Hebraico e natureza humana


“A transição da teologia para a antropologia, isto é, do estudo de Deus para o estudo do homem, é natural. O homem não é somente a coroa da criação, mas também é o objeto de um especial cuidado de Deus” – Louis Berkhof

O estudo de Deus segundo as escrituras em algum momento nos levará ao estudo de Sua Criação, pois é impossível falar do Deus das escrituras sem mencioná-lo como Criador. É por isso que Berkhof entende que a tal transição é natural.

Contundo, uma  das questões que nascem no início do estudo do homem segundo as escrituras  refere-se à sua constituição: Seria o homem corpo, alma e espírito? Seria apenas uma unidade bipartida, material e imaterial? O que é o homem?

Nesse post temos a intenção de apresentar os termos hebraicos que descrevem o ser humano, bem as palavras que descrevem sua constituição e verificar o que as escrituras hebraicas ensinam sobre o homem. O texto transcrito abaixo é de autoria de Ralph Smith (Teologia do Antigo Testamento).

1. Termos hebraicos usados para se referir a pessoas

O hebraico possui ao menos cinco palavras principais para se referir ao homem:

  1. adam aparece cerca de 562 vezes no Antigo Testamento sempre no singular, embora, normalmente tenha o sentido coletivo de humanidade.
  2. `ish é usado cerca de 2160 vezes e seu uso normal parece indicar a pessoa do marido em contraste com a esposa, embora eventualmente seja uma demonstração de distinção entre masculino e feminino (Gn.7.2)
  3. ‘enôsh ocorre cerca de 42 vezes no Antigo Testamento e provavelmente provém de uma razis que signifique ser fraco ou mortal. É recorrente em Jó e Salmos.
  4. geber ocorre cerca de 65 vezes e é traduzido como homem, ou até mesmo homem forte, valente. A ideia do termo está relacionada a poder, força ou excelência. É usado com frequencia para descrever o homem que confia em Deus, O teme e faz o que Ele exige.
  5. mat usado apenas no plural significa homens. É normalmente usado para descrever pessoas do sexo masculino em geral.

2. Termos hebraicos para se referir à constituição do homem

Além dessas cinco palavras hebraicas relativas ao “ser humano” no Antigo Testamento, principalmente quatro palavras hebraicas descrevem os aspectos primordiais da natureza humana: basar ou se’er (“carne”), ruah (“espirito”), nepesh (“alma”) e leb (“coração). O Antigo Testamento nenhuma vez explica esse aspectos da natureza humana de modo sistemático. Cada termo tem mais de um sentido, às vezes físico, outras vezes psíquico. Um termo referente a uma parte da pessoa pode ser usado para a pessoa na totalidade do seu ser individual.

A. Basar e Se’er

basar ou se’er referem-se a parte visível, externa, física e material da natureza humana. Essas duas palavras hebraicas traduzíveis por “carne” tem pouca diferença em seu sentido. basar ocorre 273 vezes, enquanto se’er é encontrado apenas 17 vezes. Os dois termos se referem primordialmente às partes musculares das pessoas e dos animais. Nenhum dos dois refere-se a Deus Antigo Testamento. Na verdade, uma passagem afirma explicitamente que Deus não é carne (Is 31.3). A carne liga o ser humano ao mundo animal, não ao divino. A carne, no Antigo Testamento, é fraca (2Cr 32.8; S1 56.4; Jr 17.5, 7), mas não a base do pecado. Com frequencia o termo se refere a alimentos (Ex 21.10; Lv4.11; 7.15-21; S1 78.20; IS 22.13; Mq 3.2, 3). A carne pode significar o corpo visível (Nm 8.7; S1 73.26). Ela pode referir-se a um “parente de sangue” ou familiar próximo (Gn 29.14; 37.27; Lv 18.6, 12, 13, 17; 20.19; 21.2; 25.49; Nm 27.11; 2Sm 5.1;19.12). Ela pode indicar uma pessoa ou individuo (Lv 13.18; Pv 11.17). A carne também tem qualidades psíquicas no Antigo Testamento. Ela pode “ter esperança” (Sl 16.9), “ansiar por Deus” (Sl 63.1), “cantar de alegria para o Deus vivo”(Sl 84.2).

