João Calvino – O Reformador


por Justo Gonzalez

“Carta ao Rei Francisco, mui poderoso monarca, cristianíssimo rei dos franceses, seu príncipe, João Calvino roga paz e salvação em Cristo. Quando inicialmente, lancei mão da pena para escrever esta obra, meu principal objetivo, ó Mui Preclaro rei, era o de escrever algo que, depois, pudesse ser apresentado diante de tua majestade. Meu objetivo era o de apenas ensinar certos rudimentos em função dos quais fossem instruídos, na verdadeira piedade, todos quantos são tocados por algum zelo de religião. Resolvi fazer este trabalho principalmente, por amor aos nossos compatriotas franceses, muito dos quais eu via famintos e sedentos de Cristo, e a muito poucos, porém, eu via imbuídos devidamente de conhecimento sequer modesto a respeito dEle. O próprio livro, composto de forma de ensinar simples e até chã, mostra que foi esta a intenção proposta.”

Calvino nasceu na pequena cidade de Noyon, na França, em 10 de junho de 1509, quando Lutero já havia ditado suas primeiras conferências na Universidade de Wittenberg. Seu pai pertencia à classe média da cidade e trabalhava principalmente como secretário do bispo e procurador da biblioteca da catedral. Fazendo uso de tais conexões, procurou para seu filho os benefícios eclesiásticos com os quais custeasse seus estudos.

Com esses recursos, Calvino foi estudar em Paris, onde conheceu tanto o humanismo como a reação conservadora que se lhe opunha. A discussão teológica que tinha lugar nos seus dias levou-o a conhecer as doutrinas de Wycliff, Huss e Lutero. Porém, segundo ele mesmo disse: “estava obstinadamente atado às superstições do papado”. Em 1529 completou seus estudos em Paris, ao obter o grau de Mestre em Artes, e decidiu dedicar-se à jurisprudência. Com esse propósito, continuou seus estudos em Orleans e em Bourges, sob a orientação dos dois mais célebres juristas daquela época: Pierre de I’Estoile e Andrea Alciati. O primeiro seguia os métodos tradicionais no estudo e na interpretação das leis, enquanto o segundo era um humanista elegante e talvez algo vaidoso. Quando houve um debate entre ambos, Calvino interveio em favor do primeiro. Isto é importante porque indica que, ainda nesses tempos em que começava a desejar cultivar um espírito humanista, ela não senti simpatias pela elegância vã de que freqüentemente se viam possuídos alguns dos mais famosos humanistas.

Não se sabe o motivo certo que levou Calvino a abandonar a fé romana, nem a data exata em que isso ocorreu. Diferentemente de Lutero, Calvino nos diz muito pouco sobre o estado interior de sua alma. Porém o mais provável parece ser que, no meio do círculo de humanistas que freqüentava e através de seus estudos das Escrituras e da Antigüidade cristã, Calvino chegou à convicção de que teria de abandonar a comunhão romana e seguir o caminho dos protestantes.

Em 1534, se apresentou em sua cidade natal e renunciou aos benefícios eclesiásticos que seu pai havia conseguido e que eram a sua principal fonte de sustento econômico. Se ele já estava decidido neste momento, a abandonar a igreja romana, ou se esse ato foi simplesmente um passo a mais na sua peregrinação espiritual, nos é impossível saber. O fato é que em outubro de 1534 Francisco I, até então relativamente tolerante com os protestantes, mudou sua política e, em janeiro seguinte, Calvino se exilava na cidade protestante de Basiléia.

Calvino sentia-se chamado a dedicar-se ao estudo e às obras literárias. Seu propósito não era de modo algum chegar a ser um dos líderes da Reforma, mas sim encontrar um lugar tranqüilo onde pudesse estudar as Escrituras e escrever sobre a nova fé. Pouco antes de chegar a Basiléia, havia escrito um breve tratado sobre o estado das almas dos mortos antes da ressurreição. Segundo ele encarava sua própria vocação, sua tarefa consistiria em escrever outros tratados como esse, que serviriam para aclarar a fé da igreja numa época de tanta confusão.

