Perigos na Interpretação


Recentemente escrevi um artigo que chamou a atenção de muitas pessoas por seu conteúdo relativamente polêmico. No post O Papa, Pedro e a Pedra apresentei minha preferência na interpretação do texto de Mateus 16.18, e afirmei que a pedra referida por Cristo naquela passagem, refere-se a Pedro, e não à confissão de Pedro ou a Jesus Cristo. Por ser conhecida como uma interpretação oferecida pelos Católicos, recebi algumas reações à minha proposta de interpretação, afirmando que teria violado o texto, rasgado as escrituras e inserido nas escrituras uma terrível heresia.

O fundamento de tal afirmação é que eu teria interpretado o verso e esquecido do resto das escrituras que apontam para Cristo como o fundamento da igreja (um perigo real e comum que deve ser evitado). Em outras palavras, o equívoco residia na aplicação dos princípios da hermenêutica. Embora tenha completa consciência de como o tema é polêmico e que as opiniões nesse texto são historicamente divergentes, acredito que a interpretação natural do texto é que Pedro é a Pedra (para mais informações, leia o artigo).

Entretanto, aqueles que se opuseram a minha interpretação, apresentaram princípios hermenêuticos que teria violado, o que me faz escrever esse post sobre perigos na interpretação. Usando o texto de Mat.16.18 (e outros exemplos), vou apresentar alguns dos equívocos que normalmente se comete (eu mesmo já cometi) e que fazem muita diferença na interpretação de textos mais difíceis.

A. A confusão entre “regra” e “princípio”

Uma confusão recorrente nos argumentos teológicos, especialmente na internet, é que existem regras hermenêuticas que determinam qual tal interpretação não é possível. Por exemplo, afirmar que Pedro é a pedra em Mat.16.18 é errado por que diante do todo das escritura Cristo é o fundamento da igreja. Logo, a pedra tem que ser Cristo.

Nesse exemplo, o argumento é baseado em um princípio hermenêutico válido, mas usado de modo equivocado. O princípio é: A interpretação da parte deve se conformar com o a informação do todo. Ou seja, em textos mais obscuros a claridade de textos mais claros serve para iluminar o texto a ser interpretado. Entretanto, isso é um princípio hermenêutico, não uma regra hermenêutica, como muitas vezes é aplicado.

A diferença é simples: A regra é fixa, o princípio é flexível. Em outras palavras, a regra delimita, o princípio delineia. Princípios hermenêuticos não foram estabelecidos como regras fixas de um jogo, foram estabelecidas como guias na interpretação, e transformá-los em regras é atribuir uma função para o qual não foram desenhadas. O resultado disso pode ser desastroso.

Por exemplo, algumas pessoas usando esse princípio como regra, fazem com que o TODO da escritura seja SOBREPOSTO sobre a parte interpretada. Inconscientes do que estão fazendo, eles inserem sua visão pessoal do todo, sobre o texto que querem interpretar e inserem sobre o texto suas perspectivas pessoais. Ou seja, o texto (parte)  não pode acrescentar nada ao todo da escritura. Em outras palavras, na tentativa de fazer exegese, fazem eisegese. Em nosso exemplo, o princípio é válido, mas não sua aplicação.

Entretanto, considerando que o princípio é válido, como podemos entender o fato de que Pedro é a pedra, diante da afirmação da escritura de que Cristo é o fundamento da igreja? Para responder a essa pergunta, você terá que ler o artigo.

B. Afirmação múltipla

Afirmação múltipla não é exatamente um princípio hermenêutico, mas é usado como tal muitos como critério para a afirmação da verdade de um determinado texto. Por exemplo, argumentando contra a ideia de que Pedro é a pedra em Mat.16.18, alguém me escreveu:

Se Pedro é de fato a pedra de fundamento da igreja, é só mostrar outra referência que comprove (…) quanto a CRISTO, em todas as passagens a igreja é edificada sobre ELE não sobre pedro. JESUS como resposta sai ganhando

Para essa pessoa, um conceito bíblico só pode ser considerado válido se for apresentado diversas vezes na escritura. Aliás, é como uma corrida, a interpretação com mais afirmações encontradas em outros textos nas escrituras sai na frente. O problema desse princípio hermenêutico é que ele está errado: Quantas vezes um conceito um conceito precisa ser dito para ser teologicamente verdadeiro? Basta ser dito uma única vez na escritura e ele será verdadeiro. Diferente da mentira, a verdade é verdade, independente de quantas vezes seja dito.

