Sobre essa pedra


E eu lhe digo que você é Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do Hades não poderão vencê-la – Mateus 16:18

Com a recente mudança na direção da igreja católica, novamente as questões relacionadas a interpretação de Mateus 16.18 veem à tona: Quem ou o que é a pedra na qual Jesus pretende construir sua igreja? Seria uma referência ao apóstolo Pedro ou a Jesus Cristo? Se Pedro é a Pedra é ele o Papa? Afinal de contas quem é a pedra mencionada nesse texto? E o que essa expressão significa?

A interpretação desse texto tem sido alvo de avaliações e reavaliações durante a história da igreja, e duas categorias principais insurgem nessa busca pela correta compreensão do texto. A primeira interpretação é conhecida por meio da Igreja Católica, que afirma que Cristo afirma com esse texto que Pedro é a rocha sobre a qual Jesus iria construir sua igreja. Assim esse texto afirmaria a base para o Papado Petrino e como parte da argumentação para sua sucessão papal. A segunda interpretação é conhecida como a interpretação Protestante, que rejeita a ideia de um Papado de Pedro como o cabeça da igreja e portanto a sucessão papal decorrente dela. Duas diferentes opiniões protestantes são conhecidas: (1) A confissão de Pedro (Tú és o Cristo o Filho do Deus vivo) é a pedra, ou então, (2) O próprio Cristo é a pedra sobre a qual a igreja é edificada.

A. Pedro é a pedra

Considerada como uma das mais antigas interpretações desse texto, essa opção foi defendida por Tertuliano (160-220) (Prescription Against Heretics, On Monogamy 8), Gergório de Nissa (330-395) (The Faith of Catholics: Confirmed by Scripture and Attested by the Fathers of the First Five Centuries of the Church, vol. 2 (New York: Fr. Pustet, 1885), 21), entre outros Pais da Igreja. Entretanto, isso não significa que eles entendessem o texto como uma afirmação de Pedro como o primeiro Papa, mas como aquele que fora abençoado por Cristo. O conceito da primazia de Pedro como o chefe da igreja, demorou certo tempo para ser desenvolvido, e Jerônimo (342-420) atribui as implicações do texto de Mateus 16.18 ao então bispo de Roma, pois para ele o “papado” é uma instituição estabelecida por Cristo, de modo que os sucessores de Pedro herdam sua autoridade. Entretanto, o termo “papa” ainda não continha o conceito do supremo bispo de Roma, como se entende nos nossos dias. Nesse período, o termo ainda era usado para descrever um bispo exemplar. G.Joyce esclarece:

“O título ‘papa’ foi aplicado, como já dito, como mais latitude por um período. No oriente foi usado para descrever meros clérigos. Na igreja do ociedental, ao que tudo indica, desde o início foi de uso restrito para bispos (Tertuliano, On Modesty, 13). Também parece que que a partir do quarto século o termo começou a ser usado de modo distintivo como título para o pontífice de Roma. O Papa Siricius (398) parece ter usado o termo desse modo (Ep. vi in P.L., XIII, 1164) e Enódio de Pávia (473) o emprega de modo mais claro, com esse sentido, na catar ao Papa Símaco (P.L., LXIII, 69). Entretanto, apenas no sétimo século São Gall (640) foi endereçado por Desidério de Caor como ‘papa’ (P.L., LXXXVII, 265). Finalmente, Gregório VII declarou que o termo deveria ser apenas aplicado aos sucessores de Pedro”

(Joyce, G. (1911). The Pope. In The Catholic Encyclopedia. New York: Robert Appleton Company. Retrieved March 16, 2013 from New Advent:http://www.newadvent.org/cathen/12260a.htm)

