Epístola a Diogneto e sua visão de Cristo


A Epístola a Diogneto é um belo e curto tratado apologético em favor do Cristianismo e não foi citado por nenhum cristão antigo ou medieval, e sobreviveu por meio de um único manuscrito que foi destruído em 1870. O autor é desconhecido e anônimo e sua data tem sido apresentada em algum lugar entre os pais apostólicos e o período de Constantino. A razão para se atribuir a um período anterior a Constantino é o fato de que tal carta apresenta um claro peso de uma severa perseguição contra os cristãos, que com a consolidação do cristianismo como religião oficial do Império Romano, veio a desaparecer.

O único dado que se sabe sobre o autor, é sua própria descrição como “discípulo dos apóstolos” o que sugeriu ser uma referência a uma segunda geração de cristãos. Ele se apresenta como “Mathetes”, palavra grega que significa discípulo. Entretanto, é possível que um cristão de outra época pudesse se considerar como um discípulo dos apóstolos sem necessariamente ter vivido pessoalmente com eles.

O destinatário da carta, o excelentíssimo Digneto, um não cristão que tem interesses em saber mais a respeito da religião cristã. Segundo o conhecido esboço da carta, vemos a mensagem de “Mathetes” como defesa do cristianismo em relação ao contexto religioso em que viviam naqueles dias. Em sua carta, o discípulo desaprova a idolatria e demostra que os rituais judaicos não podem agradar a Deus. Também apresenta o fato de que apesar de não serem uma nação, os cristãos estão espalhados por todas elas e que sua cidadania é celestial. Entretanto, a mais importante seção dessa carta é a declaração de esse Deus, que é criador de todas coisas, enviou seu Filho para salvar o homem, e posteriormente os habilitou a perceber sua própria fraqueza e incapacidade de se salvar. Ou seja, diante do conteúdo dessa carta, percebemos que seu autor era um cristão verdadeiro e que sua defesa da fé, feita a Diogneto, é uma demonstração antiga da exposição da mensagem apostólica pelo mundo antigo.

Ao que tudo indica, tal carta não foi preservada em sua integridade, pois após o capítulo dez, dois outros capítulos foram anexados a ela, e não se compatibilizam com o resto da carta, no que se refere ao estilo e conteúdo, e provavelmente trata-se de uma antiga homilia preservada no mesmo manuscrito.

O que nos chama a atenção em primeiro lugar é o fato de que Jesus não é chamado de Cristo nem mesmo de Jesus nessa carta, mas apenas de Verbo, como João o faz em sua introdução ao Evangelho. Falando sobre a mensagem cristã, o Discípulo atesta:

“E, como já disse, isso não é uma mera invenção terrena que foi entregue a eles [os cristãos], nem um sistema humano de opinião, que eles julgaram ser correto e o preservaram cuidadosamente, nem a dispensação de um mero mistério humano que foi confiado a eles, mas o Próprio Deus, o Todo-Poderoso o invisível Criador de Todas as Coisas, foi verdadeiramente enviado dos céus e colocado entre os homens, Aquele que é a verdade, santa e incompreensível Verbo, que foi firmemente estabelecido no coração deles” (EpDio.7.1-2)

A visão desse autor é que Cristo é o Verbo divino sendo reconhecido como o próprio Deus Todo-Poderoso entre os homens. Na sequência também defende que Deus não enviou um anjo, ou um outro servo, mas que o “próprio Deus, o criador e adornador de todas as coisas” é quem se fez presente entre os seres humanos. Certamente, esse autor conhecia largamente o Evangelho de João e dele deriva diversas de suas afirmações.

Para esse discípulo, o Verbo é o princípio de todas as coisas (11.4), eterno (11.5), criador de todas as coisas (11.2), o único Filho de Deus (9.4),o Amado Filho de Deus (8.11), conhecido como Filho Unigênito (10.2), que desenvolve um relacionamento de intimidade com o Pai (8.12) e é o único que o conhece verdadeiramente (8.9). É tão Rei como Deus (7.4) que foi enviado para manifestar-se ao mundo (11.3). No mundo manifestou-se especialmente a seus discípulos, com quem falou, conversou e apresentou os mistérios de Deus (11.2) de modo que eles foram o foco do seu ministério terreno. Mas, sua vinda à terra tinha um alvo ainda mais nobre, morrer em substituição do pecador, por causa das iniquidades deles como um sacrifício substitutivo, como podemos observar nessa declaração:

“Ele mesmo {Deus} tomou sobre si mesmo o fardo das nossas iniquidades, e deu Seu próprio Filho em resgate por nós, o santo pelos transgressores, um inocente pelos maus, o justo pelos injustos, o incorruptível pelos corrompidos, um imortal pelos mortais” (EpDio.9.2)

É por isso que o Verbo é chamado de Salvador (7.4) e promotor da verdadeira vida espiritual (11.2). Para os cristãos, ele também é a fonte do ensino (11.2, 7), o Abençoador da parte de Deus (8.11) e Aquele que enriquece a igreja (11.5) como amor revelado do Pai (11.8). Nele, o medo da Lei é aniquilado, a graça dos profetas é conhecida, a fé no evangelho é estabelecida, a tradição dos apóstolos é preservada e a graça da Igreja exulta (11.6). E esse mesmo, foi pregado pelos apóstolos e crido pelos gentios (11.3).

Esse é mais um documento cristão antigo que atesta o avanço da mensagem dos apóstolos e apresenta claramente a influência que estes exerceram em seu testemunho de Cristo. Esse documento não representa muitas informações sobre a pessoa história de Cristo, exceto que esteve com homens conhecidos como seus discípulos a quem ensinou sobre os mistérios de Deus. Entretanto, a tradição cristã, tal como apresentada no Novo Testamento, ultrapassava novas fronteiras e avançava pelo mundo antigo, como mais um testemunho de Jesus Cristo.

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