Argumento Teleológico – William Lane Craig


Chegamos agora ao argumento teleológico, ou o argumento para o design. Embora os defensores do chamado movimento Design Inteligente têm continuado a tradição de focar em exemplos de design em sistemas biológicos, o ponto de corte da discussão contemporânea se concentra no extraordinário ajuste fino do cosmo para a existência de vida.

Antes de discutirmos este argumento, é importante entender que por “finamente ajustado”, ninguém não está querendo dizer “projetado” (do contrário o argumento seria obviamente circular).  Na verdade, durante os últimos cinquenta anos os cientistas têm descoberto que a existência de vida inteligente depende de um equilíbrio complexo e delicado das condições iniciais simplesmente dadas no próprio Big Bang. Este equilíbrio é conhecido como “ajuste fino” do universo.

 O ajuste fino é de dois tipos. Primeiro, quando as leis da natureza são expressas como equações matemáticas você encontrará nelas certas constantes, como a constante que representa a força da gravidade. Estas constantes não são determinadas pelas leis da natureza. As leis da natureza são consistentes com uma ampla gama de valores para estas constantes. Segundo, em adição a estas constantes, existem certas quantidades arbitrárias colocadas como condições iniciais sobre as quais as leis da natureza operam, por exemplo, a quantidade de entropia ou o equilíbrio entre matéria e antimatéria no universo. Agora, todas estas constantes e quantidades arbitrárias se encaixam em uma extraordinária faixa estreita de valores que permitem a existência de vida. Se estas constantes ou quantidades fossem alteradas em menos do que a largura de um fio de cabelo, o equilíbrio que permite a existência de vida seria destruído e nenhum organismo de qualquer espécie poderia existir. [1]

Por exemplo, uma mudança no vigor da força atômica de uma parte em 10100 teria impedido a existência de vida no universo. A constante cosmológica que conduz a inflação do universo e que é responsável pela recente descoberta aceleração da expansão do universo é inexplicavelmente ajustada para cerca de uma parte em 10120. Roger Penrose da Universidade de Oxford calculou que as excentricidades da condição de baixa entropia do Big Bang serem por mero acaso são da ordem de uma parte em 1010(123). Penrose comenta, “Eu não consigo me lembrar de qualquer outra coisa na física cuja exatidão se aproxime, mesmo que remotamente, de uma parte em 1010(123) ”[2]. E não se trata de apenas uma constante ou quantidade arbitrária ser requintadamente ajustada para dado valor; as relações das constantes e quantidades umas com as outras precisam de igual modo ser finamente ajustadas. Assim, improbabilidade é multiplicada por improbabilidade até que nossas mentes se percam em números tão incompreensíveis.

Assim, quando os cientistas dizem que o universo é “finamente ajustado” para a existência de vida, eles não querem dizer que ele foi “projetado”; eles querem dizer que pequenos desvios dos valores reais das constantes e quantidades arbitrárias da natureza proibiriam o universo de abrigar vida ou, alternativamente, que a série de valores que permitem vida ao universo é incompreensívelmente estreita em comparação com a quantidade de valores que poderiam ser assumidos. O próprio Dawkins, citando o trabalho do astrônomo real Sir Martin Rees, reconhece que o universo exibe este extraordinário ajuste fino.

Então, aqui está uma formulação simples do argumento teleológico baseado no ajuste fino do universo:

1. O ajuste fino do universo se deve a necessidade física, acaso ou design.

2. Não se deve a necessidade física ou acaso.

3. Logo, o ajuste se deve a design.

Premissa 1

A premissa 1 simplesmente lista as três possibilidades para explicar a presença deste incrível ajuste fino no universo: necessidade física, acaso ou design. A primeira alternativa defende que exista alguma “Teoria do Tudo” ainda desconhecida que explicaria a maneira pela qual o universo é. Ele tinha que ser desta forma, e não havia a menor possibilidade do universo não ser como ele é, permitindo a existência de vida. Em contraste, a segunda alternativa estabelece que o fino ajuste se deve inteiramente ao acaso. Trata-se apenas de um acidente o fato do universo permitir a existência de vida, e nós somos os sortudos beneficiários deste acidente. A terceira opção rejeita ambas afirmações anteriores em favor de uma Mente inteligente detrás do cosmo, que projetou o universo para que ele permitisse a existência de vida. A questão é: qual destas alternativas é a melhor explicação?

