Evidências Históricas para a Ressurreição de Cristo


por William Lane Craig

Depois de avaliar a erudição contemporânea acerca da historicidade da ressurreição de Jesus Cristo, o doutor William Lane Craig afirma que “as aparições da ressurreição, o túmulo vazio e a origem da fé cristã – todos inevitavelmente apontam para uma conclusão: a ressurreição de Jesus”.

“O Homem”, escreveu Loren Eisley, “é o Órfão Cósmico”. Ele é, no Universo, a única criatura que pergunta “Por quê?”. Os outros animais têm instintos para guiá-los, mas o homem aprendeu a fazer questionamentos. “Quem sou eu?”, ele pergunta. “Por que estou aqui? Para onde vou?”

Desde o Iluminismo, quando o homem moderno livrou-se das algemas da religião, tem-se tentado responder a essas questões sem fazer referência a Deus. Contudo, as respostas que vieram não foram animadoras, mas tenebrosas e terríveis. “Você é um subproduto acidental da natureza, o resultado de matéria mais tempo mais acaso. Não existe qualquer razão para sua existência. Tudo que você encara é a morte. Sua vida é nada mais do que uma centelha na escuridão infinita, uma faísca que aparece, brilha por um instante, e morre para sempre”.

O homem moderno pensou que, ao despir-se de Deus, iria se libertar de tudo o que o sufocava e o reprimia. Em vez disso, descobriu que, matando Deus, matara a si mesmo.

Ao contrário desse cenário da mensagem moderna, a tradicional esperança cristã da ressurreição assume brilho e significado bem maiores. Conta ao homem que, apesar de tudo, ele não é órfão, e sim a imagem pessoal do Deus Criador do Universo; a sua vida não está fadada à morte, pois através da ressurreição escatológica ele poderá viver na presença de Deus eternamente.

Esta é uma esperança maravilhosa. Porém, é claro, esperança que não é baseada em fatos não é esperança, mas mera ilusão. Por que deveria a esperança cristã da ressurreição escatológica soar ao homem moderno como nada mais do que mera utopia? A resposta está na convicção cristã de que um homem foi antecipadamente ressurreto, por Deus, de entre os mortos como o precursor e exemplo da nossa própria ressurreição escatológica. Esse homem foi Jesus de Nazaré, e Sua ressurreição histórica dentre os mortos constitui o fundamento factual sobre o qual a esperança cristã é baseada.

Notadamente, durante o último século a teologia liberal fez pouco caso da ressurreição histórica de Jesus. Uma vez que os teólogos liberais retiveram a pressuposição – que herdaram dos deístas – contra a possibilidade de milagres, uma ressurreição histórica era, a priori, simplesmente fora de cogitação. A explicação mitológica de D. F. Strauss capacitou-os a explicar as narrativas da ressurreição no Novo Testamento como ficções lendárias. A crença na ressurreição histórica foi uma ressaca vinda da antiguidade, e dela já é tempo de o homem se livrar. Assim, no principal estudo sobre a historicidade da ressurreição a partir de uma perspectiva liberal, o livro The Historical Evidence for the Resurrection of Jesus Christ (1907), de Kirsopp Lake, o autor cuidadosamente traça o desenvolvimento lendário das narrativas da ressurreição, partindo do evento histórico inicial da visita das mulheres ao túmulo errado. Lake conclui que isso não é o fim, de qualquer maneira: o que é vital para a teologia cristã é a crença na imortalidade da alma, a crença em que os amigos e parentes que partiram ainda estão vivos, e que, em um tempo determinado, seremos reunidos a eles. Assim, o NT foi substituído pelo Fédon*.