Portanto, seu principal projeto era um breve resumo da fé cristã do ponto de vista protestante. Até então, quase toda literatura protestante, chegava pela urgência da polêmica, e assim tratava somente dos pontos em discussão, e havia dito pouca coisa sobre outras doutrinas fundamentais do cristianismo, como por exemplo a Trindade, a Encarnação, etc. O que Calvino se propunha então era cobrir esse vazio com um breve manual ao qual deu o título de “Institutas da Religião Cristã”.

A primeira edição surgiu em Basiléia, no ano de 1536. Era um livro de 516 páginas, porém de formato pequeno, de modo que cabia facilmente nos amplos bolsos que se usavam antigamente, e podia, dessarte, circular dissimuladamente pela França. Constava de apenas seis capítulos. Os primeiros quatro tratavam sobre a lei, o Credo, o Pai Nosso e os sacramentos. Os últimos dois , de tom mais polêmico, resumiam a posição protestante com respeito aos “falsos sacramentos” romanos e a liberdade cristã.

O êxito desta obra foi imediato e surpreendente. Em nove meses se esgotou a edição, que, por estar em latim, era acessível a leitores de diversas nacionalidades.

A partir de então Calvino continuou preparando edições sucessivas das Institutas que foi crescendo segundo iam passando os anos. As diversas polêmicas da época, as opiniões de vários grupos que Calvino considerava errados e as necessidades práticas da igreja, foram contribuindo para o crescimento da obra, de tal maneira que para seguirmos o curso do desenvolvimento teológico de Calvino e das polêmicas em que se envolveu, bastaria comparar as edições sucessivas das Institutas. O que não é possível fazer aqui.

Foram editadas cerca de nove vezes, sendo que as últimas edições datam de 1559 e 1560. Este texto definitivo dista muito de ser o pequeno manual de doutrina que Calvino tinha tido em mente publicar quando da primeira edição, pois os seis capítulos de 1536 se haviam transformado em quatro livros com um total de oitenta capítulos. O primeiro livro trata sobre Deus e sua revelação, assim como da criação e da natureza do ser humano, porém sem incluir a queda e a salvação. O segundo livro trata sobre Deus como redentor e o modo em que se nos dá a conhecer primeiramente no Antigo Testamento, e depois em Jesus Cristo. O terceiro livro trata sobre como, pelo Espírito, podemos participar da graça de Jesus Cristo e dos frutos que Ele produz. Por último, o quarto livro trata dos “meios externos” para essa participação, isto é, fala-nos sobre a igreja e os sacramentos. Por toda obra se manifesta um conhecimento profundo, não só das Escrituras, mas também de antigos escritores cristãos, particularmente Agostinho, e as controvérsias teológicas do século XVI. Sem dúvida alguma, esta foi a obra-prima de teologia sistemática protestante em todo esse século.

Mas, na realidade, Calvino não tinha a menor intenção de se dedicar ativamente à obra de reformador. Pois mesmo sentindo grande admiração por aqueles que assim fizeram, seu maior desejo era o de poder se dedicar ao estudo e a literatura reformada, não se vendo como pastor ou mesmo capacitado para tal obra.

Seu objetivo era de se estabelecer em Estrasburgo, onde a causa reformadora havia triunfado, e onde havia uma grande atividade teológica e literária que lhe parecia oferecer um ambiente propício para seus trabalhos.

Mas, quando para lá se dirigia, teve de desviar seu caminho e passar por Genebra, em virtude de uma guerra. A situação em Genebra diferia em muito da de Estrasburgo, pois era muito confusa, tendo em vista a recem-chegada fé reformada levada por Guilherme Farel e um grupo de missionários advindo de Berna, que necessitava muito de ajuda para conduzir a vida religiosa na cidade.

Calvino chegou a Genebra com a intenção de passar ali, não mais que um dia , e prosseguir caminho para Estrasburgo. Porém, alguém avisou a Farel da presença de Calvino, o autor das Institutas, que logo foi procurado e com quem obteve uma entrevista marcante.

Farel, que “ardia com um maravilhoso zelo pelo avanço do evangelho”, apresentou a Calvino várias razões pelas quais precisava de sua presença em Genebra. Calvino escutou atentamente seu interlocutor, uns quinze anos mais velho que ele, porém se negou a aceitar seu rogo, dizendo-lhe que tinha projetado certos estudos e que não lhe parecia possível terminá-los na situação em que Farel descrevia. Quando por fim Farel tinha esgotado todos os seus argumentos, sem conseguir convencer ao jovem teólogo apelou ao Senhor de ambos e insurgiu contra o teólogo com voz estridente: “Deus amaldiçoe teu descanso e a tranqüilidade que buscas para estudar, se diante de uma necessidade tão grande te retiras e te negas a prestar socorro e ajuda”.

