Cuidado: Pelágio está à solta


Por Ricardo Rocha

Recentemente me deparei com uma pergunta que já foi inquirida milhares de vezes e respondida sem hesitação por várias pessoas em diversos graus de conhecimento teológico e a perguunta foi: O cristão pode perder a salvação? Com certeza se você nunca perguntou, já deve ter ouvido alguém perguntar. Tenho uma resposta claramente definida em minha mente e coração e principalmente embasada nas Escrituras e ratificada por grandes teológos de nossa história eclesiática, mas esse artigo não é sobre a perseverança dos santos, mas sim sobre um comentário que alguém que respondeu a essa pergunta postou: “PARA SER SALVO TEM QUE PERSEVERAR ATÉ O FIM,” disse a entrevistada.

Esse colocação além de não ser bíblica e distorcer a interpretação de Mt 10:22, traz a tona uma antiga heresia que infelizmente está permeando a teologia de muitos cristãos e igrejas, O PELAGIANISMO! Deixe eu fazer uma breve introdução do Pelagianismo e você verá como muitos cristãos caem nessa falácia e como você pode firmar sua fé na ortodoxia cristã e não cair nesse engano teológico tão letal.

PELÁGIO (354 – 424 d.C.)

Muito pouco se sabe dos primeiros anos de Pelágio, mas os teólogos concordam que ele era um monge inglês (não monástico ou heremita), um homem íntegro com uma alta moral e muito inteligente, fluente em Latim e Grego e linguisticamente superior a Agostinho, seu mais formidável oponente.

TEOLOGIA PELAGIANA

De acordo com B.B.Warfield o ponto central do pelagianismo está no princípio da total habilidade humana:

“Assumindo a plenária habilidade do homem de fazer tudo aquilo que a justiça de Deus exige de nós, realizando não somente sua própria salvação, mas também sua própria santificação. Esse é o ponto central de toda sua teologia; e todas os outros ensinos não só dependem deste, mas originam-se dele. Ambos cronologicamente e logicamente, essa é a raíz do sistema pelagiano.”

 Pelágio iniciou sua doutrina em resposta aos ensinos de Agostinho no qual ele discordava completamente; para Pelágio tudo o que Deus exige de nós, podemos fazer e alcançar com nossas própria forças e habilidades. Se Deus exige santidade, podemos adquiri-la com nossa habilidade; se Deus requer obediência total e completa podemos obedecê-lo completamente usando nossa força de vontade. A famosa frase pelagiana é: “Se eu tenho que fazer, eu posso.”

 Pelágio acreditava tanto na habilidade e capacidade humana que ensinava que não precisamos nem mesmo da graça de Deus para nossa salvação e santificação, o ser humano pode viver sem pecado e alcançar sua salvação porque Deus nos deu livre arbítrio e capacidade para tal. Existe sim uma graça cooperativa, onde Deus derrama sobre aqueles que merecem, que mostram que estão fielmente se esforçando para realizar o bem e essa graça cooperativa os impulsiona a fazer ainda mais do que podiam fazer. Em outras palavras desvenda-se o ditado: “Deus ajuda aqueles que se ajudam a si mesmo.”

Percebe o perigo aqui? Não precisamos da graça de Deus? Vou comentar mais abaixo quando expor um pouco sobre Agostinho, mas  continue a entender um pouco mais o pensamento pelagiano.

 Pelágio advogava a total habilidade humana porque ele não acreditava no pecado original. Para Pelágio o pecado de Adão não passou para nós, apenas prejudicou a ele mesmo e independentemente de Adão ter pecado ou não, ele iria morrer de qualquer forma pois Deus o criou como mortal. Todos os seres humanos nascem no mesmo estado em que Adão foi criado, não existe corrupção moral e consequentemente nenhum pecado foi imputado a nós; a morte não é uma punição por causa do pecado, mas somente uma necessidade natural.

 Resumindo, existem 3 princípios corolários na teologia Pelagiana:

1- A negação do pecado original;

2-  A total habilidade humana para salvação e santificação;

3- A graça cooperativa e meritória.