A teologia liberal não pôde sobreviver à I Guerra Mundial, mas sua morte não trouxe qualquer interesse renovado na historicidade da ressurreição de Jesus, pois as duas escolas que a sucederam estavam unidas em sua desvalorização do que é histórico em relação a Jesus. Dessa forma, a teologia dialética, proposta por Karl Barth, defendia a doutrina da ressurreição; porém, não teria nada a ver com a ressurreição considerada como um evento na história. Em seu comentário ao livro de Romanos (1919), o jovem Barth declarou: “A ressurreição toca a história como uma tangente toca um círculo – isto é, sem realmente tocá-lo”. A teologia existencial, exemplificada por Rudolf Bultmann, era ainda mais antitética à historicidade da ressurreição de Jesus. Embora Bultmann reconhecesse que os primeiros discípulos acreditavam na ressurreição literal e que Paulo, em I Coríntios 15, tenta até mesmo provar a ressurreição, ele apesar de tudo pronuncia tal procedimento como “fatal”. Isso reduz a ressurreição de Cristo a um milagre na natureza análogo à ressurreição de um defunto. E não se pode racionalmente pedir ao homem moderno que ele acredite em milagre na natureza antes de se tornar um cristão. Portanto, os elementos miraculosos do Evangelho devem ser demitologizados, a fim de revelar a verdadeira mensagem cristã: o chamado à existência autêntica, em face da morte, simbolizado pela cruz. A ressurreição é meramente uma redeclaração simbólica da mensagem da cruz e, essencialmente, nada acrescenta. Apelar à ressurreição como evidência histórica, em semelhança ao que Paulo fez, é duplamente errado, pois é da própria natureza da fé existencial ser um salto sem evidências. Assim, argumentar historicamente em favor da ressurreição é contrário à fé. Claramente, então, a antipatia da teologia liberal à historicidade da ressurreição de Jesus não foi substituída nem pela teologia dialética, nem pela existencial.

No entanto, uma mudança notável aconteceu durante a segunda metade do século XX. Os primeiros vislumbres de mudança começaram a aparecer em 1953. Naquele ano, Ernst Käsemann, um aluno de Bultmann, arguiu em um Colóquio na Universidade de Marburgo que o ceticismo histórico de Bultmann com relação a Jesus era injustificado e contraproducente, e sugeriu uma reabertura da questão de onde o que é histórico acerca de Jesus deveria ser encontrado. Uma nova busca pelo Jesus histórico se iniciara. Três anos mais tarde, em 1956, o teólogo de Marburgo Hans Grass sujeitou a própria ressurreição à investigação histórica, concluindo que as aparições da ressurreição não podem ser dispensadas como meras visões subjetivas da parte dos discípulos, mas foram eventos visionários objetivos.

Enquanto isso, o historiador eclesiástico Hans Freiherr von Campenhausen, em ensaio daquela mesma época, defendeu a credibilidade histórica do túmulo vazio de Jesus. Durante os anos subseqüentes, uma onda de trabalhos sobre a historicidade da ressurreição de Jesus fluiu das imprensas de língua alemã, francesa e inglesa. Em 1968, o velho ceticismo já era uma força desgastada e começou a recuar dramaticamente. Durante a segunda metade deste século, tão completa foi a transformação concernente à ressurreição de Jesus que não é exagero falar de uma reversão da erudição neste assunto, de tal maneira que aqueles que negam a historicidade da ressurreição agora parecem ser os que ficam na defensiva. Talvez, um dos desenvolvimentos teológicos mais significativos nesta área é o sistema teológico de Wolfhart Pannenberg, que baseia toda sua Cristologia nas evidências históricas em favor do ministério de Jesus e, especialmente, na ressurreição. Esse é um progresso impensável na teologia alemã anterior a 1950. Igualmente assustadora é a declaração de um dos principais teólogos judeus no mundo, Pinchas Lapide, que está convencido, com base nas evidências, de que Jesus de Nazaré ressurgiu dentre os mortos. Lapide repreende críticos do Novo Testamento como Bultmann ou Marxsen pelo ceticismo injustificado deles, e conclui que ele acredita, baseando-se nas evidências, que o Deus de Israel ressuscitou Jesus dentre os mortos.

Quais são os fatos que subjazem a essa notável reversão de opinião no que concerne à credibilidade das narrativas neotestamentárias da ressurreição de Jesus? Parece-me que eles podem ser convenientemente agrupados sob três tópicos: as aparições da ressurreição, o túmulo vazio, e a origem da fé cristã. Observemos brevemente cada um.

A. Aparições da Ressurreição

Primeiramente, as aparições da ressurreição. Indubitavelmente, o principal ímpeto para a reavaliação da tradição da aparição foi a demonstração, por Joachim Jeremias, de que em I Coríntios 15:3-5 Paulo está citando uma antiga fórmula cristã que ele recebeu e, por sua vez, passou adiante aos seus conversos. De acordo com Gálatas 1:18, três anos após sua conversão Paulo esteve em Jerusalém numa missão investigadora de fatos, durante a qual ele deliberou com Pedro e Tiago, por um período de duas semanas; se não antes, ele provavelmente recebeu a fórmula nesse tempo. Visto que Paulo se converteu em 33 A.D., isso significa que a lista de testemunhas remonta aos primeiros cinco anos após a morte de Jesus. Assim, não é idôneo dispensar essas aparições como lendárias. Se quisermos, podemos explicá-las como alucinações, entretanto não podemos negar que aquelas ocorreram. A informação de Paulo torna certo que, em ocasiões distintas, vários indivíduos e grupos viram Jesus vivo dentre os mortos. Conforme Norman Perrin, o falecido crítico neotestamentário da Universidade de Chicago: “Quanto mais estudamos a tradição com respeito às aparições, mais firme a rocha em cima da qual elas se baseiam começa a aparecer”. Esta conclusão é virtualmente indiscutível.