Se usarmos esse suposto princípio hermenêutico para interpretarmos as escrituras, nós vamos ter que deixar de lado verdades importantes que são apresentadas apenas uma única vez, como por exemplo a relação da ressurreição de Cristo e nossa justificação (Rm.4.25), a disputa do arcanjo Miguel com o Diabo a respeito do corpo de Moisés (Jd.1.9), a auto-existência de Cristo (João 5.26), a identificação de Cristo com YHWH, nos lábios de Cristo (Jo.10.31) ou que Pedro é chamado de pedra (Mat.16.18), como você poderá ver no artigo já citado (acho que você terá que ler o artigo para entender).

C. Atestação múltipla

Atestação múltipla é um dos cânones da determinação de autenticidade ou historicidade de eventos relacionados a Vida de Cristo. Diante desse princípio, para ser histórico, um evento precisa ser registrado em mais de um evangelho. Esse cânone é usado por historiadores para determinar quais eventos na vida de Cristo tem mais chance de serem históricos. Eventualmente, esse princípio é eventualmente usado erroneamente para determinar a não-historicidade de um evento. Por exemplo, se apenas um evangelho apresenta um evento da vida de Cristo ele é provavelmente uma reconstrução da igreja primitiva sobre quem eles pensavam ser Jesus, mas não reflete um evento histórico.

Entretanto, esse conceito foi ajustado por alguns intérpretes (especialmente os da internet) e passou a significar atestação de importância. Observe essa afirmação sobre minha interpretação em Mat.16.18 sobre ser Pedro a pedra:

A importância se estabelece no fato de que o diálogo foi tratado em todos os evangelhos, mas em todos os outros a parte que vc lê como de maior importância foi desconsiderada. Aqui fica claro que toda a importância que vc dá com sua leitura não era nada importante para os escritores

Em outras palavras, esse intérprete está tentando favorecer sua leitura por atribuir pouca importância ao texto de Mateus em relação aos outros evangelistas. Sobre essa opinião, devemos apresentar três fatos:

(1) O intérprete sabiamente aponta que existe diferença entre os relatos dos evangelhos sinóticos, o que é verdadeiro. Marcos menciona a pergunta de Cristo, a resposta de Pedro (Tu és o Cristo) e então adverte os discípulos para que não falem sobre o assunto (Mc.8.27-30). Em Lucas o cenário é bem similar com o apresentado em Marcos, exceto que a confissão de Pedro é um pouco diferente (O Cristo de Deus – Lc.9.18-21). Apenas Mateus apresenta a resposta de Cristo a Pedro e a promessa de que receberia as chaves e teria autoridade para ligar na terra o que teria sido ligado no céu, além da frase “Tu és Pedro, e sobre esta pedra eu edificarei a minha igreja” (Mat.16.13-20).

(2) O intérprete equivocadamente atribui menor importância ao texto de Mateus por ser o único evangelho que apresenta o evento. Sem poder assumir com os Liberais que tal texto é uma falsificação da igreja primitiva, ele precisa desvalorizar um texto das escrituras para valorizar suas convicções. Na opinião desse intérprete, a inspiração atribui valores diferentes para diferentes conceitos ou eventos pela apresentação repetida dos mesmos. Nesse caso, o grau de importância de um texto depende da quantidade de vezes que o mesmo conceito apresentado em outros textos da escritura.