Premissa 2

A premissa 2 do argumento responde a esta questão. Considere as três alternativas. A primeira, necessidade física, é extremamente implausível porque, como vimos, as constantes e as quantidades são independentes das leis da natureza. Assim, por exemplo, a candidata mais promissora à Teoria do Tudo até o momento, a Teoria das Super Cordas ou Teoria M, falha em predizer a singularidade do nosso universo. A Teoria das Cordas permite uma “paisagem cósmica” de cerca de 10500 universos diferentes possíveis governados pelas presentes leis da natureza, assim, nada faz para atribuir necessidade física aos valores e constantes observados. Com respeito a esta primeira alternativa, Dawkins observa que Sir Martin Rees rejeita esta explicação, e Dawkins diz, “acho que concordo com eles [os que rejeitam esta explicação]” [3].

Sendo assim o que podemos dizer da segunda alternativa, de que o ajuste fino do universo se deve ao acaso? O problema com esta alternativa é que os pontos contra a possibilidade do universo permitir vida são tão incompreensivelmente grandes que não podem ser encarados racionalmente. Mesmo que existisse um grande número de universos dentro da paisagem cósmica, mesmo assim o número de mundos que permitiriam a existência de vida seria incomensuravelmente pequeno se comparado à paisagem completa, assim, a existência de um universo que permite a existência de vida é fantasticamente improvável. Estudantes ou leigos que alegremente declaram, “Isto poderia ter ocorrido pelo acaso!” simplesmente não tem idéia da precisão fantástica dos requisitos de ajuste fino para a existência de vida. Eles nunca abraçariam tal hipótese em qualquer outra área de suas vidas – por exemplo, como um carro apareceu em sua garagem da noite para o dia.

A Defesa do Acaso por Dawkins

A fim de resgatar a alternativa do acaso, seus proponentes têm sido forçados a adotar a hipótese de que existe um número infinito de universos aleatórios compondo um tipo de conjunto de mundos, ou multiverso, do qual o nosso universo é apenas uma parte. Em algum lugar neste conjunto de mundos, universos finamente ajustados para a existência de vidavão aparecer pelo mero acaso, e aconteceu de nós estarmos em um destes mundos. Esta é a explicação que Dawkins considera mais plausível [4].

Um Multiverso é “Não-Parcimonioso”?

Aqui Dawkins é bem sensível em definir a postulação de vários universos existindo como bolhas de sabão, como ele tão gentilmente colocou, um “luxo extravagante”. Mas ele replica, “O multiverso pode parecer extravagante no mero número de universos. Mas, se cada um desses universos for simples em suas leis fundamentais, não estamos postulando nada de muito improvável”. [5]

Esta resposta é multiplamente confusa. Primeiro, cada universo do multiverso não é simples, mas caracterizado por uma multiplicidade de constantes e quantidades independentes. Se cada universo fosse simples, então porque Dawkins sentiria a necessidade de recorrer à hipótese do multiverso em primeiro lugar? Além disto, não se trata da simplicidade das leis fundamentais, porque todos os universos no conjunto de mundos são caracterizados pelas mesmas leis – eles diferem entre si nos valores das constantes e de suas quantidades.

Segundo, Dawkins assume que a simplicidade do todo é uma função da simplicidade das partes. Obviamente isto é um erro. Um mosaico complexo de uma face romana, por exemplo, é construído por um grande número de peças individualmente simples e monocromáticas. Da mesma forma, um conjunto de universos simples continuaria sendo complexo se estes universos variassem nos valores de suas constantes e quantidades, além de todos compartilharem dos mesmos valores.

Terceiro, a Navalha de Ockham nos fala que não devemos multiplicar entidades explicativas além do necessário, mas o número de universos que estão sendo postulados apenas para explicar o ajuste fino do nosso universo é algo extraordinariamente extravagante. Apelar para o multiverso ao explicar a aparência de design do nosso universo é como utilizar uma marreta para quebrar a casca de um amendoim!