Também é importante lembrar que o primeiro bispo a usar esse texto para validar seu ministério foi o Papa Calisto I (217-222), que foi veementemente repreendido por Tertuliano (On Modesty 21), por usar o texto indevidamente. O Papa Dâmaso I (305-384) parece ter sido o primeiro a afirmar e validar a autoridade de Pedro na sucessão de bispos na cátedra petrina (Decree of Damasus 3). Entretanto, somente com o Papa Leão I (440-461) o termo Papa foi usado no sentido moderno.  De acordo com Gonzales, o Papa Leão o Grande “estava convicto que Jesus tinha feito Pedro e seus sucessores a rocha sobre a qual ele iria construir a igreja, e que, por conseguinte, o bispo de Roma, o sucessor direto de Pedro, seria o cabeça da igreja. Portanto, nos escritos do Leão I é que encontramos todos os argumentos tradicionais que repetidos e agrupados em favor da autoridade papal” (Justo Gonzales, The Early Church, p.244). É com essa confiança que o mesmo declarou:

“A dispensação de verdade, portanto, permanece o bem-aventurado Pedro perseverante na força da pedra [o ofício], que ele recebeu não abandonou, o comando da igreja que ele empreendeu. Por que ele foi ordenado antes de todos de tal forma que foi ele mesmo chamado de pedra (…) podemos conhecer a natureza de sua associação com Cristo. E ainda hoje ele mais plena e efetivamente executa o que é que lhe foi confiada e realiza toda a parte do seu dever e carga nele e com ele, e por quem ele foi glorificado. E assim, se alguma coisa é justamente feita e é justamente decretada por nós, se nada está ganho da misericórdia de Deus por nossa súplica diária, é o seu trabalho e mérito em cujo poder e autoridade prevalece na Sé”

(Sermon 3)

Depois de Leão I, a interpretação de que o ofício de Pedro era a pedra, e não propriamente Pedro, foi paulatinamente tomando fora e lugar, mas só foi outorgada como uso exclusivo em referência ao Bispo de Roma pelo Papa Gregório VII (1020-1085) (J.Van Engen, “Papacy”, IN: Walter A. Elwell, Evangelical Dictionary of Theology, second edition, pp.888). Essa é a interpretação mantida pela igreja católica até os dias de hoje (cf. Joyce, G. (1911). The Pope. In The Catholic Encyclopedia. New York: Robert Appleton Company. Retrieved March 21, 2013 from New Advent:http://www.newadvent.org/cathen/12260a.htm)

B. A pedra é Cristo

Conhecida como uma interpretação protestante em nossos dias, essa opção foi apresentada por Eusébio de Cesaréia (260-340) (Commentary on Psalm 17), Cirilo de Jerusalém (313-386) (Catechetical Lectures 18.25) e Agostinho de Hipona (354-430) (Retractations 20). Embora defendesse a sucessão apostólica na Igreja (Letters of St. Augustine 53.2), Agostinho entendia que a interpretação do texto de Mateus deveria ser que Cristo é de fato a pedra fundamental da igreja:

“Petra [gr. para pedra] não é derivado de Pedro, mas Pedro de petra, do mesmo modo que Cristo não é chamado em função dos cristãos, mas os cristãos por causa de Cristo (…) Portanto, a pedra era Cristo, e sobre esse fundamento o próprio Pedro foi edificado. Por que ninguém pode lançar outro fundamento além do que já está posto, que é Jesus Cristo”

(On The Gospel of John Tractate 124.5).

Paralelos bíblicos para isso não faltam (1Cor.3.11; Ef.2.20-21; 1Pe.2.4-8). Sobre essa visão, Shepard afirma: “Sobre a rocha do caráter messiânico e da divina natureza de Cristo pessoalmente encarnado, na viva fé de Pedro e outros, e publicamente confessa ao mundo é que Jesus iria construir Sua casa para o Israel espiritual” (Shepard, The Christ, pp.304). Louis Barbieri também afirma: “O melhor modo para se entender esse texto é que Jesus estava elogiando Pedro por sua correta declaração a Seu respeito, e então introduzindo o Seu trabalho de edificar a igreja sobre Si mesmo (1Cor.3.11)” (Louis A. Barbieri, “Matthew” IN: John F. Walvoord and Roy Zuck, The Bible Knowledge Commentary New Testament. pp.57)

