A tarefa primordial do Pastor


por Ricardo Rocha

Sou pastor! Sou pastor porque fui chamado por Deus para essa função, pela sua graça fui separado para o Evangelho. Se você é um pastor você sabe de nossa responsabilidade diante daquele que nos chamou e como é sério esse ministério.
Sabemos do nosso chamado e de nossa função no corpo de Cristo, mas como isso é deturpado e confundido na cabeça de nossos irmãos, afinal de contas se você perguntar para qualquer membro de igreja cada um deles irá dizer qual é a tarefa do pastor. Em vez de ouvir as vozes de pessoas que confundem pastor com funcionário, ou pastor com advogado, psicólogo, pedreiro e entregador, devemos ver em primeiro lugar o que a Biblia diz sobre a função pastoral e também porque não olhar para homens do passado, pastores que gastaram suas vidas no exercício do ministério e ouvir o que eles tem a dizer sobre a tarefa pastoral?

Hoje quero ouvir uma voz de uma pastor do passado, do quarto século, Gregório de Nazianzus, um dos pais capadócios da igreja oriental que refletiu e escreveu  sobre o desenvolvimento do ministério pastoral. Te convido a vir comigo nessa leitura para identificarmos a suprema tarefa do obreiro.

A TAREFA PRIMORDIAL DO PASTOR

Gregório afirma que a tarefa primordial do pastor é a “distribuição da palavra” (Segundo Discurso 2.35).

Gregório diz que no ministério pastoral existe um relacionamento entre doutrina e cuidado pastoral. Hoje em dia existe um movimento em nossas igrejas que identifica o pastor somente pelo cuidado pastoral e esse cuidado atinge apenas o âmbito da psicologia e auto-ajuda. As pessoas vem com suas preocupações e querem soluções, muitas vezes imediatas, para seus problemas. Querem se sentir confortadas e com isso procuram palavras de apreço em lugar da verdade, aceitação em lugar de disciplina e auto-realização em um lugar de discipulado.

A maior igreja nos EUA se encontra em Houston no Estado do Texas, onde domingo após domingo pessoas lotam o templo para ouvirem uma mensagem de auto-ajuda, de “vitória” e “conquista” e a Bíblia raramente é aberta, o pecado nunca é confrontado e o nome de Jesus levemente mencionado. Em uma entrevista a CNN o pastor desta igreja afirmou que não se sente mal ao pregar e não ler a Bíblia ou mencioná-la. Você pode perceber a gravidade do assunto? A tarefa primordial do pastor é a pregação, a exposição da inerrante e infalível Palavra de Deus que vem de encontro aos corações, mais afiada que espada de dois gumes (Hb 4:12) e traz radical tranformação, levando homens e mulheres aos pés de Cristo, resgatando perdidos e transportando-os das trevas para o reino de Deus…como deixá-la de lado? Como não propagar a mensagem do Evangelho? Como não pregar a palavra?

Gregório sabendo da importância da pregação e ensino da Palavra e da seriedade desta atividade que traz resultado eternos, enfatiza que todo pastor deve ser um teólogo competente, esse é um ponto extremamente necessário. O pastor não é somente um psicólogo ou orador, mas acima de tudo é um teólogo.

Gregório nunca separou a teologia do cuidado pastoral, ele claramente sabia da distinção entre os dois, pois um deles é mais popularmente definido como o estudo de Deus, especialmente a Trindade enquanto o outro é um serviço a Deus através do cuidado e do zelo pelo Seu rebanho, mas o que Gregório enfatiza é que o cuidado pastoral somente é feito corretamente quando estiver embasado na teologia, sendo assim ninguém pode ser um pastor se não for um teólogo, um disciplinado estudante da Palavra de Deus.

Aqui o assunto pode causar um mal estar em algumas pessoas, pois a palavra Teologia traz consigo muitos pre-conceitos e mal entendidos. Quantos de nós nunca ouvimos a expressão: “Teologia divide, Cristo une,” ou ainda “teologia mata a espiritualidade,” nada pode estar mais longe da verdade.

Todos fazemos teologia, alguns fazem má teologia outros boa teologia, mas a verdade é que todos nós entramos no campo teológico e teologizamos. Toda vez que cantamos um hino estamos fazendo teologia, expressando idéias, crenças sobre Deus. Todas as vezes que damos nossa opinião sobre algum assunto espiritual estamos envolvendo teologia. Até mesmo as pessoas que dizem que teologia não tem valor ou que mata a espiritualidade, fazem teologia, pois quando afirmam isso estão afirmando em cima de conceitos teológicos próprios que a leva a essa conclusão.

A questão é que tipo de teologia estamos fazendo. A boa teologia, centrada e extraída das Escrituras, não divide, pelo contrário unifica o povo de Deus debaixo de um mesmo credo. A boa teologia não mata a espiritualidade, pelo contrário, nos conduz para mais perto de Deus e nos coloca no centro de Sua vontade.Teologia não é um monstro, algo que nos dá arrepios, mas é a nossa resposta mediante a revelação divina, é a nossa fé em busca de entendimento e devemos sim ser estudantes disciplinados da Palavra de Deus de onde a teologia não deve ser desvinculada.

Como pastores temos o privilégio e a responsabilidade de manejarmos bem a Palavra da verdade (2Tm 2:15) e de alimentar o rebanho de Deus e para isso temos que gastar tempo no estudo da Bíblia, temos que afiar nossa teologia para apresentarmos a verdade e resistirmos as heresias que tentam ceifar almas através do engano de seitas que se multiplicam a cada dia.

Gregório introduz o assunto da tarefa primordial do pastor, a pregação do Evangelho, como um ponto de dificuldade do ministério pastoral. Como assim dificuldade? A dificuldade é que muitos dentro das igrejas tentarão pressionar o pastor a realizar qualquer outra tarefa em detrimento do estudo da Palavra: uma visita, uma reunião administrativa, estar presente em cada atividade eclesiástica e quando percebemos estamos correndo para cima e para baixo e não temos tempo para a meditação e estudo, que é trabalho duro e exige muito do ministro.

Com certeza você se lembra dos apóstolos em Atos 6 que enfrentavam um problema com a distribuição dos alimentos entre os santos, e as viúvas gregas estavam sendo negligenciadas e o assunto chegou aos apóstolos que não ficaram envolvidos com essa obra social, que também é importante, mas estabeleceram diáconos para esse serviço e eles o que iriam fazer? O verso 4 é claro: “mas nós perseveraremos na oração e no ministério da palavra.”

Queridos pastores e amigos, nossa função primordial é a proclamação do Evangelho e para isso precisamos dedicar tempo e esforço no estudo das sagradas Escrituras, não podemos abrir mão de nossa função primordial, porque é isso que o Senhor espera de nós. É claro que podemos e devemos desenvolver outras atividades que são pertinentes ao ministério, mas nunca deixe o estudo da palavra em segundo plano, vá a fonte, debruce sobre o texto e em oração e no poder do Espírito mergulhe fundo na palavra e a pregue em tempo e fora de tempo conduzindo homens e mulheres aos pés do Cordeiro.