Contudo, ao mesmo tempo em que a erudição bíblica chegou a uma nova apreciação da credibilidade histórica da informação paulina, deve-se admitir que persiste o ceticismo relacionado às tradições da aparição nos Evangelhos. Esse ceticismo subsistente parece-me inteiramente injustificado. É baseado na pressuposicional antipatia para com o fisicalismo das histórias de aparição no Evangelho. Mas as tradições subjacentes àquelas aparições podem ser tão confiáveis quanto a de Paulo. Porque, a fim de que o principal dessas histórias seja lendário, um considerável período de tempo deveria estar disponível para a evolução e desenvolvimento das tradições até que os elementos históricos fossem suplantados pelo anistórico. Esse fator é tipicamente negligenciado na erudição do Novo Testamento, conforme aponta A. N. Sherwin-White em Roman Law and Roman Society in the New Testament. O doutor Sherwin-White não é teólogo; ele é um eminente historiador dos tempos romanos e gregos, rudimentarmente contemporâneos ao NT. De acordo com o professor Sherwin-White, as fontes para a história romana são geralmente tendenciosas e deslocadas pelo menos uma ou duas gerações, ou mesmo séculos, dos eventos que registram. Apesar disso, diz ele, os historiadores reconstroem com confiança o que realmente aconteceu. Ele critica os críticos do NT por não perceberem quão inestimáveis são as fontes que eles têm nos Evangelhos. Os escritos de Heródoto fornecem um procedimento para avaliar a velocidade de acúmulo lendário, e o exame mostra que mesmo duas gerações é duração de tempo muito curta para permitir que tendências lendárias destruam o núcleo de fatos históricos. Quando Sherwin-White volta-se para os Evangelhos, declara que, a fim de serem lendários, a velocidade de acúmulo lendário teria de ser “inacreditável”; mais gerações são necessárias. Todos os estudiosos de NT concordam que os Evangelhos foram escritos e circularam na primeira geração, durante a vida das testemunhas oculares. Realmente, um significativo novo movimento de erudição bíblica argumenta persuasivamente que alguns dos Evangelhos foram escritos até 50 A.D. Isso os localiza tão cedo quanto a Carta de Paulo aos Coríntios e, dada sua igual dependência à tradição anterior, deve-se outorgar a eles o mesmo peso de credibilidade histórica outorgado a Paulo. É instrutivo notar, nessa relação, que nenhum evangelho apócrifo apareceu durante o primeiro século. Estes somente surgiram após a morte da geração de testemunhas oculares. São melhores candidatos ao ofício de “ficção lendária” do que os Evangelhos canônicos. Dessa forma, acho que o atual ceticismo dos críticos ligado às tradições da aparição nos Evangelhos é injustificado. A nova apreciação do valor histórico da informação paulina precisa ser acompanhada, também, pela reavaliação das tradições do Evangelho.

B. Túmulo Vazio

Em segundo lugar, o túmulo vazio. Outrora considerado como uma ofensa para a inteligência moderna e um embaraço à teologia cristã, o túmulo vazio de Jesus veio a assumir seu lugar entre os fatos geralmente aceitos concernentes ao Jesus histórico. Permita-me passar em revista brevemente algumas das evidências que envolvem essa questão.

(1) A confiabilidade histórica da história do sepultamento apóia o túmulo vazio.

Se a narrativa do sepultamento é precisa, então o local da cova de Jesus era conhecido por judeus e cristãos, indistintamente. Neste caso, chega-se muito brevemente à inferência da historicidade do túmulo vazio. Pois se Jesus não tivesse ressuscitado e o local do sepultamento fosse conhecido:

(a) os discípulos nunca poderiam ter acreditado na ressurreição. Para um judeu do século I, a idéia de que um homem pudesse ser levantado dentre os mortos enquanto seu corpo permanecesse no túmulo era, por definição, uma contradição. Nas palavras de E. E. Ellis, “é muito improvável que os cristãos palestinos primitivos pudessem conceber alguma distinção entre ressurreição e ressurreição física ‘esvaziadora de sepultura’. Para eles, uma anastasis sem uma sepultura vazia teria sido quase tão significativa quanto um círculo quadrado”.

