Como avaliar as manifestações populares no Brasil?


Por Alfredo de Souza

As manifestações que ocorrem no Brasil já são consideradas como as maiores de todos os tempos quando milhares de pessoas saem às ruas para reivindicar a diminuição do preço da passagem dos transportes públicos, a erradicação da impunidade vivida na elite política, além da melhoria das políticas públicas. Minha avaliação aqui será simples e, ao mesmo tempo, abrangente para que pensemos um pouco sobre este momento.

Um forte aspecto que percebo nisso tudo é a reafirmação da identidade “brasileira” construída. O próprio refrão entoado nas ruas e nos estádios de futebol já corrobora esta prática ao dizer: “…sou brasileiro com muito orgulho…” Esta atitude acontece numa pós-ditadura militar e, ao mesmo tempo, no embalo de quase 10 anos de governo esquerdista que não ultrapassa o bolsa qualquer coisa e que se mantém atrelado a uma memória sórdida e a uma prática extremamente pluralista. Mesmo as atitudes de vandalismo, salvo as realizadas por meliantes, demonstram o desejo de destruir a coisa pública por construírem nela o reflexo da política esquerdista vil e canalha. A representação é clara: “o gigante que desperta vai exterminar a corrupção e os desmandos”. Gigante versus pequenez. A brasilidade passa a se definir como um bloco coeso e coerente diante da pluralidade indefinida da esquerda doente e viciada. Esta é a identidade que se constrói atualmente na “busca da certeza diante das incertezas.” Nesse ponto, as manifestações não diferem dos demais fenômenos comuns às práticas sociais.

Outra avaliação que faço é o forte apelo ao desabafo. É o “basta!” que se grita nas ruas contra a patuscada permanente da política partidária. É o “chega!” para os hospitais sucateados, a educação desvalorizada, as estradas esburacadas, tudo como resultado de uma elite política ladra e corrupta que se elitiza cada vez mais. É o sofrimento de se sentir extorquido nos impostos. Não por pagá-los, mas por perceber que o retorno só ocorre aos infames das câmaras e dos palácios, pois aqui se paga muito caro para enriquecer as finanças e os desmandos daqueles que há anos deitam e rolam blindados pela maldita impunidade. De que adianta pagar imposto como o que se paga no Canadá para se viver uma vida que se vive em Moçambique ou na Nigéria? Nesse ponto, as manifestações são legítimas e saudáveis.

Infelizmente há os bandidos que destroem por puro vandalismo, diferente daqueles que destroem por associar a coisa pública aos políticos corruptos conforme argumentado acima. Todavia, ambos se tornam um caso de polícia, requerendo sobre si a repressão forte. De nada adianta viver a impunidade nesta esfera para protestar contra a impunidade vivida em outras esferas. É, no mínimo, incoerente e contraditório. Nesse ponto, as manifestações são ilegítimas e doentias.

É preciso pensar que a verdadeira mudança deve ocorrer na transformação do modo como se faz política no Brasil. Hoje, para ser candidato aos cargos, é necessário muito dinheiro e fortes conchavos com aqueles que desejam apenas o poder e a preservação da farra. Há que se pensar em alternativas que vão para além da esquerda doente e viciada. Tais mudanças não se restringem às urnas como um fim em si mesmo. Mas votar em quem? As mudanças estruturais ocorrerão com a democratização da oportunidade que respeita a discordância, mesmo para com o que preserva antigos valores baseados na honra, na justiça e na honestidade. Por exemplo, se há pessoas cujos valores são baseados na Lei moral divina, isto deve ser respeitado e tolerado, além do usufruto de oportunidades concedidas. O oportunismo deve ser rechaçado e a mudança democrática deve ser construída. Nesse ponto, as manifestações podem ser o início de uma mudança significativa e benéfica da atual conjuntura política.

Por fim, concluímos sobre a ação soberana de Deus sobre todos. Os crentes devem permanecer em oração para que as mudanças necessárias e justas ocorram. Só ocorrerá a construção de uma democracia justa e limpa se for da vontade do soberano Deus. Neste sentido, podemos até apoiar ordeiramente tais manifestações para que a sociedade como um todo seja beneficiada. A oração deve ser feita para que a paz e a justiça, oriundas do trono da graça, sejam uma realidade entre nós. Nesse ponto, as manifestações são uma bela oportunidade para a oração do crente ao soberano Senhor!

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