Tradução e Mitologia


Nos últimos anos o ofício da tradução bíblica tornou-se algo realizado larga e amplamente na internet em função do grande desenvolvimento de ferramentas de pesquisa do texto sagrado gratuitas, online e repleta de comentários disponíveis. Não são poucos os posts que falam sobre as escrituras que usam desses recursos para falar sobre os acertos ou erros da tradução bíblica.

Entretanto, isso não significa que o que sem tem produzido segue com um bom padrão de qualidade, afinal, muitas dessas ferramentas de pesquisa não realizam a tradução, apenas apresentam informações que são compiladas e organizadas por pessoas sem preparo para realizar uma tradução e sem especialização na área para perceberem que grande parte desse material é gratuito por ser antigo o suficiente para ser distribuído legalmente.

A soma desses dois fatores, por si só, já apresenta um grande problema para o cenário da tradução bíblica na internet. Mas, ainda assim, não é o fato mais preocupante. O que é realmente preocupante é quando alguém letrado, isto é, alguém academicamente bem referendado se levanta para falar sobre tradução e fala asneira. É o que aconteceu com Jason DeBuhn, que em sua obra Truth and Translation (Verdade e Tradução) afirmou que para ser um tradutor do Novo Testamento a única necessidade é “saber ler grego, e um tipo específico de grego na qual o Novo Testamento foi originalmente escrito” (BEDUHN, Jason David, Truth in Translation, pp xvii).

Jason BeDuhn também afirmou que o problema dos tradutores bíblicos é que eles estão interessados em determinados tipos de cristianismo, de tal modo que isso retire deles a objetividade em realizar uma tradução adequada (pp.xv) e conclui, de modo nada humilde, por dizer que ele é melhor qualificado para a tarefa de tradução que esses outros tradutores por não ter nenhum interesse pessoal em provar que determinada versão de cristianismo é correta ou não, afinal, ele é um historiador (pp.xix). É interessante que na opinião dele, um bom historiador é melhor tradutor que um tradutor por ofício. Talvez, esses tradutores devessem falar de história, afinal eles seriam desinteressados na história e mais objetivos.

Mesmo reconhecendo a clara autocontradição do autor, devemos atentar para a definição que ele apresenta sobre um bom tradutor do Novo Testamento. Em primeiro lugar ele deve ser desinteressado na pessoa de Cristo, e é fundamental que não tenha envolvimento com nenhum assunto particular, por uma questão de objetividade. Em segundo lugar, esse tradutor deve conhecer em nível de leitura o grego koinê, afinal, o trabalho de tradução é apenas uma questão de leitura. Não precisamos mais nos delongar com essa definição deficiente, mas a opinião de Thomas Howe merece ser ouvida aqui:

O que dizer sobre lingüística e filosofia da linguagem para analisar uma tradução? O que dizer sobre o estudo do contexto na tradução? Nenhuma dessas áreas de pano de fundo acadêmico são mencionadas por BeDuhn. BeDuhn ainda não menciona nada sobre criticismo textual, hermenêutica e teologia. Infelizmente para a teses de BeDuhn qualquer pessoas pode realizar uma tradução sem competência nessas áreas. Além disso, BeDuhn não menciona nenhuma de suas qualificações nessas áreas (HOWE, Thomas, The Truth About Truth in Translation. Pp.2)

Mesmo que tenha clara discordância com BeDuhn sobre as credenciais do tradutor bíblico, a filosofia de BeDuhn é amplamente conhecida ne internet, mesmo que tais tradutores online não o conheçam. A ideologia da mediocridade é percebida em toda a internet e por isso não é incomum que pérolas mitológicas sobre tradução do NT se formem e sejam procriadas e difundidas.

Mais do que falar sobre a ideologia da mediocridade em si, nesse post gostaria de apresentar alguns elementos da mitologia online no que se refere especificamente sobre a tradução de João 1.1. A mitologia produzida por Cristãos e Testemunhas de Jeová quando falam sobre esse texto é tão amplamente conhecida que merece ser observada com atenção.

MITO #1: A Regra de Cowell determina que João 1.1c é definido

É comum entrar em posts de cristãos que intencionam defender a fé e encontrar uma pérola como essa, nem sempre escrita desse modo, mas normalmente com esse sentido. O equívoco aqui não é apenas o desconhecimento do grego koinê, mas um claro desconhecimento do próprio artigo que E.C. Cowell, cujo nome é: “A definitive rule for the use of the article em the Greek New Testament” (Uma regra definitiva para o uso do artigo no grego do Novo Testamento), publicado em 1933 e historicamente referida como a regra de Cowell.