C. A pedra é a confissão de Pedro

Também conhecida em nossos dias como uma interpretação protestante, essa leitura também foi encontrada entre os Pais da Igreja, entre eles Orígenes de Alexandria (185-254) (Commentary on Matthew 12:10), Ambrósio (339-397) ((The Sacrament of the Incarnation of Our Lord 4.32-5.35), Epifânio (310-403) (Epiphanius, Cathari 59) e João Crisóstomo (347-407) (Homily 54.3; 82.3).

O exercício interpretativo aqui é mais forçoso, visto que no texto, ou mesmo no contexto, não há nada que indique que a confissão esteja no foco da afirmação de Cristo. Entretanto, Edersheim, sobre essa possibilidade afirma: “A grande profissão de Pedro, como o representante dos apóstolos, foi posta como fundamento da Igreja (…) Sem essa confissão, os cristãos seriam apenas uma seita judaica, um partido religioso, uma escola de pensamento e Jesus um Rabbi, um mestre, reformador ou um líder para a humanidade. Mas, a confissão que apresenta Jesus como Cristo, também constituiu Seus seguidores a igreja” (Edersheim, Life and Times of Jesus the Messiah, Vol.2 pp.91). “A pedra sobre a qual Cristo iria construir Sua igreja é provavelmente a confissão de Pedro” (Radmacher, Allen, House, New Illustrated Bible Commentary, pp.1169). Calvino parece favorável à essa opção quando diz: “Por isso, é evidente como o nome de Pedro vem a ser aplicado tanto para Simão, individualmente, como para outros crentes. É porque eles estão fundada na fé de Cristo, e juntaram-se, por um consentimento santo, em um edifício espiritual” (John Calvin, The Gospel according to Matthew, Mat.16.18)

O interessante sobre essa interpretação é que ela é quase tão antiga quanto a interpretação de que Pedro é a pedra sobre a qual Cristo iria edificar a igreja. É verdade, que antiguidade e veracidade nem sempre se equivalem, mas é interessante notar que embora nossa mundo leia essas interpretações pelas instituições que as defendem, antes dessas instituições existirem, cristãos do passado as apresentaram como uma interpretação possível para o texto.

D. Afinal, quem é a pedra?

Eu realmente acredito que a interpretação Católica é a interpretação correta do texto, embora entenda que a implicação Protestante seja correta. Em outras palavras, entendo que Pedro é a pedra referida por Cristo, entretanto, não encontro no texto nada que indique que qualquer relação entre a autoridade de Pedro e seus sucessores. Para defender esse ponto, gostaria de apresentar quatro detalhes no texto que favorecem essa interpretação:

1. O foco geral da passagem

Deve-se observar que no contexto geral da passagem há uma interessante mudança de foco no diálogo de Cristo com seus discípulos. Observe que Cristo inicia sua conversa com os discípulos (v.13 – perguntou a seus discípulos) e os mesmos respondem seu questionamento (v.14 – eles responderam). Então, novamente Jesus se dirige a seus discípulos (v.15 – vós quem dizeis que eu sou), mas nessa ocasião, apenas Pedro responde sua pergunta (v.16 – respondendo Simão Pedro, disse). É evidente que a afirmação de Pedro é o centro dessa passagem, mas a resposta de Cristo parece focar em Pedro: “Bem-aventurado és, Simão Barjonas, porque não foi carne e sangue que  to revelaram, mas meu Pai, que está nos céus” (v.17). No verso seguinte do nosso texto sob análise, Jesus ainda afirma: “Dar-te-ei as chaves do reino dos céus; o que ligares na terra terá sido ligado nos céus; e o que desligares na terra terá sido desligado nos céus“. Novamente a ênfase recai sobre Pedro, como aquele que recebe de Cristo a autoridade e primazia na Igreja. Portanto, acredito que diante do todo da passagem, o foco da mensagem de Cristo dirige-se a Pedro.