(b) Mesmo se os discípulos tivessem crido na ressurreição, é duvidoso que eles teriam gerado qualquer seguidor. Tão logo o corpo fosse enterrado no túmulo, um movimento cristão fundado na crença na ressurreição do homem morto teria sido uma tolice impossível.

(c) As autoridades judaicas teriam exposto a trama inteira. A resposta mais rápida e clara à proclamação da ressurreição de Jesus teria sido simplesmente apontar para Sua sepultura na encosta da rocha.

Por essas três razões, a exatidão da história do sepultamento apóia a historicidade do túmulo vazio. Infelizmente àqueles que desejam, contudo, negar o túmulo vazio, a história do sepultamento é uma das tradições históricas mais certas que temos a respeito de Jesus. Vários fatores envolvem esse julgamento. Mencionando apenas alguns:

(i) O sepultamento é mencionado na terceira linha da antiga fórmula cristã citada por Paulo em I Co. 15.4.

(ii) É parte da antiga e pré-marcana história da Paixão usada por Marcos como fonte de seu Evangelho.

(iii) Falta à própria história qualquer traço de desenvolvimento lendário.

(iv) A história adequa-se às evidências arqueológicas que dizem respeito aos tipos e à localização de túmulos existentes nos dias de Jesus.

(v) Não existem outras tradições de sepultamento concorrentes.

Por essas e outras razões, a maioria dos estudiosos está unida no julgamento de que a história do sepultamento é fundamentalmente histórica. Mas, se este é o caso, então, como expliquei, a inferência de que o túmulo foi achado vazio não fica muito longe de ser alcançada.

(2) O testemunho de Paulo apóia o fato do túmulo vazio.

Aqui, dois aspectos das evidências de Paulo podem ser mencionados.

(a) Na fórmula citada por Paulo, a expressão “ressurgiu”, seguinte à frase “foi sepultado”, implica o túmulo vazio. Um judeu do século I não poderia pensar o contrário. Como E. L. Bode observa, a noção da ocorrência de uma ressurreição espiritual enquanto o corpo permaneceu no túmulo é uma peculiaridade da teologia moderna. Para os judeus, eram os restos do homem no túmulo que ressuscitavam; portanto, eles cuidadosamente preservavam os ossos dos mortos em ossuários até a ressurreição escatológica. Não pode haver dúvida de que tanto Paulo quanto a fórmula cristã primitiva que ele cita pressupõem a existência do túmulo vazio.

(b) A frase “ao terceiro dia” provavelmente aponta para a descoberta do túmulo vazio. Resumindo muito brevemente, a questão é: uma vez que ninguém realmente testemunhou a ressurreição de Jesus, como os cristãos vieram a datá-la no “terceiro dia”? A resposta mais provável é que eles assim fizeram porque esse foi o dia do descobrimento do túmulo vazio pelas seguidoras de Jesus. Portanto, a própria ressurreição veio a ser datada naquele dia. Assim, na antiga formula cristã citada por Paulo, temos evidência extremamente primitiva para a existência do túmulo vazio de Jesus.

(3) A história do túmulo vazio é parte da história pré-marcana da Paixão e, portanto, é muito antiga.

A história do túmulo vazio foi provavelmente o fim da fonte da Paixão de Marcos. Como Marcos é o mais primitivo dos nossos Evangelhos, essa fonte é, pois, por si só bastante velha. Na verdade, o comentador R. Pesch afirma que é uma fonte incrivelmente primitiva. Ele produz duas linhas de evidência para essa conclusão:

(a) A narrativa paulina da Última Ceia em I Co. 11.23-25 pressupõe a narrativa marcana. Visto que as próprias tradições de Paulo são por si só muito antigas, a fonte marcana deve ser mais antiga ainda.