Para nos auxiliar a compreender o que acontece quando se fala sobre Cowell alguns gramáticos mais recentes tem trabalhado com a distinção entre a regra de Cowell e a conversação sobre a regra. A conversação sobre a regra de Cowell levou a elucidação de uma realidade gramatical a uma declaração inequívoca de verdade, e pior, com reconhecimentos equivocados. Por exemplo, a regra de Cowell ficou normalmente reconhecida como: “Predicativos nominativos anartros colocados antes o verbo são normalmente definido“. São vários os blogs e posts na internet que manifestam a visão distorcida da Regra de Cowell. Contudo, esse equívoco não atingiu apenas os leigos da internet, mas acadêmicos sérios, como Bruce Metzger, William Barclay, Nigel Turner, Walter Martin, Gwyn Griffins entre outros.

Apenas para clarificar o tamanho da má compreensão, Walter Martin chegou a sugerir que um predicativo do sujeito nunca tem artigo quando precede o verbo (Walter Martin, The Kingdom of the Cults: An Analysis of the Major Cult Systems in the Present Christian Era, 1968, pp.75). Bruce Metzger em um artigo conhecido como Jehovah’s Witnesses and Jesus Christ (Testemunhas de Jeová e Jesus Cristo), falando sobre a tradução indefinida da Tradução do Novo Mundo (TNM), a tradução dos Testemunhas de Jeová, afirmou que o “que é realmente verdadeiro, é que essa tradução é uma terrível má tradução. Ela ultrapassa uma estabelecida regra da gramática grega [Regra de Colwell] que exige a tradução ‘e o Verbo é Deus’” (METZGER, Bruce, The Jehovah`s Witness and Jesus Christ. Theology Today 10). Por fim, vamos citar Willian Barclay, que ao analisar a TNM afirmou que “a deliberada distorção da verdade por essa seita é vista em sua tradução do Novo Testamento. João 1.1 é traduzida: “e o Verbo era um deus” uma tradução que é gramaticalmente impossível (…) É abundantemente claro que uma seita que traduz o Novo Testamento desse modo é intelectualmente desonesta” (WILLIAN, Barlcay, An Ancient heresy in Modern Dress, Expository Times, 65).

Mas, todas essas afirmações sobre João 1.1c não fazem jus nem ao grego koinê nem à Regra de Cowell, afinal a regra de Colwell trata mais da localização do artigo do que da definição de um substantivo em tais condições sintáticas. A regra de Colwell atesta: “Substantivos predicados definidos que precedem o verbo vem usualmente sem artigo”. Essa é uma regra real e válida, mas não afirma que João 1.1c deva ser traduzida de modo definido. Quem nos ajuda a clarificar esse assunto é Paul Dixon:

A regra não diz: um predicado nominativo anartro que precede um verbo é definido. Isso é a conversa da Regra de Colwell e isso não é uma inferência válida. (Da declaração ‘A implica em B’ não é válido inferir que ‘B implica em A’. Da declaração ; ‘Substantivos acompanhados de artigo são definidos’ não é a mesma coisa que ‘Substantivos definidos são articulados’. Da mesma forma, da declaração ‘Predicados nominativos precedidos por verbo são anartros’ não é correto inferir que ‘Predicados nominativos e anartros precedidos por verbos são definido” (Dixon, Paul, Anarthrous Predicate Nominative. Pp.11-12)

Outro detalhe frequentemente ignorado é que a Regra de Cowell tem suas limitações, e por isso que torna-se apropriado observar o que normalmente é ignorado pelos comentaristas, e sobre isso, Daniel Wallace diz:

Em referência à Regra de Colwell, apenas os predicados nominativos, anartros e pré-verbais foram estudados e previamente determinados com maior probabilidade de ser definido por seus contextos. Não foram estudados todos os casos de predicados nominativos anartros e pré-verbais. Mas, a conversa da regra, comumente realizada na academia do NT assume que todas as construções tenham sido examinadas” (Daniel Wallace, Grammar Greek beyond the Basics. Pp.261)

É também apropriado lembrar que Colwell também não incluiu em sua pesquisa situações em que o predicado é um nome próprio ou um substantivo monádico, que normalmente são definidos. Ele observou uma gama significativa de ocasiões de construções com verbo de ligação e predicativo do sujeito, mas excluiu outras. Em grande parte as críticas a Colwell é que ele não tratou de ocasiões em que a mesma construção sintática é qualitativa, fato que motivou acadêmicos a expandirem o entendimento da regra.

