Não custa nada ser claro


“Maridos, amem suas mulheres” – Efésios 5.25

Em Efésios capítulo 5 encontramos uma das mais importantes passagens no Novo Testamento a respeito do casamento. No verso 25 entretanto, encontramos um dos mais importantes mandamentos para os homens cristãos casados: Eles devem amar suas esposas.

Mas, é interessante notar que o texto grego desse verso traz uma interessante construção: “Oi andres, agapate tas gunaikas” (UBS4). Se traduzido literalmente, palavra por palavra, a frase seria lida assim em português: “Homens, amem as mulheres”, uma vez que tanto o substantivo “andres” quanto o “gunaikós” podem ser entendidos de modo genérico, apenas como homem e mulher.

Entretanto, é evidente pelo contexto que a tradução adequada de ambos os substantivos deve ser marido e esposa. Contudo, uma pergunta ainda é necessária: Onde está no texto grego o termo “sua”? Observe que o texto traz apenas o artigo definido e não o pronome possessivo. Em outras palavras, se lido literalmente respeitando o contexto, o texto seria lido assim: “Maridos, amem as esposas”. É nessa hora que o espertalhão pergunta: “Esposa de quem?“, afinal a sentença em português parece incompleta.

O estudante de grego desavisado poderia encontrar nesse texto, quem sabe, uma sugestão à poligamia, ou alguma outra perversão do casamento. Porém, é importante lembrar que no grego koinê não é incomum os autores usarem o artigo definido como pronome possessivo. Veja por exemplo o caso de Mateus 8.3: “Jesus estendeu a mão, tocou nele” (NVI). O texto grego aqui segue a mesma estrutura de Efésios 5.25, e usa apenas o artigo definido para apresentar a mão que é estendida. Nesse caso fica evidente que a mão que Jesus estendeu foi sua própria mão. O sentido possessivo é mais claramente percebida na sentença grega que na tradução em português, mas foi o suficiente para a NETBible clarificar incluindo o pronome possessivo nos dois textos (veja outros exemplos de artigo como pronome possessivo em: Mat.4.20; 13.36; 27.24; Mar.1.41; 7.32; Rom.7.25; Fp.1.7).

MAS, NÃO CUSTA NADA SER CLARO. É interessante que na transmissão histórica desse texto em suas diferentes variantes, apresenta algumas leituras alternativas que parecem bem interessantes.

Na conhecida Vulgata Clementina, uma versão em latim do texto texto grego, encontramos o texto do seguinte modo: “Viri, diligite uxores vestras“. Para facilitar o entendimento do texto, seu autor incluiu o termo “vestras” (pt. vossas) para auxiliar os espertalhões do passado a corretamente lerem o texto das escrituras. Essa versão foi provavelmente influenciada pela antiga Latina (manuscritos em latim anteriores ao quarto século) que também usavam o mesmo recurso para clarificação.

O mesmo aconteceu com a versão siríaca do Novo Testamento, normalmente datada no quinto século, e com vários outros documentos antigos. Mas interessante do que isso, é que com o passar do tempo a mesma necessidade de clarificação passou a ser percebida no manuscritos gregos do livro de Efésios, com duas diferentes alterações tentando “facilitar” a leitura das escrituras.

A primeira alteração histórica conhecida nesse texto é primeiramente encontrada no documento D (um antigo manuscrito escrito apenas em letras maiúsculas), também conhecido como Códice Claramontano do sexto século. Nele o copista incluiu o pronome grego “eautou” no verso, o que faria que o texto fosse lido: “Maridos, amem suas próprias esposas”, reforçando e clarificando o sentido do texto.

Essa inclusão foi tão bem recebida que passou a ser parte de boa parte dos manuscritos ocidentais, vindo a ser considerada como a leitura original do texto no “The New Testament in the Original Greek Byzantine Text Form” editado por Maurice A. Robinson e William G. Pierpont em 2005, sem contar que é a versão encontrada no Textus Receptus.

Um segunda alteração, menos significante para o estudo da crítica textual, mais interessante para o propósito da clarificação, também foi encontrada no documento F, também conhecido como Códice Augiensis e normalmente datado no nono século. Nesse documento o escriba inseriu o pronome “humon“, fazendo com o texto fosse lido: “Maridos, amem suas esposas”. Observe que a alteração apenas clarifica o que o texto grego originalmente já dizia e não faz qualquer diferença na tradução para o português. Entretanto, tal alteração foi necessária para clarificar o texto grego para àqueles que liam em grego.

Para nós que lemos o texto em português, nenhuma dessas alterações parecem necessárias, pois felizmente o português comporta facilmente o sentido expresso por Paulo, de que cada marido ame sua esposa como Cristo amou a igreja. Mas, por outro lado, para aqueles que precisam dessa “ajudinha”, não custa nada ser claro!