Talmude e a Historicidade de Cristo


Talmude é a transliteração da palavra hebraica que significa “instrução, aprendizado”, proveniente da raiz do termo que significa “ensinar” ou “aprender”. O Talmude é composto por dois diferentes compêndios: (1) com a produção de citações anteriores ao ano 200dC., e provavelmente posteriores a 70dC., é conhecida como Mishná; (2) com a produção possivelmente posterior ao ano 500dC, que é conhecida como Gemará, que nada mais é do que o comentário à Mishná.

Segundo Habermas, a Mishná é resultado de uma tradição oral judaica transmitida de geração a geração e que foi “organizado por temas pelo Rabi Akiba antes de sua morte em 135 dC. Seu trabalho foi revisado pelo Rabi Meier. O projeto ficou pronto por volta de 200 dC pelo Rabi Judá” (HABERMAS, Gary, Historical Jesus, College Press, 1996; pp.202).  Sobre a produção do Talmud, F.F. Bruce, com mais detalhes, afirma:

“O vultoso corpo de casuística legal, ‘a tradição dos anciãos’ referida no Novo Testamento, havia sido legado oralmente de geração a geração, avolumando-se mais e mais com o correr dos anos. O primeiro passo no sentido da codificação de todo esse material foi dado agora [pouco após a queda de Jerusalém]. O segundo deu-o o grande Rabino Akiba, o primeiro a sistematiza-lo consoante com os assuntos. Após a morte heroic de Akiba, por ocasião do fracasso da revolta de Bar Cocbá contra Roma, em 135 dC, procedeu a revisão e lhe continou a obra seu siscípulo, Rabino Meier. A obra de codificação chegou ao termo final por volta do ano 200, mercê do Rabino Judá, presidente do sinédrio de 170 a 217, Esse código completo de jurisprudência religiosa assim compilado é conhecido pelo designativo de Mishná” (BRUCE, F.F., Merece Confiança o Novo Testamento. Vida Nova, 1965, pp.131)

Em função do caráter da Mishná, um compêndio jurídico judaico feito por fariseus, não é de se esperar que muitas citações fossem feitas a Jesus ou a seus seguidores, afinal, esse não é o tipo de literatura para apresentação de histórias. Entretanto, em pouquíssimas citações que se faz, ou a Cristo ou aos cristãos, encontramos comentários hostis, porém, servem para atestar a historicidade de Cristo. Na Mishná, na 43ª seção do Sanhedrin, encontramos a seguinte declaração a respeito de Jesus Cristo:

“Na véspera da Páscoa eles penduraram Yeshu e antes disso, durante quarenta dias o arauto proclamou que [ele] seria apedrejado ‘por prática de magia e por enganar a Israel e fazê-lo desviar-se. Quem quer que saiba algo em sua defesa venha e interceda por ele’. Mas ninguém veio em sua defesa e eles o penduraram na véspera da páscoa” (GEISLER, Norman, Enciclopédia de Apologética, VIDA, 2001, pp.450)

A primeira pergunta que deveríamos fazer é quem é Yeshu? Seria ele uma referência a Jesus Cristo? Na versão judaica de Jacob Shachter, H. Freedman debaixo da supervisão do Rabi I. Epstein, logo na introdução encontramos uma declaração interessante sobre o papel desse documento histórico para os cristãos:

“Aos olhos dos estudantes cristãos, o Sanhedrin sempre ocupou um lugar de predileção entre os tratados do Talmude em função da luz que ele é capaz de apresentar sobre o julgamento de Jesus de Nazaré. Não é sem significância que quando Reuchlin, o cristão campeão do aprendizado judaico, procurou em toda a Europa para encontrar uma cópia do Talmude, o único tesouro que conseguiu encontrar foi o Sanhedrin” (SHACHTER, Jacob, FREEDMAN, H., EPSTEIN, I., Sanhedrin, Translated into english with notes, glossary and índices, pp.xii)

Segundo os tradutores e editores desse material para o inglês, não parece haver dúvidas de que Yeshu apresentado no Sanhedrin é de fato Jesus Cristo, fato que não ousam discordar ou apresentar dúvidas sobre a referência que se faz a ele. Outra declaração, vinda do mesmo material, é sobre um interessante problema textual na declaração do Sanhedrin: esse problema textual segue exatamente o nome Yeshu, que segundo os autores, vários manuscritos acrescentam a expressão de Nazaré (SHACHTER, Jacob, FREEDMAN, H., EPSTEIN, I., Sanhedrin, Translated into english with notes, glossary and índices, pp.281-2).

Agora, somadas todas as declarações do Sanhedrin, sobre um Yeshu conhecido como sendo de Nazaré que teria sido pendurado na véspera da páscoa, em uma declaração proveniente de um período muito próximo à morte de Cristo, nos faz pensar que tal declaração deve ser a respeito de Cristo. Se isso não pode ser inferido, teríamos que considerar que em um período muito próximo de Jesus, outro Jesus teria sido pendurado e morto na véspera da Páscoa, o que pareceria uma coincidência assustadoramente impressionante.

Sobre o Talmud e sua alusão à figura histórica de Jesus Cristo, Wilcox afirma:

“A literatura tradicional judaica, embora mencione Jesus só muito raramente (e, seja como for, tem de ser usada com muita cautela), respalda a alegação do evangelho de que ele curava e fazia milagres, embora atribua tais atividades à magia. Além disso, ela preserva a lembrança de Jesus como professor, diz que ele tinha discípulos (cinco) e que, ao menos no período rabínico primitivo, nem todos os sábios haviam concluído que ele era ‘herege’ou ‘enganador’.” (WILCOX, M., Jesus in the light of his Jewish environment, n25.1, 1982, pp.133; IN: STROBEL, Lee, Em Defesa de Cristo, pp.112)

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