(b) A história pré-marcana da Paixão nunca se refere por nome ao sumo sacerdote. É como quando digo que “o Presidente está recepcionando um jantar na Casa Branca”, e todos sabem de quem estou falando, porque é a pessoa atualmente no cargo. Similarmente, a história pré-marcana da Paixão refere-se ao “sumo sacerdote” como se ele ainda estivesse no poder. Uma vez que Caifás exerceu seu cargo de 18 a 37 A.D., quer dizer, na última das hipóteses, que a fonte pré-marcana deve advir de dentro do período de sete anos após a morte de Jesus. Logo, essa fonte remonta aos primeiros poucos anos da comunidade de Jerusalém e é, assim, uma antiga e confiável fonte de informação histórica.

(4) A história é simples e falta-lhe desenvolvimento lendário.

A história do túmulo vazio não é colorida por motivos teológicos e apologéticos que seriam característicos de narrativas lendárias tardias. Talvez, o jeito mais vigoroso de apreciar este ponto é compará8 la com as narrativas sobre o túmulo vazio achadas nos evangelhos apócrifos do século II. Por exemplo, no Evangelho de Pedro, uma voz ressoa do céu durante a noite, a pedra rola sozinha da porta do túmulo, no qual entram dois homens que descem do céu. Depois, vêem-se três homens saindo do túmulo, dois apoiando o terceiro. As cabeças dos dois homens esticam-se até as nuvens, mas a cabeça do terceiro ultrapassa as nuvens. Então, uma cruz sai do túmulo e uma voz pergunta: “Pregaste aos que dormem?”. E a cruz responde: “Sim”. Na Ascensão de Isaías, Jesus sai do túmulo sentado sobre os ombros dos anjos Miguel e Gabriel. É com isso que as lendas autênticas se parecem: diferentemente dos relatos do Evangelho, são coloridas por adornos teológicos.

(5) Provavelmente, foram mulheres que descobriram que o túmulo estava vazio.

A fim de entender este ponto, deve-se recordar dois fatos acerca do papel das mulheres na sociedade judaica.

(a) A mulher ocupava um degrau baixo na escada social judaica. Isso é evidente em tais expressões rabínicas: “Melhor é que as palavras da Lei sejam queimadas do que entregues a mulheres” e “Bem-aventurado aquele cujos filhos são homens, mas ai daquele cujos filhos são mulheres”.

(b) O testemunho de mulheres era considerado tão indigno que não lhes era sequer permitido servir como testemunhas legais numa corte legal. À luz desses fatos, quão notável parece as mulheres terem sido as descobridoras do túmulo vazio de Jesus. O fato de que mulheres – cujo testemunho era sem valor –, em vez de homens, são as principais testemunhas ao túmulo vazio é mais plausivelmente explicado porque, goste ou não, elas foram as descobridoras do túmulo vazio, e os Evangelhos registram isso com precisão.

(6) A polêmica judaica inicial pressupõe o túmulo vazio.

Em Mateus 28, encontramos a tentativa cristã de refutar a polêmica judaica inicial contra a ressurreição. Aquela polêmica asseverava que os discípulos roubaram o corpo. Os cristãos responderam a isso recontando a história dos guardas do túmulo, e a polêmica, por sua vez, sustentava que os guardas adormeceram. Nessas circunstâncias, a característica digna de nota em toda essa disputa não é a historicidade dos guardas; porém, em vez disso, a pressuposição de ambos os partidos segundo a qual o corpo estava desaparecido. A resposta judaica inicial à proclamação da ressurreição foi uma tentativa de justificar o túmulo vazio. Assim, a evidência dos adversários dos discípulos providencia evidência em apoio ao túmulo vazio.

Poder-se-ia prosseguir, mas talvez já foi dito o bastante para indicar por que o julgamento da erudição reverteu-se quanto à historicidade do túmulo vazio. De acordo com Jakob Kremer, “de longe, a maioria dos exegetas apegam-se firmemente à confiabilidade das declarações bíblicas relacionadas ao túmulo vazio”, e fornece uma lista – à qual seu próprio nome pode ser acrescentado – de vinte e oito estudiosos proeminentes que apóiam o que disse. Posso pensar em pelo menos mais dezesseis nomes que ele falhou em mencionar. Dessa maneira, hoje se reconhece amplamente que o túmulo vazio de Jesus é um simples fato histórico. Conforme D. H. van Daalen apontou, “é extremamente difícil objetar, com bases históricas, ao túmulo vazio; aqueles que o negam, assim o fazem baseando-se em suposições teológicas ou filosóficas”. Mas suposições podem simplesmente ter de mudar à luz de fatos históricos.

