Como morre um filho de Deus?


por Rev. Noé Wey

Deuteronômio 34:5 – “Assim morreu ali Moisés, servo do Senhor na terra de Moabe, conforme ao dito do Senhor”.

Prezados ouvintes:

Entre as incertezas muitas que nos cercam neste mundo, reponta irrecusável a certeza da morte. O tempo se escoa veloz e o nosso fim se aproxima. Os dias, os meses e os anos vão se acabando, mas um dia virá o nosso fim. “Cada dia que passa, damos uma enxadada na nossa cova”, dizia Samuel Smiles. A ampulheta é o emblema da vida. Cai à areia, grão a grão e depois segue-se o silencio, a morte. O texto registra: “Assim morreu ali Moisés”. E de cada um de nós um dia também se dirá: “Morreu”. Reparemos:

Na morte cada um estará só – Moisés, sozinho, sobe ao Monte Nebo e ali morre. Nenhum parente o assistiu, nenhum amigo estava presente para assistir a sua estranha morte. Num certo sentido isso é o que se dá com todos os que morrem.  Nossa família, nossos parentes e amigos poderão estar bem perto, bem juntos de nós nesse instante solene; nós, contudo, estaremos sozinhos na batalha da morte, como foi com Moisés. A morte é uma experiência individual, intransmissível, inapelável. Há na morte um limite além do qual não é dado ao pai acompanhar o filho ou o esposo acompanhar a esposa. Cada um tem de atravessar sozinho o Jordão da morte. Nenhum parente, nenhum amigo terreno nos poderá acompanhar. João Moore, ferido de morte na batalha da Corunha, disse ao médico que acudia em seu auxílio: “Não, não! A mim já me não podeis valer, ide aos soldados, a quem podereis ser útil” Mas, Que é que nos poderá proporcionar conforto nessa hora de solidão?

A lembrança de uma vida de obediência a Deus e de benemerência ao próximo.

Moisés tinha esse conforto. Dedicara sua vida ao serviço de Deus e sacrificara-se pela libertação e pelo bem estar do seu povo. Agora tinha o conforto de uma consciência tranqüila. S. Paulo, na perspectiva da morte tem a sua alma tranqüila, por isso que diz: “Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé”. “Para o dever cumprido, a morte é um descanso: para a falta de probidade a morte é um pavor” disse Smiles. As últimas palavras de Nelson, ilustre almirante inglês, foram: “Graças a Deus cumpri com o meu dever, cumpri com o meu dever”.

Kant, aos 80 anos, falando do seu fim que se aproximava, afirma: “Não receio a morte porque sei morrer. Certifico-vos que se soubesse ser esta a minha última noite, diria: Deus seja louvado! Mas, que outra coisa seria, se eu tivesse causado a desgraça do meu semelhante!” É por isso que Walter Scott, ao morrer, dizia ao seu genro: “Filho, sê bom virtuoso, religioso, sê bom. Só isso te servirá de conforto quando para ti chegar esta hora”. A segura e certa esperança de uma vida melhor e mais feliz, além, é outro conforto nessa hora extrema.

Isso era o que confortava o espírito de Moisés naquela hora. Pela fé, além da terra prometida, ele via a Canaan celestial. Pelos olhos da fé ele via o que era invisível aos olhos do corpo. Era também o que confortava o coração de S. Paulo , por isso que ele, depois de olhar para o passado – “o bom combate” – olha para a frente: “ Desde agora a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, justo juiz, me dará naquele dia; e não somente a mim, mas a todos quantos amarem a sua vinda” – diz ele cheio de ânimo e conforto. O incrédulo não pode ter esse conforto, porquanto encara a morte como o fim de tudo. O ímpio não pode ter esse conforto, porque lembra-se das suas maldades e teme o que vem depois.

Aborreço a vida, mas temo a morte”, dizia sem conforto o incrédulo Voltaire. O duvidoso não tem conforto, porque não sabe para onde vai, e a dúvida desinquieta, tortura. Só o crente sincero e verdadeiro tem o conforto da certeza – certeza da vitória sobre o último inimigo, por isso que S. Paulo exclama: “Onde está, ó morte, a tua vitória, onde está o teu aguilhão? Tragada foi a morte na vitória, e graças a Deus que nos dá a vitória por Nosso Senhor Jesus Cristo”.

Ao ladrão, arrependido e crente, Jesus garante: “Em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso”. Mas, o maior motivo de conforto na hora da morte é a presença de Jesus. Há pouco eu vos falei que na morte estaremos sós. Sim isso é verdade quanto aos parentes e amigos terrenos. Mas poderemos nessa hora ter a melhor das companhias. Moisés teve a companhia de Deus, que com ele falou e a ele confortou. Nós podemos ter a presença, a companhia de Jesus. O cristão nunca morre sozinho. Naquela última hora de horror Cristo está sempre com os seus. A promessa é esta: “quando passares pelas águas estarei contigo, e quando pelos rios, eles não te submergirão”. Assim podemos dizer confiadamente: “Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte, não temeria mal algum, porque tu estás comigo”.

Diziam dos cristãos primitivos: “Este povo morre bem”. E isto porque os cristãos contavam sempre com a presença de Jesus em seus corações. Estevão, o primeiro mártir do cristianismo embora tendo morte trágica, pela delapidação, goza da presença de Jesus, pó isso que com o seu espírito calmo e sereno ora: “Senhor Jesus, recebe o meu espírito”.

Feliz Neff: “Vou a nosso Pai em perfeita paz. Vitória! Vitória! Por Jesus Cristo”.

Wesley, o fundador do metodismo: “Que lugar claro, está cheio de anjos. E o melhor de tudo é estar com Deus”.

Jewel – ministro do evangelho: “Senhor, despede em paz o teu servo! Recebe o meu espírito. Eu te vejo”.

Bem-aventurados os mortos que morrem no Senhor; sim, diz o Espírito, para que descansem dos seus trabalhos e suas obras os sigam”, registra o Apocalipse. Felizes os que, quando a morte vem, já os encontram mortos para o mundo, para os vícios, pecados, mas vivos para Deus, para o bem, para a virtude. “Que eu morra morte do justo e que seja o meu fim como o seu” aspirava Balaão. Mas, para se ter a morte do justo é preciso que se tenha a vida do justo.

Prezado ouvinte:

Estás vivendo de modo que os teus feitos, na hora da morte, lembrados, te trarão paz e conforto? Estás andando pela fé firme e pela esperança segura de uma vida melhor e mais feliz? “Para mim, dizia S. Paulo: O viver é Cristo, e o morrer é lucro”. Entrega-te agora mesmo a Jesus. Ele estará contigo na vida e na morte e tu estarás para sempre com Ele no paraíso. Que possas dizer como dizia um verdadeiro cristão:

“Vivendo, Cristo está comigo; morrendo eu estou com Cristo”.

Assim seja.

Mensagem proferida pelo nobre reverendo Noé Wey na rádio Cacique em Araguari – MG em 08/07/1962.