Argumento Moral – William Lane Craig


Um grupo de eticistas como Robert Adams, William Alston, Mark Linville, Paul Copan, John Hare, Stephen Evans e outros tem defendido várias formas de argumentos morais para a existência de Deus. A fim de entender a versão do argumento moral que eu defendo em meu próprio trabalho, é necessário que nós compreendamos duas importantes distinções.

Primeiro, nós devemos distinguir valores morais de deveres morais. Valores têm a ver com algo ser bom ou mau. Deveres têm a ver com algo ser certo ou errado. Você pode estar pensando agora que esta distinção não faz diferença alguma: “bom” e “certo” significam a mesma coisa, e o mesmo ocorre com “mau” e “errado”. Mas se você pensar um pouco verá que este não é o caso. Um dever tem a ver com obrigação moral, o que você deve ou não deve fazer. Mas obviamente você não é moralmente obrigado a fazer alguma coisa apenas porque ela será boa para você. Por exemplo, seria bom para você se tornar um doutor, mas você não está moralmente obrigado a se tornar um doutor. Além do mais, também seria bom a você se tornar um bombeiro ou uma dona de casa ou um diplomata, mas você não pode ser todas estas coisas. Desta forma, existe uma diferença entre bem/mal e certo/errado. Bem/mal tem a ver com valer a pena, enquanto certo/errado tem a ver com obrigação.

Segundo, existe a diferença entre ser objetivo e subjetivo. Por “objetivo” eu quero dizer “independente da opinião das pessoas”. Por “subjetivo” eu quero dizer “dependente da opinião das pessoas”. Desta forma, dizer que existem valores morais objetivos significa dizer que alguma coisa é boa ou má independentemente do que qualquer pessoa pense sobre isto. De forma similar, dizer que temos deveres morais objetivos significa dizer que certas ações são corretas ou erradas a nós a despeito do que as pessoas pensam sobre isto. Assim, por exemplo, dizer que o Holocausto foi objetivamente errado é dizer que ele foi errado mesmo que os nazistas que o levaram a cabo pensassem que aquilo era correto, e que isto continuaria sendo errado mesmo se os nazistas tivessem vencido a II Guerra Mundial e tivessem tido sucesso em exterminar ou fazer lavagem cerebral em todos que discordassem deles para que todos, desta forma, acreditassem que o Holocausto era correto.

Com estas distinções em mente, aqui está um argumento moral simples para a existência de Deus:

1. Se Deus não existe, valores e deveres morais objetivos não existem.

2. Valores e deveres morais objetivos existem.

3. Logo, Deus existe.

Premissas 1 e 2

O que torna este argumento tão convincente não é apenas porque ele é logicamente rígido, mas porque as pessoas geralmente acreditam em ambas as premissas. Em uma era pluralista, as pessoas temem impor seus valores às demais pessoas. Assim a premissa 1 parece ser correta a elas. Valores e deveres morais não são realidades objetivas (isto é, válido e obrigatório independente da opinião humana), mas são meramente opiniões subjetivas impregnadas em nós pela evolução biológica e condicionamentos sociais.

Ao mesmo tempo, entretanto, as pessoas acreditam profundamente que certos valores e deveres morais como tolerância, abertura de mente e amor são objetivamente válidos e obrigatórios. Eles pensam que é objetivamente errado impor seus valores às demais pessoas! Sendo assim, eles estão profundamente compromissados com a premissa 2 também.

A Resposta de Dawkins

Na verdade, o próprio Dawkins parece aceitar as duas premissas! Em relação à premissa 1, Dawkins nos informa que “no fundo não existe design, nem propósito, nem mal, nem bem, nada além de indiferença sem sentido. […] Nós somos máquinas propagando DNA. […] Esta é a única razão de ser de todos os objetos vivos”. Mas embora ele diga que não existe mal, nem bem, nada além de indiferença sem sentido, o fato é que Dawkins é um moralista inflexível. Ele diz que ficou “mortificado” em saber que o executivo da Enron Corporation, Jeff Skilling, considerou o livro O Gene Egoísta de Dawkins como seu livro favorito por causa da sua percepção sobre o Darwinismo Social. Ele caracteriza “equívocos darwinianos” como piedade para com alguém que não poderá nos pagar de volta ou atração sexual por uma pessoa infértil do sexo oposto como “equívocos abençoados e preciosos” e chama compaixão e generosidade de “nobres emoções”. Ele denuncia a doutrina do pecado original como “repulsiva em termos morais”. Ele vigorosamente condena ações como a perseguição e o abuso de homossexuais, a doutrinação infantil de crianças, a prática inca de sacrifício humano, e premia a diversidade cultural sobre os interesses dos filhos dos amish. Ele vai ainda mais longe e oferece seus próprios Dez Mandamentos como guia de comportamento moral, ao mesmo tempo em que estava maravilhosamente esquecido da contradição com seu subjetivismo ético!