 Como mencionei acima,  naquela pesquisa sobre o cristão perder a salvação, uma das pessoas postou: “para ser salvo tem que perseverar até o fim.” Com essa breve exposição pelagiana você percebe como a heresia de Pelágio está imbutida em nossa crença evangélica? A salvação para essa pessoa é fruto da perseverança, fruto da nossa habilidade em perserverar, do nosso esforço em manter-nos fiéis. A graça deixa de ser necessária, não preciso de graça, preciso somente perseverar… a salvação deixa de ser pela graça mediante a fé (Ef 2:8-9) em Cristo e passa a ser fruto da minha perseverança, obediência e disciplina cristã. O foco da soteriologia deixa de ser cristocêntrico, deixa de ser baseado no sacrifício expiatório e substituto de Jesus e muda para um foco antropocêntrico, onde o homem tem habilidade e capacidade de alcançar sua salvação.

É claro que temos nossa responsabilidade na jornada cristã, o mandamento é de sermos santos porque Ele é santo (1Pe 1:16), mas em momento algum a salvação está vinculada a santificação, a salvação é pela graça, um favor imerecido, mediante a fé em Jesus e a santificação é um processo após a regeneração, que por sinal, é também fruto do mover do Espírito em nossa vida (1Ts 5:23). A santificação e a perseverança são frutos de uma vida que foi regenerada e não vice-versa.

A teologia pelagiana foi condenada como heresia no terceiro concílio ecumênico em Éfeso (431 d.C.), mas ainda conseguiu sobreviver no seio da igreja, porque em Éfeso a igreja estava lidando primariamente com a heresia Nestoriana em relação a pessoa de Jesus, mas finalmente no concílio de Orange (529 d.C.) o pelagianismo foi tratado exclusivamente e mais uma vez condenado como heresia, mas infelizmente e sutilmente devido a falta de conhecimento e influência do Iluminismo, nosso povo evangélico abraça em nossas igrejas a perniciosa doutrina pelagiana mesmo sem saber, como aquela afirmação feita acima: “para ser salvo tem que perseverar até o fim.”

Cuidado, Pelágio está a solta e precisa ser contido para o saudável crescimento da igreja. Mas como combatê-lo? A melhor forma de desmascarar a mentira é combater com a verdade. Agostinho foi o teólogo que defendeu a ortodoxia e a igreja se firmou em seus ensinamentos que refletem o ensino dos apóstolos. Em Agostinho encontramos o seguinte:

O pecado de Adão afetou toda a humanidade, e todos fomos corrompidos física e moralmente desde quando somos gerados. Todos somos pecadores e condenados a morte e ao inferno (Rm 3:9-12,23; Ef 2:1-2)

Agostinho escreveu (Enchiridon, 26–27): “…pelo pecado de Adão toda a raça humana foi corrompida, e consequentemente sujeita a morte (…) todos fomos manchados pelo pecado original (…) morte passou a todos os homens, porque todos pecamos.”

Por causa do pecado original nossa liberdade de escolher o bem, não a nossa liberdade per se, foi perdida inteiramente. Nesse estado de corrupção, o homem não pode querer com um motivo puro a glória de Deus, mas no momento da salvação, Deus providencia sua graça e restaura a vontade humana de escolher o bem, que é Cristo.

Se, todavia, o homem, em seu presente estado, deseja e faz o bem, é meramente pela obra da graça. É uma maravilhosa operação interna e secreta sobre o homem. Pela graça, o homem adquire fé, pelo qual ele percebe o que é bom, e pela graça ele recebe poder para fazer o bem (…) o homem não pode fazer nada sem a graça de Deus.” (On Grace and Free Will. 10).

 Agostinho simplesmente afirma que a graça é um presente, não é meritória, nos é dada gratuitamente através do sangue de Jesus na cruz do Calvário. (On Grace and Free Will, 33, 458): “Estou seguro disto, que aquele que começou a obra obra em vós a aperfeiçoará até o dia de Cristo. Deus opera em nós, portanto, sem nossa ajuda (…) nós não podemos fazer nada para gerar obras piedosas aparte Dele. A graça para Agostinho é irresistível, o homem não pode salvar a si mesmo.

