A diferença que uma letra faz


“Glória a Deus nas maiores alturas, e paz na terra entre os homens de boa vontade” Lucas 2:14 (ARC)

Acho que a maioria de nós já ouvir esse verso na época do Natal: pode ter sido num cartão, numa cantata ou até mesmo em algum comercial de televisão. A verdade é que é um texto bem conhecido até mesmo por quem nunca sequer abriu a Bíblia em sua vida.

Entretanto, outras versões portuguesas lêem o mesmo verso de modo diference, como é o caso da NVI: “Glória a Deus nas alturas, e paz na terra aos homens aos quais ele concede o seu favor” (NVI). Observe que a diferença não é grande, mas a ARC afirma que a paz anunciada pelos anjos é direcionadas aos homens de boa vontade, ao passo que a NVI afirma que a mesma paz é direcionada apenas aos homens a quem Deus estende seu favor.

A diferença entre a ARC e a NVI reside em uma pequena letra no texto grego equivalente à letra “s” em português. No texto grego usado pela ARC (conhecido como Texto Recebido) traz a palavra grega eudokia, enquanto o texto usado pela NVI (conhecido como Texto Crítico) traz eudokias.

O Texto Recebido traz o substantivo no nominativo e por isso traz a força de um substantivo em aposição à sentença “entre os homens“. Ou seja, a paz na terra anunciada pelos anjos é oferecida aos homens, ou seja, àqueles que tem boa vontade.

No Texto Crítico o mesmo substantivo no genitivo e por isso está diretamente ligado ao substantivo homem e oferece a característica do substantivo que modifica. Ou seja, a paz na terra é agora oferecida aos homens que recebem favor de Deus.

A diferença entre as duas palavras é pequena, mas faz bastante diferença. Na primeira leitura a paz é oferecida de modo genérico à humanidade. Na segunda, a paz é restrita e oferecida objetivamente ao homens a quem Deus concede seu favor.

UMA LETRA FAZ MUITA DIFERENÇA. É a diferença entre um copista desatento (que acrescentou ou esqueceu uma pequena letra) e um copista reformado (que incluiu o s).

Nenhuma doutrina essencial é afetada por essa pequena mudança, mas a leitura da ARC poderia reforçar o mandato missionário universal, enquanto a NVI poderia reforçar a evidência bíblica da ação seletiva de Deus.

A diferença é pequena, mas exige uma definição. Qual versão você acredita que Lucas, o autor desse texto usou, nominativo ou genitivo?

O que dizem as evidências?

A evidência externa favorece a leitura com genitivo. Por exemplo, tanto no Sinaítico como no Vaticanus (duas testemunhas antigas), a leitura original [do documento, não do NT] é atestada com genitivo, mas um escriba posterior tentou “corrigir” o texto retirando o sigma no fim da palavra. 

Isso se explica pelo fato de que o genitivo é uma leitura mais difícil que a leitura com nominativo, e apresenta um fato comum na transmissão do texto através do tempo: escribas tem a tendência de facilitar a leitura, ao invés de dificultá-la. É por isso que na transmissão do texto, a maior parte dos manuscritos tem a leitura com nominativo.

A tradução da expressão “καὶ ἐπὶ γῆς εἰρήνη ἐν ἀνθρώποις εὐδοκίας” é relativamente complicada. A frase é introduzida por “epi” com “ges” no genitivo (sobre a terra) e “eirene” no nominativo. Depois temos a preposição “en” que só aceita substantivos no dativo, e por isso “antropós” está no dativo plural. Ou seja, “sobre a terra paz, e entre os homens” alguma coisa. Uma vez que paz está no nominativo e representa aquilo que foi oferecido sobre a terra, era de se esperar o mesmo fenômeno na segunda parte da sentença, ou seja, “eudokia” no nominativo, vertendo o texto: “sobre a terra paz, e entre os homens, boa vontade”.

