O que significa ser filho de Deus?


Em que sentido nós somos filhos de Deus? O que isso significa? Quais são as implicações dessa afirmação teológica? Nesse post vamos observar essas questões para respondê-las do ponto de vista da Teologia de João. Ou seja, vamos responder a essas perguntas basicamente a partir das declarações do apóstolo João sobre o assunto.

1. SOMOS NASCIDOS DE DEUS

Um dos pontos mais importantes do conceito joanino a respeito da paternidade de Deus sobre os cristãos é que ele a apresenta como uma iniciativa da parte de Deus, sendo isso plenamente verificado por meio da expressão “nascidos de Deus” (usada cerca de 6x):

O nascimento não é a realização de um ato de vontade daquele que nasce, mas daquele que o gerou.

Esse sem dúvida é um conceito bem apresentado na teologia de João: “os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus” (Jo.1.13; cf.Jo.3.3; 6, 8 – observe o verbo passivo). Observe que o verso aponta para o fato de que esse nascimento não ocorreu de modo natural (sangue), nem pela vontade da carne ou de um homem qualquer, mas ocorreu de Deus. O que vemos claramente é que esse nascimento veio de Deus e que somos nascidos dele, o que sugere que sua vontade estava ativa muito antes que eu mesmo pudesse crer, e só pude desfrutar dessa filiação a partir do momento em que minha vontade tornou-se compatível com a Vontade de Deus (Jo.6.40).

Para João, todo aquele que “crê que Jesus é o Cristo é nascido de Deus” (5.1), o que sugere que o ato de crer é um resultado da ação de Deus na vida do indivíduo que deposita sua fé em Cristo, visto que o verbo “gennao” é expresso na voz passiva. Ou seja, aquele que crê, sofre a ação de ser nascido da parte de Deus quando passa a crer em Jesus como Cristo. Diante o que sabemos sobre a teologia joanina não podemos atribuir o crer como uma obra natural, mas antes trabalhada por Deus no indivíduo por meio do seu Santo Espírito (Jo.16.8-11).
Outro detalhe que é interessantíssimo na expressão “nascido de Deus” (5.1) é que o verbo “gennao” além de estar na voz passiva, é conjugado na terceira pessoa do perfeito indicativo, o que sugere que a ação além de ser sofrida pelo que crê e realizada ativamente por Deus, sugere que essa ação está completa no passado. Isso está em acordo com o conceito de salvação exposto por Jesus no capítulo 6 do evangelho (Jo.6.37, 44, 65).

Na teologia joanina ainda, a Paternidade de Deus sobre o cristão também é a garantia da sua vitória sobre o mundo (kosmos): “porque todo o que é nascido de Deus vence o mundo” (5.4; nikeo). Essa expressão de vitória deve ser entendida como uma benção estendida da vitória de Cristo sobre a cruz, e que todos que crêem (5.5) nesse fato são com Cristo habilitados por Deus a vencerem o mundo (cf. Jo.16.33). Como filhos de Deus, os cristãos também são habilitados a vencerem o Maligno (2.13, 14) e os falsos profetas (4.4).

A vitória  (nike) do filho de Deus sobre o mundo é a fé: “e esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé” (5.4). Da perspectiva de João, a vitória do filho de Deus, daquele que Dele é nascido, acontece também contra o Maligno, visto que “aquele que nasceu de Deus o guarda, e o Maligno não lhe toca” (5.18). Ou seja, através da filiação divina o cristão é guardado por Deus a ponto de inibir a ação maligna na sua vida . Isso implica que, positivamente o cristão vive na prática da justiça (2.29) e negativamente não pode viver na prática do pecado (3.9).

Como é perceptível. a visão de João é radical quanto a filiação a Deus, o que não exclui o que observamos em outros lugares no NT que falam sobre os cristãos que vivem em desacordo com esses valores ensinados por João, e sofrem as conseqüências de não desfrutarem de benefícios da graça como os apresentados por João nesses versos.

Por outro lado, para João aquele que é verdadeiramente nascido de Deus não vive na prática do pecado: “Sabemos que todo aquele que é nascido de Deus não vive em pecado” (5.18), e de fato, essa é uma impossibilidade para ele: “Todo aquele que é nascido de Deus não vive na prática de pecado; pois o que permanece nele é a divina semente; ora, esse não pode viver pecando, porque é nascido de Deus” (3.9). Por essa razão dedica-se e vive pela prática da justiça: “Se sabeis que ele é justo, reconhecei também que todo aquele que pratica a justiça é nascido dele”

Esse nascimento da parte de Deus é o que pode garantir que o amor, que é uma expressão da essência de Deus, seja uma expressão real nos relacionamentos entre seus filhos: “Amados, amemo-nos uns aos outros, porque o amor procede de Deus; e todo aquele que ama é nascido de Deus e conhece a Deus”. Para se demonstrar o amor segundo Deus, devemos desfrutar desse amor como filhos dele, e então sermos habilitados a amar (agápe).