Essas declarações de limitação são fundamentais para se notar que a ênfase da pesquisa de Colwell é específica. Esse fato não deve levar o leitor a pensar que em função disso a regra está equivocada, pois, ainda que ele não tenha considerado todas as ocasiões neotestamentárias, as demonstrações que fez atestam a validade da regra. Donald Hartley sobre isso diz:

Existem diversos problemas com o método de Colwell de tabulação bem como do estabelecimento da regra. Em crédito a Colwell, entretanto, ele escolheu uma grande base de exemplos, e de fato, aparentemente ele incluiu todo o NT. Além disso, nós descobrimos que a regra pelo qual Colwell é mais aclamado é verdadeiramente verificável. O método que ele usou para obter as informações é de algum modo suspeito, mas a regra em si é válida” (HARTLEY, Donald, Revisiting Colwell Construction in light of Mass/Count Nouns. Pp.5)

Com isso, notamos uma mitologia antiga e difundida no que se refere a tradução de João 1.1c, especificamente sobre a Regra de Cowell. Por um outro lado, a regra de Cowell nos ajuda a compreender a ausência do artigo na sentença e clarifica tal necessidade, mesmo que não defina que tal construção é definida.

MITO #2: A ausência de artigo em Jo.1.1c favorece a tradução indefinida

Do outro lado do embate na busca da verdade da tradução de João 1.1c, estão os mais interessados na tradução indefinida, os Testemunhas de Jeová. Em função da teologia que defendem, eles acreditam piamente que a construção grega de João 1.1c favoreça a tradução indefinida. Essa afirmação igualmente mitológica é vista tanto nas publicações da STV como nos blogs dos seus fiéis e nos fóruns de discussão da internet.

Na Sentinela de 1 de Novembro de 2008, na página 24 afirma: “A gramática grega e o contexto indicam fortemente que o modo como a Tradução do Novo Mundo verte esse versículo é correto e que “a Palavra” não deve ser associada com o “Deus” mencionado antes nesse versículo”. Como os seguidores da religião de jeová não outra opção senão acatar o que a Sociedade Torre da Vigia afirma, todos os seguidores replicam essa afirmação mitológica.

Na obra Estudo Perspicaz Volume 3, pp.162 encontramos a seguinte afirmação:

A respeito da existência pré-humana do Filho, João diz: “No princípio era a Palavra, e a Palavra estava com o Deus, e a Palavra era um deus.” (Jo 1:1, NM) A versão Almeida, da Bíblia, e o Novo Testamento, de Huberto Rohden, rezam: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.” Isto faria parecer que a Palavra (ou Verbo) era idêntica ao Deus Todo-poderoso, ao passo que a versão anterior, na Tradução do Novo Mundo, indica que a Palavra não é o Deus, o Deus Todo-poderoso, mas que é um “poderoso”, um deus. (…) Na verdade, no texto grego, o artigo definido, ho, “o”, aparece antes do primeiro “Deus”, mas não existe nenhum artigo antes do segundo. [ou seja] Jesus, sendo o Filho de Deus e aquele que foi usado por Deus na criação de todas as outras coisas (Col 1:15-20), é deveras um “deus”, um poderoso, e tem a qualidade de poder, mas não é o Deus Todo-poderoso

Não precisamos nos delongar com o óbvio: segundo a STV e seus seguidores esse texto deve ser lido de modo indefinido, pois acreditam que a gramática grega e o contexto assim a favorecem. Mas, eles não são os únicos que cometem esse tipo de equívoco mitológico. O já citado Jason BeDuhn também parece afirmar esse mito ao declarar que “em Jo.1.1c, a clausula que estamos investigando, ho logos é “a palavra”, como todas as traduções acertadamente fizeram. Se isso tivesse sido escrito simplesmente logos, sem o artigo ho, nós teríamos que traduzir como um verbo” (BEDUHN, Jason David, Truth in Translation. pp.114). Pouco a frente ele concluí: “Mas, o que dizer do Θεὸς indefinido de Jo.1.1c? Que isso não corresponde ao substantivo próprio definido ‘Deus’, mas ao substantivo indefinido ‘um deus’” (BEDUHN, pp.115). Para clarificar esse fato, ele afirma: “Se João quisesse dizer e “e o Verbo era Deus”, como muitas versões em inglês traduzem, ele poderia ter feito isso facilmente adicionando o artigo definido “o” (ho) à palavra “deus” (Θεὸς), fazendo “o deus” e portanto “Deus”. Ele poderia simplesmente ter escrito ho logos em ho Θεὸς (palavra por palavra: “o verbo era o deus”). Mas ele não fez?” (BEDUHN, pp.115-6)