Calvino objetou o genitivo nessa sentença, por sua má compreensão do genitivo. Para ele, a leitura com genitivo seria: “sobre a terra paz entre os homens de boa vontade“. Considerando que o genitivo possessivo, Calvino rejeitou a leitura por pensar que o texto afirmaria que a paz vira sobre os homens que são bem intencionados, bons ou de boa vontade, uma contradição de Rm.3.10ss. 

Ou seja, a leitura com genitivo é mais complexa que a leitura com nominativo, e explica por que um escriba teria mudado do genitivo para o nominativo. O inverso é bem mais difícil de explicar.

Somados esses dois fatores (antiguidade e dificuldade), a evidência favorece a leitura da NVI. Na quarta edição do texto grego da United Bible Societies (UBS4) a comissão de edição atribuiu à essa leitura uma nota {A} o que significa que para aquele comite, a leitura é dada como certa. Sobre ela o Bruce Metzger escreveu:

” O sentido parece ser, não que a paz divina seja outorgada apenas aos homens entre os quais a boa vontade já está presente, mas que no nascimento do nosso Salvador a paz de Deus repousa sobre aqueles a quem ele escolheu em conformidade com sua boa vontade” (TCNGT, 111).

Como esse texto foi entendido na história da igreja?

Tendo em vista a diferença de opinião sobre a forma desse texto na história da igreja, como os esse texto foi lido por muito tempo com o nominativo, e apenas mais recentemente com o genitivo. Por exemplo, os antigos comentaristas cristãos usaram a leitura com nominativo.

– Calvino (1509-1564) lutou com a tradução desse texto, por que a impressão que ele dá com o nominativo é que o favor de Deus é oferecido a pessoas boas, o que seria uma contradição da sua teologia. Por associar a leitura com o genitivo com a vulgata, ele afirma: “Como essa leitura se infiltrou, eu não sei, mas tenho certeza que deve ser rejeitada por não ser genuína, e por que ela corrompe completamente o sentido” (Calvin, John, Commentary of Luke 2.14). Em sua resposta ele usou a leitura com nominativo para defender sua visão da eleição;

– Johann Albrecht Bengel (1687-1752), um exímio comentarista do grego do NT, entendeu a expressão no nominativo como sendo uma referência a Jesus: “Paz no céu e glória nas aluras. Até então, os homens haviam sido considerados e apresentados de forma desfavorável entre os anjos. Mas agora, vemos uma afirmação de um grande paradoxo: boa vontade entre os homens. O recém-manifesto prazer de Deus [sua favorável inclinação] a toda a raça humana, no Seu Bem-Amado”

– Adam Clarke (1760-1832), que embora tenha sido um Wesleyano (arminiano modificado), lutou para explicar o texto com o nominativo: “Quando o homem é reconciliado com Deus, através da morte do Seu Filho, eles amam uns aos outros. Eles tem paz com Deus, paz com sua consciência e paz com seu próximo: [assim] a boa vontade habita entre eles, se manifesta neles e trabalha por intermédio deles.”

Embora esse autores tenham conclusões distintas, todos eles usaram a versão com o nominativo. Mais recentemente, outros autores usaram o genitivo e apresetaram suas opiniões sem depreciar as escrituras ou a teologia:

– Henry Alford (1810-1871), outro teólogo e crítico textual, mudou de opinião com relação ao uso do nominativo. Em sua primeira edição do livro “The Greek Testament”, ele afirmou que tinha dúvidas com respeito a leitura com genitivo, entretanto, na edição de 1862, ele afirmou que a leitura com genitivo era certa. Na sua interpretação, ele afirmou: “A única leitura admissível é “entre os homens que possuem a boa vontade de Deus”, isto é, ao povo eleito de Deus (veja o genitivo em At.9.15; Col.1.13)”

– A.T. Robertson (1863-1934), autor de uma das mais abrangentes gramáticas de grego, apresenta a existência das duas leituras, as afirma que a leitura com genitivo é indubitavelmente correta. Então ele conclui: “No que se refere a paz real entre os homens, só é possível existir entre aqueles que são objetos da boa vontade de Deus, que são caracterizados pela boa vontade a Deus e aos homens”

– Walvoord and Zuck (1985), apresentam sua preferência pela leitura com genitivo e concluem: “A paz de Deus não é dada àqueles homens de boa vontade, mas àqueles que são recipientes da boa vontade ou favor divino”

Como é claro nos exemplos supracitados, ambas as leituras podem ser usadas se o quesito é apenas o princípio de que as escrituras interpretam as escrituras.