Quarto, Dawkins tenta minimizar a extravagância do multiverso afirmando que a despeito dele ter um número extravagante de entidades, tal multiverso não é altamente improvável. Não está claro onde esta resposta se torna relevante ou até mesmo o que ela significa. Pois a objeção que esta sendo considerada não é que o multiverso seja improvável, mas que ele é extravagante e não-parcimonioso. Dizer que o multiverso não é altamente improvável é falhar em comentar a real objeção. E mais, é difícil saber sobre qual probabilidade Dawkins está falando aqui. Parece que ele está falando sobre a probabilidade intrínseca do multiverso, considerada aparte da evidência do ajuste fino. Mas como tal probabilidade pode ser determinada? Pela simplicidade? Mas o problema é que Dawkins não nos mostrou como a hipótese de um conjunto de universos existir possa ser simples.

A Sugestão de Dawkins Sobre um Mecanismo que Gerasse Universos

O que Dawkins parece dizer, ao que me parece, é que o multiverso pode ser simples se existir um mecanismo simples que através de um processo repetitivo gerasse muitos universos. Desta forma o gigantesco número de entidades postuladas não seria um ônus à teoria porque todas as entidades surgiram de um mecanismo simples e fundamental.

Um Modelo Oscilante do Universo

Assim sendo, que mecanismo Dawkins sugere para que se explique o surgimento de um conjunto ordenado, infinito e aleatório de universos. Primeiro, ele sugere um modelo oscilante de universo, no qual

nosso tempo e espaço realmente começaram no nosso big bang, mas foi apenas o mais recente numa longa série de big bangs, cada um iniciado pelo big crunch que encerrou o universo anterior da série. Ninguém entende o que acontece em singularidades como o big bang, portanto é concebível que as leis e as constantes sejam zeradas e tenham novos valores a cada vez. Se os ciclos de bang-expansão-contração-crunch vêm acontecendo deste sempre, como num acordeão cósmico, temos uma versão seriada, e não paralela, de multiverso. [6]

Aparentemente Dawkins não está ciente das muitas dificuldades dos modelos oscilatórios de universo, que têm tornado os cosmólogos contemporâneos céticos em relação a eles. Nos anos 60 e 70, alguns teóricos propuseram modelos de oscilação para o universo em uma tentativa de evitar a singularidade inicial predita pelo modelo padrão. Os prospectos de tais modelos, entretanto, foram severamente esmaecidos em 1970 pela formulação de Stephen Hawkins e Roger Penrose dos teoremas da singularidade, que levaram seus nomes. Os teoremas mostraram que em condições bem gerais, uma singularidade cósmica inicial é inevitável. Uma vez que é impossível estender o espaçotempo da singularidade para o estado anterior, o teorema Hawking-Penrose da singularidade implica o início absoluto do universo. Refletindo no impacto desta descoberta, Hawking observa que o teorema Hawking-Penrose da singularidade “nos leva a abandonar as tentativas (principalmente dos russos) de argumentar que houve uma fase anterior de contração e um ressalto não-singular para a expansão. Digo isto embora quase todo mundo acredite atualmente que o universo e o próprio tempo tiveram um começo no big bang”. [7]  Dawkins aparentemente trabalha sobre a ilusão de que a singularidade não estabelece um limite para espaço e tempo.

Além disto, a evidência da astronomia observacional tem estado constantemente contrária a hipótese de que o universo irá algum dia se recontrair em um Big Chunch. As tentativas de descobrir a massa densa o suficiente para gerar a atração gravitacional requerida para parar e reverter a expansão de forma continua começaram recentemente. Na verdade, as observações recentes de supernovas indicam que – longe de diminuir sua velocidade – a expansão cósmica esta na verdade se acelerando! Existe alguma espécie de “energia negra” misteriosa na forma de campo de energia variável (chamada “quintessência”) ou, mais provavelmente, a constante cosmológica positiva ou a energia do vácuo tem feito com que a expansão acontecesse mais rapidamente. Se a energia negra indica a existência de uma constante cosmológica positiva (como a evidência tem cada vez mais sugerido), então o universo vai expandir para sempre. De acordo com o site da NASA para o Wilkinson Microwave Anisotropy Probe, “Pois a teoria que se encaixa nos nossos dados é que o universo vai se expandir para sempre”. [8]