C. A origem do Caminho Cristão

Finalmente, podemos voltar-nos para um terceiro conjunto de evidências em apoio à ressurreição: a própria origem do Caminho cristão. Mesmo os estudiosos mais céticos admitem que os primeiros discípulos pelos menos acreditavam que Jesus ressuscitara dentre os mortos. Deveras, eles depositavam nisso praticamente tudo. Sem a crença na ressurreição de Jesus, o Cristianismo poderia nunca ter vindo à existência. A crucificação teria permanecido como a tragédia final na desafortunada vida de Jesus. A origem do Cristianismo depende da crença desses primeiros discípulos em que Jesus ressuscitara dentre os mortos. Sendo assim, a pergunta inevitavelmente surge: como se explica a origem dessa crença? Conforme R. H. Fuller insiste, mesmo os críticos mais céticos postulam algum X misterioso que fez o movimento andar. Permanece a questão: o que era aquele X?

Se alguém nega que Jesus realmente ressuscitou dentre os mortos, então deve explicar, seja em termos de influências judaicas ou em termos de influências cristãs, a crença dos discípulos em que ele ressuscitou de fato. Obviamente, não pode ser o resultado de influências cristãs, pois naquele tempo ainda não existia Cristianismo algum. Uma vez que a crença na ressurreição de Jesus foi o fundamento da origem da fé cristã, não pode ser um resultado daquela fé.

No entanto, não se pode também explicar a crença na ressurreição como um resultado de influências judaicas. No Antigo Testamento, a crença judaica na ressurreição dos mortos no dia do julgamento é mencionada em três lugares (Ezequiel 37; Isaías 26.19; Daniel 12.2). Durante o tempo entre o Antigo e o Novo Testamento, a crença na ressurreição floresceu e é freqüentemente mencionada na literatura judaica daquele período. Nos dias de Jesus, o partido judaico dos fariseus apegava-se à crença na ressurreição, e Jesus colocou-se ao lado deles nesse aspecto, em oposição ao partido dos saduceus. Assim, a idéia de ressurreição não era, por si só, nada nova.

A concepção judaica de ressurreição, porém, diferia da ressurreição de Jesus em dois aspectos importantes e fundamentais. No pensamento judaico, a ressurreição sempre (1) ocorreria após o fim do mundo, não dentro da história, e (2) diria respeito a todas as pessoas, não apenas um indivíduo, isoladamente. Em contradistinção a isso, a ressurreição de Jesus foi tanto dentro da história quanto de uma pessoa individualmente.

No que diz respeito ao primeiro ponto, a crença judaica era sempre que, no fim da história, Deus ressuscitaria os justos mortos e os receberia em Seu Reino. Para ficar claro, há no Antigo Testamento exemplos de ressuscitações [resuscitations] dos mortos; mas essas pessoas morreriam novamente. A ressurreição [resurrection] à vida e glória eterna ocorreria após o fim do mundo. Encontramos essa visão judaica nos próprios Evangelhos. Dessa forma, quando Jesus assegurou a Marta que Lázaro, irmão dela, seria levantado de novo, ela respondeu: “Eu sei que ressurgirá na ressurreição, no último dia” (João 11.24). Ela não fazia idéia de que Jesus estava prestes a trazê-lo de volta à vida. Similarmente, quando Jesus contou a Seus discípulos que ressurgiria dentre os mortos, eles pensaram que Ele quis dizer no fim do mundo (Marcos 9.9-13). A idéia de que uma verdadeira ressurreição poderia ocorrer antes de Deus trazer o Reino do Céu no fim do mundo lhes era totalmente estranha. O grandemente renomado estudioso alemão Joachim Jeremias escreve:

O Judaísmo antigo não conhecia uma ressurreição antecipada como um evento da história. Em lugar algum, encontra-se na literatura qualquer coisa comparável à ressurreição de Jesus. Certamente, ressurreições dos mortos eram conhecidas, mas estas sempre diziam respeito a ressuscitações [resuscitations], o retorno à vida terrena. Em nenhum lugar, na literatura judaica tardia, isso diz respeito a uma ressurreição [resurrection] à doxa (glória) como um evento da história.

Os discípulos, portanto, confrontados com a crucificação e morte de Jesus, teriam apenas esperado ansiosamente pela ressurreição no último dia e provavelmente mantido cuidadosamente o túmulo de seu mestre como um relicário, onde seus ossos poderiam residir até a ressurreição. Não lhes viria à tona a idéia de que ele já ressurgira.