2. SOMOS CONSIDERADOS COMO FILHOS DE DEUS 

Uma vez que somos nascidos de Deus, passamos a ter o direito de sermos chamados filhos de Deus (Jo.1.12). Esse direito é adquirido pela fé em Jesus Cristo e resultado do amor ativo e primeiro de Deus: “Vede que grande amor nos tem concedido o Pai, a ponto de sermos chamados filhos de Deus; e, de fato, somos filhos de Deus” (3.1).

Essa é uma importante expressão na teologia joanina, visto que faz uma propositada distinção entre a Paternidade de Deus sobre Cristo e a Paternidade que tem sobre os cristãos. Em nenhum lugar na teologia joanina vemos Cristo ser denominado “tékna tou Theou”, ao passo que os cristãos também não são denominados como “uiós tou Theou”. Essa distinção certamente tem o propósito de dos diferenciar dAquele que é desde o princípio (ap’ arxês) e aqueles que precisam permanecer nele (2.6).

Dessa forma vemos que somos considerados como que “tékna” de Deus. Mas, o que de fato significa ser considerado desse modo? A palavra “tékna” pode ser empregada de vários modos, e em geral, é traduzida para o português como “filho” (cf.Mt.7.11; 10.21; Mc.10.29; Lc.1.7; 1Co.4.14; entre vários outros textos). A palavra “tékna” pode fazer referência a pessoas que tem mesmo ancestral (Mt.2.8; 27.25; At.2.39; 13.33); ou a pessoas que estão próximas a outro ser humano e consideradas como filhos mesmo sem qualquer ligação biológica, mas por uma afeição, como de um mestre por um seguidor, de professor para um aluno (Mk.10.24; 1Co.4.17; 1Tm.1.2; 2Tm.1.2; Fm.10) além de poder denotar um grupo específico de pessoas que são caracterizadas por determinada qualidade (1Pe.1.14; Ef.5.8) ou desventura (2Pe.2.14; Ef.2.3).

Entretanto, nenhuma dessas colocações estão compatíveis com a descrição que João dá aos cristãos ao denominá-los como “filho de Deus”. Na literatura paulina, vemos que ele também emprega essa expressão afim de descrever pessoas que compartilham características com divindade (Fp.2.15; Ef.5.1) e são por isso consideradas como adotadas por Deus (Rm.8.16, 21; 9.7, 8; Ef.1.5). Essa visão sobre a terminologia parece compatível com a descrição joanina da filiação que o cristão tem em Deus. Resta-nos, então, observar como essa expressão pode ser entendida na teologia joanina.

Como é bem observável, esse compartilhar de características com a divindade, também é visto em outras entidades espirituais na teologia joanina: “Vós tendes por pai ao diabo, e quereis satisfazer os desejos de vosso pai” (Jo.8.44). Mesmo que a expressão “tékna” não aconteça nesse texto, vemos que existem pessoas cuja filiação se dá com o diabo, o que na primeira epístola de João fica muito bem estampado: “Nisto são manifestos os filhos de Deus e os filhos do diabo” (3.10). Assim, deve-se considerar que a filiação ao diabo é diametralmente oposta a filiação a Deus e que as características daquele que é pai é visível naquele que lhe é considerado como filho: “Vós sois do diabo, que é vosso pai, e quereis satisfazer-lhe os desejos. Ele foi homicida desde o princípio e jamais se firmou na verdade, porque nele não há verdade. Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira” (Jo.8.44). Assim, aqueles que são filhos do diabo são vistos por praticarem o que é pertinente ao diabo: ” todo aquele que não pratica justiça não procede de Deus, nem aquele que não ama a seu irmão” (3.10). Se essa oposição conceitual é verdadeira, aquele que é filho de Deus deve ter (desenvolver, buscar) as características daquele que é seu Pai, o que em grande parte é a admoestação de João em sua primeira epístola (1.5ss; 2.3-6; 2.9ss; 2.15-17; 3.7-10; 3.16-18 etc).

Portanto, na concepção joanina, Deus é pai daqueles que realizam sua vontade (Jo.6.40; cf. 5.1) e demonstram em sua vida uma busca por compatibilidade com o caráter Dele (3.10ss). Aquele não apresenta características de Deus em sua vida não pode ser considerado como filho (3.14) e é apresentado com características daquele que é o pai da mentira: “Todo aquele que odeia a seu irmão é assassino; ora, vós sabeis que todo assassino não tem a vida eterna permanente em si ” (cf. Jo.8.44).