Além do mais, a parte de todas as dificuldades físicas que confrontam os modelos oscilatórios, as propriedades termodinâmicas de tais modelos implicam o início absoluto do universo que seus proponentes tentam evitar. Pois a entropia é conservada de círculo a círculo nestes modelos, onde possui o efeito de gerar oscilações maiores com cada círculo sucessivo. Como um time de cientistas explica, “O efeito da produção de entropia será de forma a alargar a escala cósmica, de círculo a círculo. […] Assim, pesquisando de volta no tempo, cada círculo geraria menos entropia, teria um círculo de tempo menor, e teria um menor fator de expansão do que o círculo que seguiu a ele”. [9]  Assim, ao traçar as oscilações de volta no tempo, elas ficarão cada vez menores até alcançar uma oscilação primeira e ínfima. Zeldovich e Novikov então concluem, “O modelo do multicírculo possui um futuro infinito, mas um passado finito”. [10] Na verdade, o  astrônomo Joseph Silk estima com base nos atuais níveis de entropia que o universo não pode ter  tido mais de 100 oscilações anteriores [11]. Isto está longe do necessário para gerar o tipo de multiverso serial imaginado por Dawkins.

Finalmente, mesmo se o universo pudesse ter oscilado de um passado eterno, tal universo requereria um ajuste fino infinito de suas condições iniciais a fim de que ele continuasse existindo após infinitos números de ressaltos sucessivos. Assim, o mecanismo que Dawkins sonha que pudesse gerar seus muitos mundos não é simples, mas o oposto. Além disto, tal universo envolve um ajuste fino de um tipo bastante bizarro, uma vez que suas condições iniciais devem ser ajustadas nas ínfimas partes. Mas como isto pode ser possível se não houve um começo algum?

Voltando para a discussão dos modelos oscilatórios do universo, o cosmólogo quântico Christopher Isham medita,

Talvez o melhor argumento a favor da tese de que o Big Bang suporta o teísmo é o claro desconforto com o que ele é recebido por alguns físicos ateus. Às vezes ela gerou idéias científicas, como a criação contínua ou um universo oscilatório, sendo avançadas com uma tenacidade que excede tanto seus valores intrínsecos que se pode apenas suspeitar da operação de forças psicológicas repousando bem mais profundamente do que o usual desejo acadêmico de um teorista em defender sua teoria. [12]

No caso de Dawkins não é difícil discernir estas forças psicológicas trabalhando.

A Cosmologia Evolucionária de Lee Smolin

O Segundo mecanismo sugerido por Dawkins para a geração do multiverso é a cosmologia evolucionária de Lee Smolin. Smolin imagina um cenário, Dawkins explica, de acordo com o qual universos-filhos nascem de universos pais, não num big crunch completo, mas de modo mais local, em buracos negros. Smolin acrescenta uma forma de hereditariedade: as constantes fundamentais de um universo-filho são versões ligeiramente “mutadas” das constantes de seu progenitor… Os universos que têm o necessário para “sobreviver” e “reproduzir-se” acabam predominando no multiverso. O “necessário” inclui durar tempo suficiente para se “reproduzir”. Como o ato da reprodução acontece nos buracos negros, os universos bem-sucedidos precisam ter o necessário para criar buracos negros. Essa capacidade exige várias outras propriedades. Por exemplo, a tendência da matéria de se condensar em nuvens e depois em estrelas é um pré-requisito para produzir buracos negros. As estrelas… são precursoras do desenvolvimento de uma química interessante, e portanto da vida. Assim, sugere Smolin, houve uma seleção natural darwiniana de universos no multiverso, favorecendo diretamente a evolução da fecundidade nos buracos negros e indiretamente a produção de vida. [13]

Dawkins reconhece que “nem todos os físicos” estão entusiasmados com o cenário proposto por Smolin. Eufemismo! O cenário de Smolin, a parte de ele ser ad hoc e por se sustentar em conjecturas que já foram descartadas pela ciência, encontra dificuldades insuperáveis.