A carne não é idêntica ao corpo humano. O hebraico não tem palavra que signifique “corpo”, apesar de gewiya ser traduzido assim (Gn 47.18; Ne 9.37; Ez 1.11,23; Dn 10.6). “Carne” não se refere a um corpo sem vida. Os termos hebraicos relativos a “cadáver” ou “carcaça” são nebelâ, da raiz nabal (“afundar” ou “deixar cair”, Dt 21.23;28.26;Js 8.29; 1Rs 13.22,24,25,28-30; 2Rs 9.37; Jr 26.23;36.30); peger, de uma raiz que significa” “estar exausto”, “desmaiar” (Lv 26.30; Nm 14.29,32,33; Is 14.19;34.3;66.24; Jr 31.40;33.5;41.9; Ez 6.5; Am 8.3; Na 3.3); gewiya (Jz 14.9,9; 1Sm 31.10,12; Sl 110.6; Na 3.3) e gûpâ (1 Cr 10.12).

B. Rûah

rûah,”vento”, “espirito”, “folego”, ocorre 378 vezes no texto hebraico e 11 vezes nas porções aramaicas da Bíblia. Mais ou menos 113 vezes rûah se refere a “vento” ou ar em movimento. Em 136 lugares rûah se refere ao “espirito de Deus”, deixando 130 referencias para o “espirito humano” e outros significados.

A ideia básica de rûah, como na palavra grega pneuma, é “vento”. Jesus comparou a obra do Espirito ao vento (Jo 3.6-8), seguindo os profetas e escritores do Antigo Testamento que viam em rûah uma energia ou poder ativo, sobre-humano, invisível, misterioso, difuso rûah se refere ao vento oriental (Ex 10.13; 14.21), ao vento norte (Pv 25.23), ao vento ocidental (Ex 10.19), aos quatro ventos (Jr 49.36; Ez 37.9), ao vento forte (Sl 55.8) e ao vento do céu (Gn 8.1; Ex 15.10).

No começo do Antigo Testamento é feita a associação entre o “sopro” de Deus e o “principio de vida” no ser humano (Gn 2.7; 6.17; 7.15-22). O sopro que energizou  o ser humano foi uma dadiva do espirito de Deus (Jo 9.18; 19.17; 27.3; 33.4; Is 42.5; 57.16). Essa dádiva de vida do espírito de Deus não foi exclusiva do ser humano. O Antigo Testamento diz que a vida ou vitalidade dos animais também provem do espirito de Deus (Gn 6.17; 7.15, 22; Ec 3.19, 21). Os ídolos não têm “espírito” ou “folego”. Eles não tem vida nem poder (Jr 10.14; He 2.19). Os “ossos” de Israel voltam a ter vida quando o “espirito” vem dos quatro ventos e sopra sobre eles (Ez 37.6, 8-10, 14). Portanto, o espirito é o sopro e o principio vital no ser humano (e nos animais?).

Apesar do fato de o espirito humano ser uma dadiva de Deus e de o individuo jamais poder controla-lo completamente, ele é próprio da pessoa (Sl 51.10; 146.4; Ez 3.14; 11.5; 20.32). A pessoa podia falar da energia vital que tem dentro de si como o “meu” rûah e atribuir-lhe “uma deterioração visível do estado físico ou psíquico” pessoal. O espirito humano pode diminuir (Is 61.3; Ez 21.7), enfraquecer (S1 77.3; 142.3; 143.4) ou desaparecer (S1 143.7). Ele pode ficar perturbado (Dn 2.3), desanimado (Jo 6.4; 7.11; Pv 15.4, 13), irado (Jo 15.13;Pv29.11; Ec 10.4), repousar (Zc 6.8), tornar-se ciumento (Nm 5.14, 30), endurecido (Dt 2.30) ou animado (Ag 1.14).