Há ainda uma declaração de esperança para aqueles que são verdadeiramente filhos de Deus, visto que eles não atingiram a estatura de Cristo enquanto filhos de Deus, mas vivem na expectativa do dia em que isso vai acontecer: “Amados, agora, somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou o que haveremos de ser. Sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque haveremos de vê-lo como ele é” (3.2). Essa esperança e expectativa no futuro é certamente um norte para o proceder saudável do cristão enquanto filho de Deus no mundo.

3. SOMOS DE DEUS E PERTENCEMOS A ELE 

O resultado de ter sido nascido de Deus e considerado como filho Dele é que nós somos considerados como que propriedade de Deus, ou seja, que nós pertencemos pessoalmente a esse Deus que nos demonstra Seu amor em Cristo Jesus.

A convicção joanina sobre o pertencer a Deus é estampada na declaração: “Sabemos que somos de Deus” (5.19). A expressão “somos de Deus” é a tradução para o fraseado grego “ek tou Theou”. O fato de ser identificada como uma expressão no genitivo nos faz considerar duas possibilidades sobre o significado dela. A primeira, que parece consistente com a teologia joanina, é que a declaração expressa o sentido de procedência de Deus. Esse tipo de uso acontece no evangelho de João: “Se alguém quiser fazer a vontade dele, conhecerá a respeito da doutrina, se ela é de Deus ou se eu falo por mim mesmo” (Jo.7.17). Aqui vemos que Jesus apresenta com a expressão “ek tou Theou” a possibilidade da doutrina que Ele apresenta vir da parte de Deus, como Jesus mesmo testifica (v.16).  Tal conceito é visto também na primeira epístola de João, quando diz: “Nisto são manifestos os filhos de Deus e os filhos do diabo: todo aquele que não pratica justiça não procede de Deus, nem aquele que não ama a seu irmão” (3.10). A questão da procedência de Deus, ou a não procedência, está em pleno acordo com a teologia joanina (4.1-3, 7; cf. 3Jo.1.11), mas não abrange todas as ocorrências da expressão na primeira epístola.

Por isso, devemos considerar a segunda possibilidade para a expressão “ek tou Theou” em 5.19, a saber, que aqueles que são nascidos de Deus, são seus filhos e pertencem a Ele. A tradução “somos de Deus” da ARA é bem acurada, e representa o sentido apregoado pela expressão grega.

A equiparação entre o pertencer a Deus e Sua paternidade sobre o cristão também pode ser vista pelo resultado que promove: “Filhinhos, vós sois de Deus e tendes vencido os falsos profetas, porque maior é aquele que está em vós do que aquele que está no mundo” (4.4). Assim como na declaração de Paternidade, o pertencer a Deus significa vencer os falsos profetas, visto que Aquele que nos possui é maior do que aquele que está no mundo.

Por essa razão é que devemos estar atentos com a questão da procedência dos espíritos, pois eles podem não proceder de Deus e, portanto, nunca poderiam ser pertencidos por Ele: “Amados, não deis crédito a qualquer espírito; antes, provai os espíritos se procedem de Deus, porque muitos falsos profetas têm saído pelo mundo fora; Nisto reconheceis o Espírito de Deus: todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus e todo espírito que não confessa a Jesus não procede de Deus; pelo contrário, este é o espírito do anticristo, a respeito do qual tendes ouvido que vem e, presentemente, já está no mundo” (4.1-3).

Além disso, aqueles que pertencem a Deus tem sua audição inclinada aos ensinos dos apóstolos e pode receber aquilo que dizem: “Nós somos de Deus; aquele que conhece a Deus ouve-nos; aquele que não é de Deus não nos ouve. Nisto conhecemos nós o espírito da verdade e o espírito do erro” (4.6). Deve-se creditar isso à vitória concedida por Deus em função da filiação e pertencimento pessoal a Deus. E como resultado disso, estamos em uma situação oposta a situação desse mundo que está morto no maligno: “Sabemos que somos de Deus e que o mundo inteiro jaz no Maligno” (5.19).

Essa é a grande razão pelo qual não somos amados (Jo.15.18) por esse mundo (Jo.15.19), pois ele pertence ao Maligno, e nós pertencemos a Deus. Estamos nesse mundo (Jo.17.15), mas não somos dele (Jo.17.14, 16); antes, fomos comprados dele por meio de Cristo para estarmos e pertencemos a Deus, pois éramos de Deus (Jo.17.6-8)