Primeiro, uma falha fatal no cenário de Smolin é sua pressuposição de que universos ajustados para produção de buracos negros seriam também ajustados para a produção de estrelas estáveis. Na verdade, o exato oposto é verdadeiro: os mais eficientes geradores de buracos negros seriam os universos que gerassem buracos negros primordiais antes da formação das estrelas, sendo assim universos que pudessem gerar vida seriam capinados pelo cenário cosmológico evolucionário de Smolin. Sendo assim, segue que o cenário de Smolin na verdade tornaria ainda mais improvável a existência de um universo que pudesse gerar vida.

Segundo, especulações sobre universos carregando “bebês universos” via buracos negros contradizem o conhecimento estabelecido da física quântica. A conjectura de que buracos negros podem ser portais de wormholes [14] através dos quais bolhas de energia de falso vácuo podem atravessar para criar novos bebês universos foi o assunto de uma aposta entre Stephen Hawking e John Preskill. Em 2004 Hawking finalmente admitiu, em um evento muito comentando pela imprensa, que ele perdeu. [15] A conjectura exige que a informação trancada em um buraco negro se perdesse completamente e para sempre ao escapar para outro universo. Hawking finalmente veio a concordar que a teoria quântica exige que a informação seja preservada na formação e evaporação de um buraco negro. As implicações? “Não existe universo bebê se ramificando, como eu pensava. A informação permanece firmemente em nosso universo. Sinto muito em desapontar os fãs de ficção científica, mas se a informação é preservada, não existe possibilidade de usar buracos negros para viajar para outros universos”. [16] Isto significa que o cenário de Smolin é fisicamente impossível.

Estes foram os únicos mecanismos sugeridos por Dawkins para a geração de universos ordenados e aleatórios. Nenhum deles é sequer defensável, muito menos simples. Dawkins, portanto, falhou ao devolver a objeção de que a postulação de multiversos ordenados e aleatórios é um “luxo extravagante”.

Outras Objeções ao Multiverso

Mas existem ainda objeções formidáveis para a inferência do multiverso, aparentemente desconhecidas a Dawkins. Primeiro, não há nenhuma evidência independente de que o multiverso exista, muito menos que ele seja aleatoriamente ordenado e infinito. Lembre-se que Borde, Guth e Vilenkin provaram que qualquer universo em um estado de total expansão não pode ter um passado infinito. O teorema deles se aplica ao multiverso também. Portanto, uma vez que o passado do multiverso é finito, apenas um número finito de outros mundos pode ter sido gerado até agora, portanto não há garantias de que um mundo finamente ajustado apareceria no multiverso. Em contraste, nós temos evidências independentes para a existência de um Projetista cósmico, a saber, os outros argumentos para a existência de Deus que nós discutimos. Desta forma, levando tudo isto em consideração, o teísmo é a melhor explicação.

Segundo, se nosso universo é apenas um membro aleatório dentro de um conjunto de universos, então é infinitamente mais provável que nós deveríamos estar observando um universo muito diferente do que o que nós de fato estamos observando. Roger Penrose apresentou esta objeção com força. [17] Ele calculou que é inconcebivelmente mais provável que um sistema solar completo se forme através de colisões aleatórias de partículas do que que um universo finamente ajustado exista. Portanto, se nosso universo fosse apenas um membro aleatório de um multiverso, então é incalculavelmente mais provável que nós estivéssemos observando um universo não mais ordenado do que nosso sistema solar. Ou ainda, se nosso universo fosse um membro qualquer de um multiverso, então nós deveríamos estar observando eventos extraordinários como cavalos vindo a existir através de colisões de partículas aleatórias ou máquinas de movimento perpétuo, uma vez que tais coisas são muito mais prováveis do que todas as constantes e quantidades do universo encaixando como luva, apenas pelo acaso, com os valores infinitesimais que permitem a existência de vida. Universos observáveis como aqueles seriam muito mais comuns no multiverso do que mundos como o nosso, portanto, deveriam ser observados por nós. Nós não temos tais observações, o que refuta fortemente a hipótese do multiverso. No ateísmo, pelo menos, é mais provável que não exista multiverso.

Conclusão

O ajuste fino do universo é, portanto, não ocorre por necessidade física nem acaso. Segue-se, portanto, que o ajuste fino é devido ao design, a não ser que a hipótese do design possa ser demonstrada como ainda mais implausível do que seus adversários.