Algumas qualidades físicas de rûah podem ser vistas em sua relação com as  emoções. O espirito às vezes é associado a poderes mentais e pode ser traduzido  por “mente” (Ex 28.3; 1Cr 28.12; S1 77.6; Is 29.24; Ez 11.5; 20.32; cf. Is 65.17;Jr 3.16) e “vontade” (Is 19.3; 29.24). Assim, o “espirito”, que começou como vento”e se tornou “sopro” e “vitalidade”, também representa o aspecto interior, invisível e mais elevado da natureza humana. Eichrodt disse:

“O fato de o mesmo termo ser usado para indicar o rûah tanto da divindade como do ser humano, apesar de não ser atribuído nenhum valor religioso direto ao rûah humano, manteve o ser sempre ciente de que, pelos termos da criação, seu mundo estava ligado ao mundo supra sensorial de Deus”.

C. Nepesh

nepesh (“alma”, “vida”, “garganta”) é um termo difícil de definir, com um amplo espectro de significados. A tradução tradicional de nepesh em português como “alma” remonta à tradução anima, da Septuaginta, mas mesmo ela admite outros significados em 155 das 755 ocasiões em que a palavra é usada. Eichrodt disse: “A tradução infeliz do termo por ‘alma’ abriu a porta para a entrada das ideias gregas sobre a alma“. Na versão King James, a palavra nepesh é traduzida por “alma” 428 vezes, “vida” 119 vezes, “eu” 19 vezes, “pessoa” 30 “coração” 15 vezes, “mente” 15 vezes, “criatura” 9 vezes, (corpo) “morto” 8 vezes “corpo” 7 vezes, “desejo” 5 vezes, “vontade” e “prazer” 4 vezes, “homem” 3 “apetite”, “animal”, “fantasma” e “paixão” 2 vezes. Essas traduções diversas da mesma palavra indicam variações extremas e amplitude de significado. Aspectos físicos e psíquicos da natureza humana podem ser indicados por esse termo em graus variados.

O significado básico de nepesh provavelmente é “garganta” ou “pescoço”. Isaías 5.14 diz que o mundo dos mortos abre bem sua nephesh, “garganta” (cf. Sl 107.9, Hc 2.5). Jonas (2.5) diz que a agua cercou seu nepesh (“garganta” ou “pescoço”). Parece que o sentido de nepesh mudou de “garganta” ou “pescoço” para “respiração”, indicando vida e vitalidade. nepesh não se limita a “vida” do ser humano. Os animais também são chamados “seres vivos” (nepesh hayâ, Gn 1.21, 24; 2.19; 9.10,15,16; Lv 11.46). Isaias 10.18 fala metaforicamente de nepesh e basar, “alma” e “corpo” da floresta e da terra.

A forma verbal da raiz nps ocorre apenas tres vezes no Antigo Testamento, como significado de “exalar”, “prender a respiração”, “refrescar-se”. Davi suspirou aliviado ao chegar ao Jordao, depois que Absalão se rebelou contra ele (2Sm 16.14). Duas vezes o descanso no sábado é explicado como “exalar”, “respirar refrigério”, uma vez pelas pessoas (Ex 23.12; 31.17).

As qualidades físicas de nepesh são inúmeras. Ela pode ficar assustada (Jo 6.4) ou desanimada (S1 42.1, 2; Jn 2.7). Ela pode odiar (2Sm 5.8; Is 1.14), amar (Ct 1.7;3.1-4; Jr 12.7), entristecer-se e chorar (Lv 26.16; Dt 28.65; Jr 13.17). Ela pode “pensar” (Et 4.13; Pv 2.10). Mesmo admitindo que muitas passagens em que nepesh é traduzido por “mente” não refletem nosso conceito de “mente” como sede do raciocínio, varias chegam perto (a Bíblia hebraica usa leb, “coração”, com mais frequência para referir-se a “mente”).

nepesh não tem apenas um sentido físico (“pescoço”, “garganta”) e outro psiquico (“amar”, “odiar”, “enfraquecer”). Ela também pode significar a pessoa toda, aproximando-se do nosso pronome pessoal ou reflexivo. O Antigo Testamento não tem pronomes reflexivos técnicos traduzíveis por “a si mesmo” e usa nepesh para essa expressao. nepesh é usado no Antigo Testamento quando Deus fala de si mesmo (Jr 5.9, 29; 9.7; Am 6.8; cf. Jr 51.14). A nepesh de Javé (ele mesmo) fica indignada ou impaciente (Jz 10.16; Zc 11.8), odeia (S1 11.5; Is 1.14), ama (Jr 12.7), pode desinteressar-se (Jr 6.8) ou ficar irada (Ez 23.18).