Quanto ao segundo ponto, a idéia judaica de ressurreição sempre era de uma ressurreição geral dos mortos, não de um indivíduo, isoladamente. Era o povo, ou a humanidade como um todo, que Deus levantaria na ressurreição. Mas na ressurreição de Jesus, Deus levantou um único homem. Além do mais, não havia qualquer concepção de ressurreição de pessoas de alguma maneira dependente da ressurreição do Messias. Isso era totalmente desconhecido. Apesar de tudo, diz-se que foi precisamente o que ocorreu no caso de Jesus. Ulrich Wilckens, outro proeminente crítico do Novo Testamento, explica:

Pois em lugar algum os textos judaicos falam da ressurreição de um indivíduo já ocorrida antes da ressurreição dos justos no fim dos tempos e diferenciada e separada desta; em lugar algum a participação dos justos na salvação ao findar do tempo depende que eles pertençam ao Messias, que ressurgira adiantadamente como as primícias dos que Deus ressurgirá (I Coríntios 15.20).

É, pois, evidente que não viria à mente dos discípulos, como resultado das influências ou cenário judaicos, a idéia de que somente Jesus ressurgira dentre os mortos. Eles com ansiedade esperariam por aquele dia, quando Ele e todos os justos de Israel seriam por Deus ressurretos à glória.

A crença dos discípulos na ressurreição, portanto, não pode ser explanada como o resultado de influências cristãs ou judaicas. Abandonados a si mesmos, os discípulos jamais pensariam numa idéia tal qual a ressurreição de Jesus. E lembre-se: eles eram pescadores e cobradores de impostos, não teólogos. O X misterioso ainda está faltando. De acordo com C. F. D. Moule, da Universidade de Cambridge, aqui está uma crença que em nada pode ser devida a influências históricas prévias. Ele aponta que temos uma situação em que um grande número de pessoas apegou-se firmemente a essa crença, que não pode ser explicada em termos do Antigo Testamento ou dos fariseus, e tais pessoas sustentaram sua crença até que os judeus finalmente os rejeitaram da sinagoga. Segundo o professor Moule, a origem dessa crença deve ter sido o fato de que Jesus realmente ressurgiu dentre os mortos:

Se o surgimento dos nazarenos, um fenômeno inegavelmente atestado pelo Novo Testamento, cria um grande buraco na história, um buraco do tamanho e forma da Ressurreição, o que o historiador secular propõe para pôr um fim a isso? … o nascimento e rápido auge da Igreja Cristã… permanecem um enigma insolúvel para qualquer historiador que se recusa a tomar seriamente a única explicação oferecida pela própria igreja.

A ressurreição de Jesus é, assim, a melhor explicação para a origem da fé cristã. Tomados em conjunto, esses três grandes fatos históricos – as aparições da ressurreição, o túmulo vazio, a origem da fé cristã – parecem apontar para a ressurreição de Jesus como a explicação mais plausível.

Entretanto, é claro, têm existido outras explanações proferidas para darem conta das aparições da ressurreição, do túmulo vazio e da origem da fé cristã. No julgamento da erudição moderna, contudo, elas têm falhado em prover uma exposição dos fatos do caso. Isso se pode ver por uma rápida análise às principais explicações que se têm oferecido.

A. Os discípulos roubaram o cadáver de Jesus e mentiram sobre as aparições da ressurreição. Esta explicação caracterizou a polêmica judaica anticristã inicial e foi reavivada na forma da teoria da conspiração no deísmo do século XVIII. A teoria tem sido universalmente rejeitada por estudiosos críticos e sobrevive apenas na imprensa popular. Designando duas considerações decisivas contra isso: (i) é moralmente impossível indiciar os discípulos de Jesus por tal crime. Quaisquer que fossem as imperfeições deles, eles eram certamente homem e mulheres bons e sérios, não impostores. Ninguém que sem preconceitos lê o Novo Testamento pode duvidar da sinceridade evidente daqueles primeiros crentes. (ii) É psicologicamente impossível atribuir aos discípulos o astucioso [artifício] requisitado para esse ardil. No momento da crucificação, os discípulos estavam confusos, desorganizados, temerosos, duvidosos e sobrecarregados com pranto – e não mentalmente motivados ou equipados para engendrar tamanha brincadeira. Portanto, explicar o túmulo vazio e as aparições da ressurreição através de uma teoria da conspiração parece fora de cogitação.