A Crítica de Dawkins ao Design

Dawkins afirma que a alternativa do design é, na verdade, inferior às hipóteses de multiverso. Sumarizando o que ele chama de “argumento central do meu livro”, ele argumenta,

1. Um dos grandes desafios ao intelecto humano vem sendo explicar de onde vem a aparência complexa e improvável de design no universo.

2. A tentação natural é atribuir a aparência de design e um design verdadeiro.

3. A tentação é falsa, porque a hipótese de que haja um projetista suscita imediatamente o problema maior sobre quem projetou o projetista.

4. O guindaste mais engenhoso e poderoso descoberto até agora é a evolução darwiniana, pela seleção natural.

5. Nós não temos ainda um guindaste equivalente para a física.

6. Nós não podemos perder a esperança de que surja um guindaste melhor na física, algo tão poderoso quanto o darwinismo é para a biologia.

7. Portanto, Deus quase com certeza não existe.

Este argumento é incrível porque a conclusão ateísta, “Portanto, Deus quase com certeza não existe” não segue das seis premissas anteriores mesmo que concedamos que cada uma delas seja verdadeira e justificada. No máximo, a conclusão é que nós não podemos inferir a existência de Deus com base a aparência de design no universo. Mas esta conclusão é bem compatível com a existência de Deus e até mesmo com nossa crença em Deus sendo justificada sobre outras bases. A rejeição do argumento do design para a existência de Deus não faz nada para provar que Deus não existe ou até mesmo que a crença em Deus seja injustificada.

De qualquer forma, o argumento de Dawkins tem êxito em minar a alternativa do design? O passo (5) faz alusão ao ajuste fino cósmico que tem sido o foco de nossa discussão. Dawkins mantém a esperança de que “Algum teoria do tipo da do multiverso pode em princípio fazer pela física o mesmo trabalho explanatório que o darwinismo faz pela biologia”[18]. Mas ele admite que nós não temos isto ainda, mas também não lida com os formidáveis problemas de tal explicação do ajuste fino. Portanto, a esperança expressa no passo (6) representa nada mais do a fé de um naturalista. Dawkins insiste que mesmo na ausência de uma explicação “altamente satisfatória” para o ajuste fino, ainda assim as explicações “relativamente fracas” que temos no momento são “obviamente melhores que a hipótese contraproducente de um projetista inteligente.”[19] Sério? Que objeção tão poderosa à hipótese do design é esta que garante esta obviedade interior para a admitida fraca hipótese do multiverso?

A resposta se encontra no passo (3). A objeção de Dawkins aqui é que nós não estamos justificados em inferir o design como a melhor explicação para a ordem complexa do universo porque senão um problema maior vai surgir: quem projetou o projetista? (Uma vez que Dawkins erroneamente pensa que o multiverso é simples, não ocorreu a ele a questão, “Quem projetou o multiverso?”) Esta questão aparentemente é tão esmagadora que compensa todos os problemas relativos à hipótese do multiverso.

A objeção de Dawkins, entretanto, não possui peso algum por duas razões. Primeiro, a fim de reconhecermos uma explicação como melhor, nós não temos que ter uma explicação para a explicação. Este é um ponto elementar na filosofia da ciência. Se um grupo de arqueólogos encontrar durante suas escavações coisas parecidas com flechas e pontas de cerâmica, eles estarão justificados em inferir que estes artefatos não são fruto do acaso por sedimentação e metamorfoses, mas produtos de algum grupo desconhecido de pessoas, mesmo que eles não tenham a melhor ideia sobre quem estas eram pessoas ou de onde eles vieram. De igual modo, se astronautas descobrirem um maquinário no lado escuro da lua, eles estarão justificados em inferir que isto é produto de agentes inteligentes, mesmo que eles não tenham a menor ideia de quem eram estes agentes ou como eles chegaram lá.

Repetindo: a fim de reconhecer uma explicação como melhor, você não precisa de uma explicação para a explicação. Na verdade, tal exigência nos levaria a um regresso infinito de explicações de forma que nada jamais poderia ser explicado, e a ciência seria destruída! Pois antes de qualquer explicação pudesse ser aceitável, você precisaria de uma explicação para ela, e uma explicação para a explicação da explicação, etc. Nada poderia jamais ser explicado.