2. A metáfora usada por Cristo

Também acredito que em Mat.16.18 Jesus se utiliza de uma metáfora que favorece a interpretação de que Pedro é a pedra. Observe o que Cristo afirma: “Também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela“. O conceito percebido nessa frase é de uma edificação, na qual algo ou alguém é o fundamento sobre o qual Cristo iria edificar sua igreja. De acordo com a metáfora, Cristo é o arquiteto e não o fundamento.

Também entendo que assumir essa metáfora aqui, de modo nenhum minimiza a interpretação de outras metáforas assumidas nas escrituras, nem mesmo que Pedro seja colocado no lugar de Cristo na igreja. D.A.Carson explica:

“metáforas são comumente utilizadas em diferentes sentidos (…) Aqui [Mat.16.18] Jesus é quem edifica a igreja; em 1Cor.3.10 Paulo é o astuto construtor. Em 1Cor.3.11, Jesus é o fundamento da igreja, em Efésios 2.19-20, os apóstolos e profetas o são (cf.ap.21.14), e Jesus a pedra angular. Aqui Pedro tem as chaves, em Ap.1.18, 3,7, Jesus tem as chaves . Em João 9.5 Jesus é a luz do mundo, em Mateus 5.14 os seus discípulos a são. Nenhuma dessas analogias ameaçam a singularidade de Cristo [em relação à Sua igreja]. Elas apenas apresenta como metáforas devem ser interpretadas primeiramente em referência ao seu contexto imediato”

(D. A. Carson, “Matthew,” in Expositor’s Bible Commentary, ed. Frank E. Gaebelein, J. D. Douglas, and Walter Kaiser, vol. 8 [Grand Rapids: Zondervan, 1984], 368)

3. O intencional jogo de palavras de Cristo

Outro detalhe que merece nossa atenção é o fato de que Cristo intencionalmente se utiliza de um jogo de palavras que favorece a interpretação de que Pedro é a pedra. Em primeiro lugar, Cristo espelha sua resposta na afirmação feita por Pedro. No verso 16 Pedro afirmou: “Tú és o Cristo” para a qual Cristo respondeu: “Tú és Pedro“. em segundo lugar, Cristo optou por um trocadilho muito interessante: “Tú és Pedro, e sobre esta pedra…”. Em português é fácil de perceber que existe uma ligação entre as palavras Pedro e pedra, mas o uso de palavras feitas por Cristo em grego deixa ainda muito mais evidente.

O Novo Testamento usa pelo menos cinco diferentes palavras para descrever uma pedra: (1) lithos que é utilizada normalmente como uma pedra pequena (Mt.4.3), mas também é usada para descrever grandes pedras (Mt.24.2; 27.60); (2) petrödes que normalmente é usada como o sentido de rochedo (Mt.13.5, 20); (3) psëfas que apenas descreve pequenas pedras (Ap.2.17); (4) lithinós usado para descrever artefatos feitos de pedra (Jo.2.6) e (5) petra que normalmente é usado para descrever grandes rochas (Mt.22.60; 27.51), como o fundamento de uma casa (Mt.7.24) ou para descrever uma pedra de tropeço (Rom.9.33; 1Pe.28; cf. Is.8.14).

Cristo poderia ter usado qualquer uma dessas palavras, mas escolheu aquela que dentre as possibilidades mais se assemelhava ao nome que Ele mesmo teria dado a Simão Pedro (Jo.1.42). Não acredito que esse uso de palavras tenha sido involuntário, mas que foi intencional para demonstrar que Pedro é a pedra.