B. Jesus não morreu na cruz, mas foi dela retirado e colocado vivo no túmulo, onde reviveu e de onde escapou para convencer os discípulos que Ele ressurgira dentre os mortos. Essa teoria da morte aparente foi defendida pelos racionalistas alemães dos fins do século XVIII e começo do século XIX, sendo adotada até mesmo pelo pai da teologia moderna, F. D. E. Schleiermacher. Hoje, contudo, a teoria foi inteiramente abandonada: (i) seria virtualmente impossível, medicamente, Jesus sobreviver aos rigores da tortura e crucificação, muito menos não ter morrido exposto no túmulo. (ii) A teoria é religiosamente inadequada, visto que um Jesus quase morto, precisando desesperadamente de cuidados médicos, não teria provocado nos discípulos adoração a Ele como o exaltado Senhor Ressurreto e Conquistador da Morte. Além do mais, uma vez que Jesus, nessa hipótese, sabia que realmente não triunfara sobre a morte, a teoria o reduz à vida de um charlatão que trapaceou os discípulos ao fazê-los acreditar que Ele ressurgira – o que é um absurdo. Com apenas essas razões torna-se indefensável a teoria da morte aparente.

C. Os discípulos projetaram alucinações de Jesus após Sua morte, das quais eles enganosamente inferiram Sua ressurreição. A teoria da alucinação tornou-se popular durante o século XIX e prosseguiu até a primeira metade do século XX, também. Novamente, porém, existem bons fundamentos para rejeitar essa hipótese: (i) é psicologicamente implausível postular tal cadeia de alucinações. Alucinações são geralmente associadas a doenças mentais ou drogas; mas no caso dos discípulos, parece faltar a preparação psicobiológica prévia. Os discípulos não anteciparam a visão de Jesus novamente vivo; tudo que eles poderiam fazer era esperar para serem reunidos com Ele no Reino de Deus. Não havia fundamentos que os conduzissem a aluciná-lo como vivo dentre os mortos. Além disso, a freqüência e variedade de circunstâncias desmentem a teoria da alucinação: Jesus não foi visto uma, mas várias vezes; não por uma pessoa, mas por diversas; não apenas por crentes, mas por céticos e incrédulos também. A teoria da alucinação não pode plausivelmente ser estendida a fim de acomodar tal diversidade. (ii) Alucinações não teriam, em caso algum, levado à crença na ressurreição de Jesus. Como projeções da mente de alguém, alucinações não podem conter qualquer coisa que não está na mente ainda. Mas vimos que a ressurreição de Jesus diferia da concepção judaica de duas maneiras fundamentais. Dada sua estrutura judaica de pensamento, os discípulos, se fossem ficar alucinados, teriam projetado visões de Jesus glorificado no seio de Abraão, local em que os justos mortos de Israel habitam até a ressurreição escatológica. Assim, alucinações não teriam causado crença na ressurreição de Jesus, uma idéia que solidamente batia de frente com o modo judaico de pensamento. (iii) Alucinações também não podem abranger todo o escopo das evidências. São oferecidas como uma explicação às aparições da ressurreição, mas deixam inexplicado o túmulo vazio, falhando assim como uma resposta completa e satisfatória. Portanto, parece que a hipótese da alucinação não é mais bem-sucedida do que seus defuntos ancestrais em prover uma plausível contraexplicação às informações que cercam a ressurreição de Cristo.

Logo, nenhuma das contraexplicações anteriores pode dar conta das evidências assim como o faz a própria ressurreição. Alguém pode perguntar: “Bem, então como os céticos explicam os fatos das aparições da ressurreição, o túmulo vazio e a origem da fé cristã?”. O fato da questão é: eles não explicam. A erudição moderna não reconhece qualquer alternativa explicativa à ressurreição. Aqueles que se recusam a aceitar a ressurreição como um fato da história são simples e conscientemente deixados sem uma explanação.

D. Conclusão

Estes três fatos – as aparições da ressurreição, o túmulo vazio e a origem da fé cristã – todos inevitavelmente apontam para uma conclusão: a ressurreição de Jesus. Hoje, o homem racional pode dificilmente ser censurado se acreditar que naquela manhã da primeira Páscoa um milagre divino aconteceu.

Originalmente publicado como: “Contemporary Scholarship and the Historical Evidence for the Resurrection of Jesus Christ”, Truth Journal I (1985): 89-95. Texto reproduzido na íntegra em: http://www.reasonablefaith.org/site/News2?page=NewsArticle&id=5214. Trad. Djair Dias Filho (out.- nov./2006).

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