Portanto, neste caso, a fim de reconhecer que o design inteligente é a melhor explicação para a aparência de design no universo, você não precisa ter uma explicação para o Projetista. A questão se o Projetista tem ou não uma explicação simplesmente será deixada aberta para investigação futura.

Segundo, Dawkins pensa que no caso do Projetista divino para o universo, o Projetista deve ser tão complexo quanto as coisas que estão sendo explicadas, desta forma nenhum avanço explicativo estaria sendo feito ao se postular o Projetista. Esta objeção dispara todo o tipo de perguntas sobre o papel da simplicidade na avaliação de explicações competitivas. Primeiro, Dawkins parece confundir a simplicidade de uma hipótese com a simplicidade da entidade descrita na hipótese. [20] Postular uma causa complexa para explicar algum efeito ainda pode ser uma hipótese simples, especialmente quando comparada com as hipóteses rivais. Pense, por exemplo, em nossos  arqueólogos postulando um ser humano para explicar as flechas e as pontas de cerâmica descobertas. Um ser humano é uma entidade infinitamente mais complexa do que uma flecha ou que um pedaço de cerâmica, mas a hipótese de um projetista humano é uma explicação muito mais simples. Certamente é mais simples do que a hipótese de que os artefatos tenham sido resultado não intencionado de, digamos, uma debandada de búfalos que arrancou um pedaço de uma rocha que por acaso se lascou no formato de pontas e flechas. O ponto é que é a hipótese rival que está sendo avaliada pelo critério de simplicidade, não as entidades postuladas.

Segundo, existem muitos outros fatores além de simplicidade que os cientistas pesam ao determinar qual hipótese é a melhor, como poder explanatório, escopo explicativo, etc. Uma hipótese que tenha, por exemplo, um escopo explicativo mais amplo pode ser menos simples do que sua hipótese rival, mas ainda assim ser preferida porque explica mais coisas. Simplicidade não é o único critério, e nem mesmo o mais importante para avaliação de teorias!

Mas deixe todos estes problemas de lado, pois o erro doloroso de Dawkins é sua suposição de que um Projetista divino é uma entidade tão complexa quanto o universo. Como uma consciência ou mente pura sem um corpo, Deus é uma entidade notavelmente simples. Uma mente (ou alma) não é um objeto físico composto de partes. Em contraste com o universo contingente e matizado com todas suas quantidades inexplicáveis e constantes, uma mente divina é surpreendentemente simples. Dawkins protesta, “Um Deus capaz de monitorar e controlar permanentemente o status individual de cada partícula do universo não pode ser simples.” [21] Isto é uma confusão. Certamente uma mente pode ter ideias complexas (ela pode pensar, por exemplo, em um cálculo infinitesimal) e pode ser capaz de fazer tarefas complexas (como controlar a trajetória de cada partícula do universo), mas a mente em si mesma é uma entidade incrivelmente simples e não-física. Dawkins evidentemente confundiu as ideias e os efeitos de uma mente, que podem, de fato, ser complexos, com a própria mente, que é uma entidade incrivelmente simples. Portanto, postular uma mente divina por trás do universo, definitivamente, é um avanço em simplicidade, para tudo que vale.

Em seu livro Dawkins de forma triunfante relata como ele apresentou seu suposto argumento destruidor em uma conferência da Fundação Templeton sobre ciência e religião na Universidade de Cambridge, apenas para ser rejeitado pelos outros participantes, que o disseram que os teólogos sempre consideraram que Deus é simples. [45] Eles estavam corretíssimos. De fato, a atitude presunçosa e auto-exaltativa sobre sua objeção equivocada, sustentada até mesmo em face de repetida correção por parte de teólogos e filósofos proeminentes como Richard Swinburne e Keith Ward, é uma maravilha de se ver.