Agora, se esse princípio interpretativo é válido, o que aconteceria com as ocasiões de informações exclusivas dos evangelhos? Será que são todos casos de menor importância, como esse intérprete quer sugerir? Vamos observar alguns exemplos.

No evangelho de João não encontramos a grande comissão (será que ele achava que não era importante?), em Mateus não encontramos a ascensão de Cristo (será que não era importante?), em Lucas não encontramos o conceito da pré-existência de Cristo (será que não era importante?) e em Marcos, se o livro acaba no verso 8 do capítulo 16, como é bem provável, o autor não inclui o encontro de Cristo com os discípulos após a morte, nem a Grande comissão nem sua ascensão.  Somente João diz que Tomé chamou Jesus de Deus (será que os outros evangelistas acharam que isso não era importante), somente em Mateus Jesus ensina sobre a disciplina na igreja, somente Marcos fala que Jesus curou um cego cuspindo em seus olhos, somente Lucas apresenta detalhes da infância de Cristo e diversos dos acontecimentos relacionados ao nascimento de Jesus e João Batista. Será que os outros evangelistas não acharam importante mencionar detalhes tão cruciais como esses? É claro que não, mas eles tiveram razão para incluir e excluir informações referentes a vida de Cristo (Lembre de João 21.25). Se tratarmos da diferença entres os evangelhos como uma questão de importância, nós seremos obrigados a recortar os evangelhos e atribuir maior valor somente para os eventos repetidos. Esse princípio não é apenas errado, é nocivo.

(3) O intérprete, na intenção de valorizar sua opinião, não atenta para o fato que conceitos singulares são extremamente importantes para a Teologia do NT. Como é normalmente aceito, Marcos escreveu seu evangelho antes de Mateus e Lucas, e os mesmos usaram do evangelho de Marcos para escrever seus evangelhos, sem entretanto consultarem um ao outro. A pergunta que deve-se fazer então é: Por que Marcos não incluiu a resposta de Cristo a Pedro?

A história da Igreja sempre atribuiu ao evangelho de Marcos à autoridade de Pedro,  por ter sido o apostolo por trás da narrativa. De acordo com os antigos Pais da Igreja, Marcos escreveu um evangelho a partir das pregações de Pedro. Ou seja, por não ser uma testemunha ocular, as informações apresentadas no evangelho eram dependentes da afirmação de uma testemunha ocular, o próprio Pedro. E de modo interessante, o evangelho de Marcos apresenta os fracassos de Pedro, mas não alguns dos seus “sucessos”, como por exemplo o fato de que ele andou sobre as águas (Mt.14.28-33), o milagre do pagamento do imposto do templo (Mt.17.24-27) ou a resposta de Cristo deu à sua declaração de que Ele era o Cristo (Mt.16.13-20).

Entretanto, o evangelho de Marcos também apresenta com detalhes claro os erros de Pedro, como sua repreensão a Jesus (8:33), a sua sugestão de morar com Moisés e Elias na montanha (9:2), a sua ignorância (9:3), sua auto-suficiente personalidade (14:29), a sua falta de resistência em oração (14:37), suas atitudes negligentes em relação ao julgamento de Cristo (14:54) e sua negação de Jesus (14:66-72). Essa inclusão de falhas, e exclusão de pontos altos de sua vida, sugere que Pedro teria selecionado suas histórias com Jesus e as apresentou evitando chamar a atenção para si mesmo, mostrando suas falhas como um discípulo e sua crença pessoal em Jesus Cristo como o Messias ressuscitado, como seria esperado numa pregação pessoal.

A próxima pergunta a ser feita, é por que Lucas não teria incluído o detalhe da resposta de Cristo a Pedro essa história? Provavelmente, as fontes de pesquisa de Lucas (Lc.1.1-4) não incluíam esse detalhe. Como já mencionamos, Lucas teria usado o evangelho de Marcos como fonte de pesquisa, somado a um documento de ditos de Cristo chamado Q (quelle em alemão significa fonte). Por não ter sido uma testemunha ocular do evento, Lucas reproduziu fielmente aquilo que recebeu diante da pesquisa que fez.

