por Mara Bar-Serapião que nos auxiliam a identificar o Sábio Rei: (1) Ele foi executado; (2) ele era sábio; (3) Foi executado pouco antes da destruição de Jerusalém; (4) Sua execução foi anterior à dispersão dos judeus; (5) os judeus foram responsáveis por sua morte; (6) ainda sobrevive por meio dos ensinos que deixou; (7) foi referido como rei.

Diante disso, devemos indagar qual personagem dentre das dúzias de candidatos a messias poderiam se enquadrar em todas as características do Sábio Rei de Mara. A primeira observação que fazemos é que a proposta de Lowder não pode se enquadrar na citação de Mara pelo simples fato de que o Professor da Justiça, citado nos manuscritos do mar morto, não é apresentado no mesmo documento como tenho sido executado, apesar de ter sido perseguido.

Outra observação que podemos fazer é que todas as mais famosas sugestões para o Rei Sábio, como Onias III e Judas o Essênio também não podem ser referidos, pelo simples fato de que o Rei Sábio de Mara foi executado pouco antes da queda de Jerusalém e da dispersão dos judeus. Se Onias fosse a referência, a dispersão dos judeus teria acontecido nada menos do que 240 anos mais tarde do que realmente aconteceu. Já com Judas o Essênio, seriam apenas 170 anos. Apesar da carta de Mara Bar-Serapião conter algumas dificuldades históricas relacionadas a Atenas e a Samos, um equívoco de tantos anos seria ainda improvável.

Por fim, a última controvérsia levantada por céticos refere-se ao fato de que Mara Bar-Serapião atribui a morte de Cristo aos judeus, o que se sabe que tecnicamente não é a informação mais correta, afinal, a morte de Cristo aconteceu nas mãos do romanos. É impressionante que esse seja de fato um argumento plausível para contestar a referência a Jesus Cristo nessa carta. O Novo Testamento está repleto de citações que atribuem a culpa aos judeus, como a primeira pregação de Pedro, por exemplo. Outro detalhe que se levanta quando se fala do antissemitismo na igreja primitiva, atenta-se a exatamente esse fato. Aliás, essa é uma das evidências que se tem para um carta mais antiga, afinal é bem provável que Mara Bar-Serapião tinha conhecimento da mensagem cristã da morte de Cristo como encomendada por judeus.

Ou seja, ainda que seja controvertida, essa carta oferece uma descrição interessante sobre Jesus Cristo, como Habermas sugere:

“Dessa passagem aprendemos: (1) que Jesus era considerado um homem virtuoso; (2) Ele é apresentado duas vezes como um Rei Judeu, possivelmente em referência aos próprios ensinos de Cristo sobre si mesmo,  ao qual os seguidores mencionavam, ou ainda da frase escrita sobre sua cabeça na cruficicação; (3) Jesus foi executado injustamente pelo judeus que pagaram por seus atos errados sofrendo brevemente o julgamento posteriormente, provavelmente uma referência a queda de Jerusalém para o exército romano; (4) Jesus vive nos ensinamentos dos cristãos primitivos, que é um indicativo de que Mara Bar Serapião não era  cristao” – (HABERMAS, Gary, Historical Jesus, College Press, 1996; pp.208)

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