Portanto, das três alternativas diante de nós – necessidade física, acaso ou design – a mais plausível das três, como explicação para o ajuste fino cósmico, é o design. Desta forma, o argumento teleológico continua robusto atualmente, como sempre foi, defendido de várias formas diferentes por filósofos e cientistas como as Robin Collins, John Leslie, Paul Davies, William Dembski, Michael Denton e outros.[23]

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NOTAS

[1] Você pode pensar que se as constantes e quantidades tivessem assumido valores diferentes, então outras formas de vida poderiam ter evoluído sobre outras condições. Mas este não é o caso. Por “vida” os cientistas se referem a aquelas propriedades dos organismos de se alimentar, extrair energia dali, crescer, adaptar-se ao meio ambiente e reproduzir. O ponto é que a fim de que o universo permitisse a existência de vida, qualquer que seja a forma que esta vida possa ter, as constantes e quantidades têm que ter seus valores incomensuravelmente ajustados finamente. Na ausência do ajuste fino, nem mesmo matéria atômica ou química existiriam, para não falar de planetas, onde a vida precisaria evoluir!

[2] Roger Penrose, “Time-Asymmetry and Quantum Gravity,” in Quantum Gravity 2 (ed. C. J. Isham, R. Penrose, and D. W. Sciama; Oxford: Clarendon, 1981), 249.

[3] Dawkins, Deus, um delírio, 196.

[4] Ibid., 197.

[5] Ibid., 199.

[6] Ibid., 197.

[7] Stephen Hawking e Roger Penrose, The Nature of Space and Time (The Isaac Newton Institute Series of Lectures;

Princeton, NJ: Princeton University Press, 1996), 20.

[8] Veja http://map.gsfc.nasa.gov/m_mm/mr_limits.html.

[9] Duane Dicus, et al., Effects of Proton Decay on the Cosmological Future, Astrophysical Journal 252 (1982): 1, 8.

[10] Igor D. Novikov and Yakov B. Zel’dovich, Physical Processes near Cosmological Singularities, Annual Review of

Astronomy and Astrophysics 11 (1973): 401–2.

[11] Joseph Silk, The Big Bang (2d ed.; San Francisco: Freeman, 1989), 311–12.

[12] Christopher Isham, “Creation of the Universe as a Quantum Process,” in Physics, Philosophy and Theology: A

Common Quest for Understanding (ed. R. J. Russell, W. R. Stoeger, and G. V. Coyne; Vatican City: Vatican Observatory,

1988), 378. Isham’s mentioning “continuous creation” is a reference to the defunct Steady State theory.

[13] Dawkins, Deus, um delírio, 197-198.

[14] Em física, um buraco de verme ou buraco de minhoca, é uma característica topológica hipotética do continuum

espaço-tempo, a qual é em essência um “atalho” através do espaço e do tempo. [Nota do Tradutor]

[15] Para um relato de primeira mão, veja no website de John Preskill: http://www.theory.caltech.edu/~preskill/jp_24

jul04.html.

[16] S. W. Hawking, Information Loss in Black Holes, http://arxiv.org/abs/hep-th/0507171 (15 de Setembro de 2005).

[17] Veja Roger Penrose, The Road to Reality (New York: Knopf, 2005), 762–65.

[18] Dawkins, Deus, um delírio, 213.

[19] Ibid.

[20] Veja seus comentários sobre Keith Ward em Deus, um delírio, 202-203. Ward pensa que a hipótese de um projetista cósmico único é simples, mesmo que ele rejeite a noção de que Deus seja simples, no sentido de que ele não tem propriedades distintas.

[21] Dawkins, Deus, um delírio, 202.

[22] Ibid., 204. A simplicidade de Deus até foi construída para representar que ele não tem partes distintas, uma doutrina mais implausível. Mas a simplicidade de uma entidade imaterial não precisa implicar que a entidade não tenha propriedades distintas, como imaterialidade e autoconsciência.

[23] Robin Collins, The Well-Tempered Universe (breve); John Leslie, Universes (London: Routledge, 1989); Paul Davies, Cosmic Jackpot (Boston: Houghton Mifflin, 2007); William Dembski,  The Design Revolution (Downers Grove: IVP, 2004); Michael Denton, Nature’s Destiny: How the Laws of Biology Reveal Purpose in the Universe (New York: Free Press, 1998); Michael Behe, The Edge of Evolution: The Search for the Limits of Darwinism (New York: Free Press, 2007).

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O texto foi traduzido por Eliel Vieira e retirado do site ibpan.com.br