Já que nepesh pode referir-se à pessoa toda, será que pode significar também uma pessoa morta? Um cadáver ou uma carcaça ainda é uma nepesh? A expressão “nepesh morta” aparece em Levítico 21.11; Números 6.6; 19.11, 13; Ageu 2.13. A. R. Johnson disse que

essa ultima passagem em especial deixa bem claro que a referencia deve ser a nepesh como algo com que se pode ter contato físico, não à ‘alma’ do morto como algum fenômeno fantasmagórico“.

No hebraico, aramaico e siriaco pos-biblico, nepesh é usado para indicar uma lápide ou monumento funerário. Jacob disse:

“Esse sentido nos leva para longe do significado original, pois é usado exatamente para o oposto da vida, monumento que representa a pessoa garante, pelo menos por algum tempo, a continuação da sua presença”.

Se nepesh pode significar “corpo sem vida” ou cadáver de uma pessoa ou animal, o que o Antigo Testamento teria a dizer sobre o que acontece com a nepesh na hora da morte? O que podemos dizer neste momento e que o Antigo Testamento diz que a nepesh é expirada ou derramada na morte (Jo 11.20; Is 53.12; Lm 2.12),ela parte (Gn 35.18) e, em alguns exemplos, retorna quando uma pessoa morta é reavivada (1Rs 17.21, 22). Wheeler Robinson disse que os habitantes do Sheol não são nepheshim (“almas”) mas repha’im (“sombras”).

D. Leb e Lebab

leb, lebab (“coração”), são dois termos correlatos com o mesmo sentido. O primeiro ocorre 598 vezes e o segundo, 252, tornando “coração” o termo antropológico usado com mais frequencia no Antigo Testamento. Ele se, refere a animais apenas 5 vezes (2Sm 17.10; Jo 41.24; Dn 4.16; 5.21;Os 7.11). Nas primeiras quatro passagens o uso pode ser metafórico. O “coração de Deus” é mencionado 26 vezes. As 814 ocorrências restantes referem-se ao humano.

No Antigo Testamento conhecia-se o coração como órgão físico, mas não sua função essencial de fazer circular o sangue. Poucas referencias no Antigo Testamento referem-se ao coração como órgão físico. Oséias falou da “envoltura”(segôr) ou recipiente do coração (Os 13.8), provavelmente referindo-se à caixa torácica que protege o coração. Abigail disse a Davi que o coração do marido dela morrera “dentro dele” e que se tornara como uma pedra, apesar de continuar a viver por mais dez dias (1Sm 25.37). A expressão “dentro dele” (qereb) e uma indicação de que os israelitas sabiam que o coração ficava dentro da pessoa (1Sm 25.37; Sl 39.3; 64.6; Jr 23.9).

Outras passagens do Antigo Testamento indicam a localização interior do coração. Jeú acertou Jorão entre os braços, de modo que a flecha atravessou seu coração (2Rs 9.24). Arão vestia o peitoral sobre o coração (Ex 28.29). Duas passagens podem ser referencias as batidas do coração (S1 38.10; Jr 4.19). No entanto nenhum dos dois verbos significa realmente “bater”. O primeiro, homeh, é um particípio de hmh (“produzir um som”), e o segundo, seharhar, é uma onomatopeia que significa “vaguear”.

No Antigo Testamento dava-se pouca importância ao aspecto físico do coração. O mesmo vale para as outras 80 diferentes partes do corpo humano mencionadas no Antigo Testamento, que se concentra nas qualidades psíquicas das partes do corpo, mais do que em suas funções físicas.

“Coração”, no Antigo Testamento, refere-se principalmente aos poderes psíquicos da pessoa. O Antigo Testamento atribui ao coração tudo o que nós atribuímos à cabeça e ao cérebro – capacidade de perceber, raciocinar, pensar, compreender, entender e tomar conhecimento, a consciência, memoria, conhecimento, sentimento, vontade e juízo.