Mas, Mateus era um discípulo de Cristo e teria em mãos o evangelho escrito por Marcos com as histórias de Pedro. Ele também era uma testemunha ocular e presenciou o evento no qual Jesus responde a Pedro o chamando de pedra (segundo nossa interpretação). Mateus provavelmente incluiu exatamente por que Marcos não apresentou o evento. O evento era por demais significante para ser deixado de lado. O fato de ser incluído em apenas um evangelho reforça a importância do evento para a compreensão do conceito. E mais, o único evangelho que inclui a igreja (por duas vezes) é o evangelho de Mateus, o que sugere que esse era um tema importante para ser apresentado em seu evangelho, reforçando a importância desse evento.

Ou seja, ao contrário do que pensa tal intérprete, eventos singulares apresentado nos evangelho são tão inspirados e importantes para a teologia do NT como os que não o são. Em alguns casos, eventos singulares acrescentam conceitos não apresentados em outros evangelhos, e por isso, são fundamentais para a compreensão da história de Cristo. Essa é a visão que tenho sobre a resposta de Cristo a Pedro o chamando de pedra. Mas, o que isso significa? Para responder a pergunta, você terá que ler o artigo.

D. Valorização pressuposta

O último equívoco de interpretação que gostaria de mencionar nesse post, é o mais comum dos equívocos de interpretação: A valorização pressuposta de determinados versículos em detrimento de outros. Se você já participou de fóruns de debate na internet sobre predestinação e livre-arbítrio, você já ouviu esse tipo de argumento. Os favoráveis para o livre-arbítrio usarão 1Pe.1.2 (entre vários outros), ao passo que os favoráveis a predestinação usarão Rom.9 (entre muitos outros). Cada grupo seleciona um grupo seleto de versos que entender ser o modo de interpretação do resto da escritura. Os defensores da predestinação lerão 1Pe.1.2 sob a regente determinação de Rom.9, já os defensores do livre-arbítrio lerão Rom.9 à luz da presciência de Deus em 1Pe.1.2, e assim por diante.

Ao fazer isso, nós determinamos quais são os versos fundamentais para nossa teologia e lemos outros versos que aparentemente reagem à nossa opinião dentro do conceito pressuposto nos versos que apreciamos. Isso chama-se valorização pressuposta de um verso em detrimento de outro. Todos nós estamos sujeitos a esse erro, por que nossas ideias são muito importantes para nós e eventualmente preferimos nossas opiniões à revelação de Deus. Eu mesmo já cometi esse tipo de erro, e provavelmente o farei novamente no futuro. Entretanto, no meu zelo pelas escrituras luto contra minhas tendências pessoais para permitir ao máximo que as escrituras falem acima das minhas convicções.

No diálogo sobre Mat.16.18, alguém sugeriu que esse era exatamente meu problema: Eu super-valorizei esse verso em detrimento de 1Cor.3.10, que diz explicitamente que o fundamento da igreja é Cristo, e portanto, Pedro não pode ser a pedra. Ou que teria desvalorizado 1Pe.2.4-10 no qual o próprio Pedro afirma que Cristo é a pedra. Em resposta ao nosso amigo intérprete, afirmei ele fazia o mesmo contra Mat.16.18, ele super-valorizou 1Cor.3.10, Ef.2.20 e 1Pe.2.4-10 e importou conceitos de outros lugares do NT e os inseriu no texto. Nesse caso, quem tem razão? Quem é que está valorizando um verso em detrimento dos outros?

O único modo de responder a essa pergunta é interpretando 1Cor.3.10, Ef.2.20 e 1Pe.2.4-10 e verificar se esses textos podem determinar a leitura de Mat.16.18. Entretanto, diferente do meu acusador, eu entendo esses textos como complementares e não como delimitadores da interpretação de Mat.16.18, por que acredito que inserir o significado de um texto em outro, é realizar a eisegese. Fazer isso é impor ao texto seu significado ao invés de retirar do texto seu sentido. Ou seja, o argumento “o texto A não pode significar X por que o texto B afirma Y” é uma forma de determinar o sentido de um texto a parte do próprio verso. É o mais recorrente modo de eisegese nos diálogos teológicos da internet (uma pena).