4. A própria sentença de Cristo

Por fim, acredito que a própria sentença de Cristo favorece essa interpretação. Três detalhes merece ser observados: (1) o uso do pronome demonstrativo, (2) o uso da conjunção coordenada aditiva e (3) a expressão não usada por Cristo.

Em primeiro lugar, o pronome demonstrativo usado por Cristo nesse verso favorece a interpretação de que Pedro é a pedra. Nosso texto diz: “Tú és Pedro, e sobre esta pedra…”. Alguns comentaristas optam por não associar Pedro a pedra pela diferença entre os significados do termo grego para Pedro e pedra, um argumento que não tem muita substância pelo fato de que o NT usar o termo grego para Pedro exclusivo para Pedro.

Outros preferem não associar Pedro a pedra pelo fato de que o termo “essa” em grego (um pronome demonstrativo feminino) não pode ser ligado a Pedra (um substantivo masculino). Entretanto, deve-se lembrar que o antecedente de um pronome demonstrativo grego não precisa concordar em gênero com seu antecedente, como vemos em Ef.2.8 (Pela graça sois salvos mediante a fé isto não vem de vós – nem graça nem fé são neutros como o pronome). No caso de nossa sentença, ele deveria ser feminino para estar em concordância com o termo que modifica, pedra.

Em outras palavras, o pronome demonstrativo não poderia ser masculino em referência à Pedro, mas deveria ser feminino em referência à pedra, do mesmo modo que a referência a Pedro deveria ser masculina (Pedro) e não feminina (pedra). Portanto, fica claro que existe uma conexão sintática entre os termos, o que me faz optar pela interpretação de que Pedro é a pedra. Por isso, posso concordar com Ridderbos, quando disse:

“Não existe qualquer razão para pensar que a troca de petros para petra feita por Jesus era para mostrar que Ele não estava falando do homem Pedro, mas da confissão como a fundação da igreja. As palavras ‘sobre essa pedra’ de fato se referem a Pedro”

(H. N. Ridderbos, Matthew, trans. by Ray Togtman (Grand Rapids: Regency Reference Library, 1987), 303)

Em segundo lugar, Jesus afirmou: “Tú és Pedro e sobre essa pedra…”. A conjunção coordenada aditiva ‘e’, traduz o termo grego kai, que conecta ambas frases em uma única sentença. O termo utilizado não foi allà (mas, porém), como se um contraste fosse esperado nessa sentença, nem mesmo mâllon como se um contraste associado a uma nova alternativa fosse esperada, mas nosso Senhor usou o termo kai, conectando e continuando a sentença anterior, clarificando que Pedro é de fato a pedra.

Por fim, Também é importante lembrar que Cristo não disse: “Tú és Pedro e sobre tuas palavras edificarei minha igreja”. Cristo poderia ter usado “sobre sua palavra“, como uma referência geral à confissão petrina, ou até mesmo “sobre suas palavras“, como uma referência específica a cada uma das palavras proferidas por Pedro, e caso tivesse feito, o referente teria sido inequivocamente dirigido à confissão de petrina. Entretanto, Cristo optou pelo tracadilho Pedro e pedra, e afirmou ser Pedro a pedra sobre a qual irá edificar a Igreja.

E. Conclusão

Assumir que Pedro é a pedra implica em dizer que ele é o primeiro Papa da igreja? É evidente que não! Nem mesmo os mais antigos Pais da Igreja concordaram com isso. Mais importante ainda, no texto de Mateus não se encontra nenhum indicativo de que a bênção oferecida por Cristo seria estendida a seus “sucessores“. Aliás, não há nesse texto qualquer indício de que Pedro seria o primeiro de muitos.

Por isso, o autor desse texto acredita que três implicações são auferidas dessa conclusão: (1) A preeminência inicial e histórica de Pedro na comunidade primitiva; (2) a singularidade de Pedro a quem a promessa foi conferida, em contraste com os outros apóstolos que com ele estavam. E, por fim, acredito que isso afirma (3) a falibilidade petrina, que como um ser humano normal não era infalível, nem se apresentava desse modo, nem mesmo se considerava assim.