Jason BeDuhn está equivocado em três simples observações do grego koinê, que esqueceu de notificar seus leitores:

(1)    A ausência do artigo não implicaria diretamente no sentido indefinido.  Esse fato é observado com facilidade no NT. Por exemplo, nomes próprios não exigem artigo (At.19.13; Mt.2.7; 1Co.9.6; Cl.4.10), bem como títulos de livros (Mc.1.1), palavras abstratas (Gl.5.20; Rm.1.29). Ou seja, a ideia de que um substantivo sem artigo deve ser indefinido não provém da gramática grega. A gramática grega, na verdade, afirma que um substantivo sem artigo pode vir a ser indefinido, o que é bem diferente do que BeDuhn afirma em seu artigo. Quem nos esclarece esse fato é Lourenço Rega e Johannes Bergmann, que em sua gramática afirmam que a ausência de artigo no grego deve ser analisada pelo tradutor, pois “sem artigo, um substantivo pode ser ou não ser indefinido, dependendo do contexto”( REGA, Lourenço, BERGMANN, Johannes, Noções do grego Bíblico, pp.72).

(2)    A presença do artigo não resolveria um problema, ele o criaria. Se João tivesse colocado um artigo definido na sentença como ele sugere, o texto não afirmaria a divindade de Cristo como ele supõe, mas faria com que o mesmo afirmasse que o Logos é o Deus com quem estava, uma clara contradição. BeDuhn se esqueceu que sentenças gregas com verbos de ligação, nas quais tanto o sujeito como o predicativo do sujeito vem acompanhados de artigo são equivalentes (Jo.15.1). Se João seguisse a sugestão de BeDuhn ele se tornaria um patripassionista, um modalista, afirmando que o Filho é o Pai.

(3)    O substantivo Deus é normalmente definido, mesmo desacompanhado de artigo. No Novo Testamento existem pelo menos 29 ocasiões em que o substantivo “Deus” é usado sem artigo no mesmo caso que em Jo.1.1 (nominativo) e em nenhum desses casos vemos declarações indefinidas (Mc. 12:26 (x2), 27; Jo.1:1, 18; 8:54 10:34; At.19:26; Rm.8:33 9:5; 1Co.3:7 8:4, 5 (x2), 6; 2Co.1:3, 21; 5:5, 19 6:16; Gl.6:7; Ef.4:6; Fl.2.13; 1Ts.2:5; 2Ts.2:4; 1Tm.2:5; Hb.3:4; 11:16; Tg.2:19; Rv.21:7). Ou seja, o princípio apresentado por BeDuhn para Jo.1.1c não é válido. Um caso muito interessante desse fato é Mateus 4.4: “Mas ele disse em resposta: Está escrito: O homem tem de viver, não somente de pão, mas de cada pronunciação procedente da boca de Jeová”. Nesse texto, a referência a Deus Pai (Jeová) é tão clara que a TNM já adotou o nome de Deus aqui. Entretanto, nesse caso o substantivo “Deus” não tem artigo e nem por isso traduzimos “da boca de um deus“. Aliás, essa seria um claramente uma má tradução. Esse tipo de uso é frequente no NT, mais exemplos podem ser vistos em Lc 2:14, 40, 52; 3:2; 20:36, 38, Jo.1:6; 1:13; 3:21; 6:45; 9:33; 10:34; 17:3; At. 7:40; 15:8; Rm 1.4, 7, 23; 2:17; 8:16. Vale a pena lembrar que só no prólogo do evangelho de João o substantivo Deus está desacompanhado de artigo mais cinco vezes (6, 12, 13, 18×2).

É por essas e outras razões que a ausência de artigo definido em João indica que o sentido do texto é indefinido.

MITO #3: Os sentidos qualitativo e indefinido se equivalem

A verdade é quem ninguém escreve exatamente desse modo, mas é o que ingenuamente acreditam os defensores da religião de Jeová. Nas publicações da STV isso é recorrente e apenas para elucidar o que temos afirmado, vamos citar dois exemplos.