“Coração” pode ser usado como sinônimo de nepesh (“alma”) e rûah (“espírito”), em termos de sentimentos e emoções. Alegria e tristeza podem muito bem ser descritas por expressões como “dar força ao coração” ou “trazer refrigério à alma” (Gn 18.5; Jz 19.5, 8; S1 104.15); “derramar o coração” ou “derramar a alma”(Sl 62.8; Lm 2.19). De modo semelhante, os sentidos de coração e espirito se sobrepões. O Antigo Testamento fala de “corção quebrantado” e de “espirito quebrantado” (S1 34.18; 51.17); do orgulho como elevar-se do coração ou do espírito(S1 131.1; Pv 18.12; Ez 28.2, 5, 17). Como nepesh e ruah, “coração” pode referir-se à pessoa toda e ser traduzido por um pronome pessoal (Pv 3.1; 10.8).

O significado singular de “coração” no Antigo Testamento não esta em sua expressão de sentimentos como medo, coragem, alegria ou tristeza, mas em sua expressão dos processos intelectuais e volitivos. Wheeler Robinson classificou 20 ocorrências de “coração” no Antigo Testamento na categoria intelectual e 195 na volitiva. O uso de “coração” no sentido intelectual e volitivo parece concentrar-se na literatura de sabedoria e em Deuteronômio. A palavra é usada 99 vezes em Provérbios, 42 vezes em Eclesiastes e 51 em Deuteronômio.

Platão fazia uma distinção clara entre razão e emoção. Os estoicos com frequencia equiparavam a moralidade à supressão da paixão e ao controle do desejo pela razão. “Paixão e vicio, emoção e fraqueza eram frequentemente tratados como sinônimos,e presumia-se que razão e falta de escrúpulos, conhecimento e maldade eram mutuamente exclusivos”. O coração, de acordo com Heschel, é a sede de todas as funções interiores. Paixões não são distúrbios ou fraquezas da alma. O ascetismo não era o ideal das pessoas na Bíblia, e a fonte do mal não estava na paixão, mas na cauterização, insensibilidade e dureza do coração. O estado ideal no Antigo Testamento não é a apatia, como para os estoicos, mas a compaixão, como para Javé (Os 11.8, 9).

No Antigo Testamento, o coração como centro do conhecimento ou da razão é frequentemente associado ao ouvir (Dt 29.4; 1Rs 3.9-12; Pv 2.2;18.15; 22.17; 23.12; Is 6.10; 32.3, 4; Jr 11.8; Ez 3.10; 40.4; 44.5). Uma pessoa inteligente era alguém de coração (Jo 34.10, 34), enquanto ao tolo faltava coração (Pv 10.13) ou dizia em seu coração: “Não ha Deus” (S1 14.1; 53.1). A memoria também é vinculada ao coração (Dt 4.9, 39; S1 31.12; ls 33.17; 65.17; Jr 3.16; 51.50).

A consciência é vinculada ao coração. O coração de Davi repreendeu-o em duas ocasiões: depois que ele cortou a ponta da veste de Saul (1Sm 24.6) e depois fazer um recenseamento das suas forcas militares (2Sm 24.10; cf. 1Rs2.44, Ec 7.22). O amor genuíno está arraigado no coração (Jz 16.15), apesar de o coração não ser entendido no sentido “romântico” ou afetivo no Antigo Testamento, como em nosso conceito e linguagem.

Quando o Antigo Testamento diz: “Amaras o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de toda a tua força” (Dt 6.5), “coração” está primeiro lugar e tem principalmente o sentido de “mente” – se bem que, sentido estrito. Devemos amar a Deus com todo o intelecto, com os sentimentos, com as emoções, com a vontade – com todo o ser.

