Inácio de Antioquia e sua visão de Jesus Cristo


Inácio foi Bispo de Antioquia nasceu na Síria por volta do ano 50dC e morreu entre 98 e 117 dC. Também conhecido como Teodóforo, Inácio foi provavelmente amigo pessoal de Policarpo e discípulo pessoal de João, o discípulo amado. Segundo Eusébio de Cesaréia, ele foi o terceiro bispo em Antioquia depois de Pedro e o sucessor imediato de Evódio (Eusébio, História Eclesiástica, II3.22). A data de sua morte é incerta, mas sabe-se que foi condenado à morte ao ser lançado aos leões no Coliseu no período do Imperador Trajano (98-117dC).

O número total de epístolas com o nome de Inácio é quinze, mas elas são de datas e valores muito diferentes. Sete delas, ou seja, aquelas que conhecemos como sendo cartas enviadas a Éfeso, Magnésianos, Tralianos, Romanos, Filadéfia, Esmirna e a Policarpo, sobreviveram em duas versões, uma curta e uma longa. As três últimas cartas mencionadas foram, provavelmente, escritas originalmente em latim.

O caráter de Inácio, tal como verificado em suas próprias cartas sobreviventes, pode ser identificado como um grande servo do Senhor e verdadeiro cristão. A ele é concedida a tripla honra de apóstolo, bispo e mártir por mérito em função de sua extrema dedicação à fé. A Catholic Enciclopedia o define como um “entusiasta devotado ao serviço, com amor apaixonado pelo sacrifício e total destemor na defesa das verdades cristãs” (Catholic Enciclopedia, New Advent: www.newadvent.org).

Em nossas observações vamos nos ater apenas as versões curtas das cartas já citadas e verificar o que podemos aprender com esse cristão fiel do passado sobre Jesus Cristo de uma fonte ainda no primeiro século. Também é importante relembrar a íntima conexão com os apóstolos que esse homem desfrutou, o que sugere que sua visão sobre Jesus Cristo provenha de fontes extremamente confiáveis.

A visão de Inácio, como também vimos em Clemente, já muito mais familiar ao Novo Testamento e suas declarações sobre quem Cristo é de sua perspectiva é perpetrada pelas verdades do Evangelho, muito embora, Inácio use expressões não encontrada nas escrituras para apresentar verdades cristãs em suas cartas. Por exemplo, para Inácio, Jesus é o Cristo a quem se dirige com esse título cerca de 125x nas cartas mencionadas. Esse Cristo é claramente apresentado com um ser humano descendente de Davi (InEf. 20.2; InTr.9.1; InEs.1.1) que com sua vida e modelo estabelece o padrão como novo homem para com Deus (InEf.20.1), um homem perfeito (InEs.4.2).

Em sua humanidade (InEf.7.2; 10.3; InMg.1.2; 13.2; InEs.12.2; ) Cristo é filho de Maria (InEf.7.2), que é descrita com sendo virgem (InEf.19.1; InTr.9.1; InEs.1.1), entretanto concebido pelo Espírito Santo e apontado por Deus como Cristo (InEf.18.2). Ele também foi batizado (InEf18.2; InEs.1.1) e entregue à morte de cruz (In.Ef.9.1; 16.2; 18.1; InTr.10.1-2; InRo.5.3; In.Fl.8.2; InEs.1.1-2) e derramou Seu sangue (InEf.1.1; InFl.1.1) para nos oferecer vida eterna (InRo.7.3), nos conduzir à unidade (InFl.4.1) sendo assim estabelecidos como filhos de Deus (InEs.1.1). É por isso que Inácio o chama de verdadeira paixão (InEf.1.1; 18.2) como sacrifício vicário por nós (InEf.1.2) capaz de oferecer Vida Eterna (InEf.19.3; 20.2; InRo.7.3; InPo.2.3)

Entretanto, Inácio também acredita que Jesus Cristo é Deus feito carne, em conformidade com os evangelhos (Jo.1.1, 14), e sobre isso claramente atesta:

“Existe um Médico que possui tanto espírito quanto carne, feito e não criado, Deus existindo em carne, verdadeira vida na morte, de Maria e de Deus, primeiro possível e então impossível, Jesus Cristo nosso Senhor” (InEf.7.2)