Na brochura “Deve-se crer na Trindade?” o autor comete claramente esse equívoco, que os seguidores da STV multiplicam ao infinito. Na página 27 o convenientemente anônimo autor diz:

“Em João 1:1 ocorre duas vezes o substantivo grego theós (deus). A primeira ocorrência se refere ao Deus Todo-poderoso, com quem a Palavra estava (“e a Palavra [lógos] estava com Deus [uma forma de theós]”). Este primeiro theós é precedido pela palavra ton (o), uma forma do artigo definido grego que aponta para uma identidade distinta, neste caso o Deus Todo-poderoso (“e a Palavra estava com o Deus”). Por outro lado, não existe artigo antes do segundo theós, em João 1:1. Assim, uma tradução literal seria “e deus era a Palavra”. Todavia, temos visto que muitas versões traduzem este segundo theós (um substantivo predicativo) como “divino”, “semelhante a Deus”, ou “um deus”. Com que autoridade fazem isso? A língua grega coiné tinha artigo definido (“o”), mas não tinha artigo indefinido (“um”). Assim, quando um substantivo predicativo não é precedido por artigo definido, pode ser indefinido, dependendo do contexto. A Revista de Literatura Bíblica diz que expressões “com um predicativo anartro [sem artigo] precedendo ao verbo, têm primariamente sentido qualificativo”. Como diz a Revista, isto indica que o lógos pode ser assemelhado a um deus. Diz também a respeito de João 1:1: “A força qualitativa do predicado se destaca tanto que o substantivo [theós] não pode ser considerado como determinativo.” Assim, João 1:1 destaca a qualidade da Palavra, que ela era “divina”, “semelhante a deus”, “um deus”, mas não o Deus Todo-poderoso

Existem muito problemas com essa citação, mas por uma questão de objetividade vamos nos ater apenas à conclusão equivocada que o autor conduz seus leigos leitores. Primeiro ele sugere que o predicativo do sujeito Deus poderia ser traduzido como “divino”, “semelhante a Deus” ou “um deus” baseado na ausência de artigo. Então ele fundamenta sua tese na má compreensão que tem do texto de Phillip Harner, que defende que um predicativo do sujeito anartro e antes do verbo tem sentido primariamente qualitativo. Se esse autor tivesse compreendido o que Harner realmente quis dizer, ele deveria concluir que a tradução “divino” era a mais apropriada, entretanto, demonstrando sua confusão conceitual ele defende que a Revista indica que o Logos é assemelhado a um deus, como se a tradução indefinida fosse possível, ou pretendida por Harner. Para finalizar e sacramentar o equívoco, ele cita novamente Harner defendendo o sentido qualitativo e termina por dizer que a Palavra era divina, um deus.

Outro exemplo desse equívoco crasso é encontrado na Revista Despertai de Junho de 1988 nas páginas 9-10, depois de alistar algumas versões que se assemelham a sua teologia, afirma:

Em João 1:1 há duas ocorrências do substantivo grego theós (deus). A primeira se refere ao Deus todo-poderoso, com quem a Palavra estava — “e a Palavra [lógos] estava com o Deus [uma forma de theós]”. O primeiro theós é precedido de uma forma do artigo definido grego ho. O substantivo theós, com o artigo definido ho na frente dele, indica uma identidade à parte, neste caso, o Deus todo-poderoso — “e a Palavra estava com o Deus”. Mas, na parte final de João 1:1, traduções como as alistadas no parágrafo 8, vertem o segundo theós (um substantivo predicativo) por “divino” ou “um deus”, em vez de “Deus”. Por quê? Porque o segundo theós é um substantivo predicativo singular que ocorre antes do verbo e sem o artigo definido ho em grego. Neste versículo, esse tipo de construção de sentença aponta para uma característica ou qualidade de alguém. Traz à atenção a natureza da Palavra, que ele era “divino”, “um deus”, mas não o Deus todo-poderoso

Nessa citação, igualmente problemática, vemos novamente o mesmo equívoco: Na tentativa de justificar a tradução indefinida que tanto apreciam claramente confundem o sentido indefinido com o qualitativo. Segundo a revista, o tipo de construção de João 1.1 “aponta para uma característica ou qualidade de alguém”, ou seja, não fala sobre sua pessoa, mas sobre sua característica, e conclui que a Palavra é “um deus”. Esse tipo de equívoco é recorrente entre os seguidores da religião de Jeová.

