Sobre o Manifesto que Tomou o Brasil (e os Brasileiros)


Como pastor de uma igreja local, alguns me interpelam e pedem opinião sobre as manifestações de protesto que pululam no país e no mundo e que, interessantemente, têm soado “apartidárias”. No intuito de ser claro pelo menos aos queridos irmãos de fé de minha comunidade (Primeira Igreja Batista Piracicaba), deixo aqui (muitos usam o face) minha percepção e posicionamento.

• As manifestações de protesto são ferramentas democráticas legítimas que dizem aos governantes que “estamos de olho”, que cobram sua responsabilidade de servir ao povo, e abrem espaço para o diálogo, o debate, e a construção política.

• Protestar contra injustiças, corrupção, impostos abusivos e iníquos no poder não se constitui, necessariamente, em desrespeito às autoridades e rebeldia pecaminosa, mas representa tanto uma inconformidade com a impiedade que nos cerca de todas as formas, como uma busca por soluções comuns

• As urnas do nosso Brasil devem acompanhar as inconformidades levantadas pelos protestos, sem amnésias, pois o voto é o grande instante democrático da força de um povo para mudar sua história.

• Como cidadãos, somos livres para nos expressar e aderir à manifestação de maneira pacífica, indo às ruas ou não, cada qual agindo com sua consciência perante Deus.

• Como cristãos e cidadãos devemos reprovar todo e qualquer ato de vandalismo, depredação ao patrimônio público, bem como o desrespeito a qualquer ser humano.

• O cristão, como cidadão responsável, tem em mãos uma oportunidade de se posicionar e protestar de maneira pacífica a fim de que os ideais do Reino de Deus, a saber, justiça, paz e liberdade sejam antecipados e experimentados nesta era o tanto quanto possível até que o Reino chegue (1 Co 7.21).

• A História de Israel e da Igreja está cheia de notáveis homens que foram vozes proféticas e tiveram coragem para denunciar os pecados e as injustiças de seu tempo porque amavam o povo a quem ministravam.

• Deus é Soberano e pode se valer das mobilizações sociais para conduzir os intentos dos povos, ora frustrando seus governantes, ora legitimando-os no poder (Sl 33.10).

• Orar, testemunhar, pregar o Evangelho, encarnar sua mensagem e apontar a Consumação do Reino (que é a tarefa essencial da igreja), não impossibilitam um cristão de protestar nas ruas de forma pacífica. Ou seja, aquele que se manifesta não peca. A cosmovisão cristã não é alienante, mas engajadora, responsável, e intercede pela dignidade humana.

• Ao mesmo tempo, é precipitado dizer que quem não sai às ruas é alienado, conformado, fascista, extrema direita, capitalista e insensível. Em outras palavras, quem fica em casa também não peca. A cosmovisão cristã é sempre espiritual, e concebe sua luta no andar dos “principados e potestades, os dominadores do mundo tenebroso” (Ef 6.10-20).

• Sendo assim, a oração é a ferramenta de transformação por excelência do povo de Deus, que DEVE interceder em todo tempo pelos governantes, pela polícia e pelos manifestantes, a fim de que eles sejam salvos, temam a Deus, pratiquem a justiça e não oprimam ao pobre, para que a terra seja sarada (1 Tm 2.1-3; 2 Cr 7.14);

• A vida do discípulo de Jesus deve ser marcada todos os dias pelos sinais do Reino de Deus, que é de justiça, paz e alegria no Espírito Santo, de modo que seu procedimento seja um difusor constante dos valores que dignificam o ser humano, imagem e semelhança de Deus;

• A maneira mais significativa de a igreja de Jesus mudar a sociedade e o mal ao seu redor continua sendo através da pregação do Evangelho e a encarnação de sua mensagem, que transforma o ser humano de maneira integral e o potencializa para amar ao próximo como a si mesmo pelo poder regenerador do Espírito Santo;

• Numa análise “ontológica”, toda injustiça, violência e maldade é decorrente do afastamento de Deus.

• Por fim, a igreja de Jesus não pode esquecer que vive hoje o que chamamos de “já e ainda não” (bênçãos realizadas e outras ainda aguardadas), e deve apontar esperançosamente para a consumação da perfeita justiça e equidade que virá do cetro do Filho de Davi, o Senhor Jesus Cristo, quando este vier em Sua glória.