Portanto, podemos perceber que de modo diferente os autores do passado e do presente lutaram para compreender o significado de tal passagem e que a doutrina cristão não é afetada por nenhuma delas. Mais importante, com qualquer uma das leituras é possível afirmar as mesmas doutrinas bíblicas. Entretanto, uma questão final ainda merece ser respondida: Que versão deveria eu usar?

Que versão desse texto devo usar?

Essa é uma pergunta importante e sua resposta é bem simples. De fato, qualquer uma das duas versões podem ser usadas, afinal, se você tem em sua casa um ARC, você sem saber está lendo o texto com o nominativo, mas seu usa uma ARA ou NVI, lê o mesmo texto com o genitivo. Minha preferência e sugestão (eu disse sugestão) é que você se use as versões mais recentes, pois são construídas sobre novas evidências que auxiliam a compreensão do texto original com mais clareza. Calvino, por exemplo, não teve acesso a vasta maioria de manuscritos que hoje temos digitalizados e analisados.

Mas, essa é uma decisão pessoal, e caso você precise de ajuda para entender melhor o dilema, deixe seus comentários que teremos o prazer de auxiliá-lo.

4 comentários sobre “A diferença que uma letra faz

  1. Marcio

    Excelente o comentário, e desnecessário dizer que, segundo o plano geral da Escritura, não há homens de boa vontade, todos estão mortos em seus delitos e pecados. Na verdade, toda interpretação da Escritura passa somente por dois focos: o homem que crê e o homem que Deus escolheu para crer. Quando o Senhor tiver a primazia do começo ao fim em todos os seus planos, a interpretação se fará do princípio correto: a eleição soberana de Deus em todos os seus propósitos, terrenos e celestes.

  2. paulo

    È preciso que se diga,no entanto,que a Biblia,uma vez interpretada,ja não é mais a Palavra de Deus,mas contém a Palavra de Deus. Evidentemente a Palavra de Deus não pode errar, e uma das duas traduções está errada. Entendemos que a Palavra de Deus é o original em grego. A partir daí, podem ocorrer erros.

    1. Paulo,

      Eu acredito que a expressão “uma das duas traduções está errada”, é muito forte. Na verdade, as duas traduções são resultado da tradição manuscrita, e nenhuma delas ofende ou fere a doutrina cristã, ou até mesmo o texto. Entretanto, acredito que apenas uma das duas versões seja original ao texto sagrado, e portanto inspirada. Contudo, isso não implica que os conceitos ensinados pela variante sejam erradas. Talvez possam ser entendidas como um acréscimo, um adendo, um acerto, uma tentativa de clarificar o significado do texto, que embora mude o original, não está em si mesma errada.

      Dá pra perceber a diferença?

      Grande abraço,
      Marcelo Berti

  3. paulo

    Te agradeço pela resposta, ilustre Marcelo.
    Se vocês que estão estudando a Bíblia mais profundamente nos dizem que “nenhuma delas ofende ou fere a doutrina cristã”, eu até acredito. Nos parece, no entanto que a Bíblia é de fato, o original grego, sem críticas. A partir do momento que o ser humano passa a traduzir (realizando uma crítica ao texto original), podem ocorrer erros.
    Esse texto traduzido, na verdade contém a Palavra de Deus, mas não é a Palavra de Deus.
    Eu mesmo possuo uma Bíblia que é cheia de erros. Eles chegaram ao ponto de, na genealogia dos Reis, colocar um pai nascendo depois do filho. Acredito que tenham traduzido de um Pergaminho que continha esse erro.
    Existe, evidentemente, de fato, a Palavra inerrante do Senhor.

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