Meu ponto é esse: Se esses texto forem lidos em seus contextos eles não se contradizem, pois eles tratam de assuntos diferentes por meio de linguagem similar. Esse argumento já foi usado no artigo (se você quiser mais informações, leia o ponto 4), e portanto serei breve aqui [1].

Observe que em 1Cor Cristo é o fundamento e que em Ef. os apóstolos são o fundamento. Em Mat. Cristo é o edificador, em 1Cor. Paulo, Apolo e os cristãos são os construtores. Em 1Pe. Pedro usa o termo pedra para Cristo, em Mat. Cristo usa o termo pedra para Pedro. Se assumirmos que todos esses textos falam sobre o mesmo assunto, vamos ter dificuldades em entender o que as escrituras falam sobre o assunto. A melhor proposta, entretanto, é entender que os autores neotestamentários enfatizaram verdade específicas em contextos específicos para ensinarem assuntos específicos. Ou seja, se lidos em seus contextos, os textos não se contradizem, se complementam.

Conclusão

Diante da exposição de quatro equívocos de interpretação relacionados ao sentido de Mat.16.18, reafirmamos ser Pedro a pedra e que tal conclusão não contradiz a escritura. Ao contrário, acredito que tal interpretação acresce sentido à percepção do papel apostólico na igreja primitiva e se harmoniza com a evidência apresentada nas escrituras.

Também lembramos que a interpretação de Mat.16.18 é controvertida e que grandes homens de Deus discordam da nossa interpretação. Entretanto, não encontramos quem o faça usando os três primeiros equívocos apresentados nesse texto. Normalmente (na opinião deste autor), aqueles que diferem da nossa opinião caem no quarto equívoco interpretativo apresentado em nosso texto (para verificar isso, convido o leitor a procurar outros comentaristas e verificar por si mesmo).

Aqueles que gostariam da versão resumida do texto sobre Pedro e a pedra, por favor, clique nesse link.

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Notas

[1] Para aqueles que gostariam de mais informações, abaixo segue nossa interpretação dos outros textos usados para a compreensão de Mat.16.18:

Sobre 1Cor.3.10, acredito que Paulo está falando de Cristo como fundamento para o ministerio, não da igreja em si. Observe que Paulo escreve por um problema de divisão na igreja (v.1-4), pois a igreja fazia diferença entre proposta ministerial (uns se identificavam com Paulo, outros com Apolo)

Para explicar a irrazoabilidade da divisão no corpo de Cristo, Paulo afirma que no Corpo de Cristo (a metáfora que ele explica a partir do capítulo 11, na qual Cristo é o Cabeça e não o pé que sustenta o corpo), os apóstolos tem funções diferentes, na qual ele é quem plantou a igreja e Apolo a regou (v.5-6). Nesse texto, Paulo usa uma metáfora importada da botânica para explicar o ministério. Mas, o interessante é que nessa metáfora é Deus quem faz crescer e que Paulo e Apolo são cooperadores com Deus no ministério (v.9), o que faz a divisão da igreja sem sentido.

Paulo também muda a metáfora da botânica para da edificação. Aquele que plantou a igreja, é agora chamado de prudente construtor que estabelece que o fundamento da igreja é Cristo. Observe, o contexto é ministerial e não ontológico, pois se o segundo é verdadeiro, que autoridade Paulo teria para dizer para Jesus qual era o seu lugar na Igreja que pertence a Ele? O ponto de Paulo é que a divisão não faz sentido, por serem Paulo e Apolo instrumentos de Deus que edificam a igreja sobre Jesus Cristo.