Diante de tal imprecação, nos conta Calvino: “essas palavras me espantaram e me quebrantaram e desisti da viagem que tinha empreendido”. E assim começou a carreira de João Calvino como reformador de Genebra.

Mesmo que de início Calvino aceitasse simplesmente permanecer na cidade, e colaborar com Farel, logo sua habilidade teológica, seu conhecimento da jurisprudência e seu zelo reformador fizeram dele o personagem central da vida religiosa da cidade, enquanto que Farel gostosamente se tornava um seu colaborador. Porém nem todos estavam dispostos a seguir o caminho da reforma que Calvino e Farel haviam traçado. E quando começaram a exigir que se seguissem verdadeiramente os princípios protestantes, muitos dos burgueses que haviam apoiado a ruptura com Roma começaram a oferecer-lhes resistência, ao mesmo tempo que faziam chegar a outras cidades protestantes da Suíça rumores sobre supostos erros dos reformadores genebrinos. O conflito se travou finalmente em torno do assunto do

direito da excomunhão. Calvino insistia em que, para que a vida religiosa se conformasse verdadeiramente aos princípios reformadores, era necessário excomungar os pecadores impenitentes. Diante do que pareceu um rigor excessivo, o governo da cidade se negou a seguir os conselhos de Calvino. Posteriormente, o conflito foi tal que Calvino foi desterrado. O fiel Farel, que poderia permanecer na cidade escolheu antes o exílio que tornar-se um instrumento dos burgueses, que queriam uma religião com toda sorte de liberdade e poucas obrigações.

Calvino viu nisso tudo uma porta que o céu lhe abria para continuar sua vida de estudos e retiro, que havia projetado, e se dirigiu a Estrasburgo. Porém nessa cidade o chefe do movimento reformador, Martinho Bucero, também não o deixou em paz. Havia ali um forte contingente de franceses, exilados por motivos religiosos, carentes de direção pastoral, e Bucero fez com que Calvino se encarregasse deles. Foi aí então que o nosso teólogo produziu uma liturgia francesa e traduziu vários salmos e outros hinos, para que fossem cantados pelos franceses exilados. Além disso produziu a Segunda edição das Institutas, e se casou com a viúva Idelette de Bure, com quem foi feliz até que a morte o levou em 1549.

Os três anos que Calvino passou em Estrasburgo foram provavelmente os mais felizes e tranqüilos de sua vida. Porém apesar disso, lhe doía sempre não ter podido continuar a obra reformadora em Genebra, por cuja igreja sentia um grande amor e responsabilidade. Portanto, quando as circunstâncias mudaram na cidade suíça e o governo o convidou a regressar, Calvino não vacilou e uma vez mais ficou com a responsabilidade da obra reformadora em Genebra.

Foi em meados de 1541 que Calvino regressou a Genebra. Uma de suas primeira ações foi redigir as Ordenanças Eclesiásticas, que foram aprovadas pouco meses depois pelo governo da cidade, se bem que com algumas emendas. Segundo se estabelecia nelas, o governo da igreja ficava principalmente nas mãos do Consistório, que era formado pelo pastores e por doze leigos que recebiam o nome de “anciãos”. Visto que os pastores eram cinco, os leigos eram a maioria no Consistório. Porém apesar disso o impacto pessoal de Calvino era tal que quase sempre esse corpo seguia suas orientações e seus desejos.

Em 1559 Calvino viu cumprir-se um de sues sonhos, ao ser fundada a Academia de Genebra, sob a direção de Teodoro de Beza, que depois sucedeu Calvino como chefe religioso da cidade. Naquela academia se formou a juventude genebrina segundo os princípios calvinistas, Porém seu principal impacto se deve a que nela cursaram estudos superiores pessoas procedentes de vários outros países, que depois levaram o calvinismo a eles.

Transcrição parcial de “A Era dos Reformadores” – Justo L. Gonzalez, publicado pela Sociedade Religiosa Edições Vida Nova.