O coração é a origem dos pensamentos, palavras e ações (Pv 4.23), tanto bons como maus. O coração pode ser terno (2Cr 34 27), limpo (S1 24.4, BLH), puro (Sl 51.10), reto (Dt 9.5), integro (1Rs 8.61), perfeito (Gn 20.6), forte (S1 57.7) e fiel (Ne 9.8). Também pode ser duro (Ex 7.3), corrupto e enganoso (Jr 17.9), maus (Is 32.6), pecaminoso (Pv 6.18), maldoso ou pervertido (S1 101.4; Pv 11.20;12.8; 17.20) e maligno (Gn 6.5; 8.21; Dt 15.9; 1Sm 17.28). O Antigo Testamento fala do coração fingido (S1 12.2) e de corações insensíveis (S1 119. 70; Is 6.10). Heschel disse que o que nós chamamos natureza irracional do ser humano, os profetas chamavam coração obstinado ou incircunciso (Is 46.12; Jr 9.26). “O oposto de liberdade não é determinismo, mas dureza do coração. A liberdade pressupõe um coração aberto, mente aberta, olhos e ouvidos abertos.” O Antigo Testamento também diz que o coração tem interesse ou inclinação para o mal (Gn 6.5;8.21). Contudo, não devemos concluir que yeser (“interesse”) esteja sempre voltado para o mal. O termo é usado no Antigo Testamento e na literatura rabínica para indicar o “impulso”, tanto para o bem como para o mal. Em Isaias 26. 3, ARC traduz yeser por “mente”, e com conotação positiva: “Tu conservaras em paz aquele cuja mente está firme em ti; porque ele confia em ti”.

Se o coração é mau, Deus o sabe porque ele olha para dentro do ser humano (1Sm 16.7). Ele “testa” (Jr 12.3), “pesa” (Pv 21.2) e “circuncida” o coração (Lv 26.41; Dt 10. 16; 30.6; Jr 4.4; 9.26; Ez 44.7, 9). Quando o coração de alguém se torna duro, Deus pode Ihe dar um coração novo (Jr 32.39; Ez 18.31; 36.26).

E. Conclusão

O estudo das quatro palavras principais relacionadas com a natureza humana  (basar, “carne”, rûah, “espirito”, nepesh, “alma”, “vida”, e leb, “coração”) revela que o ser humano e uma criatura multifacetada. Em alguns aspectos, o ser humano é como algumas outras criaturas, mas em outros, é totalmente distinto. Cada um desses quatro termos tem várias matizes de sentido. Cada um tem implicações físicas e psíquicas. O contexto em que cada termo é usado tem de ser considerado com cuidado. Cada um deles pode ser usado em algum sentido quase como sinônimo dos outros, e cada um deles pode representar a pessoa toda.

Eichrodt diz que o pensamento hebraico não estava interessado em uma análise teórica de fenômenos psíquicos. “Um dualismo rígido, que sente que carne e espirito, corpo e alma, são opostos irreconciliáveis, e totalmente desconhecido“. Contudo, mesmo assim é impossível entender nepesh e rûahcomo dois componentes da natureza espiritual do ser humano“. São excelentes descrições das qualidades diversas dos eventos psíquicos, mas de nenhum modo são termos adequados para traduzir capacidades ou áreas especificas da psique. Pelo contrario, eles representam sempre toda a vida da pessoa de determinado ponto de vista. “Por isso, uma psicologia humana tricotômica pode ser tão pouco baseada nos conceitos do Antigo Testamento quanto uma psicologia dualista.”

Essa perspectiva integral do ser humano tem implicações para muitas áreas da vida. Por exemplo, se o corpo (carne) tem poderes psíquicos assim como físicos,ele não é um mero objeto que possuímos fora do nosso verdadeiro ser. Ele é uma parte vital do nosso ser. Não pode ser desprezado ou pouco considerado. Ele faz parte da imagem de Deus. Igualmente, à luz da perspectiva integral do ser humano, o pecado não pode ser explicado de modo unilateral como concupiscência, o desejo da carne, mas tem de ser entendido como ato ou condição da pessoa toda. Também é necessário entender que a redenção inclui tanto os aspectos físicos como os psíquicos. A vida apos a morte incluirá corpo e alma ressurretos

O texto trancrito acima é parte do texto de Ralph Smith, do livro Teologia do Antigo Testamento, no qual apresenta a descrição hebraica da unitariedade do homem. Algumas adaptações foram feitas para se conformarem com o blog.

Um comentário sobre “Hebraico e natureza humana

  1. paulo

    Poucas vezes vi um texto tão bom e esclarecedor como este, ( apesar de não concordar com algumas coisas aí colocadas). Por favor,mandem mais.

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