Tendo demonstrado dois exemplos de um problema recorrente, falta-nos dizer por que razão tal argumentação é mitológica. Esse conceito é mitológico por duas razões:

(1)    O grego, embora não tenha artigo indefinido, tem padrões claros para se expressar o sentido indefinido. Por exemplo, quando o verbo de ligação eimi (ser) é usado em uma sentença o posicionamento do predicativo do sujeito faz muita diferença. Se colocado antes ou depois do verbo com artigo o sentido é claramente definido e equivalente. É o caso de Jo.15.1: nesse texto é verdade dizer que tanto o Pai é o agricultor como o inverso. A expressão é definida e equivalente. Quando o substantivo não tem artigo e é colocado após o verbo, o padrão da gramática grega sugere que essa expressão é indefinida. Quando é colocado antes, o padrão da gramática grega sugere que é qualitativo. Ou seja, não é possível que o sentido indefinido e qualitativo tenham a mesma função. Deixe-me ilustrar isso no evangelho de João: “ἦν δὲ σπήλαιον καὶ λίθος ἐπέκειτο ἐπ᾽ αὐτῷ” (11.38). Nesse texto, en (o verbo eimi, ser) é a primeira palavra do texto seguido por dé (uma conjunção) e então o substantivo spëlaion (cova, gruta, caverna) é usado. Não se poderia traduzir esse texto como: “era cavernamente e uma pedra fora posta na entrada”. A tradução correta é: Era UMA caverna/gruta/cova. O sentido qualitativo e indefinido são muito diferente em qualquer idioma.

(2)    O segundo aspecto mitológico desse tipo de abordagem é tentar demonstrar que as traduções cristãs, como ARA, ARC, ACF, NVI, estão equivocadas por dizer que acadêmicos utilizaram o sentido qualitativo. Observe que em quase todas as argumentações conhecidas sobre a correta tradução de Jo.1.1c feita pela STV e pelos seus seguidores, eles apresentam uma lista quase sem fim para demonstrar que a TNM não é a única que usa o sentido indefinido. O problema é que a tradução qualitativa descreve exatamente o que creem os trinitários: Jesus, o Verbo não é o Deus Pai com quem estava desde o princípio, mas Ele é divino como Deus. a New English Bible traduziu: “O que Deus era o Verbo era”. Ou seja, Jesus é tão divino quanto Deus.

De modo interessante, a causa propulsora desse equívoco foi iniciado com a má compreensão do texto de Phillip Harner.  O que provavelmente levou Harner a escrever o artigo “Qualitative Anarthrous Predicate Nouns: Mark 15.39 and John 1.1” foram as limitações da Regra de Colwell, e sua intenção era demonstrar que, diferente do que se pensa sobre a Regra de Colwell (ou se fala sobre), Predicativos do Sujeito Anartros colocados antes do verbo são primariamente qualitativos, e não definidos, como ele mesmo atesta: “Esse estudo irá sugerir que um predicativo do sujeito anartro antecedendo o verbo provavelmente funcionam primariamente para expressar a natureza ou caráter do sujeito, e que sua significância qualitativa é provavelmente mais importante que a questão se o substantivo predicado deve ser considerado definido ou indefinido” (HARNER, Phillip, Qualitative Anarthrous Predicate Nouns: Mark 15.39 and Jo.1.1. Journal of Biblical Literature, 92 (1973); 75-87). Em outras palavras, Harner está demonstrando que o sentido indefinido e indefinido não se equivalem, e conclui seu artigo por dizer que o sentido indefinido é altamente improvável. Ele afirma que “João evidentemente intencionou dizer alguma coisa sobre o Logos que não era A [sentido definido] e mais do que D [sentido indefinido]” (HARNER, Phillip, pp.85).  E para explicar isso de modo evidente, ele conclui:

Ao interpretar clausulas desse tipo é importante relembrar que escritores gregos também tinham outros tipos disponíveis de ordem para as palavras. Se um escritor simplesmente desejasse representar o sujeito com parte de uma classe, ele poderia usar um predicado anartro após o verbo. Se ele quisesse enfatizar que o substantivo predicado fosse definido, ele poderia ter acrescido o artigo. A disponibilidade desse tipo de ordem para as palavras, fortalece a visão de que em muitas ocasiões nós estamos observando primariamente a ênfase qualitativa no substantivo predicado anartro que precede o verbo (HARNER, Phillip, pp.87)

Ou seja, para Harner é evidente que o sentido indefinido não está em questão em João 1.1c, como todos os TJs, seguindo o mal exemplo da STV, sugerem ao lerem o artigo de Harner. Isso ao menos nos ajuda a entender a origem desse mito muitiencefálico que insiste em aparecer na internet.