A grande pergunta é o que significa assumir que Cristo é o fundamento ministerial da igreja. Paulo está falando que a pessoa de Cristo é fundamento da igreja, ou o evangelho de Cristo? Observe que o contexto de 1Cor. enfatiza largamente a prioridade do evangelho de Cristo na Igreja (1Cor.1.1-2; 5-9; 18-31; 2.1.1-2; 3-10; 12; 3.5-8). A mensagem do evangelho é o fundamento ministerial da Igreja, é por isso que Paulo é um prudente construtor e estabeleceu que na Igreja de Corinto, ele se faria conhecer a Cristo, e Cristo crucificado.

Para encerrar sua metáfora (3.12-15), Paulo conclama a Igreja de Corinto a construir sobre o fundamento com prudência. Ele transfere a responsabilidade a edificação da igreja para os membros da igreja, independente de preferirem seja Paulo ou Apolo. Mas essa edificação só pode acontecer se eles estiverem construindo sobre o Evangelho, pois se o evangelho for removido, o que se constrói não pode ser chamado de igreja.

Em outras palavras, se 1Cor.3.10 for interpretado no seu contexto, e não exportado de modo pressuposto para Mat.16.18, os textos não se contradizem, eles se completam.

Sobre Ef.2.20, acredito que Paulo está falando sobre o fundamento doutrinário da igreja. O texto diz que a igreja foi construída sobre o fundamento dos “apóstolos e profetas” e que Cristo é a pedra de esquina. Esse verso está em completa consonância com Mat.16.18 que afirma que Pedro é a pedra sobre a qual Ele irá construir a igreja. Observe o contexto de At.2, e verifique que a pregação de Pedro é toda relacionada a pessoa de Cristo e que no verso 42 a igreja perseverava no ensino dos apóstolos. Observe também que nesse texto, Cristo é a pedra de esquina e não o fundamento (outra metáfora).

Sobre 1Pe.2.4-10, acredito que o assunto é a vida da igreja e o crescimento à maturidade do cristão. A primeira observação que fazemos é que Cristo aqui é apresentado como λίθον ζῶντα, ou seja, uma pedra viva, e que nós somos λίθοι ζῶντες, pedras que vivem. Embora a analogia seja de uma edificação, Pedro enfatiza muito mais o conceito orgânico da igreja que sua construção histórica. Apenas essa distinção já nos apresenta a diferença de assuntos na qual a metáfora é usada. Em segundo lugar, o contexto de 1Pe.2 fala sobre o desenvolvimento rumo a maturidade de cristãos que ainda estão se alimentando do leite espiritual (outra metáfora). Ou seja, em nenhum momento existe nesse texto a intenção de clarificar aquilo que o Senhor teria dito a Pedro em Mat.16.18.

“A objeção de que Pedro considera Jesus como a pedra é sem substância, por que metáforas são comumente utilizadas em diferentes sentidos (…) Aqui [Mat.16.18] Jesus é quem edifica a igreja; em 1Cor.3.10 Paulo é o astuto construtor. Em 1Cor.3.11, Jesus é o fundamento da igreja, em Efésios 2.19-20, os apóstolos e profetas o são (cf.ap.21.14), e Jesus a pedra angular. Aqui Pedro tem as chaves, em Ap.1.18, 3,7, Jesus tem as chaves . Em João 9.5 Jesus é a luz do mundo, em Mateus 5.14 os seus discípulos a são. Nenhuma dessas analogias ameaçam a singularidade de Cristo [em relação à Sua igreja]. Elas apenas apresenta como metáforas devem ser interpretadas primeiramente em referência ao seu contexto imediato“ (D. A. Carson, “Matthew,” in Expositor’s Bible Commentary, ed. Frank E. Gaebelein, J. D. Douglas, and Walter Kaiser, vol. 8 [Grand Rapids: Zondervan, 1984], 368).

Em outras palavras estamos defendendo que por meio de metáforas diferentes, os autores neotestamentários enfatizam verdade específicas em contextos específicos para ensinarem assuntos específicos. Também afirmamos que, se lidos em seus contextos, os textos não se contradizem, se complementam.