Cuidado, Pelágio está a solta e precisa ser contido para o saudável crescimento da igreja. Mas porque Pelágio é tão perigoso para a igreja? Pelágio é perigoso porque minimiza a graça de Deus e o sacrifício de Jesus. Existe uma grande relação entre pecado e graça, os dois conceitos estão intimamente ligados teologicamente e de maneira nenhuma podem ser separados, então se temos uma visão incorreta do pecado consequentemente teremos uma visão incorreta da graça. Se o pecado não é tão sério, a graça não é necessária (Pelagianismo), mas se o pecado nos separa de Deus, nos deprava totalmente a ponto de nada podermos fazer para nossa salvação, apenas esperarmos a condenação, a graça se torna não só necessária, mas indispensável (Agostonianismo), e nos conduz em adoração e gratidão ao Cordeiro de Deus que nos redimiu e resgatou pela sua maravilhosa e irresistível graça.

Nossa mensagem é Cristo crucificado! Não podemos banalizar o sacrifício de nosso Senhor que alcançou tanto, mas temos que elevá-lo, exaltá-lo e qualquer tentativa de minimizar a expiação deve ser confrontada e rejeitada imediatamente. Achar que a salvação é fruto da perseverança, é menosprezar a obra redentora de Cristo. Salvação é exclusivamente pela graça (sem nossas obras, sem nossa perseverança), exclusivamente pela fé e exclusivamente em Cristo (Jo 14:6; At4:12; 1Tm 2:5).

Sola Gratia

Pr.Ricardo Rocha

(Originalmente publicado em: http://teologiatoday.blogspot.com/2013/05/cuidado-pelagio-esta-solta.html)

8 comentários sobre “Cuidado: Pelágio está à solta

  1. Filipe

    Então, o que dizer sobre pessoas que viveram po Cristo e hj vivem em pecado? e sobre o versiculo de hebreus que se alguem uma vez provou dos dons espirituais e abandonou é impossivel que volte? Aproveito para parabeniza-lo pelo ótimo blog. Tem me ajudado muito.

  2. pb-voss

    Através do programa Mira da Verdade,(TV Novo Tempo) ,http://novotempo.com/namiradaverdade/, tomamos conhecimento de um “erro” nas Sagradas Escrituras. Trata-se de Mateus 27.7: “E, tendo deliberado em conselho, compraram com elas o campo de um oleiro, para sepultura dos estrangeiros.Por isso foi chamado aquele campo, até ao dia de hoje, Campo de Sangue.Então se realizou o que vaticinara o profeta Jeremias: Tomaram as trinta moedas de prata, preço do que foi avaliado, que certos filhos de Israel avaliaram” – Mateus 27:7-9

    Ocorre que o Profeta, na verdade seria Zacarias, tendo Mateus errado.È verdade iisso? Não é erro de cópia?

    1. Paulo,

      Você tem razão: O debate sobre a leitura e significado do texto gira em torno da tradição textual. Agostinho (354-430) já havia notado que algumas versões conhecidas nos seus dias continham tanto o nome do profeta Jeremias como o de Zacarias, além de outros que não continham o nome de nenhum profeta.

      Uma análise (simples) desse dilema foi feita no artigo Jeremias ou Zacarias? O que Mateus quis dizer em MT.27.9, no qual apresento meus comentários sobre o assunto. Dê uma olhada lá.

      Grande abraço,
      Marcelo Berti

  3. Renatto Rod

    Parabéns pelo blog. O descobri há pouco e ele já me tem sido de grande apoio.

    Ótimo artigo. Que estejamos sempre em alerta para não menosprezarmos a graça de Deus em Cristo com pensamentos, palavras e atitudes humanistas.

  4. É possível interpretar a necessidade de perseverar dentro do conceito da graça resistível, como ensinado por Armínio, que nada tem de pelagiano. Sugiro a leitura do livro Teologia Arminiana – mitos e realidade, do Roger Olson (ed. Reflexão, 2013).