MITO #4: A versão saídica apresenta como o texto era entendido antes do quarto século

Essa é uma inferência comum na internet, mais um famigerado mito da internet, mas também não resiste a uma análise mais abrangente. Essa afirmação é mitológica por pelo menos duas razões:

(1)    Essa versão testemunha como o texto era entendido antes do quarto século na região norte do Egito. As pessoas que defendem esse ponto de vista, normalmente esquecem do tamanho do mundo nos primeiros séculos do cristianismo. A versão copta saídica é muito importante na história da tradução das escrituras, mas não reflete o entendimento de todo o mundo antigo, ou do cristianismo primitivo, representa apenas o entendimento do cristianismo em uma parte do Norte do Egito.  Vale a pena lembrar que do ponto de vista geográfico, o Norte do Egito não foi alvo de nenhum dos livros do NT, nem foi parte do investimento ministerial apostólico. O Cristianismo chegou ao Norte do Egito por seguidores desconhecidos em uma região conhecidamente politeísta. É mais fácil que nessa região o Cristianismo primitivo tenha se pervertido do que se tornado puro, haja visto a quantidade de hereges históricos que vieram dessa região no mesmíssimo período da produção dessa versão.

(2)    Essa versão não representa o modo como o texto era entendido antes do quarto século, por que é uma evidência solitária entre milhares de outras evidências ignoradas pelos seguidores da religião de Jeová. Por exemplo, existem diversas evidências de como esse texto era entendido antes do quarto século que não concorda com a famosa (se não suposta) tradução da versão saídica. Por exemplo, diversos cristãos, conhecidos erroneamente como pais da igreja, que em diferentes idiomas entendiam esse texto como “e o Verbo era Deus“. Não eram teólogos que estudavam línguas primitivas, eram falantes nativos do grego falado pelos apóstolos. Dificilmente esses homens se engasgariam com o próprio idioma. Vale a pena perguntar como falantes nativos de grego koinê entenderiam esse texto de modo equivocado, e tradutores do Norte do Egito a teriam endireitado? Parece um pouco estranho, não parece!?

Acho que esse mito seria minimizado se a frase fosse escrita de modo mais coerente com as evidências. Minha sugestão seria: A versão copta saídica testemunha como o texto era entendido antes do quarto século na região norte do Egito.

MITO #5: A gramática saídica favorece a leitura de que o Verbo era um deus

Esse é outro constante equívoco sobre o assunto, até por que as pessoas que tem tratado desse assunto normalmente não entendem Copta, um idioma morto com pouquíssimos acadêmicos dedicados a ela. Daniel Wallace diz que uma classe de Copta quando é enorme tem quase 10 alunos. Eu não sou especialista em Copta, bem como a vasta e gigantesca maioria na internet, somos leitores daqueles que são conhecidos como tal. Com isso, quero dizer que o que apresento aqui são considerações que fiz em nível de leitura. Segundo o que tenho estudado até aqui, essa afirmação é mitológica por três razões:

(1)    O uso do artigo indefinido no copta não é uma significa necessariamente em indefinição, o mesmo artigo é usado em ocasiões em que o sentido qualitativo é esperado. Por exemplo em João 3.6, onde claramente o sentido do grego original é qualitativo, o copta insere o artigo indefinido para descrever a carne e espírito. Se traduzido literalmente o copta nesse verso, a tradução seria: “Aquele que é nascido da carne é uma carne. E o que é nascido do espírito um espírito” (cf.  Jo.1.16; 33). Ariel Shisha-Halevy, ao analisar o texto de Jo.1.1 afirmou: “Em copta o termo ounoute pode significar tanto um deus como natureza divina. Em Jo.1.1 eu sugeririra que a última opção é a melhor, qualificando o Verbo como divino, ou como Deus“. Em sua gramática Bentley Laydon demonstra que o artigo indefinido também pode descrever a característica de um substantivo (Layton, Bentley, A Coptic Grammar With Chrestomathy and Glossary – Sahidic Dialect, 2nd edition, p. 43). Cliford. Walter afirma o mesmo (Walters, CC, An Elementary Coptic Grammar of the Sahidic Dialect, p. 12). Veja também Thomas Lambdin, Introduction to Sahidic Coptic. Macon, GA: Mercer, 1983, 5;

(2)    O substantivo Deus em copta saídico nunca é anartro, ou seja, ele sempre vem acompanhado de artigo. Entretanto no contexto de Jo.1.1, o artigo definido não era possível usar o artigo definido, pela clara contradição que isso causaria ao texto. Quem defende isso é Bentley Laydon: “No padrão da língua copta não se faz equivalência com o substantivo próprio ‘Deus’; em copta o pronome próprio ‘Deus’ é sem exceção acompanhado de artigo definido. A ocorrência de um uso anartro nesse padrão seria extremamente estranho“.