A. Preeminência Petrina

É inegável que diante da evidência das escrituras Pedro teve proeminência no grupo de discípulos, na expansão do evangelho e na liderança da igreja nos seus anos iniciais. Pedro é apresentado pelos evangelistas como o portavoz do grupo (Mt.18.21; 19.27; Mc.8.27; Lc.12.41; 18.28) e dentre os três discípulos mais próximos de Cristo, Pedro também é apresentado com certa prioridade (Mc.9.5). Ele foi considerado como líder do grupo mesmo por aqueles que não faziam parte do grupo de discípulos de Cristo (Mt.17.24). Não à toa, foi o discípulos dentre os quais o Pai revelou quem Cristo de fato é (Mt.16.17).

Pedro também foi o proeminente discípulo de Cristo na propagação inicial do evangelho. Observe que em At.1.15ss Pedro é quem coordena a reunião dos discípulos para tratar do assunto da substituição de Judas Iscariotes. Em At.2.14ss é Pedro quem se levanta e anuncia o evangelho publicamente pela primeira vez. Com João no capítulo 3 tem a oportunidade de anunciar o evangelho depois de uma intervenção miraculosa de Deus. Note, entretanto, que o discípulo à frente do discurso novamente é Pedro (At.3.4, 6, 12). No capítulo quatro testemunha diante das autoridades judaicas (4.8) e no capítulo seguinte exerce a disciplina na comunidade (5.3, 8, 10). É Pedro quem é reconhecido pela comunidade judaica como líder na igreja, por meio de quem sinais miraculosos eram realizados (5.12, 15). No mesmo capítulo é ele quem tem proeminência diante da resposta a ser dada as autoridades judaicas (At.5.29ss). Não existe qualquer dúvida que a figura mais importante nos primeiros momentos da igreja primitiva tenha sido de fato Pedro.

B. Singularidade Petrina

Outro detalhe que não pode ser esquecido, é que a promessa de Cristo foi feita para Pedro e mais ninguém. Vale a pena notar a alteração de pessoa usada nesse contexto, para perceber a singularidade na qual a promessa é oferecida a Pedro. No verso 13, Jesus pergunta aos seus discípulos, e os mesmos respondem (v.14). Depois de ouvir as respostas oferecidas pelos discípulos, ele pergunta quem eles (v.15) acreditam ser o messias. Mas, no verso seguinte é Pedro quem responde a pergunta de Cristo, e para ele que nosso Senhor se dirige no verso 17: “Bem aventurado és Simão filho de Jonas, por que não foi carne e sangue que te revelou, mas meu Pai que está nos céus“. No verso 18, o mesmo fenômeno acontece: “Também eu te digo, que  és Pedro“.

Pedro não recebeu essa promessa pelos outros apóstolos, nem por seus supostos sucessores, Jesus foi claro em se direcionar a Pedro e não aos apóstolos, como o fez no início do diálogo. É a Pedro quem Jesus abençoa, e não aos apóstolos em geral. E observe que o mesmo vale para os benefícios decorrentes da bênção proferida por Cristo: “Eu te darei as chaves do Reino dos céus e o que tu ligares sobre a terra terá sido ligado nos céus, e o que tu soltares sobre a terra, terá sido solto nos céus”. Não há qualquer indício de que os outros apóstolos estejam em vista nesse texto: Jesus dirige-se a Pedro, e a ninguém mais. Não há qualquer evidência de que os supostos sucessores petrinos teriam acesso ao mesmo privilégio desfrutado por Pedro.