    1. Olá Kleber, obrigado pela sua participação e contribuição.

      Em primeiro lugar quero deixar claro que o Arminianismo é uma posição cristã legítima e que na questão da graça nada tem de Pelágio. Em 1610 os seguidores de Armínio escreveram um documento chamado Remonstrance (Representação) contendo 5 artigos do pensamento arminiano em contraposição a doutrina calvinista. No artigo 4 lemos:

      “A graça de Deus é o começo, a continuidade e a realização de qualquer bem, ao ponto de que mesmo o homem regenerado sem a previniência ou a assistência, sem o despertamento da graça cooperativa não pode nem pensar, querer, ou fazer o bem (…) então toda boa obra ou bom movimento que possa ser realizado, deve ser atribuído a graça de Deus em Cristo.” (John Hannah, Our Legacy, p.233)

      Podemos observar aqui que Armínio entende que a graça é indispensável para qualquer ação bondosa por parte do homem. O ser humano só faz o bem por causa da graça de Deus. Para distinguir os arminianos dos pelagianos, os Remonstrants declararam que os homens não podem fazer nada em seus próprios esforços, e que a graça de Deus é necessária para realização de qualquer ato de bondade. (Justo Gonzalez, The Story of Christianity, Vol2, p.231)

      Partindo dessa posição podemos entender que Armínio ainda vê a graça como o ponto central, e portanto ela também é aplicada à perseverança do cristão na fé. Não podemos afirmar que permanecemos fiéis porque fomos disciplinados, nos esforçamos em obedecer a Deus e por isso estamos firmes e não “cairemos” da graça. Se pendermos para essa interpretação, caímos sim no pelagianismo.

      O problema é que temos ensinamentos na igreja que parecem arminianos mas são pelagianos e portanto heresia. Se afirmarmos que precisamos perseverar para ser salvo, temos que ir um pouco além na investigação:

      • “Persevero na fé e sou salvo.” Se essa perseverança é fruto da sua disciplina, seu esforço pessoal em obedecer a Deus, você caiu no pelagianismo! Você não precisa da graça de Deus…você permanece no caminho pelos seus esforços e a graça deixa de ser graça, você mereceu entrar na vida eterna, porque você perseverou… Pelagianismo!!!

      • “Persevero na fé e sou salvo.” Se essa perseverança não é fruto do seu esforço, mas é fruto da graça de Deus demonstrada na cruz do Calvário e efetivada pela fé em Jesus, a graça continua sendo graça, “Deus fazendo algo por você no qual você não é capaz de fazer por si mesmo” (Dr. Jeffrey Bingham), um favor imerecido, um presente de Deus…ortodoxia cristã!!!

      Pare pra teologizar… Por mais que Cristo tenha cancelado sua dívida diante de Deus (Cl 2:14), tenha te regenerado (Jo 3:3,7; 1Pe 1:23), justificado (te declarado inocente diante do tribunal de Deus, Gl 2:16), te adotado em sua família no qual agora você clama “Abba” Pai (Gl 4:6), por mais que ele tenha te redimido, te substituído sofrendo a pena em seu lugar….nada disso teve valor porque você não perseverou? Na verdade se alguém não perseverou foi porque nunca foi verdadeiramente regenerado! (1 Jo 2:19) Alguém morto em seus pecados e delitos e trazido à vida pelo Espírito no novo nascimento, não pode morrer novamente, mas passou da morte para vida! (Jo 5:24)

      Por isso cuidado, Pelágio anda solto e muitas vezes disfarçado de arminianismo. Sempre coloque a graça de Deus quando falar de perseverar na salvação!

      Sola Gratia
      Pr.Ricardo Rocha

  5. Obrigado pelas excelentes observações, Pr. Ricardo Rocha. De fato, para Armínio o ponto central é a graça preveniente. É necessário dizer, porém, que a graça para ele é resistível, que ela capacita o homem a crer e perseverar na fé, mas não elimina a capacidade de resistir ao Espírito Santo. Por isso, as Escrituras contém muitas advertências aos salvos, que permaneçam na fé.

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