(3)    O susbtantivo Deus é traduzido com artigo definido em Jo.1.18, e nela o texto afirma: “Ninguém jamais viu a Deus, o Deus, o filho unigênito, é quem o revelou“. Isso evidencia o que o mostrei acima: O substantivo Deus nunca é anartro. Por outro lado, seria extremamente estranho que a mesma versão chamasse Jesus de um deus e pouco depois de O Deus. Isso sugere que a gramática copta e o contexto de João entendam a Jo.1.1 de modo qualitativo.

Considerando a gramática copta, acredito que esse mito deixaria de existir, se os defensores da tradução indefinida de Jo.1.1 considerassem uma possibilidade como possibilidade e não como certeza. Minha sugestão de leitura para esse fato seria assim declarado: A gramática saídica permite que a tradução de Jo.1.1 seja indefinida, embora seja mais provável que seja qualitativa.

CONCLUSÃO

Tendo apresentado 5 mitos sobre a tradução de João 1.1c, gostaria de concluir esse artigo apresentando brevemente as razões pelas quais entendo que a tradução indefinida desse verso é gramaticalmente improvável, contextualmente impossível e de acordo com o autor equivocada.

(1)     Essa tradução é gramaticalmente improvável por três razões:

    1. Em grego, é habitual a falta de artigo, de modo que se pode escrever grandes sentenças sem seu uso.  Em grego koine, o artigo não é necessário para expressar o sentido definido;
    2. Predicados anartros são extremamente comuns em grego. Usualmente, o predicado anartro expressa categoria ou classe, do mesmo modo que predicados articulados são usados quando pode ser intercambiável com o sujeito. Um predicado anartro é usualmente indefino quando segue o verbo.
    3. Uma sentença com verbo de ligação tem força normalmente indefinida quando o predicativo do sujeito segue o verbo sem artigo, e é normalmente qualitativo quando é colocado antes do verbo sem artigo. Com artigo, o sentido é claramente definido.

(2)     Contextualmente impossível, por três razões:

    1. João usa predicados anartros normalmente (ex. 1.1a, 4a, 6a…)
    2. Ele usa predicados anartros antes do verbo expressando categoria ou classe em 4a, articulado com sentido intercambiável em 4b e anartro após o verbo com sentido indefinido em 6a. Isso sugere que João faz usos específicos de sentenças para expressar com clareza suas ideias. Portanto, se ele quisesse dizer que o Logos era um deus, ele teria os recursos necessários para fazê-lo, claramente. Mas não o fez.
    3. Além disso, no contexto o Logos é apresentado como anterior ao início de todas as coisas criadas e criador de todas elas. Portanto, João claramente o distingue de toda a criação. Ora, se não é criatura, mas é criador, não pode ser um ser divino criado por outro. Ele também é chamado de Único Deus em 1.18.

(3)     De acordo com o autor, ela é equivocada por três razões:

    1. No Evangelho, João afirma a divindade de Cristo em 1.18, 2.19-21, 5.18,  8.58, 10.30, 12.45, 14.8-10, 20.28. No último verso, ele usa o termo theós articulado, deixando isso evidente.
    2. Em sua primeira carta ele o faz em 1.1, 2.13, 4.3, 5.11, 5.20. No último verso ele o chama de Verdadeiro Deus.
    3. Em Revelações ele também o faz em 1.17-18, 2.8, 3.14, 4.8, 5.12, 22.12-13. No primeiro verso Cristo é chamado de eterno, Todo Poderoso e Senhor e em 5.12 é louvado. Características exclusivas de Jeová.

Diante dessas informações concluo por dizer que se tais mitologias da tradução forem substituídas por uma investigação adequada das escrituras no seu idioma original, a conclusão de que Jesus é um deus a parte do Pai será finalmente rejeitada.

2 comentários sobre “Tradução e Mitologia

  1. paulo

    Se João Evangelista tivesse escrito o deus, teria dito que Jesus Cristo era o único Deus, negando assim o Pai e o Espirito Santo. A maneira como ele escreveu, sem dúvida, confirma o Dogma da Santíssima Trindade.
    Obrigado por vossa atenção.

  2. edson barcelos

    Claramente vemos, que os fatos históricos nos dá á entender,que não existe na expressão de joão,nenhum interesse de criar uma guerra mental em nós.Simplesmente ele diz:e o verbo era Deus,ou seja da mesma natureza.obrigado por esse artigo.

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