Por fim, vale também ressaltar que a promessa feita por Cristo não era vitalícia, mas se aplicou perfeita e completamente nos momentos iniciais da igreja. É nesse sentido que Pedro tem as chaves, pois foi ele que abriu as portas para a expansão da igreja e não para tornar-se porteiro nos céus. As escrituras são claras em demonstrar que mesmo a autoridade de Pedro da igreja primitiva foi se diminuindo a ponto que em At.15 é Tiago quem lidera o primeiro concílio da igreja primitiva. O testemunho de Pedro é fundamental (v.7ss), e nele o apóstolo se apresenta como aquele que abriu as portas para a evangelização gentílica: “Irmãos, vocês sabem que há muito tempo Deus me escolheu dentre vocês para que os gentios ouvissem de meus lábios a mensagem do evangelho e cressem“. Mas, é Tiago quem lidera a igreja e quem profere a declaração final do concílio (v.14-21 – “Pelo que julgo eu“, v.19).

Deve-se lembrar, entretanto, de que a mesma promessa feita por Cristo a Pedro (v.19 – o que ligares na terra terá sido ligado nos céus; e o que desligares na terra terá sido desligado nos céus), também foi atribuído aos outros apóstolos e à igreja (Mat.18.18). Ou seja, Pedro é singular no que se refere às chaves que recebera de Cristo, e não na autoridade exclusiva na direção da igreja.

C. Falibilidade Petrina

Por fim, afirmar que Pedro é a pedra implica em reconhecer que não existe nas escrituras qualquer indício nas escrituras de que ele seria infalível, ou que poderia de algum modo se pronunciar ex-cathedra de modo inequívoco. Ao assumir que Pedro é a pedra, nós precisamos também assumir a falibilidade de Pedro, que no mesmo contexto apresenta-se condenável diante do Nosso Senhor: “Voltando-se para Pedro ele [Jesus] disse: Para trás de mim, SatanásTu és uma pedra de tropeço para mim – Mateus 16:23). Para reforçar o trocadilho, aqui Pedro também é a pedra, mas nesse caso de tropeço.

Pedro também é o apóstolo nega publicamente nosso Senhor (Mat.26.58-75) e se nega a obedecer a ordem de Cristo de levar o evangelho para além das fronteiras de Jerusalém (At.1.8; 8.1, 4) e precisa de insistente intervenção divina (At.10.9-16) para compreender aquilo que o Senhor o ensinara durante todo seu ministério e que o ordenara fazer após sua ascensão (Mat.28.19-20). Como se não bastasse isso, ao cumprir a exigência divina de levar o evangelho a Cornélio, inicia seu discurso evanglístico de modo ofensivo (At.10.24-28). Isso revela que, embora disposto a obedecer a Cristo (v.29), Pedro ainda não havia superado o preconceito comum do judeu para com o gentio. E não obstante, essa é a razão pela qual ele é repreendido por Paulo (Gl.2.11-13).

Embora Cristo atribua a Pedro a mais alta honraria em sua promessa em Mat.16.18, as escrituras nos dizem que isso não o fez um servo sem erros, ou que pudesse se pronunciar de modo inequívoco. Muito pelo contrário, foi um homem como cada um de nós, com seus erros e equívocos.

Se alguém definir a infalibilidade petrina e por conseguinte sua autoridade somente nas ocasiões em que ele fala ex-catedra, deve notar a contradição que isso implica. Se Pedro é infalível somente quando fala diante do seu posto de apóstolo, ele não manifesta mais autoridade que seu secretário Marcos, que redigiu seu evangelho, ou Lucas o médico gentio que nem discípulo direto de Cristo fora, ou até mesmo Judas ou o autor de Hebreus. Sem contar que, aquele à quem se atribui a catedra não se apresentou infalível nem foi assim apresentado pelas escrituras. Portanto, cabe a pergunta: Por que aqueles que se assentam nessa suposta cadeira podem ser infalíveis se o primeiro dono dela não o foi? O argumento não pode ser válido e deve ser rejeitado.

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