“Desde que todo tipo de mágica fora destruída, e todo vínculo da maldade fora destruída, a ignorância removida, e o velho reino abolido, o próprio Deus foi manifesto em figura humana para renovar a vida eterna” (InEf.19.3.2)

“(…) em uma só fé, e em Jesus Cristo, que é descendente de Davi segundo a carne, sendo tanto Filho do Homem como Filho de Deus (…)” (InEf.20.2)

Ou seja, para Inácio Cristo também é Deus, e por isso o apresenta diversas vezes como filho de Deus (InEf.2.1; 4.1; 20.2; InRom.7.3; InEs.1.1), digno de ser glorificado (InEf.2.2; 4.1-2; InFl.10.2; InEs.1.1) e adorado (InRo.1.1; InPo.7.2). É por isso que não poucas vezes Inácio chama a Jesus Cristo de Nosso Deus:

“(…) sendo unidos e eleitos por meio da verdadeira paixão pela vontade do Pai e Jesus Cristo nosso Deus: [a vocês ] alegria abundante por meio de Cristo e de Sua imaculada Graça (…) Sendo seguidores de Deus, e agitando-se, pelo sangue de Deus, tendes perfeitamente cumprido a obra que foi apresentada a vocês” (InEf.1.1)

“Por que nosso Deus, Jesus Cristo, foi, de acordo com a nomeação de Deus, concebido no ventre de Maria, da descendência de Davi, mas pelo Espírito Santo. Ele nasceu e foi batizado, e por sua paixão pode purificar a água” (InEf.18.2)

“Guardem-se, portanto, dessas pessoas. E este será o caso com vocês se não se deixarem estufar [pela heresia], e continuam em íntima comunhão com Jesus Cristo, nosso Deus, e com o bispo e com os decretos dos apóstolos” (InTr.7.1)

“(…) A igreja que é amada e iluminada pela vontade Dele, e que querem todas as coisas de acordo com o amor de Jesus Cristo nosso Deus (…) a aqueles que estão unidos, de acordo com a carne e o espírito, e a todos os Seus mandamentos; aqueles que são listados inseparáveis da graça de Deus, e são purificados de toda mácula estranha [eu desejo] abundância de alegria imaculada, em Jesus Cristo nosso Deus” (InRo.1.1)

“Nada que é visível é eterno por que ‘as coisas que são visíveis são temporais, mas as coisas que não se veem são eternas’. Por isso, nosso Deus Jesus Cristo, que está agora com Seu Pai, é melhor revelado em sua Glória” (InRo.3.3)

“Nós recebemos a Filo e Reus Afatopos como servos de Cristo nosso Deus, que  se tornaram meus seguidores pelo cuidado divino” (InEs.10.1)

“Eu oro por sua alegria eterna em nosso Deus, Jesus Cristo, por quem continuamos em unidade e sob proteção de Deus” (InPo.8.3)

Essa visão da humanidade e divindade de Cristo era clara para Inácio e por isso ele também o via como um com o Pai (In.Ef.5.1; InFl.7.2) e chefe maior da Igreja (In.Es.8.2) a quem os cristãos deveriam obedecer os mandamentos (InEf.9.2; InRo.1.1) e que nos oferece as mais preciosas dádivas espirituais (InEf.11.2).

Diante do testemunho de Inácio, fica evidente que esse homem fora perpassado pelas doutrinas apresentadas pelos apóstolos de Cristo de tal modo que em muitos casos a linguagem é extremamente similar. O testemunho de Inácio, por outro lado também apresenta um antigo e confiável exemplo de que a propagação das verdades ensinadas por Cristo e seus apóstolos atingiu diferentes regiões no mundo, e que o propósito de Cristo de estabelecer sua Igreja firmada em seu ensinamento havia chegado forte e vibrante até a Síria, onde Inácio o servia como bispo.

2 comentários sobre “Inácio de Antioquia e sua visão de Jesus Cristo

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  2. paulo

    Gostaria de parabenizar-vos pela excelencia do trabalho. Evidente que cabe, nesses assuntos tão importantes, como a divinidade de Jesus Cristo, um livro, para que fique registrado aos cristãos o que vem sendo dito ao longo da história acerca desta tão importante questão. Esse estudo, inclusive deveria ser ensinado aos cristão assim que se convertem, pela Igreja, e não o é.

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