Em sua vistoria sobre os argumentos para a existência de Deus, Dawkins toca em um tipo de argumento moral que ele chama de “Argumento de Grau”. Mas ele tem pouca semelhança com o argumento apresentado aqui. Nós não estamos argumentando em graus de bondade até o maior bem, mas da realidade objetiva dos valores e deveres morais até seus fundamentos na realidade. É difícil acreditar que todas as calorosas denúncias e afirmações morais de Dawkins na verdade tendem ser não mais do que sua opinião subjetiva, como se ele sussurrasse com uma piscadinha, “Claro, eu não acho que abuso infantil, homofobia e intolerância religiosa são realmente coisas erradas! Faça o que você quiser – não há diferença moral!”. Mas a afirmação de valores e deveres objetivos é incompatível com seu ateísmo, pois de acordo com o naturalismo nós somos apenas animais, primatas relativamente avançados, e animais não são agentes morais. Afirmando ambas as premissas do argumento moral, Dawkins está, assim, na dor da irracionalidade, comprometido com a conclusão do argumento, a saber, que Deus existe.

O Dilema de Eutifron

Embora Dawkins não levante a objeção seguinte, as pessoas frequentemente a escutam por não-crentes em resposta ao argumento moral. Esta objeção é chamada Dilema de Eutifron, nome de um dos personagens de um diálogo de Platão. Ela basicamente é assim: algo é bom por que Deus assim o quer? Ou Deus o quer porque este algo é bom? Se você disser que alguma coisa é boa porque Deus a quer, então o que é “bom” se torna arbitrário. Deus poderia ter desejado que o ódio fosse bom, e assim nós seríamos moralmente obrigados a odiarmos uns aos outros. Isto parece loucura. Pelo menos alguns valores morais parecem ser necessários. Mas se você disser que Deus quer alguma coisa porque ela é boa, então o que é bom ou mau independe de Deus. Neste caso, valores e deveres morais existiriam independentemente de Deus, o que contradiz a premissa 1.

O ponto fraco do Dilema de Eutifron é que o dilema que ele apresenta é falso porque existe uma terceira alternativa desconsiderada, a saber, Deus deseja algo porque Ele é bom. A própria natureza de Deus é o padrão de bondade, e suas ordens a nós são expressão de sua natureza. Em resumo, nossos deveres morais são determinados pelas ordens de um Deus justo e amoroso.

Desta forma valores morais não são independentes de Deus porque o caráter próprio de Deus define o que é bom. Deus é essencialmente compassivo, justo, bom, imparcial, etc. Sua natureza é o padrão moral que determina o que é certo ou errado. Suas ordens necessariamente refletem sua natureza moral. Portanto, não existe arbitrariedade. O bem/mal moral é determinado pela natureza de Deus, e o certo/errado moral é determinado por sua vontade. Deus quer alguma coisa porque Ele é bom, e algo é correto porque Deus assim o quer.

Esta visão da moralidade tem sido eloquentemente defendida em nossos dias por filósofos bem conhecidos como Robert Adams, William Alston e Philip Quinn. Embora os ateus continuem a atacar o espantalho erigido através do Dilema de Eutifron. No recente Cambridge Companion to Atheism (2007), por exemplo, o artigo sobre Deus e a moralidade, escrito por um proeminente eticista, apresenta e critica apenas a visão de que Deus arbitrariamente criou os valores morais – um espantalho que virtualmente ninguém defende. Os ateus têm de fazer melhor do que isto se eles tentam derrotar os argumentos morais contemporâneos para a existência de Deus.